História da Religião e da Bíblia: Interpretação do Apocalipse pela História Comparada das religiões

Prof. Dr. Paulo Augusto de Souza Nogueira

I – Ementa

Estudo de tópicos da história da religião na Bíblia.

II – Ementa específica

O Apocalipse de João, apesar de se auto-intitular como “revelação” e de ser compreendido pelo leitor comum como provindo de um processo de revelação divina, é resultado de processos literários – provavelmente motivado por experiências visionárias – que recebem e recriam tradições anteriores. Estas tradições provêm do mundo religioso judaico, em especial da profecia bíblica e de textos da apocalíptica judaica. Mas o processo de recepção segue normas próprias, distintas da apropiação exegética de textos. Uma das formas da releitura dos apocalipses antigos é a recriação de um conjunto de imagens e tópoi que serão transformados pelo profeta João em seu novo contexto. Neste curso leremos blocos de textos da apocalíptica, sublinharemos seus temas e imagens centrais, observaremos seus gêneros literários e linguagem específica para depois perguntarmos como estes são adaptados e recriados no Apocalipse de João. Desta forma esperamos compreender o Apocalipse de João como uma rede de diferentes influências, como resultado de um longo diálogo com textos e imagens provindas de textos, mesmo que alguns possam ter sido conhecidos apenas oralmente. Esta reflexão poderá nos inserir na aventura de entrar no complexo universo da criação de textos apocalípticos e seus temas principais como:

  1. a coorte celeste e o trono de Deus;
  2. as batalhas, inimigos e pragas escatológicas;
  3. o messias e seu adversário;
  4. a interpretação da existência humana como uma aventura perigosa e sujeita a ameaças.

Analisar como tradições religiosas judaicas se adaptam em novas produções literárias do cristianismo nascente na diáspora (Ásia Menor) nos permitirá observar as continuidades e transições das crenças apocalípticas no judaísmo e no cristianismo. O Apocalipse de João carrega em si a contradição de ser uma das obras do Novo Testamento mais devedoras à “biblioteca” pseudepigráfica, mas também aquela que faz articulações cristológicas em símbolos tradicionais.

III – Objetivos

  1. Refletir sobre o processo de criação de textos apocalípticos, em especial no Apocalipse de João, como recriação e adaptação de textos e imagens de textos. Isto nos ajudará a compreender melhor o papel do autor e das influências exercidas sobre ele no Novo Testamento. Nos permitirá também demitizar a idéia de canônico e de uso de tradição no sentido da exegese convencional.

2. Exercitar o método da co mparação religiosa de textos e do levantamento de campos semânticos.

  1. Apresentar um panorama das principais temáticas da literatura apocalíptica e a forma como são desenvolvidas no Apocalipse de João.

IV – Programa

Blocos de sessões

1. Introdução ao curso.

O Apocalipse de João como recepção de textos e impulsionador da criação de textos. A apocalíptica como literatura. Literatura e oralidade no Judaísmo antigo. A literatura do Segundo Templo como lente para recepção do Antigo Testamento entre os primeiros cristãos. Precedência do imagético ao teológico na recriação dos textos.

Leitura e discussão de:

  • Rowland, Ch. Imaginig the Apocalypse. NTS 51 (2005), p. 303-327
  • Stone, M. A Reconsideration of Apocalyptic Visions. HTR 96:2 (2003), p. 167-180
  • Pippin, T. The Heroine and the Hore: Fantasy and the Female in the Apocalypse of John. Semeia 48 [aqui numa versão de 1992].

2. O método da história comparada das religiões e da psicologia histórica.

Como textos adaptam e inovam tradições religiosas. O critério semântico de avaliação de influência. A hipótese da transmissão em grupos religiosos. Como ler textos religiosos antigos. As primeiras perguntas.

3. O pressuposto: O Mito dos Vigilantes (3 sessões)

Temas: O imaginário dualista e sua narração fundante. A origem do mal e seus desdobramentos: violência, opressão, sexualidade, conhecimento. A santidade celeste. A ameaça dos demônios. A necessidade ou possibilidade de intercessão. Textos: 1 Enoque 6,1-14,7; Jubileus 5,1-11 e 10,1-14; 2 Enoque 7,1-13

4. O método: A ascensão visionária da alma aos céus (3 sessões)

Temas: A corte diante do trono e do deus antropo- e basileomórfico. O céu como Templo e o culto ali oferecido. O visionário como intermediário. A inter-relação entre visão, revelação e o culto. A perspectiva hermenêutica de inversão do poder. Textos: 1 Enoque 14, 8-25; 2 Enoque, 3,1-9,23; Apocalipse de Abraão 9,1-19,9; Ascensão de Isaías 6,1-11,33; 4Q491c.

5. O cenário: O mundo como palco de combate, o martírio como existência e o juízo como desfecho (5 sessões)

Temas: O mito de combate. Forças do caos versus criação e salvação. A luta entre anjos e demônios nos céus. Integração entre política e ecologia. O messias. Testemunho como morte. A idéia do juízo como violência final. Os reinos e os períodos do fim. As obras e a face do Anticristo. Textos: 1 Enoque 37-71 (trechos do Livro das Similitudes); o Apocalipse de Elias; Daniel 7; Oráculos Sibilinos livros 5 e 8; Quarto Livro de Esdras 11,1-12,51 (visão da águia) e 13,1-14,58 (visão do homem que emerge do mar); 1QS Col.III,13 – IV,26.

6. A seqüência: O Apocalipse de João como criador de escola apocalíptica.

Temas: Recepção e influência do Apocalipse de João. Releituras da igreja antiga. Descida aos infernos e descrições do Anticristo. Textos: Segundo Apocalipse de João, Terceiro Apocalipse de João, Apocalipse de São João Crisóstomo, Apocalipse Cópto de João.

V – Avaliação

A avaliação consistirá de: a) uma atividade de análise de texto ou resenha para apresentação junto com o docente nos seminários; b) redação dissertativa sobre problemas e aspectos específicos relativos à influência e recriação de textos apocalípticos e o Apocalipse de João.

VI – Bibliografia

Charlesworth, J. H. The Old Testament Pseudepigrapha. 2 vols. New York: Doubleday, 1983-1985.

Collins, J.J. The Apocalyptic Imagination. An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature. Michigan: Eerdmans, 1998 (2nd ed.).

Court, J. M. The Book of Revelation and the Apocalyptic Tradition. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2000.

Díez Macho, A. & Piñero Sáenz, A. Apócrifos Del Antiguo Testamento. 5 vols. Madrid: Cristiandad, 2002 (2ª. Ed.).

García Martinez, F. & Tigchelaar, E. J. C. (edited and translated by) The Dead Sea Scrolls. Study Edition. 2 vols. Leiden: Brill, 1997.

Nickelsburg, G. W. E. Jewish Literature between the Bible and the Mishnah. A Historical and Literary Introduction. Philadelphia: Fortress Press, 2005 (2nd ed.).

Nogueira, P. A. S. (ed.) Religião de Visionários. Apocalíptica e Misticismo no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Loyola, 2005.

Proença, E. Apócrifos e Pseudepígrafos da Bíblia. São Paulo: Fonte Editorial, 2005.

Rost, L. Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos do Antigo testamento e aos Manuscritos do Mar Morto. São Paulo: Paulinas, 1980.

Schneemelcher, W. Neutestamentliche Apocryphen. 2 Bde. Tübingen: J. C. B. Mohr, 1987-1989 (5. Aufl.). [há uma edição em inglês na Biblioteca Ecumênica]

Stone, M. E. Jewish Writings of the Second Temple Period. Apocrypha, Pseudepigrapha, Quran Sectarian Writings, Philo, Josephus. Assen / Philadelphia: Van Gorcum / Fortress Press, 1984.

The Anchor Bible Dictionary, 6 vols. New York: Doubleday, 1992. (oferece verbetes para todos os escritos pseudepigráficos)

VII – Recursos eletrônicos

Paralelos pseudepigráficos http://www.uni-leipzig.de/~nt/asp/links.htm#start

Informações sobre publicações de pseudepígrafos: http://paleojudaica.blogspot.com/

Pseudepígrafos on line: http://ocp.acadiau.ca/

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