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Israel - Tel Arad

Milton Schwantes

Identificação

Não consta que existam grandes dúvidas quanto à identificação do atual Tel Arad com a cidade bíblica de ‘arad.

Arad na Bíblia

Arad é mencionada em alguns textos, quatro no total:

De acordo a Nm 21,1-3 “o cananeu, rei de Arad, que habitava no Neguebe” lutou contra Israel. Num primeiro momento venceu (v.1), mas em seguida os israelitas “a destruíram totalmente”. E Arad passou a chamar-se então de Hormá.

Em Nm 33,40 menciona-se Arad em meio à lista dos acampamentos de Israel desde a saída do Egito. Como que em uma nota marginal após a morte Arão no Monte Hor se diz que “então ouviu o cananeu, rei de Arad, que habitava o sul na terra de Canaã, que chegavam os filhos de Israel”. Há aí algumas formulações semelhantes a Nm 21,1.

Em Josué, Arad está mencionada no cap.12, na lista dos reis vencidos. Aí o “rei de Arad” está paralelo ao de Hormá. No caso, Hormá e Arad são duas cidades diferentes.

E Arad ainda é citada em Jz 1,16, desta vez sem referência a algum rei, mas como orientação geográfica. Fala-se desta vez do “deserto de Judá” que está “ao sul de Arad”. Neste deserto ao sul de Arad situa-se, conforme o v.17, Zefate. Esta é vencida e renomeada em Hormá. Pelo visto, para os autores bíblicos Arad tinha relações com Hormá.

A Bíblia só menciona, pois, a Arad anterior a Israel, a Arad dos cananeus. A Arad de Israel não aparece na Bíblia. Esta num texto é Hormá, noutros dois está próxima de Hormá.

Tanto Arad quanto Zefate, uma localidade ao sul de Arad, são identificadas com Hormá.

A cidade de Arad pré-israelita é sede de um rei.

Significado do nome

Arad é um termo pré-israelita. No hebraico, poderíamos associá-lo a uma palavra ‘arod que significa “jumento selvagem”.[1] Haveria ainda a possibilidade de compreender a palavra à luz de um vocábulo árabe ‘arad que significa “duro”. Possivelmente se estaria referindo ao solo duro da região.[2]

Localização

O Tel Arad se localiza na região nordeste da bacia hidrográfica do Besor/Beerseba. O Nahal Beerseba, afluente do Nahal Besor, nasce a aproximadamente 1km a noroeste do Tel.

Este tel está, pois, inserido no sistema de aldeias, fortalezas e cidades da bacia do Nahal Beerseba, ao qual também pertencem o Tel Masos, o próprio Tel Seva, e outros locais.

A área deste tel é relativamente grande. Tem forma de concha; se parece a um anfiteatro natural. Sua área total é de 9 hectares.

Em sua parte mais alta, a nordeste, está uma cidadela. Esta se situa a 576m acima do nível do mar. À época do ferro somente corresponde esta cidadela, que aliás, como víamos, não é mencionada na Bíblia. O restante do tel, sua parte mais baixa, corresponde à cidade do bronze. Estamos, pois, numa típica cidade do bronze, bastante extensa em tamanho, em se tratando de uma cidade à beira do deserto, que teve continuação, no período do ferro, através de uma pequena cidade-cidadela numa das extremidades da cidade, por sinal a mais alta. Exatamente a mesma relação entre cidade do bronze e do ferro temos em outras cidades, nas quais a cidade do ferro somente representa, na parte mais alta, uma pequena parcela da cidade anterior do bronze. Poder-se-á comparar Hazor, ao norte do Mar da Galiléia.

Uma cidade antiga

As partes mais baixas do tel correspondem, pois, a uma cidade do bronze antigo, da primeira metade do terceiro milênio (3000 até 2650 a.C.). Pelo visto, a parte mais alta do tel, naqueles tempos, ainda não estava integrada à cidade. Para poder usá-lo como local de uma cidadela se precisava de cisterna, o que fez com que esta parte mais elevada só fosse utilizado no período do ferro.

Esta cidade, da qual, contudo, não conhecemos o nome exato, deve ter sido um centro urbano e comercial significativo. Sua base econômica há de ter sido a criação de ovelhas e cabras, e igualmente uma agricultura bem desenvolvida, talvez sob condições climáticas um tanto diversas e mais propícias das existentes em tempos bíblicos, nestas regiões do Neguebe.

Esta ampla cidade do bronze comercializava com o Egito e com a Mesopotâmia. Talvez fosse uma exportadora do asfalto do Mar Morto. De todo modo a rota comercial transjordaniana terá sido sua referência principal.

Encontrou-se em um dos templos do bronze uma estela em que alguns poucos traços, como que estilizados, parecem apontar para relações sexuais, para o rito de fertilidade.[3] Este conteúdo a religião de Arad não só teve em tempos do bronze, esta também era a marca de sua religião nos tempos do ferro, quando Arad era habitada por quenitas e depois veio a ser parte de Judá. É o que ainda veremos.

Uma cidadela da monarquia judaíta

Após meados do terceiro milênio não havia cidade nenhum no Tel Arad. Por uns 1500 anos aí não chegou a estruturar-se vida urbana.

Quando pessoas voltaram a construir casas neste tel, não o fizeram na concha natural que forma a cidade baixa, a que fora ocupada pelo bronze. Os novos habitantes passaram a se fixar na parte mais alta do tel, onde se sabiam mais protegidos. Esta subida ao cume da colina se deve, acima de tudo, à nova capacidade de construir cisternas.

Esta parte mais alta é pequena. Trata-se de uma área de 50m x 55m! A cidade de Arad do bronze antigo era de nove hectares, a do ferro passava a ser de meio hectar!

A parte mais alta do tel passou a ser ocupado no 12o século. Este primeiro assentamento, após tantos séculos de ausência de moradores, deve ter sido mais propriamente uma aldeia. É possível que as referências a Arad em Nm 21,1 e 33,40, e em Js 12,14 e Jz 1,16 tenham em mente a estes primeiros novos moradores de Arad? Estes textos referem-se a cananeus como sendo estes moradores, e também entendem Arad como sendo precursora da Hormá bíblica. Aí deve ter havido alguma mescla. Pois, dificilmente se deveria designar de “cananeus” estes novos moradores do tel. Antes hão de ter sido quenitas, um grupo tribal que no passar do tempo veio a se integrar a Judá.

Arad foi assumida pela monarquia jerusalemitana de Judá no 10o século, ainda em tempos de Salomão, como uma das cidadelas de seu estado. Era antes de tudo um forte militar, protegendo a fronteira de Judá em relação a quem buscasse ingressar nas montanhas dos judaítas, vindo do Vale da Arabá.

Tendo a função de cidadela, não é de estranhar que várias vezes foi tomada, destruída e reconstruída. As camadas arqueológicas do tempo da monarquia de Judá são umas quantas. Ora a cidadela foi atacada por egípcios. Lá provavelmente esteve o faraó Sisaque, no 10º século (1Rs 14,25). Ora foi arrasada pelos assírios, que devem ter causado estragos no final do 8o século. Depois os edomitas terão sido a ameaça maior, principalmente em direção do último século da monarquia judaíta. Os óstracos que tiveram sua origem nestes tempos expressam esta estratégia: evitar que os edomitas avancem.

Como cidadela Arad, sem dúvida, tem sua relevância, pois nos permite obter uma idéia das fortificações do estado de Judá na proteção dos territórios, defendendo-se contra quem inquietasse a vida judaíta vindo do sul ou do oeste da Arabá.

Mas, a descoberta mais interessante feita em Arad não são suas fortificações, mas é seu templo. Este templo há de ter sido dedicado a Javé. Este templo igualmente sofreu diversas modificações nos vários períodos de construções e reedificações. Aliás, ele se encontra prefigurado em certos restos de um ambiente cúltico encontrado num santuário do 12o século atribuído aos quenitas. As variadas alterações pelas quais passou este templo a partir dos tempos de Salomão estão em continuidade ao que lhe precedia.

Num dos selos encontrados em Arad parece estar representada a estrutura da cidadela. Nela o noroeste é ocupado por um círculo. Crê-se que este círculo quer assinalar o templo. Isto significaria que o autor deste selo entendia o templo de Arad como uma eira, uma bamah, um lugar alto de ritos de fertilidade. E, de fato, a teologia elementar do templo a Javé em Arad era a fertilidade.

Sua orientação era como a do templo de Jerusalém. O templo orienta-se pelo sol: a entrada está no oriente e o santo dos santos, representado em Arad tão somente por um nicho, está no ocidente. Este templo segue o ritmo do sol! O fato de um nicho substituir o santo dos santos que, no caso do templo de Jerusalém, era um quarto escuro da largura de todo o templo talvez não só se deve ao fato de que na região existissem outros templos similares com nichos, mas também ao simples fato de que havia pouco espaço para peças maiores.

Em frente à casa/templo está o altar de sacrifícios, num pátio aberto. Este altar, com o templo, foi sendo deslocado para a direita, para o norte, talvez porque houvesse pouco lugar para um pátio mais espaçoso, como por exemplo ocorria em Jerusalém.

A sala maior, que certamente estava coberta, como sucedia nas próprias casas israelitas, cujo quarto do fundo era coberto enquanto que o pátio à sua frente em boa parte não tinha cobertura, ao menos não fixa. Esta sala maior do templo tinha uma boa largura (9m) mas pouco comprimento (2,7m).

O acesso ao nicho ocorria através de uma escada. Na entrada ao nicho havia um pequeno altar de incenso de cada lado. E no nicho, propriamente representando a presença da divindade, havia duas estela![4]

Estas estelas eram de pedra polida, media 90cm de altura, estava pintada com tinta vermelha, sua parte superior era arredondada. O símbolo é, pois, fálico. A teologia deste templo de uma cidadela militar era evidentemente de fertilidade. A divindade era uma, masculina, viril e fértil.


Notas

[1] Confira a respeito Ludwig Köhler e Walter Baumgartner, Lexikon in veteris testamenti libros, Leiden, E.J.Brill, p.734 (termos: ‘aradI, ‘aradII e ‘arod)

[2] Esta é a opinião de Martin Noth, Das Buch Josua, Tübingen, J.C.B.Mohr, 3a edição, 1971, p.149 (Handbuch zum Alten Testament, 7).

[3] Veja a respeito Othmar Keel e Max Küchler, Orte und Landschaften der Bibel - Ein Handbuch und Studienreiseführer zum Heiligen Land, vol.2 (= Der Süden), Köln/Göttingen, Benzinger/Vandenhoeck & Ruprecht, 1982, p.211-214.

[4] Os símbolos religiosos encontrados neste templo encontram-se, hoje, no Museu de Israel, em Jerusalém.

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