Todos os dias da criança

Em vez de fazer contribuições para projetos sociais, é cada vez mais comum uma nova forma de ajudar instituições de caridade: o apadrinhamento de crianças

Em vez de fazer contribuições para projetos sociais, é cada vez mais comum uma nova forma de ajudar instituições de caridade: o apadrinhamento de crianças

Por Thaluana Marum

Esta época do ano, entre o Dia das Crianças e o Natal, é um período muito movimentado para os voluntários de instituições assistenciais. Muitas das pessoas que costumam colaborar com essas entidades fazem uma doação mensal e, neste período, completam a contribuição com presentes, em sua maioria para crianças carentes.

Mas o que muita gente não sabe é que há uma forma de colaborar que aproxima quem ajuda de quem necessita. É o chamado apadrinhamento, no qual a pessoa que colabora financia um projeto de inclusão social, mas faz isso por meio de uma determinada criança. Ou seja, as pessoas escolhem uma criança para apadrinhar, fazem uma contribuição em nome desse menino ou menina e, em contrapartida, têm o direito de trocar correspondências, receber relatórios anuais sobre o desenvolvimento da criança e, eventualmente, até conhecê-la.

“A grande vantagem de um programa de apadrinhamento (e os doadores gostam disso) é que, embora eles saibam que estão doando para projetos em uma comunidade, eles estabelecem contato pessoal com um indivíduo, com uma criança que está sendo atendida. O doador consegue mensurar o resultado do seu investimento de maneira muito mais clara e consegue saber de forma muito mais tangível o que está acontecendo naquela comunidade por meio da vida de uma criança”, esclarece o diretor de relações institucionais da ONG Visão Mundial, Ronaldo Martins.


Financiamento garantido

A Visão Mundial é uma das organizações que trabalha com a idéia de desenvolvimento regional sustentável. Fundada no Brasil em 1975, a ONG - que realiza projetos em quase 100 países - percebeu que concretizar essa ação por meio das crianças é uma forma não só de buscar o sucesso permanente da empreitada, como também de garantir a tão escassa entrada de recursos.

“Sabemos que é muito importante receber recursos das empresas e do governo. Mas esses recursos não são sustentáveis. Nossa experiência mostra que o indivíduo tem um compromisso. Quando ele acredita na organização e decide apadrinhar uma criança, permanece conosco vários anos fazendo sua contribuição mensal. Dessa forma, a Visão Mundial pode fazer um planejamento de longo prazo. Podemos fazer um orçamento que garante o desenvolvimento do projeto por um período maior”, explica Martins.

A dona de casa Maria Alice Zucchi Lopes é uma dessas colaboradoras que comprovam as palavras do diretor da Visão Mundial. Contribuindo com a instituição há 8 anos, atualmente ela apadrinha uma menina em São Paulo e outra em Tocantins. Mas, apesar de contribuir mensalmente com outras oito entidades assistenciais - como as Casas André Luiz e o Instituo do Câncer -, Maria Alice diz que a Visão Mundial é sua favorita. “O que eu gosto mesmo é de apadrinhar a criança. Quando você ajuda uma entidade, você ajuda um monte de gente, mas não tem uma carinha ali para saber para quem vai o dinheiro. Na Visão Mundial, eu acho bacana ter a criança. Acho inclusive que vou começar a diminuir minha doação para tantas entidades, pois acabo perdendo o controle do que está sendo feito”, comenta.


Resultado comprovado

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Uma das carinhas citadas por Maria Alice é de Nádia Alves dos Santos. Moradora de Ermelino Matarazo, na zona leste de São Paulo, a adolescente de 15 anos não é de falar muito, mas demonstra ser muito agradecida pelo apoio recebido nos últimos oito anos. “Minha madrinha me dá presentes, me ajuda no que eu preciso, me dá roupas, material escolar, paga meu aparelho e o tratamento odontológico que faço. Eu queria falar para a Maria Alice que gostei muito por ela ter me escolhido como afilhada”, diz Nádia, timidamente.

E, pelos resultados de Nádia, dá para concluir que o apoio de Maria Alice para o seu desenvolvimento foi essencial. Isso porquê, apesar de ser de uma família carente, Nádia não só está com os estudos em dia (cursa o 1º ano do Ensino Médio), como também sonha em fazer uma faculdade. “Eu quero estudar Administração ou alguma coisa relacionada a RH, pois são áreas que têm bastante emprego”, fala de forma segura a jovem.

Entretanto, além do apoio material, existe também a troca de experiências e informações que acontecem por meio do apadrinhamento. “A criança apadrinhada pode acabar criando um vínculo com uma família, com algum adulto que pode passar alguns ensinamentos para ela. Nesse sentido, o relacionamento entre padrinhos e afilhados também pode ser benéfico para a criança, que pode aprender, pode treinar”, explica a professora do curso de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo, Angélica Capelari. “Até do ponto de vista acadêmico e pedagógico essa relação pode ser importante, pois a maior parte das instituições incentivam a comunicação entre crianças e padrinhos por meio de cartas, estimulando assim a escrita e a leitura”, explica.


Mão dupla

Nesse relacionamento, não são só os jovens carentes que parecem agradecidos com a oportunidade. Na maioria das vezes, são os apadrinhadores que dizem ser as pessoas que mais ganham com essa relação. “É uma alegria imensa poder contribuir com um projeto como esse. Eu tenho muita satisfação em ajudar. Adoro encontrar as meninas e receber cartas delas. Dá muita alegria pessoal”, exprime a madrinha Maria Alice.

A professora de Psicologia da Metodista acredita que existem vários sentimentos e sensações que estão acopladas e ocorrendo ao mesmo tempo nas pessoas que fazem esse tipo de prática. “Aqueles que participam de projetos de apadrinhamento acabam sendo beneficiados em participar, pois têm uma sensação de bem-estar, de contribuir de alguma forma para uma boa causa social, para diminuição da desigualdade social no mundo - ou pelo menos no Brasil. Isso dá essa sensação de altruísmo, de contribuir para o bem alheio, de uma prestação de serviço e de caridade muito interessante”, exemplifica Angélica Capelari.

Entretanto, a psicóloga alerta para um risco que pode acontecer nesse tipo de relacionamento. “O grande problema é que existe o risco de um vínculo fantasioso da criança, que pode misturar as estações e acreditar que encontrou uma família ideal, quando, na verdade, o intuito não é esse. Então a própria criança pode acabar extrapolando a relação”.

Para evitar que isso aconteça, a Visão Mundial tem uma norma de não promover nem permitir adoção ou a ida das crianças para a casa de seus padrinhos ou madrinhas. “As crianças vivem com suas famílias e, na grande maioria das vezes, em condições não muito boas. Seria um choque em potencial para a criança ser levada para uma outra realidade e depois ter que voltar para sua rotina”, explica Ronaldo Martins. As palavras do diretor da Visão Mundial encontram eco nas de Angélica Capelari. “É complicado ao mesmo tempo para a criança e para a família que está apadrinhando seguir essa regra. A instituição muitas vezes tem que controlar para que ninguém burle isso, o que pode acabar acontecendo não por maldade, nas por uma questão de carinho realmente”.