Só assistencialismo não adianta

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Formado em economia pela PUC-SP e doutor em Ciências Sociais pela mesma universidade, Cassiano Ricardo Bovo, 46 anos, sustenta a idéia de que, embora os programas assistencialistas, como o bolsa-família, se caracterizem, entre outras coisas, por melhorar o nível de renda da população, eles não representam uma alternativa viável a longo prazo. Professor da Faculdade de Direito da Metodista, ele fala dessa questão e também da função do Núcleo de Estudos sobre a Pobreza, em que atua como um dos coordenadores.

Espaço Cidadania: O que o Núcleo de Estudos sobre a Pobreza faz efetivamente?

Cassiano Bovo: Primeiro, ele realiza discussões, análises de textos e relatórios sobre a pobreza e a desigualdade. Segundo, o Núcleo produz artigos e resenhas também relacionados ao tema. E terceiro, trabalha com projetos também. Além disso, ele procura orientar pessoas que querem fazer pesquisa, estudos sobre o assunto por meio de palestras e encontros.

Cidadania: Mas não tem um trabalho voltado mais para a prática?

Cassiano: O Núcleo não é um órgão de intervenção social, e sim de estudos e pesquisa. Ele não tem uma atuação, pelo menos por enquanto, junto à comunidade. Talvez esse fosse o papel de uma ONG. É claro que indiretamente ele estimule a atuação. Por exemplo, muitos membros do núcleo exercem outras atividades em ONGs e na Anistia Internacional, por exemplo.

Cidadania: Qual o benefício que o Núcleo oferece à sociedade?

Cassiano: O primeiro é a conscientização por parte de alunos, professores, pesquisadores, enfim, pessoas que estudam a área de humanas, fazendo com que percebam a situação do Brasil no plano social e que, a partir disso, possam atuar em empresas, escolas, organizações.

Cidadania: Os estudos que vocês realizam são encaminhados para alguma instituição?

Cassiano: Não. Os estudos são geralmente publicados numa revista chamada “Pensamento e Realidade”, de tiragem de 25 mil exemplares e distribuída nas universidades, e tem uma seção chamada estudo sobre a pobreza.

Cidadania: O senhor citou alguns projetos que o núcleo vem realizando. Quais são eles?

Cassiano: Nós temos um projeto, agora, que relaciona educação à desigualdade, que tem quatro linhas de pesquisa. Uma dessas linhas é associar a desigualdade com o chamado retorno à educação, que é um cálculo que se faz de quanto a educação agrega em termos de renda.

Cidadania: O senhor acha que as políticas públicas existentes hoje no Brasil estão no rumo certo no combate à pobreza?

Cassiano: Acredito que apenas uma parte do caminho. Na verdade, essas políticas têm se caracterizado por um assistencialismo ainda muito grande. E a idéia é que se consiga mexer com a estrutura do País, como conseguir mais empregos de qualidade. Conseguir que as pessoas tenham mais autonomia para ser empreendedores. Agora, bem ou mal, esses programas assistencialistas, como o Bolsa-Família, são uma forma de melhorar o nível de renda de muitas pessoas que talvez não consigam, em curto prazo, encontrar um emprego decente, uma forma de inclusão social. Mas, ao mesmo tempo, você precisa melhorar as condições das pessoas, o que passa por essas questões.


Fernando Hausser

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