Papa concede perdão para o aborto e cria Dia Mundial dos Pobres. Qual é o alcance deste gesto?

Por John L. Allen Jr., em Crux,  20 nov. 2016. Tradução por Isaque Gomes Correa

Em um documento concluindo o Ano Santo da Misericórdia, o Papa Francisco ampliou indefinidamente a permissão especial aos sacerdotes de perdoar as mulheres e outros envolvidos em casos de aborto, bem como a permissão a fiéis de receberem o perdão de membros de um grupo tradicionalista separatista.

O pontífice também fez com que um dia no calendário litúrgico da Igreja Católica, que normalmente cai em novembro, seja observado como o “Dia Mundial dos Pobres”.

“Será um Dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro” – nome dado por Jesus a um pobre numa das suas parábolas – “jazer à porta da nossa casa. Além disso este Dia constituirá uma forma genuína de nova evangelização”.

“Concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto”, escreveu o papa.

“Quero reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente”, continuou.

“Mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai”.

Quanto aos membros da fraternidade tradicionalista, Francisco foi igualmente insistente no tocante à primazia da misericórdia e do perdão dos pecados.

“Para o benefício destes fiéis, e confiando na boa vontade de seus sacerdotes no esforço com a ajuda de Deus para recuperar a plena comunhão, decidi pessoalmente estender essa faculdade para além do Ano Jubilar, até que provisões posteriores sejam feitas, de forma que ninguém mais seja privado do sinal sacramental da reconciliação através do perdão da Igreja”, escreveu.

Esta referência destina-se à Fraternidade de São Pio X, fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, que rompeu com Roma no rescaldo do Concílio Vaticano II (1962-1965) com base numa variedade de assuntos, incluindo a modernização litúrgica e o diálogo ecumênico e inter-religioso.

Ambas as provisões, para o perdão do aborto e para a validade das confissões a sacerdotes tradicionalistas, foram originalmente feitas por Francisco no início do Jubileu, mas aí só eram válidas para o período do ano jubilar em si.

A concessão no caso do aborto tem pouco efeito prático em lugares como os Estados Unidos, onde muitos bispos já autorizaram sacerdotes a perdoarem este pecado, mas simbolicamente essa concessão deverá ser interpretada como um grande gesto às mulheres e outros que se envolveram naquilo que Francisco descreveu, no domingo, como um “crime hediondo” e um “pecado muito grave”.

O documento em que estas disposições foram apresentadas, intitulado Misericordia et miseria (“Misericórdia e miséria”), foi assinado por Francisco no final de uma missa que marcava o encerramento do Ano Jubilar no domingo. O texto foi apresentado pelo Vaticano em uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira, dia 21.

O pontífice começou o ano jubilar em 08-12-2015, dia da Imaculada Conceição, e terminou em 20 de novembro, na festa de Cristo Rei.

Muito embora alguns tenham achado excessiva a ênfase de Francisco à misericórdia, o líder católico também salientou no documento que o perdão é a essência do amor divino.

“É por este motivo que nenhum de nós pode pôr condições à misericórdia; esta permanece sempre um ato de gratuidade do Pai celeste, um amor incondicional e não merecido”, escreveu.

“Por isso, não podemos correr o risco de nos opor à plena liberdade do amor com que Deus entra na vida de cada pessoa”, completou.

Também Francisco rejeitou a ideia de que a sua ênfase na misericórdia etária em desacordo com a proclamação tradicional da lei divina por parte da Igreja.

“Permanecendo apenas ao nível da lei é equivalente a Contrariando fé e misericórdia divina”, disse no documento.

“Deter-se apenas na lei equivale a invalidar a fé e a misericórdia divina”, declarou o pontífice.

“Mesmo nos casos mais complexos, onde se é tentado a fazer prevalecer uma justiça que deriva apenas das normas, deve-se crer na força que brota da graça divina”, escreveu.

Francisco disse que demonstrar compaixão pelo sofrimento é uma forma especial de misericórdia, forma que deve se estender para além do encerramento formal do Ano Santo.

“Enxugar as lágrimas é uma ação concreta que rompe o círculo de solidão onde muitas vezes se fica encerrado”, escreveu.

“Uma palavra que anima, um abraço que te faz sentir compreendido, uma carícia que deixa perceber o amor, uma oração que permite ser mais forte… são todas expressões da proximidade de Deus através da consolação oferecida pelos irmãos”, disse.

O pontífice não abordou diretamente a polêmica surgida o ano passado em torno do documento sobre a família intitulado Amoris Laetitia, e suas provisões que aparentemente abriam as portas para um retorno à Comunhão aos fiéis divorciados e casado novamente no civil.

Indiretamente, no entanto, argumentou que as pessoas em situações familiares difíceis têm uma necessidade especial da misericórdia divina.

“Por isso, este Ano Jubilar não pode perder de vista a complexidade da realidade familiar atual”, escreveu. “A experiência da misericórdia torna-nos capazes de encarar todas as dificuldades humanas com a atitude do amor de Deus, que não Se cansa de acolher e acompanhar”.

Em geral, o papa sugeriu que o sofrimento e a patologia do século XXI ilustram a necessidade de um renascer da apreciação pela virtude tradicional da misericórdia.

“Multidões de pessoas continuam a emigrar dum país para outro à procura de alimento, trabalho, casa e paz. A doença, nas suas várias formas, é um motivo permanente de aflição que requer ajuda, consolação e apoio. Os estabelecimentos prisionais são lugares onde muitas vezes, à pena restritiva da liberdade, se juntam transtornos por vezes graves devido às condições desumanas de vida”, declarou.

“O analfabetismo ainda é muito difuso, impedindo aos meninos e meninas de se formarem, expondo-os a novas formas de escravidão”, refletiu o papa. “A cultura do individualismo exacerbado, sobretudo no Ocidente, leva a perder o sentido de solidariedade e responsabilidade para com os outros”.

Em um outro trecho da carta apostólica, ele aprofundou este tema.

“Não ter trabalho nem receber um salário justo, não poder ter uma casa ou uma terra onde habitar, ser discriminados pela fé, a raça, a posição social… estas e muitas outras são condições que atentam contra a dignidade da pessoa”, disse Francisco.

“Frente a elas, a ação misericordiosa dos cristãos responde, antes de mais nada, com a vigilância e a solidariedade”, falou.

“O mundo continua a gerar novas formas de pobreza espiritual e material, que comprometem a dignidade das pessoas”, afirmou o papa. “É por isso que a Igreja deve permanecer vigilante e pronta para individuar novas obras de misericórdia e implementá-las com generosidade e entusiasmo”.

A menos que o Papa Francisco ou um futuro papa decida algo diferente, o próximo Ano Jubilar deverá ser celebrado em 2025.

Fonte: IHU On Line

O papa e o aborto: qual o alcance dos gestos do líder católico

 

O papa Francisco estendeu a todos os padres o direito de perdoar pessoas que fizeram um aborto. A decisão, publicada na segunda (21) pelo Vaticano na carta apostólica “Misericordia et Misera”, tornou permanente um aceno feito pelo líder da Igreja Católica em 2015. Até então, apenas bispos estavam autorizados a conceder o perdão à interrupção da gravidez, prática considerada um “grave pecado” pela Igreja.

Vista por alguns como mais um sinal de um papado progressista, que pretende tornar a Igreja Católica mais inclusiva, a permissão ainda frustra católicos mais liberais, para quem a concessão do perdão está longe de apontar para uma mudança real.

“Não há pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e apagar quando encontrar um coração arrependido buscando se reconciliar com o Pai”.

 

O que diz a Igreja sobre o aborto

Segundo a lei canônica, pessoas envolvidas em um aborto – seja a mãe, médico ou enfermeiro que participam da operação – devem ser excomungadas (excluído da comunidade católica), a não ser que confessem e recebam absolvição. Até então, porém, essa absolvição só podia ser concedida por um bispo, ou por um padre que tivesse recebido a autoridade de um bispo para tanto.

Em dezembro de 2015, o papa autorizou temporariamente padres de paróquias a também conceder o perdão, como parte do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

O Jubileu é um ano especial no calendário da Igreja, dedicado à remissão dos pecados e de suas penitências. Nesse período, o papa concede indulgência plena aos fiéis que se deslocam até Roma.

O último Jubileu aconteceu em 2000, durante o papado de João Paulo 2º. O próximo, segundo o calendário católico, deveria ser em 2025, mas o papa Francisco decidiu realizar um Jubileu Extraordinário antes disso. O ano decorreu de 8 de dezembro de 2015 até 20 de novembro de 2016.

A mudança tem um teor simbólico, principalmente em lugares como os Estados Unidos, onde bispos comumente já delegavam padres com a função. Para alguns analistas, é uma forma de diminuir a “burocracia” católica que afasta muitas pessoas da religião.

Não há mudança de doutrina

A decisão se insere no projeto do papa Francisco de tornar a Igreja um lugar mais inclusivo. A permissão para conceder o perdão, no entanto, opera mais na lógica da “misericórdia pastoral” do que na de abertura e mudança da antiga doutrina católica (conjunto de verdades e crenças da religião). Ou seja, os valores da Igreja em relação à família permanecem os mesmos. Especialistas dizem que este era um entendimento da lei católica já interpretado por João Paulo 2º – de certa forma, Francisco apenas aprofunda esse projeto.

O mesmo vale para outras decisões e discursos feitos pelo pontífice. Em 2015, o papa afirmou que todas as pessoas, independente da orientação sexual, deveriam ser tratadas com respeito. Ainda assim, uniões e casamentos homossexuais permanecem não sendo aceitos pela Igreja.

“Não há nenhum embasamento para considerar uniões homossexuais semelhantes ou análogas aos planos de Deus para o casamento e para a família.”

 

Em abril de 2016, o papa publicou o documento sobre os valores católicos considerado mais polêmico até agora. No chamado “Amoris Laetitia”, ele permitia a comunhão a pessoas divorciadas que voltaram a se casar, mas mediante um longo processo de acompanhamento de um padre.

“O escopo de ‘Amoris Laetitia’ é típico de Francisco: uma vasta combinação de passagens bíblicas, meditações sobre o amor marital, conselhos caseiros sobre costumes familiares, passagens lastimando a solidão frenética da vida moderna e um chamado para que famílias se aproximem da Igreja e vice-versa.”

 

Enquanto as declarações do papa ainda frustram católicos liberais, sofrem reações dos mais conservadores, para quem as medidas vão longe demais. Em setembro, quatro cardeais enviaram uma carta ao papa questionando a “Amoris Laetitia”. A carta foi posteriormente tornada pública, mas Francisco não respondeu.

Fonte: Nexo

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