Fé e Cidadania
A RELIGIÃO SE APROPRIA, ÀS VEZES, DOS TEMAS DO COTIDIANO POR MEIO DA SUA ESPIRITUALIZAÇÃO. ASSIM, O TEMA DA FOME LEVA À PERCEPÇÃO DE FOME AINDA MAIOR, A FOME PARA COM DEUS.
Existem pessoas religiosas que acreditam que os desejos humanos apontam para um desejo mais profundo, que somente Deus sabe saciar sem esquecer as necessidades do cotidiano, inclusive da provisão do pão de cada dia. John Wesley, spiritus rector líder do Movimento Metodista, na Inglaterra, era um deles. Nos seus pensamentos sobre a falta atual de alimentos, de 1773 – portanto, há mais de 200 anos, encontramos um pregador ocupado com a população carente. “Primeiramente pergunto: por que milhares de pessoas estão morrendo em toda a nação? Que é um fato eu sei, pois tenho visto com meus próprios olhos por todo canto da terra. Conheço pessoas que só podem comer uma refeição um dia sim, outro não. Conheço outra pessoa que, embora há poucos anos tivesse todas as conveniências da vida, hoje, cata do esterco larvas fedorentas e as leva para casa para repartir com os filhos.”
Depois dessa descrição, Wesley parte para a análise: “A farinha de milho é tão cara porque 50% da produção é usada para a produção de bebidas alcoólicas. A farinha de aveia não se paga porque o número de cavalos para carruagens quadriplicou em poucos anos. Carnes de boi e de carneiro são caros porque os seus produtores lucram, hoje, mais com a criação de cavalos para a exportação”. Depois termina: “Mas, por que o porco, as aves domésticas e os ovos são tão caros? Por causa da monopolização das fazendas; talvez o monopólio mais diabólico jamais introduzido neste Reino. A terra, que há alguns anos atrás era dividida entre 10 ou 20 pequenos posseiros e que lhes permitia sustentar suas famílias confortavelmente, é agora englobada por um grande fazendeiro”. Finalmente chega ao Estado: “Mas, por que não somente os alimentos e a terra e quase todas as outras coisas são tão caras? Por causa dos enormes impostos. Mas, por que os impostos são tão altos? Por causa da dívida nacional. Resumindo, então: milhares de pessoas em toda a terra estão morrendo por falta de alimentos. Isso é devido a diversas causas; mas, acima de tudo, à fabricação de bebida, aos impostos e ao luxo”.
Como solução, Wesley sugere uma política financeira que envolve mais aqueles que têm recursos: “Colocar um imposto de dez libras sobre cada cavalo exportado à França e um imposto sobre as carruagens da aristocracia. [...]; acabar com todas as pensões ridículas, tais como as de governadores de fortaleza ou castelos, que nestes 100 anos só abrigaram gralhas e corvos”. Apesar da aparente atualidade, as ideias econômicas de John Wesley, hoje, não dariam conta das causas da fome atual. Mas, ele deixou o legado que o interesse para o divino não substitui o interesse para o humano, as condições reais da sua vida e as causas das suas tristezas e alegrias. Fome não é destino, nem praga divina. Fome é resultado de políticas públicas iníquas e as pessoas tocadas pela graça de Deus se sensibilizarão também enquanto hover fome ao seu redor.
Helmut Renders Pastor metodista, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos Wesleyanos.
O texto de John Wesley na íntegra está disponível em: www.educacional.com.br/metodista/met_wes_bd.asp ?codtexto=24




