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Mídia e religião na construção de uma sociedade mais pacífica

Entrevista com Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980.
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Falar sobre religião sempre foi uma questão problemática para a mídia, ainda mais quando o assunto é conflitos religiosos. Poucos são os veículos que não caem na tentação de usar termos preconceituosos, como "terrorismo islâmico", em suas coberturas. Para debater sobre o tratamento dado pelos meios de comunicação às questões religiosas e sobre da mídia na construção de um mundo mais pacífico, o Espaço Cidadania entrevistou o Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel. Ativista dos Direitos Humanos, Esquivel fundou o Serviço de Paz e Justiça, instituição que luta por uma sociedade mais livre, participativa e solidária.

EC: A cobertura que a mídia hoje faz sobre os conflitos religiosos incita a violência?

Esquivel: A mídia tem confundido muito isso. Hoje se fala muito em "terrorismo islâmico", mas isso não existe. A religião em si não carrega uma carga de violência. Por isso, devemos falar, então, do terrorismo do presidente norte-americano do George W. Bush e do terrorismo de Israel. Pessoas ou governos que estão envolvidos nessa questão, e a mídia deve ter cuidado para não misturar isso com religião. O Islã não é terrorista, o Cristianismo também não.

EC: Portanto, podemos dizer que a cobertura damídia é responsável por piorar a situação dos povos envolvidos nesses conflitos?

Esquivel: Exatamente. Os meios de comunicação estimulam o enfrentamento a partir do momento em que mostram outros povos, culturas e religiões como terroristas. Eu falaria do terrorismo de alguns fundamentalistas ou do terrorismo de alguns Estados, como, por exemplo, de Israel, no caso concreto da embaixada do Líbano. Isso, no entanto, não pode ser misturado com religião. Não é correto, portanto, falarmos de terrorismo judeu, cristão ou islâmico. Precisamos diferenciar as coisas. Acredito que os meios de comunicação estão acusando determinadas religiões de terrorismo. Isso não é certo.

EC: Em um mundo com tanta diversidade, religiões e crenças, o que é necessário para a construção de ummundo mais pacífico? Como o Serviço de Paz e Justiça contribui nesse aspecto?

Esquivel: A possibilidade de conhecer uns aos outros, tendo em mente que somos irmãos e que, portanto, temos os mesmos direitos, é a única forma de alcançar o entendimento e a paz. Nós, do Serviço de Paz e Justiça da América Latina, trabalhamos no continente há mais de 30 anos promovendo o diálogo e o entendimento na defesa da diversidade, da riqueza e da unidade dos povos. Afinal, a grande riqueza de um povo é a diversidade e não a uniformidade. Quando há uniformidade, chegamos ao totalitarismo, que não permite vozes dissidentes. Portanto, buscar o respeito à diversidade é fundamental.

E esse respeito é o reconhecimento de outras culturas, gêneros, formas de pensamento, religiões, que nos permite a convivência em uma sociedade sempre pluralista.

EC: Os meios de comunicação reconhecem o valor da diversidade e abrem espaço para esse diálogo entre as diferenças?

Esquivel: Não, lamentavelmente os meios de comunicação não trabalham com as diferenças. Vemos que, na maioria dos países, mantém-se uma concepção ideológica que impõe determinados critérios. O que temos que fazer é democratizar os meios de comunicação.

EC: Então, o caminho é, de toda forma, a democratização dos meios de comunicação?

Esquivel: Sim, a mídia tem a obrigação de respeitar os povos na sua diversidade. Se os meios de comunicação não respeitama população, todos esses problemas dos quais falamos vêm à tona.

Reportagem: Adelson Júnior
Texto: Renata Firace
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