Fé e Cidadania
A luta pelo reconhecimento, dignidade e plenos direitos da cidadania para as pessoas negras no Brasil já tem uma longa trajetória histórica. Um marco nessa caminhada, e também uma grande conquista, foi a criação do “Dia Nacional da Consciência Negra”, 20 de novembro, dia em que Zumbi, líder do Quilombo de Palmares, foi assassinado.
A cada ano que passa, essa data tem sido reconhecida e relembrada com mais intensidade; e não apenas no dia 20, mas durante todo mês de novembro, acontecem, em todo País, diversas celebrações, manifestações e momentos de resgate da história e da cultura afro. Escolas, universidades, igrejas, comunidades, aos poucos começam a aderir a essa “nova consciência”, e novos espaços estão sendo abertos para uma reflexão afirmativa sobre esse tema.
Em novembro de 2004, a Universidade Metodista de São Paulo abriu as portas para a realização de um Show Afro, que reuniu mais de 500 pessoas para celebrar a cultura afro, por meio de apresentações artísticas de funcionários, docentes, alunos e convidados externos. Foram momentos marcantes, não apenas pela diversidade e qualidade das apresentações, mas especialmente pela promoção do encontro dos afrodescendentes presentes na Universidade e na região, possibilitando um despertar coletivo para o debate do “ser ou não ser” negro e o que isso significa em nosso País. Nos últimos anos, esta mesma Universidade também tem apoiado várias outras iniciativas em parceria com ONGs, como a Afrobrás, Educafro e ABC Sem Racismo.
O fato é que ninguém pode exercer plenamente o seu papel cidadão se não sabe quem é e de onde veio. A identidade e auto-estima são fatores essenciais para a saúde psíquica, do indivíduo e seu coletivo. A história da população negra brasileira precisa ser resgatada, debatida e recontada novamente, pois a história que aprendemos é carregada de discriminação e preconceitos. Não se fala de forma positiva e construtiva sobre a cultura, a religião e as diversas formas de resistência deste povo que sofreu e ainda sofre as conseqüências da mais longa e cruel escravidão da história da humanidade.
O Brasil foi o último País do mundo a abolir a escravidão. Após a abolição, os negros foram abandonados sem trabalho, condições de moradia, saúde, educação... E hoje, no Brasil, entre os 1% mais ricos, 88% são brancos, enquanto os negros representam 77% dos 10% mais pobres. Somente nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, são 5 milhões os negros abaixo da linha de pobreza.
O passado e o presente têm sido diferentes para negros e brancos. Se há divergências, essa população precisa ser tratada de maneira diferenciada para que lhe sejam garantidos direitos iguais; se assim não for, a injustiça será eternizada e as diferenças de acesso aos direitos nunca se acabarão. Para isso, as Políticas de Ações Afirmativas estão aí, tão urgentes e necessárias, visando a ações compensatórias ao diferencial competitivo que vem sendo imposto à enorme população negra brasileira.
Respeitar as diferenças, sejam elas religiosas, culturais, étnicas ou raciais, é fundamental para a construção de uma sociedade justa e igualitária. A diversidade étnico-racial é uma das grandes riquezas brasileiras e precisa ser preservada e valorizada.
Que muitas ações afirmativas de inclusão socioeconômica possam ocorrer nas mais diversas áreas da vida social, e que as escolas e universidades possam aderir a estas ações, participando ativamente na conscientização nacional para o respeito e a valorização dos afrobrasileiros.
“Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo” . M. Ghandi
Cláudia Cezar da Silva
Coordenadora do Núcleo de Artes da
Metodista




