Brasil desperdiça mais de 11 milhões de toneladas de alimentos todos os anos
Nos supermercados, o excesso de manuseio deixa produtos impróprios para o consumo

Mesmo sendo um dos principais produtores de alimentos do mundo, o Brasil ainda desperdiça mais de 11 milhões de toneladas de alimentos todos os anos. Os dados são do Centro de Agroindústria de Alimentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que aponta tambémque os brasileiros jogam fora 37 quilos de hortaliças anualmente.
Um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional desde 1998 poderia ajudar a evitar o desperdício. Chamada de Lei do Bom Samaritano, o projeto prevê que doadores, pessoas físicas ou jurídicas, sejam isentos de responsabilidade civil e penal se agirem de boa fé.
O texto foi aprovado no Senado, mas ainda tramita na Câmara dos Deputados. Desde que as comissões do Congresso apresentaram seus pareceres, em 2005, o projeto de lei está parado para apreciação e votação dos deputados. Desde então, o projeto não tem previsão para ser votado.
“O problema é que os donos de restaurantes, por exemplo, têm medo de doar os alimentos que sobram todos os dias em seus estabelecimentos justamente por falta de uma lei que impeça que ele seja autuado”, afirmou o advogado e exdeputado Sigmaringa Seixas. Por enquanto, a responsabilidade civil e criminal de qualquer dano causado aos receptores de alimentos doados recai sobre aqueles que os doaram.
O desperdício doméstico também é grande. Estimativas da Embrapa apontam que uma família de classe média joga fora pouco mais de 180 quilos de comida todos os anos. Esse desperdício é suficiente para alimentar uma criança por seis meses.
Para André Luzzi, coordenador geral do comitê de São Paulo da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida, os hábitos alimentares e de consumo também são importantes para evitar o desperdício.
Nos supermercados, o excesso de manuseio dos alimentos, por exemplo, também deixa muitos produtos impróprios para o consumo. “Se imaginarmos o número de pessoas que passam pelas gôndolas dos supermercados perceberemos a quantidade de alimentos que são estragados”, contou o pesquisador da Embrapa. Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), 24 mil toneladas de partes de hortaliças ou comidas consideradas impróprias para consumo foram descartadas em 2007. Por ano, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo calcula que sejamjogados fora 12 bilhões de reais em comida. O número seria suficiente para alimentar 30 milhões de pessoas ou 8 milhões de famílias.
Para Gomes, em um país como o Brasil, onde existem milhões de pessoas passando fome, o desperdício nos entrepostos de abastecimento é inadmissível. “Diminuindo as perdas diminuiremos os custos, já que não adianta aumentar a produção agrícola do País sem diminuirmos o desperdício”, explicou Gomes.
É importante ressaltar que sobras de restaurantes, de produtos considerados impróprios para a venda, mas aptos para o consumo, poderiam beneficiar diversas famílias atendidas por entidades que trabalham com doações e distribuição de alimentos provenientes de doações. “De alguma forma essas entidades trabalhamno combate ao desperdício dentro do contexto de acesso à alimentação e de educação alimentar”, falou Luzzi.
Nayara Fernandes




