Conheça também

null null null
 

Globalização diminui distância, mas desigualdade persiste

/cidadania/numero-54/04.jpg

Integração econômica, social, cultural, política, o mundo interligado e conectado; troca de informações mais intensas entre os quatro cantos do planeta são algumas das características da aldeia global, conceito criado pe lo sociólogo canadense Marshall McLuhan, na década de 60.

O termo foi concretizado nos anos 90, com o surgimento da internet e do celular. É usado para ca rac terizar um novo tipo de relação que se estabelece principalmente com a internet. A expressão está relacio nada com a criação de uma re de de conexões, que facilita as re lações culturais e econômicas de forma mais rápida e eficiente. “Na aldeia global, a convivência dei xa de ser unicamente com as pessoas que estão do seu lado e passa a ser com pessoas que estão fisicamente distantes, em culturas diferentes”, analisa Marcelo Car va - lho, professor de filosofia da Uni - versidade Me todista de São Paulo.

Os reflexos econômicos e cultu - rais dessa “unificação do mundo” podem ser positivos ou negativos, dependendo do ponto de vista. Pa ra Marcelo, é muito difícil avaliar positiva e negativamente esse con tex to. “Do lado econômico, a conseqüência é um conjunto de relações mais complexas, passamos a manter re la - ções econômicas com o mun do in tei - ro. Temos no nosso co ti diano pro - dutos que envolvem o trabalho de pessoas que estão em lugares que nós nem imaginamos. A complexidade das relações eco nô micas se tor - na muito maior, mas ao mesmo tem - po se torna mais difícil de ser ad - ministrada”, explica o professor.

Já para Francisco Henrique da Costa, professor da Faculdade de Fi losofia e Núcleo de Formação Ci - da dã da Universidade Metodista, os as pectos positivos e negativos des se con ceito são evidentes. “A in ter net é muito boa para pes qui sa dores. Atra vés dela as pessoas têm acesso a bancos de dados das mais diversas áreas. Além disso, pode-se acompanhar o que está acontecendo no mun do em tem po re al”. De acordo com ele, os pon tos ne gativos podem ser notados ao pas so que, através da globa li zação, aumenta cada vez mais a dis tância da qualidade de vida de uma pessoa rica que mora num país desenvolvido e de outra po bre que mo ra num país subdesen volvido. “No processo de consu - mo do que é pro d u zido pela ciência e tecnologia, os povos mais po bres não têm acesso. Na aldeia global, o mer cado de trabalho tor na -se cada vez mais exigente, o que sig nifica que as pessoas precisam ser com pe ti tivas e ter o domínio de uma gama de conhecimento. Nesse con texto, que espaço tem uma pessoa que nun ca ligou um computador?”, avalia.

Culturalmente, o que acontece nes sa ordem é um processo de in - flu ência de uma cultura sobre ou - tra, de uma região sobre outra, de - vi do justamente ao avanço das co - mu nicações que aproxima cada vez mais os povos. De acordo com Car - va lho, a atividade cultural é grande e temos acesso a muitas informa - ções. “Temos mais informações so - bre Nova York, por exemplo, do que sobre algumas cidades de São Pau lo. Esse processo de integração vai fazer com que as culturas e os há bitos se transformem muito. Nes se contexto, hábitos de lugares dis tantes estão se aproximando e há bitos de lugares próximos se dis - tan ciando”, complementa.

Outro ponto questionável da internacionalização do mundo, con siste em que esse processo é contraditório e am bíguo, porque ao mesmo tempo que inclui pessoas que tem poder de compra para participar direta men te de toda essa revolução tec no lógica, exclui um grande grupo de pessoas economicamente des favorecidas. “Deter mi - na dos gru pos podem se unir em torno de idé ias, trocar e-mails, ter acesso à tec nologia, mas quem não tem acesso a isso está excluído. Não tem como pensar na globalização des vinculada de interesses econômicos. O capitalismo e a globalização an dam juntos”, afirmou Fran - cis co Hen rique da Costa.

Apesar da globalização criar no - vas possibilidades, novas relações, es tabelecer ligações e conexões en tre pessoas e povos, não se pode di zer que as desigualdades sociais se di - luíram. De acordo com Luci Pra un, professora e coordenadora do curso de Ciências Sociais da Uni ver sidade Metodista, a de si gual da de persiste porque a sociedade con ti nua dividida em classes e se envolvendo em uma lógica que não a lógica do bem comum (ser solidário, desenvolver projetos para ajudar a quem precisa) e sim a lógica do lucro, da competição e da concorrência. “A glo - balização, sem dúvida nenhuma é interessante, porque as pessoas po - dem conversar com outras que es tão do outro lado do mundo em tem po real, ter uma rapidez na tro ca de informação. Mas a questão é que isso por si só não resolve o problema da humanidade. O que é pre ciso é que se possa usar esses no vos mecanismos como uma nova ferramenta de luta contra a desigualdade, criando laços internacionalizados em que toda sociedade se mobiliza contra a injustiça social”, analisa a professora.


Tamirys Collins
Ações do documento