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Faculdade de
Teologia

Balada para outras Isabelas


Olá! Eu vim lhe contar

um pouco da minha história...

Peço atenção, seu “dotô”,

um instante, não demora...



Meu nome não é Isabela

nem “caí” de uma janela

do quarto no sexto andar...

(será que pensaram, os insanos,

que ela sabia voar?)



Não moro num prédio equipado,

não tenho motos, brinquedos,

nem piscina pra nadar...

Eu brinco, às vezes,

nas poças de chuva,

com gatos, latinhas,

bolinhas de gude...

isso quando não tenho

que a mãe ajudar...



Não sei dançar, e não brinco

como menina educada,

porque aprendi, desde cedo,

lá no morro onde nasci,

que não importa o sexo da criança:

menino ou menina, a experiência,

é viver o teatro

da sobrevivência...



Não me chamo Isabela...

nem fui morta (ainda)

por meu pai ou madastra...

mas morro um pouco,

a cada dia,

quando sou espancada.



E morro também,

assim, engasgada,

obrigada a me calar

quando tenho mãos sobre mim...

nem sempre a me sufocar,

mas explorando,

de um jeito esquisito,

que nem entendo direito,

o meu corpo sem contornos...



Meu nome, não é Isabela...

Não tenho cabelos lisos,

nem tenho olhinhos espertos...

Ao contrário: meus olhos são opacos,

talvez, por não querer enxergar

minha dura realidade...



Também não faço teatros,

lá no palco da escolinha

... isso não é para mim...

Quando vou à escola,

é somente pra comer

a merenda que me dão...

pois muitas vezes, em casa,

não temos sequer o pão...



O máximo que sei é correr:

morro abaixo, morro acima,

entre os carros dos sinais...

para ganhar um trocado,

ou para fugir dos adultos,

que insistem em me machucar...



Eu não me chamo Isabela...

mas, como ela,

(ou até mais!)

eu sofro... e diariamente...



Tenho marcas de pancadas,

queimaduras de cigarros,

tenho ossos fraturados,

boca sangrando, hematomas,

que mãos e pés gigantescos

me provocam sem motivo...



Não morri, como Isabela...

Ainda não... mas irmãos,

amiguinhos, conhecidos,

eu sempre vejo morrer...



Quem matou? Nunca se sabe...

“ele caiu”, “tropeçou”

“queimou-se por acidente”

“estrupada?”, “coitadinha”...

“não fui eu”, diz o padrasto,

“nem eu”, diz a mãe omissa...

e eles não têm nem quem reze

para eles, uma missa...



Eu não me chamo Isabela...

sou Maria, Rita, João...

Sou Josefina, sou Mirtes,

sou Paulo, Sebastião...

Sou tantas, tantas crianças,

que todo dia a omissão

de todos deixa morrer...



Engraçado é que ninguém,

faz passeata por mim

a imprensa não divulga,

o “figurão” não se importa,

a classe média não grita,

os ricaços dão de ombros...



Que hipocrisia é essa,

de chorar por uma só?

São tantas as Isabelas

violentadas sem dó...



Mas que importam

os escombros,

a escória da sociedade?



Se não me chamo Isabela,

não mereço piedade.


Que o triste caso da pequena Isabela, sirva pra que abramos os olhos para o que acontece, todos os dias, com as nossas crianças...



Terezinha Lizieux é ex-aluna do Curso Teológico Pastora e pastora na 4ª Região Eclesiástica da Igreja Metodista

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