Eleições presidenciais no Quênia. Entrevista com o jesuíta integrante da equipe de observadores eleitorais

Eleições presidenciais no Quênia. Entrevista com o jesuíta integrante da equipe de observadores eleitorais

Chegou ao Quênia, no dia 03 de agosto, o Padre Leonard Chiti, diretor do Centro Jesuíta para a Reflexão Teológica e novo provincial da Província Zâmbia-Malauí, para integrar a equipe de observadores eleitorais das próximas eleições gerais desta terça-feira, 08 de agosto de 2017. O presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, está concorrendo à reeleição com outros sete adversários, sendo o ex-primeiro ministro Raila Odinga o mais destacado deles. Milhares de outros candidatos disputam cargos como os de senadores, governadores, membros do Parlamento, membros das assembleias de condado e representantes das mulheres.

A entrevista a seguir, reproduzida pelo Setor do Apostolado Social Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina – CPAL, 07-08-2017, foi feita pela equipe da JESAM (Jesuit Superiors of Africa and Madagascar) com o Padre Leonard Chiti, diretor do Centro Jesuíta para Reflexões Teológicas e coordenador da Rede de Defesa Global Inaciana, sobre seu papel nas próximas eleições no Quênia.

A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Bem vindo a Nairobi, Padre Chiti. Qual é o seu papel de observador eleitoral; neste caso, as próximas eleições do Quênia?

Obrigado. Como você sabe, o Quênia vai às urnas nesta terça-feira, 08 de agosto de 2017. Estas eleições provocaram um interesse muito grande em todo o mundo. No contexto da África, a vigilância eleitoral transformou-se em prática padrão. Como é de se esperar, há uma equipe de observadores eleitorais internacionais que está vindo ao Quênia.

A ideia básica é observar e monitorar as eleições com a finalidade de contribuir para um resultado que seja aceitável para todos. Cada um dos observadores estará trabalhando para que os preparativos sejam adequados; para que se levem em conta todas as preocupações de todas as partes interessadas, desde atores políticos até cidadãos comuns, de maneira que ao final do dia os resultados sejam propriedade de todos.

Assim, parte do mandato dos observadores eleitorais é observar como estão os preparativos, vigiar a votação em si no dia da eleição desde o momento em que as urnas são abertas até o seu fechamento e, em alguns casos onde isso é possível, acompanhar a contagem dos votos nos centros escolhidos com essa finalidade e também a declaração dos resultados.

Parece muito envolvente. Você está observando como indivíduo ou como parte de uma equipe?

Bom, faço parte de uma equipe patrocinada pelo Instituto Democrático Nacional dos Estados Unidos da América, uma organização não governamental de renome que tem estado envolvida na promoção da boa governança em todo o mundo. Nesta perspectiva, o Instituto Democrático Nacional me escolheu para ser uma das 30 pessoas de diversos países que faremos parte da equipe de observadores eleitorais aqui no Quênia. O Instituto Democrático Nacional também apoiou a observação na Zâmbia.

Por que o Instituto Democrático Nacional o escolheu para este processo?

A razão pela qual fui incluído nesta equipe é porque eu fui uma das pessoas centrais que exerceu papel semelhante do ponto de vista interno na Zâmbia, no ano passado. Observamos as nossas próprias eleições e eu fiz parte de dois grupos da sociedade civil, liderando uma equipe e, além disso, fazendo parte da equipe do outro grupo. Como já mencionei anteriormente, fiz parte de uma organização baseada na fé que fez o monitoramento das eleições na Zâmbia no ano passado, e o Instituto Democrático Nacional foi um dos nossos principais parceiros. Por isso me trouxeram para cá.

Qual é o papel que vai desempenhar aqui?

Em termos gerais, eu estarei observando os preparativos para as eleições, a votação em si e o subsequente processo eleitoral. Também se espera que, além disso, eu elabore um relatório. Outro aspecto do exercício é que seremos transferidos para outras regiões do país… eu ainda não sei para onde vou, mas seremos informados sobre isso no seu devido tempo. Como equipe, também vamos nos reunir amanhã [05 de agosto passado] com vários interessados de grupos da sociedade civil, do governo e de outras partes interessadas.

Quem faz parte da equipe de observadores do Instituto Democrático Nacional?

A equipe do Instituto Democrático Nacional é liderada por um ex-comissionado de assuntos políticos da União Africana. Outros membros proeminentes do grupo incluem um congressista estadunidense e funcionários do Instituto Democrático Nacional. Temos também uma série de destacados líderes da sociedade civil de todo o continente. É uma delegação muito forte que começou a chegar aqui ao Quênia desde ontem [quinta-feira da semana passada].

Do ponto de vista jesuíta, como se sente ao fazer parte de um processo tão vigoroso?

Eu penso que para mim, como jesuíta, é outra oportunidade para contribuir com a nossa missão. Como você sabe, há 40 anos, como jesuítas, definimos a nossa missão como serviço da fé, da qual a promoção da justiça é um aspecto integral disso. Neste caso, falamos de assegurar que os quenianos estejam organizados e participem de um exercício que promova a paz, melhore os sistemas e práticas de governo e que culmine na eleição de líderes que os quenianos mesmos acreditem e confiem que vão fazer avançar este país rumo a um futuro melhor.

Eu penso que, mesmo antes de chegar aqui e também do que já aprendi desde a minha chegada, esta será uma eleição muito competitiva. Acho que é mais uma razão para que qualquer pessoa que tenha um papel a desempenhar faça o melhor possível para melhorar a integridade, a credibilidade, a transparência, a liberdade e a imparcialidade das eleições. É por isso que um dos meus papéis aqui é juntar a minha voz e a voz de outros de fora do Quênia para declarar as eleições livres e justas, transparentes e confiáveis; porque, finalmente, o destino deste país nos próximos cinco anos, mais ou menos, descansará em se os quenianos mesmos façam ou não uma eleição que eles mesmos acreditam que expresse a vontade da população.

A vontade do povo é fundamental. Como você ouviu, às vezes, a voz do povo pode ser a voz de Deus. Como cristão, como jesuíta, espero que possamos acrescentar uma dimensão profética a este exercício, tratando de discernir em qual direção Deus quer que o povo do Quênia se mova.

Como isto é significativo para a Companhia de Jesus como um todo?

Como Companhia de Jesus na África, deveríamos estar agradecidos por ter uma oportunidade como esta, porque a organização que me trouxe aqui não tem nada a ver com os jesuítas; é uma organização secular e não governamental que reconhece o importante trabalho que os jesuítas fizeram na Zâmbia através do Centro Jesuíta para Reflexões Teológicas e creio que podemos estender este reconhecimento ao trabalho da Companhia de Jesus na África através da Conferência de Superiores Maiores Jesuítas da África e Madagascar (JESAM). Então, devemos nos congratular com esta oportunidade, porque eu penso que justifica e confirma a nossa missão como jesuítas, que não estamos limitados apenas ao âmbito sacramental e litúrgico, mas que nos relacionamos com outros assuntos importantes, nacionais e internacionais.

Alguma observação final para os jesuítas na África e Madagascar?

Eu penso que podemos contribuir e agregar valor a outras esferas de nossas vidas, em particular às esferas política e de governança. De maneira que, nesse sentido, como jesuíta que sou, creio que me sinto muito honrado de me sentir como se estivesse carregando a bandeira… a bandeira jesuíta nesta eleição. Estou realmente ansioso para participar deste exercício e espero que, como jesuítas, no futuro, vamos olhar para este exercício e dizer que fizemos uma contribuição muito modesta e humilde ao fazer parte de uma comunidade internacional que esteve no Quênia para se certificar de que, ao final do exercício, a vontade do povo prevaleceu.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

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