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Estudo Nº2

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ESTUDO Nº 2

O CHAMADO DE ISAÍAS PARA SER PROFETA


Alguns lembretes são necessários para os/as estudantes do Livro do Emanuel: primeiro, a tradução é própria do autor deste comentário, e segue a fraseologia do texto hebraico; segundo, este comentário não acompanha os padrões da exegese clássica, de modo pleno, mas procura destacar os elementos voltados para a compreensão do Emanuel.



1. O texto de Isaías 6.1-13


1 - No ano da morte do rei Uzias. E eu vi Adonai sentado sobre um trono alto e elevado. E suas barras enchiam o templo

2- Serafins colocavam-se acima dele; seis asas para cada um. Com duas cobriam seus rostos; com duas cobriam seus pés, e com duas flutuavam.

3- E gritava um para o outro e dizia: Santo, santo, santo, Javé Sebaote (dos exércitos)! Cheia está toda a terra de sua glória!

4- E tremiam os pinos da soleira por causa da voz que gritava. E a casa (templo) enchia-se com fumaça.

5- E eu disse:

Ai de mim!
Eis que! Eu estou destruído!
Eis que! Um homem de impuros lábios eu sou.
E em meio a um povo de impuros lábios eu habito.
Eis que! Javé Sebaote viu meus olhos.

6- E voou para mim um dos serafins, e em sua mão uma brasa, com uma espevitadeira tirara de cima do altar.

7- E fez tocar minha boca e disse:

Eis! Isso tocou em teus lábios.
E se afasta tua culpa,
E teu pecado está perdoado.

8- E eu ouvi a voz de Adonai dizendo:

A quem enviarei?
E quem irá por nós?

9- E eu disse:

Eis-me! Envia-me!
E ele disse:
Vai e fala a este povo:
Ouçam insistentemente, mas não entendais!
Olhem continuamente, mas não compreendais!

10 - Torna gordo o coração deste povo,

e seus ouvidos faze pesados!
E seus olhos torna grudados!
Para que não olhe com seus olhos!
E com seus ouvidos não ouça!
E seu coração não entenda!
E seu coração entenda,
e converta,
e se cure!

11- E eu disse:

Até quando Adonai?
E ele disse:
Até que se devastem cidades sem morador
e casas sem pessoas.
E o solo se desolando em deserto.

12- E Javé afastará para longe o ser humano, e haverá muito abandono em meio à terra. (13) E ainda houver nela uma décima parte, será destruída novamente como uma árvore majestosa e como uma árvore grande que na derrubada deixam estela nela, semente santa sua estela.


1.1 A estrutura do texto de Isaías 6.1-13

  1. Referência histórica "No ano da morte do rei..." v. 1a.
  2. Reportagem do chamado do profeta Isaías v. 1b-13
A Observações iniciais do profeta v. 1b-4
1 Visão de Javé e dos serafins v. 1b-2
2 Audição de uma doxologia v. 3
3 As circunstâncias v. 4
B Reação do profeta Isaías: lamentação v. 5
1 "Ai de mim, estou perdido"
2 "Sou um homem de lábios impuros..."
3 "Os meus olhos viram o rei..."
C A purificação de Isaías v. 6-7
1 O vôo do Serafe até Isaías v. 6
2 A purificação v. 7
a O toque nos lábios
b O oráculo de purificação
D O diálogo entre Javé e Isaías v. 8
1 Questão de Javé - "Quem hei de enviar? (...)
2 Resposta de Isaías - "Eis-me aqui (...)
E A missão de Isaías v. 9-13
1 Palavra de Javé v. 9-10
a Introdução v. 9a.
b Conteúdo da mensagem v. 9b
c Interpretando a mensagem de Javé v. 10
2 Questão de Isaías "Até quando, Senhor?" v. 11a.
3 Resposta de Javé v. 11b-13

1.2 Buscando entender o texto de Isaías 6.1-13

É muito importante entender que o capítulo 6 possui duas partes: a primeira refere-se à informação da data do chamado do profeta - "No ano da morte do rei Uzias" (v. 1a); a segunda parte mostra a reportagem do chamado de Isaías (v. 1b-13). Tanto uma quanto a outra constituem-se declarações de fé em Javé, o Deus do povo bíblico que - ao ver o povo inseguro e aflito, e ameaçado e mal liderado - interveio na sua história, anunciando que Deus estava presente em sua luta.



2. Comparando esta perícope com outros relatos bíblicos paralelos


Isaías 6.1-13 é uma reportagem do mesmo estilo literário encontrado em alguns textos importantes da Bíblia:

Êxodo 3.1-11 (Moisés),
Juízes 6.1-18 (Gedeão),
e Jeremias 1.4-10 (Jeremias)

É interessante perceber que a reportagem do chamado de Isaías possui quatro momentos que coincidem com as narrativas acima mencionadas, a saber:

a) Circunstância do chamado divino:
- do chamado de Moisés = o povo hebreu era escravo no Egito;
- do chamado de Gedeão = luta pelo assentamento em Canaã;
- do chamado de Isaías = Guerra Siro-efraimita e morte de Uzias;
- do chamado de Jeremias = luta entre Egito e Babilônia pela posse de Canaã
b) O chamado divino tem por finalidade a missão:
- Moisés: libertar o povo hebreu da escravidão (Ex 3.8-10);
- Gedeão: libertar os hebreus das mãos dos midianitas (Jz 6.14);
- Isaías: resgatar, no rei Acaz e no povo de Judá, a fé em Javé (Is 7.9);
- Jeremias: derrubar o inútil e construir e plantar a vida plena (Jr 1.10).
c) O chamado provoca perplexidade e objeção.
- Moisés: "quem sou eu para ir... e tirar do Egito os filhos de Israel?" (Ex 3.11);
- Gedeão: "... a minha família é a mais pobre em Manasses" (Jz 6.15);
- Isaías: " Sou um homem de lábios impuros..." (Is 6.5);
- Jeremias: "...não sei falar , porque não passo de uma criança" (Jr 1.6).
d) O chamado divino e a ocupação de cada um..
- Moisés: "apascentava o rebanho de Jetro" (Ex 3.1-6);
- Gedeão: "... malhava o trigo no lagar..." (Jz 6.11);
- Isaías: meditava no Templo de Jerusalém (Is 6.1-2);
- Jeremias: envolvido em atividades de adolescentes (Jr 1.6).

Aprofundando a análise:

  1. A chamado divino, segundo a Bíblia, ocorre em um momento de grande crise e angústia do povo;
  2. Deus não leva em consideração a condição social e econômica, nível de cultura, idade e pureza do/a vocacionado/a para exercer a missão profética;
  3. A missão de uma pessoa vocacionada é destruir a maldade e a injustiça e construir a vida plena na sociedade humana.


3. Aprofundando o conhecimento da circunstância do chamado de Isaías.

a) A ocorrência foi no Templo de Jerusalém. Esta dedução se impõe por vários motivos:

- o Senhor sentado sobre um trono (v. 1),
- faz menção do Templo como local da visão (v. 1),
- as visões de Javé e os serafins com seus cânticos de louvores (v. 2b-3),
- o termo hebraico bait casa funciona como sinônimo de templo (v. 4),
- o uso do nome Javé dos Exércitos é próprio de Jerusalém (v. 5),
- o ato de purificação é próprio do templo de Jerusalém (v. 5),
- a espevitadeira é um objeto que faz parte do altar do Templo (v. 6).

b) O chamado de Isaías só acontece após
a visão (v. 1b-2),
a audição (v. 3),
a sua confissão de pecado (v. 5)
e a sua purificação (v. 6-7).

Aprofundando a análise:

  1. O relato de Is 6.1-13 descarta a possibilidade do profeta estar dormindo e sonhando ou desfrutando momentos de êxtase. Isaías permanece plenamente consciente.`
  2. O Templo e o culto são também lugares onde se dão o chamado divino;
  3. O pecado de Isaías não impediu que Deus o chamasse para ser um profeta;
  4. A confissão de pecado e a purificação fazem parte da preparação para a missão do profeta.


4. A importância do chamado de Isaías para o Livro do Emanuel

Para analisar com profundidade esta questão, é preciso abordar dois pontos:


3.1. A extensão do Livro do Emanuel

O Livro do Emanuel (Isaías 6.1-9.6) tem princípio, meio e fim. Ele começa com o chamado de Isaías (6.1-13) e termina com o anúncio da libertação de Israel (9.1-6). O miolo desse livro é a atividade profética de Isaías (7.1 - 8.22).

3.2 O momento do chamado profético e da profecia

A frase que abre o Livro do Emanuel é freqüentemente desdenhada pelos/as leitores/as.

"No ano da morte do rei Uzias" (6.1a).

Contudo, é preciso prestar atenção nesta frase. Ela quer afirmar que:

- profecia não é um conjunto de palavras (não necessariamente, cultual ou eclesiástico);
- profecia é a interpretação da história e a leitura da vida do povo, através de pessoas autorizadas e legitimadas pela palavra de Deus;
- profecia tem seu momento certo e devido.

3.3 A importância da frase "No ano da morte do rei Uzias" (Is 6.1a)

- Ela quer indicar a data da morte de um grande rei de Judá;
- Ela quer mostrar que a profecia é uma tarefa difícil, sombria e desafiadora.
- Esta frase é, acima de tudo, uma afirmação profética e teológica.
Ela quer dizer que quando a esperança do povo se esgota, Deus intervém em favor do povo e passa a agir. É partir da morte de um grande rei, Uzias, e de um momento sombrio, que o profeta anuncia o Emanuel.

O Emanuel visto a partir do chamado de Isaías:

1.O Livro do Emanuel deve ser analisado como um todo. Assim, a reportagem da vocação de Isaías (6.1-13) deve ser vista como o primeiro capítulo desse livro. Sem a sua leitura e compreensão, o/a leitor/a não entenderá seu conteúdo e objetivo.

2.A informação - "No ano da morte do rei Uzias" (v.1a) - é uma importante declaração de fé na atuação de Deus. Ele quer comunicar aos leitores/as que Deus está atento ao sofrimento do rei e à angústia do povo, enviando um profeta para anunciar que Ele não estava distante, mas presente: Imanuel, isto é, "conosco está Deus".

3.A reportagem de um chamado divino, para uma missão específica, é uma parte importante da Bíblia. Esses relatos querem destacar a legitimidade divina do profeta diante de tantos opositores à vontade de Deus. Particularmente, fica claro que no Livro do Emanuel o grande opositor era o rei Acaz e o seu medo de tomar a sério a palavra de Javé.

4.A próxima etapa, nessa descoberta do Emanuel, será Isaías 7.1-9.

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