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Israel - Memória da cidade de Davi

Daniel Augusto Schmidt

1 – Jerusalém - Referências bíblicas à Cidade de Davi

São muitas as passagens referentes à parte mais antiga de Jerusalém, conhecida como Cidade de Davi. Aqui estão apenas algumas:

A primeira referência à cidade de Jerusalém se encontra em Gn 14,18. Aqui ela aparece como Salém, onde Abraão foi recebido pelo rei: “E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.”

Seu rei amorreu se levantou contra Josué em Js 10,1-5:

“E sucedeu que, ouvindo Adoni-Zedeque, rei de Jerusalém, que Josué tomara a Ai, e a tinha destruído totalmente, e fizera a Ai, e ao seu rei, como tinha feito a Jericó e ao seu rei, e que os moradores de Gibeom fizeram paz com os israelitas, e estavam no meio deles,... Então se ajuntaram, e subiram cinco reis dos amorreus, o rei de Jerusalém, o rei de Hebrom, o rei de Jarmute, o rei de Laquis, o rei de Eglom, eles e todos os seus exércitos; e sitiaram a Gibeom e pelejaram contra ela.”

2Sm 5,9 narra a conquista da cidade por Davi: “Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. Assim habitou Davi na fortaleza, e a chamou a cidade de Davi; e Davi foi edificando em redor, desde Milo para dentro.”

Em 2 Sm 6,12, Davi a transforma na capital religiosa da nação, levando para lá a Arca da Aliança:

“Então avisaram a Davi, dizendo: Abençoou o Senhor a casa de Obede-Edom, e tudo quanto tem, por causa da arca de Deus; foi pois Davi, e trouxe a arca de Deus para cima, da casa de Obede-Edom, à cidade de Davi, com alegria.”

2 - Referências extra-bíblicas: Tell el Amarna

As cartas de Tell el Amarna fazem referência a Jerusalém. Numa delas, o rei da cidade escreve ao soberano egípcio, pedindo reforços contra os Hapiru, uma tribo nômade. O texto está citado na íntegra[1]:

“Ao rei, meu senhor, fala assim Abdu-Heba, seu servo.

Aos pés do rei, de meu senhor, sete vezes e sete vezes eu me prostro. Que eu fiz ao rei, meu senhor? Responsabilizam-me diante do rei, meu senhor, dizendo: “Abdu-Heba rebelou-se contra o rei, meu senhor”.

Eu estou aqui, tanto quanto eu sou concernido, não porque meu pai, nem minha mãe me colocaram nesta posição; o braço do rei poderoso conduziu-me à casa de meu pai! Por que eu cometeria uma transgressão de contra o rei, meu senhor?

Enquanto o rei, meu senhor, viver, eu direi ao comissário do rei, meu senhor: “Porque vocês favorecem os Hapiru e se opõe aos governantes?“

E eu sou acusado assim diante do rei, meu senhor. Porque é dito: “Perdidos são os territórios do rei, meu senhor.” Sou assim eu caluniado diante do rei, meu senhor! Mas pode o rei, meu senhor saber, que, quando o rei emitiu um emissário, Yanhamu soube de tudo, e... a terra do Egito... Oh Rei, meu senhor, não há nenhuma tropa enviada para cá! (Conseqüentemente), o rei toma cuidado de sua terra! Maio o cuidado da tomada do rei de sua terra! Todos os territórios do rei se rebelaram; Ilimilku causou a perda de todos os territórios do rei. Deve o rei tomar conta de sua terra!Eu repito: Permita que entre na presença do rei, meu senhor, e deixe-me olhar em ambos os olhos do rei, meu senhor. Mas a hostilidade de contra mim é forte, e eu não posso entrar na presença do rei, meu senhor. Deve o rei mandar tropas, a fim de que eu possa entrar e olhar nos olhos do rei, meu senhor. Tão certo porque o rei, meu senhor, vive, quando os comissários vierem, eu direi: “Perdidos são os territórios do rei. Vocês não me ouviram? Todas os governantes estão perdidos; o rei, meu senhor, não tem um único governante à esquerda.”

Deve onde o rei dirigir sua atenção aos arqueiros, e deve o rei, meu senhor, mandar tropas de arqueiros, o rei não tem não mais terra. Os Hapiru saquearam os territórios do rei. Se houver arqueiros (aqui) neste ano, todos os territórios do rei sobreviverão (intactos); mas se não houver nenhum arqueiro, os territórios do rei, meu senhor, serão perdidos!

Ao rei, meu senhor assim escreve Abdu-Heba, seu servo. Faz saber em palavras eloqüentes ao rei, meu senhor. Todos os territórios do rei, meu senhor, são perdidos.


3 - Por que Jerusalém?

A cidade de Jerusalém passou a ocupar o seu lugar na história (e, principalmente, nos corações de judeus, cristãos e muçulmanos) a partir de sua conquista por Davi no séc. X a a.C. Até então, ela era um enclave cananeu no território da Palestina. Ela tinha tido sua importância no séc. XIV a.C. (época dos escritos de Tell el Amarna), passando pelo domínio dos amorreus e depois, dos Jebuseus. Foi das mãos destes últimos que Davi a tomou.

Mas fica então a pergunta: por que Davi tomou Jerusalém? Logicamente, ele tinha motivos para conquistá-la. Mas quais?

Herbert Donner nos aponta motivos[2]. O primeiro deles poderia ser definido como político e o segundo como estratégico.

Davi já era rei tanto das tribos do norte (Israel) como das tribos do sul (Judá.) Porém, sua capital era Hebrom. Uma capital tão ao sul, poderia fortalecer a já conhecida rivalidade entre as tribos. Jerusalém é mais central e poderia incentivar a unidade do reino.

“A tomada de Jerusalém e a instalação da residência do rei aí foi uma solução genial e ideal dos problemas políticos com os quais Davi se via confrontado. Jerusalém era uma grandeza independente entre Israel e Judá; como príncipe da cidade-estado de Jerusalém, Davi estava por assim dizer, entronizado acima do dualismo entre o Norte e o Sul.”[3]

Para reforçar este projeto, Davi procurou dar um caráter religioso a Jerusalém, trazendo a Arca da Aliança para lá.

O outro motivo, ao qual Donner parece não dar tanta atenção é o estratégico. Antes da conquista, Jerusalém fazia parte de um cinturão de cidades cananéias que ainda resistiam no território. O objetivo então, seria dominar estas cidades e fortalecer o domínio hebreu na Palestina.


4 - A Jerusalém de Davi

A Jerusalém que Davi tomou era uma cidade já bastante antiga. Ela se localiza no Vale Sul, fora das muralhas turcas.

A primeira evidência de atividade humana no local data do Período Calcolítico (4500-3300 a. C). Foram encontrados cacos de cerâmica perto da fonte de Gion.[4]

Durante a Idade do Bronze I (3300-2200 a. C) existia ali um agrupamento rural situado no vale sul. Foram encontradas tumbas deste período.

Já na Idade do Bronze Média existia ali uma cidade-estado.Os achados deste período já denotam bastante esta situação mais complexa: Fortificações a o redor do Vale Sul, Canal de Siloé, o Poço de Warren, tumba no Dominus Flevit.

A Jerusalém que Davi conheceu é a da Idade do Ferro (1200-586 a. C). Ela estava situada entre o regato de Cedron, a leste e o Vale do Tiropeion a oeste. Na encosta acima da fonte de Gion foi encontrada uma enorme estrutura em degraus. Provavelmente era um muro de arrimo de uma construção de grande porte (a “Fortaleza de Sião?”) que perdeu sua função quando a cidade se expandiu durante a monarquia.[5]

As escavações também demonstraram a existência de uma grossa muralha, durante o sécs. VIII e VII a.C. O topo desta muralha estava coberto de casas de moradia, sendo que o teto de uma casa tinha o mesmo nível do piso da casa da fileira de cima. Este bairro residencial foi destruído pela invasão babilônica.

Como podemos ver na gravura abaixo, existia um local denominado Ofel, que ficava entre a ponta norte da Cidade de Davi e o Monte do Templo. Boa parte das construções da Idade do Ferro existentes ali desapareceu. Porém, foram encontradas partes de um grande edifício público. Ele se localiza ao lado uma torre descoberta por Charles.

O terreno foi nivelado com terra e pedras. O edifício tem paredes grossas e sua planta indica que ele tinha um uso administrativo e oficial. Uma parte dele pode ter servido como um portão da cidade, com quatro câmaras. Outras partes podem ter sido utilizadas como armazém. Isso é evidenciado por terem sido encontradas pithoi de cerâmica no local.


5 - Histórico das escavações

As escavações arqueológicas na região ao sul do Monte do Templo foram iniciadas no período da dominação otomana e se estenderam até depois da tomada da parte árabe da cidade por Israel, em 1967. O caráter e o método destas explorações foram evoluindo conforme a Arqueologia evoluiu. Algumas conclusões a que os arqueólogos chegaram foram rebatidas depois.


5.1 - Sob domínio otomano

Charles Warren (1867- Palestine Exploration Fund): Descobriu a saída vertical do túnel de água, o Warren’s Shaft .

Herman Guthe (1881- Deutsche Palaestina Verein): descobriu a Inscrição de Siloé Túnel de Ezequias e vários trechos de muros.

Conrad Schick (1886; 1890 - Palestine Exploration Fund): Novos canais de água no Cedron.

Frederick Jones Bliss e A. Dickie (1894-1897)- Igreja Bizantina próxima à Piscina de Siloé, represa e muro na extremidade sul do vale, câmaras cortadas na rocha (séc. I a.C).

Montague Parker e Louis Hughes Vincent (1909-1911- French Ecole Biblique et Archeologique in Jerusalem)- Montague Parker era um aventureiro e ex-oficial britânico.

Seu objetivo inicial era escavar os subterrâneos de Jerusalém para encontrar tesouros perdidos do Templo. Com isso, ele acabou tendo problemas com as comunidades árabe e judaica. Parker chamou o Padre Vincent para ajudá-lo nas escavações. Foram descobertas sepulturas da Era do Bronze I.

Reymond Weill (1913-1914)- Foi o primeiro arqueólogo judeu a escavar na Terra Santa Descobriu uma inscrição em grego que falava da existência de uma sinagoga em Jerusalém na época do Segundo Templo. Veio patrocinado pelo Barão de Rothshild que havia comprado terras na Cidade de Davi.


5.2 - Sob mandato britânico

Esta foi a grande época das escavações.

  1. A.S. Macalister e J. G. Duncan (1923-1925- Palestine Exploration Fund): Fortalezas dos sécs. XII-X a.C. no vale do Cedron. Estas descobertas seriam rediscutidas depois por Kenyon.

Reymond Weill (segunda campanha 1923-24).

    1. Crowfoot e G. M. Fitzgerald (1927-1928- Palestine Exploration Fund) : Fortificações da Idade do Ferro no oeste da Cidade de Davi.

5.3 - Sob o domínio jordaniano

Durante o período jordaniano, somente uma equipe trabalhou na Cidade de Davi.

Kathleen Mary Kenyon (1961- 1967- British School of Archaeology). Usou o método estratigráfico, uma inovação. Seu objetivo era reavaliar a datação dos achados de Macalister.Mas suas conclusões a esse respeito são questionáveis, devido ao fato de Kenyon ter escavado uma área muito pequena.


5.4 - Sob domínio israelense

Estas são as escavações mais atuais.

  1. Ussishkin (1968- 1970): Antigo cemitério.

Yigal Shiloh (1978-1985- Universidade Hebraica de Jerusalém): Encontrou pequena quantidade de cerâmica. Reacendeu a discussão sobre a existência ou não de uma cidade no local durante os sécs. XIV-X a.C., iniciada por Kenyon.

  1. Reich e E. Shukron (1995-2002 – Ministério de Antiguidades de Israel): descobriram novos elementos do sistema de água do Warren’s Shaft, fortificações construídas com enormes pedras.

Bibliografia

Livros sobre arqueologia e história de Israel

DONNER, Herbert, História de Israel e dos povos vizinhos, São Leopoldo: Sinodal, vol.1, 1997

MAZAR, Amihai, Arqueologia na terra da Bíblia - 10000-586 a.C., São Paulo: Paulinas, 2003

Na internet

http://www.archpark.org.il. - site interessante sobre o Parque Arqueológico de Jerusalém, onde ficam as escavações da Cidade de Davi.

htp://www.reshafim.org.il - site sobre Amarna


Notas

[1] Cf. http://www.reshafim.org.il

[2] Cf. DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos.São Leopoldo: Sinodal, 1997, Vol 1, pág 228- 230.

[3] Cf. Idem pág 229.

[4] Cf. http://www.archpark.org.il .

[5] Cf MAZAR, Amihai. Arqueologia na Terra da Bíblia: 10000- 586 a.C. São Paulo: Paulinas, 2003, págs. 355-361; 398-401.

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