Acessa SP quer aprofundar o uso da web
O programa de inclusão digital de São Paulo criou uma rede online de projetos comunitários, e está gravando em vídeo oficinas de metarreciclagem. Mas será reavaliado por sua nova coordenação
O programa de inclusão digital Acessa São Paulo, do governo do estado, encerrou 2006 com 400 unidades em funcionamento, e uma lista de cerca de 50 a serem inauguradas em breve. Abriu, ainda, duas novas frentes de ação, com três objetivos: estimular as pessoas que acessam a internet a aprofundarem o uso das tecnologias; aumentar a interação entre elas pela rede; e fomentar o uso das tecnologias no desenvolvimento de projetos. A primeira frente é a Rede de Projetos, um espaço no portal do Acessa SP para apresentação de propostas de ações comunitárias. E a segunda é o MetaProjeto, idealizado a partir dos conceitos e idéias do MetaReciclagem — movimento de ativistas que buscam a apropriação das tecnologias com fins de transformação social. A informação foi dada por Ricardo Kobashi, coordenador técnico do Acessa São Paulo até fevereiro, quando saiu para atuar na Secretaria de Comunicação Social do governo estadual. O novo coordenador é Antônio Carlos Gonçalves de Oliveira .
De acordo com Kobashi, que deu a entrevista ÀRede pouco antes de mudar de função, o MetaProjeto envolve a realização de oficinas no Parque Estadual Fontes do Ipiranga-Pefi, na capital, que estão sendo gravadas e veiculadas na rede, seja no site do Acessa SP ou no YouTube. O Pefi está instalado em área ocupada, antes, pela antiga Febem Imigrantes. Cada galpão do parque foi entregue a um programa social — mantido pelo poder público ou por uma organização não-governamental. “A idéia do MetaProjeto é construir um modelo que tenha a ver com reaproveitamento, desconstrução, apropriação tecnológica. Mas não com foco individual, e sim de grupo, orientado às necessidades de uso do pessoal e das comunidades que atuam no parque”, diz Kobashi.
Segundo o site do MetaProjeto, dentro do portal do Acessa SP, os objetivos da ação incluem: a construção de um laboratório para reciclagem e realização de oficinas com computadores doados; oficinas de manutenção e montagem de máquinas, e de princípios básicos da computação como meio de profissionalização e interação com a tecnologia; formação de uma rede de colaboração com os projetos participantes do Pefi, para auxiliar e criar coletivamente programações de oficinas e eventos que apóiem as atividades da juventude; interação com o programa Acessa SP para apoiar suas demandas de tecnologia, experimentação e construção de oficinas que possam ser replicadas em outros espaços de interesse do programa; abertura de espaço para colaboração e pesquisa acadêmica na área de reciclagem e desenvolvimento de tecnologias sociais.
A primeira oficina, realizada em setembro de 2006, já foi gravada e editada para a web. “Isso deve ser feito com todas as atividades que possam ser de interesse coletivo”, afirma Kobashi. No dia 2 de janeiro, era possível assistir a 12 diferentes vídeos do Acessa SP no portal YouTube. Entre eles, depoimentos colhidos em uma das capacitações de monitores do Acessa; descrições didáticas sobre a memória do computador; ou sobre o processador; armazenamento de dados (HD, CD, disquete); processador e cooler; placa de rede, entre outros. O vídeo “por dentro do computador”, nessa data, já tinha sido exibido 416 vezes.
No vídeo “sucata de bits”, o artista plástico Glauco Paiva, um dos integrantes do MetaProjeto, apresenta uma instalação criada a partir de computadores reciclados, com fins pedagógicos, para ensinar como é o funcionamento interno do equipamento. Segundo ele, na “sucata de bits”, a pessoa vê como opera cada um dos elementos (o monitor, a placa-mãe, etc.) e onde eles se ligam. “O grande barato de arte dessa peça é a descontrução da tecnologia. Mostrar que tudo isso que a gente tem comercialmente pode funcionar de outra forma, com outro olhar”, diz Glauco no vídeo.
Projetos comunitários
O estímulo ao trabalho colaborativo também acontece por meio da Rede de Projetos. Pelo portal do programa, qualquer um — o monitor ou o freqüentador do posto — pode submeter um projeto à coordenação do Acessa SP. Se for aprovado, explica Kobashi, os responsáveis pelo projeto poderão utilizar, para o seu desenvolvimento, até 30% do tempo de acesso à internet da unidade.
O objetivo da Rede de Projetos é dar suporte ao desenvolvimento comunitário por meio do uso do computador e de metodologias de gestão — os integrantes recebem capacitações para elaborar projetos, além de ferramentas online e offline de apoio, como planilhas de prestação de contas, guia de captação de recursos, etc. A rede pretende, ainda, promover o intercâmbio de experiências. As regras e o modelo para inscrição online de projetos, além do resumo dos ações que estão sendo ou já foram desenvolvidas, tudo está numa ferramenta wiki, acessível a partir do site do Acessa SP.
Uma das experiências da rede, segundo Kobashi, foi o projeto “Meu lugar: São Paulo”, criado, em 2006, pelo contador Robson Leandro da Silva, freqüentador do infocentro Jardim Morganti, na zona leste da capital. Robson desenvolveu um curso sobre a história da cidade — sua identidade política, social, cultural —, com aulas para turmas de nove alunos, entre crianças e adolescentes, durante uma hora, duas vezes no dia, duas vezes por semana. O projeto foi tão bem-sucedido, que Robson foi trabalhar na equipe do Acessa, apoiando outros projetistas.
Em todo o estado, os postos do Acessa atenderam, até novembro, cerca de 20 milhões de pessoas, e cadastraram 940 mil usuários. Desde sua implantação, em 2000, cerca de R$ 34 milhões já haviam sido gastos no programa, dos quais R$ 7,5 milhões, em 2006. A maior parte das unidades (283) é municipal, em parceria com prefeituras; os demais são Popai’s (Posto de Acesso Público de Acesso à Internet), que operam em órgãos públicos (Metrô, CPTM, Bom Prato, Poupatempo, etc); e 57, comunitários (concentrados na capital).
A rede trabalha com a distribuição aberta Acessa Livre que, em breve, segundo Kobashi, deve ficar disponível online, na sua versão 1.5. Também deve ir para a internet a metodologia e documentação de gestão do programa. “O mapeamento dos processos lhes dá grande transparência”, diz. Em 2006, o Acessa São Paulo foi um dos oito projetos ganhadores do Prêmio Mário Covas, da Fundação Mário Covas, competindo com 250 iniciativas. Venceu na categoria “Inovação na Gestão Pública” para uso das tecnologias de informação e comunicação.



