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“O preconceito é uma doença muito forte”

O deputado federal Vicentinho (PT-SP)Vicente de Paula da Silva, o Vicentinho, é o único negro eleito deputado federal pelo PT em São Paulo, partido que ajudou a fundar. Participou do movimento sindical na região do Grande ABC, em São Paulo, nas décadas de 70 e 80, quando o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos Luiz Inácio Lula da Silva ganhou projeção nacional.

Cidadania: Você sofreu muito preconceito?

Vicente de Paula da Silva: Durante minha vida pública e minhas candidaturas, sim. Quando fui para a Universidade, por exemplo. Havia pichações que diziam “o negro Vicentinho quer ser doutor”. Também na cerimônia de posse para deputado estadual, em Brasília, no hotel, não me forneceram manobrista. No aeroporto, uma vez, precisei apresentar minha carteirinha de deputado federal e a moça do guichê perguntou: “E quando ele vai chegar?”.

Em São Paulo, de 70 deputados, sou o único negro. Então você vê que o preconceito é, sim, uma coisa muito presente na vida de todos os negros.

Cidadania: Por que você acha que existe tanto preconceito?

Vicentinho: O preconceito é a herança de uma sociedade que se beneficiava da escravidão. De uma sociedade que via, e em certos pontos ainda vê, o negro como inferior, e associa o negro a tudo que é negativo. Mas o preconceito é uma doença muito forte. Não é uma questão apenas do povo negro, mas de todos os povos.

Cidadania: O que pode ser feito para reduzir o preconceito?

Vicentinho: Como deputado federal, sou autor de dois projetos que lidam com essa questão. Um é o projeto dos desenhos animados. A idéia é criar uma cota de desenhos animados totalmente brasileiros a serem transmitidos pelas emissoras de TV. A princípio uma porcentagem menor, até chegar a 50%. O outro é sobre uma cota de contratação nas empresas. Algo parecido com as cotas nas universidades, mas que acompanhe a região. Se 10% dos habitantes de uma região são negros, 10% das contratações da empresa têm de ser de negros. Existe também o Estatuto da Igualdade Social, que está na Câmara. Ele orienta uma série de políticas afirmativas, incentiva o aprendizado da história e cultura de diferentes povos.

Cidadania: Mas você acha que esses projetos são suficientes?

Vicentinho: Apenas ajudam. Só algumas leis não são suficientes. É preciso trabalhar sempre com a educação e a conscientização.

Cidadania: O preconceito também não é muito mais contra negros pobres do que ricos?

Vicentinho: Existem o preconceito social e o preconceito racial. Claro que eles podem se somar, mas o preconceito racial existe com pessoas ricas, sim.

Diego Sartorato

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