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Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

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A democracia brasileira tem uma história conturbada e difícil. Apenas no auge da ditadura militar é que nossa sociedade realmente desenvolveu uma consciência política democrática. Pela primeira vez na história do País, diferentes minorias se reuniram para formar uma grande massa que lutava por direitos políticos e econômico-sociais. Diversos movimentos populares – entre os quais a Campanha das Diretas, em 84 – buscavam introduzir a cidadania de forma mais abrangente, e exigente, na sociedade brasileira.

A partir daí, o País teve verdadeiras lições de participação política cidadã, entre as quais podemos citar a Constituição de 88 e o impeachment de Collor, um afastamento político que aconteceu sem nenhuma revolução, apenas com a mobilização da opinião pública. Fatos como esses provam que o cidadão brasileiro pode – e deve – lutar por mudanças na sociedade e participar, com êxito, na tomada de decisões nos campos da política e do poder.

No entanto, exemplos de iniciativa política popular acontecem de forma isolada em nossa sociedade, caracterizando um verdadeiro desperdício da força que, juntos, possuímos. Rodrigo dos Passos, doutor em Ciência Política pela USP, atribui esse cenário ao fato de a democracia ser um processo relativamente novo em nosso País, o que leva o povo a não saber como utilizá- la de forma plena, fazendo uso dos direitos de participação política que todo cidadão possui. “A questão não se restringe somente à recente experiência, mas também ao passado essencialmente autoritário de nosso País. A participação política não teve raízes históricas sólidas como em outros países. A democracia no Brasil nunca passou de um grande mal-entendido justamente por ser usada em favor de pequenos setores das elites nacionais e não em amplas camadas de nossa população, como escreveu o democrata Sérgio Buarque de Holanda emRaízes do Brasil”, afirmou Rodrigo.

Apesar dessa lacuna que temos em nossa trajetória histórica, aos poucos nossa sociedade vem se tornando mais consciente politicamente.“ O Brasil e a América Latina vivem um momento interessante, pois muitos governos associados ao chamado neoliberalismo vêm sendo derrotados eleitoralmente. Talvez isso seja uma demonstração de que o povo quer e espera mudanças verdadeiras”, explica Marcelo Buzetto, professor da Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas da Metodista e coordenador do Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais, um programa de pesquisas científicas focado na relação entre as lutas sociais e o poder político.

O voto consciente, dado na urna a cada dois anos, é uma importante arma na luta pelo exercício da cidadania, pois é a oportunidade que o cidadão tem de mostrar aos governantes que está atento a vida política de sua comunidade e não se deixa enganar por falsas promessas. Porém, o voto não muda de forma radical as condições de vida e de trabalho do povo, como a maioria dos políticos promete em época de eleição. Apenas votar com responsabilidade não basta. É necessário participar de forma ativa da vida política da sociedade. “O fundamental na luta política e social é a mobilização permanente e a organização dos setores mais pobres e mais explorados da sociedade. É daí que vem a mudança. Depositar a responsabilidade de transformar de fato uma cidade ou país num local mais justo e democrático nos candidatos eleitos ou dirigentes é renunciar à sua capacidade de intervenção consciente, ativa e organizada. É renunciar à construção do poder popular, que parte do processo de auto-organização do povo”, diz Buzetto.

Esse poder popular pode se caracterizar de diversas formas, como por exemplo na criação de uma associação de bairro que lute pelo asfaltamento de uma rua ou na organização de uma passeata feita por operários que buscam melhores salários Rodrigo dos Passos sugere medidas para despertar a participação política e cidadã: “Devese buscar o incentivo a partir das questões mais candentes, imediatas locais, para depois tentar buscar discussões mais amplas, globais. Não acredito que essa seja uma tarefa exclusiva do Estado, até porque as definições oficiais de democracia são cada dia mais estranhas”, diz.

Como diz a música de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer!”


Débora Spitzcovsky
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