Seções
Faculdade de
Teologia
Ferramentas Pessoais
Você está aqui: Página Inicial Fateo Alunos Experiências e Reflexões As mulheres da minha vida

As mulheres da minha vida

Elucubrações sobre o ser-estar humano ante ao desafio do FEMININO

Texto produzido pelo aluno da FaTeo Hugo Fonseca Jr., metodista, 7º período matutino, a propósito do Dia Internacional da Mulher


Olá, belas mulheres!

Ao refletir sobre esta data tão significativa [8 de março], mas, que em si mesma, não diz muito (haja vista a desinformação de muitas mulheres a respeito de tudo o que gerou essa homenagem), vieram-me memórias de mulheres que marcaram e marcam minha história. Mulheres com quem aprendi sobre sensibilidade, cuidado, sutileza, bravura, perseverança, inventividade e paixão.

Mesmo reconhecendo que os homens têm horror a quaisquer comparações que questionem sua masculinidade (ou seria mecheza?), mal do qual também padeço, posso afirmar, depois de alguma relutância interior, que "as mulheres de minha vida" tornaram-me mais FEMININO, ou seja, muito mais sucetível aos traços característicos do universo feminino.

Uma interessante frase de Guimarães Rosa (G. R.): "Digo: o real não está na saída nem na chegada: elese dispõe para gente é no meio da travessia."

A vida, para G.R., era a travessia que desvelava o duplo, o ambíguo. A vida (aqui pautada pelo sentido de KOSMOS) se concretiza pelas multiplicidades de traços que compõem todos os elementos qua a constituem, em desdobramento, o elemento humano e, por conseguinte, o masculino e o feminino.

Essa pedagogia do "estar sendo" no caminho e, fundamentalmente, através do caminho pulsa em momentos como o que o dia de hoje me proporciona.

Reconhecer que a malha de minha vida tem fios, costuras e bordados especificamente femininos fez-me chegar a uma dupla conclusão.

  • Não há humanidade, onde não compreenda-se o feminino como participante integrador e caracterizador do que é e está humano;
  • Nós, homens (principalmente heterossexuais) não sabemos "estar sendo", ou melhor, não nos dispomos a travessia que a vida pressupõe como enlaçamento do que é feminino e masculino.

Ao perceber que a cultura e a pedagogia androcêntrica são violências explícitas ao caráter que nos é fontal, a saber, o ser/estar humano, e verificar que isso é tão brutal que foi assimilado por multidões de mulhres (e ainda o é!), preciso concordar com Camus: "O homem (no sentido de humano) é a única criatura que se recusa a ser o que ela é".

Isso se agrava ainda mais, quando o macho percebe-se acuado pela propaganda feminista (que apesar de necessária, é outra maneira de radicalização de traços muito particulares e, portanto, apequenadores do ser-estar-humano), principalmente aquela que o priva/ameaça da liderança no mercado de trabalho, ou seja, da primazia socioeconômica.

As mulheres da minha vida, de forma sutil e profunda, alumiaram a ambiguidade que se faz mister ratificar na medida em que o "ser humano" se quer "estar humano".

O que isso quer dizer? Isso diz que nós somos o que deveríamos ser na medida em que estamos a ser o FEMININO e o MASCULINO na travessia da vida.

Eis aí uma ambiguidade que não se deve querer superar, caso esse desdobramento da vida (Kosmos) queira-se mais próximo de Deus, ou melhor, do totalmente outro humano, que, ambiguamente, quis-se revelar no plenamente humano, a seber, no carpinteiro galileu Jesus.

As elucubrações sobre o auto-descobrimento de nossas duplicidades (feminina e masculina, racional e irracional, humana e divina), me foram possíveis somente a partir duma experiência ecumênica, não no sentido religioso deste termo, antes sim no sentido geográfico e socio-cultural. Foi em minha casa/oikos (rodeado por avó, mãe, tias, imãs e primas) e depois em outras casas (enquanto namorado ou noivo) que compreendi a dimensão de KENOSIS (Fp. 2,7), na medida em que a masculinidade androcêntrica esvaziou-se da prerrogativa imperial e assumiu a ontologia divina, que é, em si, plural.

Ser homem hoje está para além de ser macho, ser homem hoje é reconhecer-se estar humano também ao passo do ser mulher.

Destarte, a homenagem (08/03) estará para além do rito, uma vez que será e estará integradora de nossa travessia, nos mais perticulares recortes que nos são próprios.

Que me perdoe G.R.: "Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe no estar sendo humano ao longo da travessia"

Com carinho, Feliz dia Internacional da Mulher!

Ações do documento