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Israel - Neguebe[1]

Milton Schwantes

As Montanhas de Judá, que ao redor de Hebrom chegam aos 1.000m, vão diminuindo sua altitude tanto para o oeste quanto para o sul.

Na direção do oeste este declive dá lugar à região montanhosa entre 300 e 400m de altitude designada de Sefelá. Trata-se de uma região rica em precipitações, também porque a altitude das montanhas de Judá cria condições propícias para uma boa quantia de chuvas.

Na direção sul, as Montanhas de Judá têm declive similar ao que encontramos para oeste. A diferença é que este declive não é irrigado pelas chuvas de modo abundante como o é a Sefelá. Na mesma medida que as montanhas diminuem também diminui a intensidade de chuvas, porque as nuvens e a umidade passa por sobre as colinas e vai precipitar-se dalém Arabá nas Montanhas de Seir, em Moabe e Edom. Lá formam inclusive rios perenes como é o caso do Arnon e do Zerede. As águas que faltam, pois, no sul das Montanhas de Judá encontram-se neste outro lado da depressão geológica em que se situam Rio Jordão/Mar Morto/Arabá.

Esta região com altitudes similares à Sefelá mas com acentuada falta de águas a sul das Montanhas de Judá chama-se de Neguebe. O Neguebe é uma espécie de Sefelá sem água, porque sua altitude não chega a ser propícia para captar as nuvens e a umidade que, vinda do Mar Mediterrâneo a ocidente, acabam por resultar em chuvas abundantes, na época do inverno, nesta região do sul da Transjordânia.

Isso, contudo, não significa que não tenhamos chuvas no Neguebe, em especial nesta região imediatamente ao sul das Montanhas de Judá. Chega-se a 350mm de chuva ao ano, concentrada principalmente nos meses do inverno. Além desta chuva, no verão há muita neblina matinal e orvalho que mantém alguma umidade, decisiva para a sobrevivência de pequenas plantas em meio à área árida e, no verão, quase desértica.

Por um lado, as precipitações de inverno são responsáveis pela criação de uma ampla rede de vádis (rios secos no verão) nesta região ao sul das Montanhas de Judá. Por outro lado, isso se deve a que esta área a sul das Montanhas de Judá forma uma certa bacia natural. Pois, ao sul do Neguebe de Judá temos outra vez uma relativa elevação dos terrenos. Esta bacia natural é ocupada pelo Nahal (ou Nachal) Besor. Este vádi/rio constitui um amplo sistema de rios e afluentes que, a sul de Gaza, desemboca no Mar Mediterrâneo e cuja extensão mais a oeste encontramos a 550m de altitude, em Arad, já bastante próximo do Mar Morte. Diversos afluentes fazem parte desta bacia do Nahal Besor. Seus dois afluentes mais renomados são o Nahal Gerar e o Nahal Beerseba, que por sua vez volta a se ramificar.

Este sistema de vadis do Nahal Besor é de grande importância para a história do sul de Judá, do Neguebe de Judá. Aí se localiza todo um ecosistema específico, marcado por um verão sem chuvas e sem águas nos rios e um inverno de chuvas que chegam a torrenciais, mencionadas por exemplo no Salmo 126,4: "restaura, Senhor, a nossa sorte, como as torrentes do Neguebe". Este sistema de vida do Neguebe vem marcado pelo semi-nomadismo, ao qual seus moradores em parte ficam submetidos até hoje - trata-se dos beduínos - porque no verão são forçados, como Sara, Hagar e Abraão, a buscar poços e fontes para poder sobreviver. Quem vive no Neguebe desde sempre teve que habituar-se a contínuas mudanças e translados. Uma vida beduína é a marca da região.

Não é, pois, acaso que aqui as pessoas se encontravam no caminho. Abraão se encontrou aí com Abimeleque (Gênesis 21,22-34) e seu filho, Isaque, `volta' a encontrar-se com este `mesmo' Abimeleque, como que tendo que repetir as proezas de seu pai (Gênesis 26,26-34). Parece que cada geração tinha que restabelecer seus direitos em torno das mesmas águas e dos poços. O Neguebe é lugar de encontros e desencontros. Aí filisteus e gente judaíta precisa estabelecer seus limites. Aí edomitas pressionam os de Judá. Amalequitas inquietam o ambiente.

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O Neguebe não é uma cultura como a das Montanhas de Judá, onde se edificam cidades, se plantam olivais, se cultivam figos e uvas. Nestes roçados e olivais judaítas a vida é cíclica, meio que perene, estável, firme como as pedras que estão dispostas em muros e paredes. No Neguebe se vive em tendas. Corre-se o risco de ser assaltado por quem passa, por saques de ágeis amalequitas (1 Sm 30), por edomitas competentes (Ismael - Gênesis 16,10!). Corre-se o risco de não ter água, nem pão, nem nada (1Rs 19). Destes passantes todos, em parte, é preciso manter distância, mas, em parte, a todos e a cada um deles a gente precisa aproximar-se (veja Amós 3,3-8), porque sem tais vizinhos morre-se de fome e de sede (Gênesis 20).

O convívio social de pessoas neste Neguebe não resultou em grandes cidades. Nem mesmo seria possível mantê-las por falta de água em certos meses do ano. As cidades tem o tamanho das capacidades dos poços que se cavam aí perto do leito dos rios/vadis. Os poços de Beerseba estão no vale do vádi. Os de outras cidadezinhas são similares aos destes "Sete Poços" ou destes "Poços Plenos", como se pode traduzir Beerseba, dependendo se a gente quer ver em "Seba" o número "sete" (xeba`) ou a "plenitude" (seba`), o que, em verdade, no mundo hebraico é o mesmo. Be'er de todo modo é "poço".

Este Neguebe foi ocupado desde tempos remotos, muito antes da história de Judá. Aí até mesmo havia cidadezinhas pré-judaítas, entre elas Beerseba que já está citada em textos de faraós egípcios que por aí se aventuraram, talvez menos eles mesmos que seus comandados. De todo modo na história de Judá a área teve grande relevância desde os patriarcas e as matriarcas. Que seria de Judá sem a mística de seu Sul? Sem a mística de matriarcas e patriarcas? Não é acaso que os monges cristãos foram procurar justamente também nestas regiões meio difíceis de viver do Neguebe inspirações para suas místicas e resistências às culturas dos senhorios constantinianos cristianizados. O Neguebe é fonte de inspiração religiosa, de promessas e eventos extraordinários como os que ocorreram com Hagar, duas vezes expulsa para morrer deserto afora (veja em especial Gênesis 21).

A arqueologia se dedicou a várias localidades na região. Sabe-se muito sobre ela justamente a partir das escavações. Agora nos fixaremos no assim chamado em Tel Masos.



Notas

[1] Veja a respeito Othmar Keel e Max Küchler, Orte und Landschaften der Bibel - Ein Handbuch und Studienreiseführer zum Heiligen Land, v.2 (= Der Süden), Benzinger/Vandenhoeck & Ruprecht, Köln/Göttingen, 1982, p.341-350.

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