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O contexto da atuação de Neemias

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I. Contexto político


O Antigo Oriente Médio era dominado pela Pérsia. A Pérsia possuía uma organização político-administrativa que dividia o seu amplo território em várias regiões para facilitar a administração do império. A Palestina, na época de Neemias, pertencia à Satrápia Transeufrates. Essa Satrápia era formada pela Síria, Fenícia, a terra de Canaã e Chipre.

A organização do Império Persa:
piramide.jpg

O rei dispunha de um Secretário Real, do exército e de pessoas com missões especiais. A Bíblia cita quatro figuras que possuíam a missão de ser um "olheiro do rei" (Ne 13.7). São eles:

Sesbasar

Zorobabel

Neemias

Esdras


Porém, a grande função ocupada por Neemias foi a de governador (no hebraico pehah), por um tempo limitado (Ne 2.6,9; 3.7). Enfim, Neemias recebe, do rei Artaxerxes I (465-423 a.C.), a missão de:

  1. fortalecer a comunidade de Jerusalém e prepará-la para reconstrução;
  2. reorganizar o povo - assentá-lo na terra e na cidade;
  3. disciplinar o povo sob a Tora;
  4. detectar abusos na administração política, na prática religiosa; na economia.

Desde o exílio de Sedecias (587 a.C.), Jerusalém não abrigava o governo e, conseqüentemente, não mais possuía força e poder político.


II. Contexto social


A. Injustiça e exploração entre os próprios judeus (Ne 5.1-13):

  1. crescia a desigualdade entre as famílias;
  2. aumentava o desejo de lucro pessoal;
  3. a volúpia do lucro também contaminava os sacerdotes.
  4. o cenário de Jerusalém era desolador:

Miséria,

Humilhação,

Muralhas em ruínas,

Portas incendiadas.



III. Contexto religioso


O povo está confuso. A Pérsia imprimiu um novo ritmo administrativo e cultural: os valores religiosos dos judeus estão sendo questionados. A prática comercial dos persas prejudica a reconstrução e formação sócio-cultural do povo judeu. Por outro lado, há um conflito entre o povo da terra (os que não foram para o exílio) e os exilados que retornaram da Babilônia. Por isso,

A. Entre o povo, havia falta de identidade de fé:

  1. assimilação de outras práticas religiosas;

  2. dificuldades com os casamentos mistos;

  3. alianças por interesses econômicos;

  4. radicalismos na prática religiosa:

    1. exigência da guarda do sábado,
    2. exigência quanto a prática do jejum,
    3. obrigatoriedade quanto ao dízimo.
  5. Surge a questão: para que serve ser crente javista e israelita?


B. A solução encontrada foi a edição da Tora (o Pentateuco).


IV. Contexto internacional


O século de Neemias (séc. V a.C.) foi denominado pelo historiador Karl Jasper como o "tempo-eixo" da história. A Grécia e sua cultura começam a expandir-se para o mundo. Esse é o século de Sólon, Anacreonte, Tales, Pitágoras, Lao-Tse, Buda, Confúcio, Zoroastro, entre outras figuras importantes.

SEGUNDA PARTE

Vida e obra de Neemias


I. Identidade de Neemias


Nome: Neemias (cujo significado é "Javé consola, conforta");

Nome do pai: Hacalias (Ne 1.1);

Data do nascimento: por volta de 480 a.C.

Local de nascimento: Susa (antiga capital de Elam), Pérsia;

Nacionalidade: israelita, nascido na Pérsia;

Ocupação: copeiro de rei (maxeqeh, um cargo de confiança do rei (Ne 1.11; Gn 40.21).


II. Momento decisivo na vida de Neemias


A. Ao receber notícias de Jerusalém:

Em dezembro de 446 a.C., quando recebeu notícias de Jerusalém (Ne 1.2-4);

B. Conteúdo da notícia.:

"Os que não foram exilados... estão em grande miséria e humilhação; os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas queimadas a fogo" (Ne 1.3).

C. Reação de Neemias:

Ao ouvir essa notícia, Neemias sentou, chorou, ficou de luto vários dias, jejuou e orou a Deus (Ne 1.4).

D. Atitude de Neemias:

Em março/abril de 445 a.C., diante do rei Artaxerxes,

Neemias se declara profundamente triste com a situação em Jerusalém (Ne 2.1-3).

Neemias solicita ao rei enviar-lhe a Jerusalém, em missão (Ne 2.4-5).

E. Resposta do rei Artaxerxes:

O rei questiona sobre o período da ausência de Neemias;

o rei permitiu a viagem de Neemias com todo apoio logístico (Ne 2.6-8).

Com o apoio do rei, Neemias empreendeu duas viagens, em missão a Jerusalém.

Primeira viagem, em 445 a.C.

Segunda viagem, em 432 a.C.


TERCEIRA PARTE


Principais empreendimentos de Neemias

Recapitulando...

Após receber as informações vindas de Jerusalém, através de Hanani (Ne 1.2), em 444 a.C, Neemias ficou muito abalado. Vendo-o triste, o rei achou por bem enviá-lo a Jerusalém como governador, autorizando-o a reconstruir as muralhas, destruídas pelos babilônios, em 587 a.C. (Ne 1.1-2.8).

I. Primeiro empreendimento de Neemias (Ne 1-4 e 6)

A. Neemias fez uma inspeção secreta dos muros derrubados de Jerusalém (2.9-6);

B. Após a vistoria, Neemias decidiu reconstruí-los (Ne 2.17-20). Essa decisão, provocou uma forte oposição de Sambalá (um político influente de Samaria) e Tobias (um político influente entre os amonitas).

C. Apesar dessa oposição, os muros de Jerusalém foram reconstruídos por um grupo de judeus, ligados à liderança de Neemias (Ne 3-4).


II. Segundo empreendimento de Neemias (Ne 5.1-13)


A. Legislou sobre os empréstimos:

Diante de uma queixa de mulheres, cujos maridos estavam sendo explorados pelos próprios judeus, ricos e abastados (Ne 5. 1-6), Neemias empreendeu uma ampla reforma sócio-econômica em Judá. Esses judeus emprestavam a juros de 60% e penhoram os filhos dos trabalhadores para a escravidão.

A Neemias condenou os que exploravam os trabalhadores do campo, decidindo que: (1) o penhor era por somente 6 anos, seja de pessoas ou terras; (2) toda dívida deveria ser perdoada no sétimo ano (Ne 10.32).

B. Legislou sobre causas socio-religiosas:

A destruição de Jerusalém, o exílio forçado da elite do povo para a Babilônia e a diáspora de milhares de famílias judias, especialmente para o Egito, deixaram vazia a região de Judá. A população de Judá diminuiu sensivelmente, enquanto a dos/as estrangeiros/as aumentou, devido as imigrações. Por várias décadas, os judeus que ficaram em Judá não tiveram liderança política e religiosa.

Diante disso, Neemias procurou disciplinar o povo, preparando-o para enfrentar os desafios do novo tempo:

(1) Diante dos casamentos mistos (judeus com estrangeiras e vive-versa), Neemias legislou:

"... não daríamos as nossas filhas aos povos da terra,

nem tomaríamos as filhas deles para os nossos filhos" (Ne 10.30).


Razões dessa medida:

Primeiro: os/as filhos/as desaprendiam a língua hebraica, já que a mãe estrangeira não tinha competência para educá-los nos costumes israelitas (Ne 13.23-29).

Segundo, a mãe estrangeira conduziria os/as filhos/as ao afastamento da fé em Javé, conforme aconteceu com Salomão (Ne 13.26).

Terceiro: Neemias percebeu que a desintegração da linguagem provoca a desintegração fé e do povo como nação.


(2) Em meio às atividades comerciais com a população estrangeira, Neemias legislou sobre a guarda do sábado:

"... trazendo os povos da terra no dia de sábado qualquer mercadoria

e qualquer cereal para venderem, nada compraríamos deles no sábado,

nem no dia santificado.." (Ne 10.31a+b).


Razão dessas medidas:

Primeiro: promover a solidariedade entre os irmãos e irmãs da comunidade judaica.

Segundo: contrariar e eliminar as tendências desintegradoras na comunidade.

Terceiro: reforçar as antigas práticas e costumes tribais e religiosos.

Quarto: redescobrir a identidade israelita em meio à adversidade.


(3) Diante do uso indisciplinado da terra, em vista da nova conjuntura social (conforme Ne 5.1-6), Neemias decidiu descansar a terra no 7º. Ano:

"... que abriríamos mão da colheita do ano sétimo, e de qualquer

cobrança" (Ne 10.31c).


Razão dessa medida:

Primeiro: evitar o enriquecimento de umas famílias e o empobrecimento de outras.

Segundo: reafirmar o princípio básico - "a terra é minha - diz Javé" (Lv 25.23).

Terceiro: reforçar a solidariedade na comunidade do povo bíblico.

Quarto: evitar o fantasma da desintegração da comunidade.


Concluindo


De tudo que Neemias fez, alguns ficaram marcados na memória do povo bíblico como um testemunho da Boa Nova para a eternidade:

1. A reconstrução do muro de Jerusalém foi importante. Além de ser o responsável pelo estabelecimento da infra-estrutura da cidade, Neemias também deu início ao processo de resgate da identidade do povo bíblico.

2. Neemias mostrou, na prática, como se enfrenta o desafio da reconstrução moral, social, econômica, política e religiosa de um povo angustiado, dividido e oprimido. Apesar da situação econômica da província de Judá ser caótica, ele não deixou de pagar o tributo devido à Pérsia.

3. Neemias valorizou sobremaneira os pobres e criticou a aristocracia da época. Ele ouviu e favoreceu as mulheres que acusaram os donos de propriedade, conforme Ne Neemias 5.1-13. O apoio popular às suas medidas reflete a preservação de sua memória que foi transmitida e, posteriormente, transformada em um livro. É, também, certo que Neemias teve muito apoio de grupos da classe rica de Judá, bem como do governo Persa.

4. A atuação de Neemias pode ser resumida em quatro pontos:

(a) a importância do Templo (Ne 13.4-14);
(b) a importância da Tora - o ensino contendo a disciplina divina (Ne 13.17-19);
(c) a importância da ética (Ne 5.1-13);
(d) a importância da identidade de povo chamado por Deus para uma missão (Ne 13.23-27).

Bibliografia

TUNNERMANN, Rudi. As Reformas de Neemias, São Leopoldo/São Paulo: Sinodal/Paulus, 2001 (Série "Teses e Dissertações, vol. 17).

CROATTO, J. Severino. "A dívida na reforma social de Neemias: um estudo de Neemias 5.1-19. Em: RIBLA, volume 5-6, 1990, p. 25-34.

KIDNER, Derek. Esdras e Neemias: Introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova, 1985.

KILPP, Nelson. "Neemias: o perfil de um político", Em: Estudos Teológicos, 29, nº 2, 1989,p. 175-184.

KIPPENBERG, H. G.. Religião e formação de classes na antiga Judéia, São Paulo: Paulinas, 1988.

SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no exílio: história e teologia do povo de Deus no século VI a. C.. São Leopoldo/São Paulo: Sinodal/Paulinas, 1987.
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