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O Folclore como sistema de comunicação popular*

Luiz Beltrão

Em novembro de 1972, conforme a edição em português do boletim da Fundação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), deveria realizar-se , em Londres, promovido pelo movimento e a pedido da UNESCO, um encontro de “vinte e dois peritos em comunicação do folclore”, entre os quais “antropólogos, estudiosos de folclore e funcionários encarregados de programas importantes e ampla experiência na aplicação social dos meios folclóricos”. Constava da agenda da reunião, entre outros, os seguintes objetivos:

  1. a identificação dos meios de comunicação do folclore ( inclusive literatura oral, artes visuais e representativas usadas no desenvolvimento social, com referência ao planejamento familiar; b) um estudo dos aspectos culturais, sociológicos e práticos do emprego do folclore para fins de planejamento familiar; c) a extensão dos meios folclóricos através dos meios de comunicação (de massa); d) instrução e orientação para o emprego dos meios folclóricos...

Ao nosso ver, essa convocatória e esse encontro (cujos resultados ignoramos porque foram baldados os nossos esforços para receber informações do IPPF e da própria UNESCO, por meio de correspondência postal) abrem novas perspectivas à ampliação dos estudos e pesquisas de folkcomunicação, denominação que cunhávamos e sistema que definíamos em tese de doutoramento apresentada à Universidade de Brasília em 1967, e mais tarde difundíamos em livro (“Comunicação e Folclore – São Paulo, Melhoramentos, 1971) como o intercâmbio de mensagens culturais,a a expressão de idéias e informações dos públicos marginalizados rurais e urbanos, utilizando meios ligados direta ou indiretamente ao folclore.

Esses públicos, constituídos de minorias alienadas de processus desenvolvimentista econômico e cultural da sociedade envolvente e, por vezes mesmo em conflito com as forças que a compõem e mantêm, compreendem:

  • Conferência proferida no I Encontro de Folclore da Paraíba (Pombal, 1976). In: Documento NUPPO, Ano I, N. 3, João Pessoa: UFPB, 1979

Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 10 n.10, 81-85, jan/dez. 2006

  1. Grupos rurais intelectual, econômica e geograficamente marginalizada. (Foram os que pesquisamos para a aludida tese) Habitantes, de áreas isoladas, carentes de energia elétrica, vias de transporte eficientes e meios de comunicação modernos, sub-informados, desassistidos pelas instituições propulsoras da evolução social e das metas de desenvolvimento perseguidas pelas classes dirigentes do País, se constituem de indivíduos analfabetos ou semialfabetizados, de baixíssima renda per capita e cuja cultura está fundamentada em crenças e hábitos arraigados e tradicionais. Por isso, o intercâmbio de informações e a expressão de opiniões, idéias e atitudes desses públicos se fazem através de agentes e meios ligados diretamente ou indiretamente ao folclore.

Utilizam-se, preferentemente, de canais interpessoais diretos: as conversas, os relatos e desafios em verso, os pregões e as pregações, a canção popular, os autos e representações dramáticas e folclóricas, as cerimônias e festas do calendário religioso. No entanto, alguns canais indiretos são empregados, destacando-se as inscrições, gravuras e pinturas, os folhetos de cordel, os almanaques e “folhinhas”, produtos artesanais como bonecos de barro, ex-votos, bentos e medalhas, fitas, velas e estandartes. A composição e impressão de folhetos, volantes, pequenos jornais e revistas é tipográfica, de caixa e manual; as técnicas artesanais são as mais primitivas. Quando utilizam produtos de progresso técnico para a comunicação, a preferência é pelo mais simples como serviços de alto-falantes com fios, em lugar de radioemissoras ou fotografias de máquinas de caixão, muitas vezes fabricadas ou adaptadas pelos próprios operadores, conhecidos como lambe-lambe.

Dado que o universo vocabular desses grupos é reduzido e particularíssimo, não são capazes ou dificilmente decodificam mensagens acaso recebidas pelo rádio (embora hajam vulgarisado os transistores), pelo cinema e, mas raramente, pela televisão, quando a linguagem desses meios foge à linearidade ou alcança um certo grau de preciosismo simbolista. Dessas peculiaridades estão perfeitamente conscientes os agentes produtores das mensagens de folkcomunicação, que são aqueles líderes de opinião, identificados nas pesquisas e estudos LAZARSFELD, BERELSON, KATZ e outros teóricos da comunicação de massa, e que não são, fatalmente, em uma pequena comunidade interiorana o vigário ou o chefe político. Esse líder-comunicador de folk, cantador, poeta de cordel, ceramista, etc.) tem, geralmente, uma situação social idêntica à dos seus liderados (audiência de folk), coma mesma vivência: ocupa uma posição de competência em determinada área de ação; é um extrovertido, não se isola e é muito relacionado e apreciado no meio; realiza freqüentes visitas a outros lugares, tendo assim acesso a fontes de informação que a sua audiência, sedentária, não conhece; está mais exposto do que o seu público aos meios de comunicação de massa e, finalmente, tem habilidade em re-codificar a mensagem de modo a ser por ele entendida. O seu estilo se caracteriza pela simplicidade, ordem direta, imagens facilmente identificáveis, linhas e contornos definidos, redundância, vocabulários e sintaxes acessíveis a mentalidade pouco dadas a aventuras do espírito.

(No diagrama anexo, damos uma idéia do processo da folkcomunicação, a partir das teorias do fluxo de comunicação em dois e em múltiplos estágios e dos estudos de KLAPPER e DUMAZEDIER, segundo os quais a mensagem da comunicação de massa se atomiza e, por diversos motivos, entre os quais o grau de credibilidade que merece o emissor, não provoca resultados senão por intermédio do líder de opinião, que a recebe, traduz e emite pelos meios de comunicação de folk (canais específicos) à sua audiência).

  1. Grupos urbanos socialmente marginalizados. De composição diversificada, a maioria tem sua característica no reduzido poder aquisitivo de sua renda econômica. Por isso, habitam favelas e bairros periféricos das cidades em barracos ou mocambos, começam a trabalhar ainda crianças e mal freqüentem a escola primária, são subnutridos e desconhecem comodidades e facilidades que gozam as demais parcelas da comunidade urbana.

Embora seu universo vocabular seja mais amplo, pesquisas realizadas através de seus cursos de comunicação e instituto de opinião pública no exterior e no País, entre as quais destacamos a promovida pelo Prof. Mário L. Erbolato com seus alunos da universidade Católica de Campinas, SP, comprovam sua reduzida capacidade de decodificação das mensagens elaboradas na linguagem da imprensa e do rádio, canais a eles mais acessíveis do sistema de comunicação social, já que, por motivo econômico não freqüentam cinema e poucos são telespectadores.

Além dos meios de que se valem os grupos rurais para receber mensagens de fora, demonstram preferência pelos veículos e base de ilustrações, tais como os quadrinhos e fotonovelas, conforme os estudos e pesquisas de HABERT e BOSI (professoras brasileiras editadas pela Vozes) a cujas mensagens, contudo, dão interpretação própria, adequando-as à sua realidade.

Quanto à expressão do seu pensamento e sentir, das suas aspirações e necessidades valem-se, sobretudo, de manifestações coletivas, atos públicos, promovidos por instituições próprias, como associações desportivas e beneficentes , escolas de samba e outras agremiações carnavalescas e diversionais, irmandades, confrarias e congregações religiosas, através de jogos, mutirões, música, canto, alegorias, folhetos, volantes, “correntes, inscrições, autos folclóricos, espetáculos circenses e teatro mambembe, procissões, romarias, cultos especiais do catolicismo popular, do espiritismo, da umbanda e do candomblé, além de confissões evangélicas pentecostais.

O processo de elaboração e difusão das mensagens para os grupos urbanos economicamente frágeis da sociedade é o mesmo do esquema acima representado e os agentes-comunicadores devem ter as mesmas características de liderança e

Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 10 n.10, 81-85, jan/dez. 2006

capacidade de diálogo em termos e sob linguagens de domínio pleno da audiência.

Outros grupos urbanos, que se valem da folkcomunicação para a difusão de suas mensagens, se constituem de indivíduos marginalizados por contestação à cultura ou à organização social estabelecida. Trata-se de agentes de filosofias morais e políticas divergentes dos costumes e práticas da comunidade, de que estão apartados voluntária ou forçadamente e que procuram, pela manifestação das suas idéias, aliciar novos elementos para suas fileiras ou minar as instituições dominantes.

Tais grupos se caracterizam mais pela clandestinidade e/ou despistamento que utilizam na elaboração e emissão de suas mensagens do que pela sua situação econômica, nível intelectual ou status social. De acordo com o público a que desejam atingir, ora se valem dos media de folk – notadamente inscrições em paredes, volantes impressas, mimeografadas, datilografadas ou colagens ora penetram subreptíciamente nos meios de massa, através de mensagens de duplo sentido, seja em matérias grafojornalísticas, incluindo-se charges e ilustrações fotográficas, seja no rádio, de preferência pela letra de canções populares, seja na televisão, notadamente em “novelas” e programas humorísticos, como , ainda, no cinema, em documentários ou filmes de ficção. Assim, não obstante esses últimos veículos estarem sujeitos à censura de espetáculos e diversões públicas, muitas mensagens escapam ao geralmente escasso conhecimento da teoria da comunicação, à normatização bitolada de atuação e decisão e mesmo ao nível de cultura humanística, que se deve esperar superior, dos agentes do poder público encarregados de tão delicada função.

Entre os grupos contestatórios de que tratamos, destacam-se pela mais freqüente incidência de sua ação comunicacional:

  1. o erótico-pornográfico, que utiliza, de modo sistemático, as paredes de sanitários públicos ou de estabelecimentos muito freqüentados, como escolas, restaurantes e hospitais;
  2. O político-partidário extremista, que se vale, para o público de folk, de inscrições de paredes, principalmente, e para a massa de atos de terrorismo (atentados, seqüestros, explosões de bombas, distúrbios, etc) de grande repercussão.

Ambos os grupos contam, ainda, com uma rede de comunicação underground, que edita e distribui folhetos, jornais, gravuras, películas cinematográficas, discos e recursos audiovisuais não legalmente registrados e cuja difusão é também feita às escondidas.

CONCLUSÕES

Em novembro de 1972, conforme a edição em português do boletim da Fundação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), deveria realizar-se , em Londres, promovido pelo movimento e a pedido da UNESCO, um encontro de “vinte e dois peritos em comunicação do folclore”, entre os quais “antropólogos, estudiosos de folclore e funcionários encarregados de programas importantes e ampla experiência na aplicação social dos meios folclóricos”. Constava da agenda da reunião, entre outros, os seguintes objetivos:

  1. a identificação dos meios de comunicação do folclore ( inclusive literatura oral, artes visuais e representativas usadas no desenvolvimento social, com referência ao planejamento familiar; b) um estudo dos aspectos culturais, sociológicos e práticos do emprego do folclore para fins de planejamento familiar; c) a extensão dos meios folclóricos através dos meios de comunicação (de massa); d) instrução e orientação para o emprego dos meios folclóricos...

Ao nosso ver, essa convocatória e esse encontro (cujos resultados ignoramos porque foram baldados os nossos esforços para receber informações do IPPF e da própria UNESCO, por meio de correspondência postal) abrem novas perspectivas à ampliação dos estudos e pesquisas de folkcomunicação, denominação que cunhávamos e sistema que definíamos em tese de doutoramento apresentada à Universidade de Brasília em 1967, e mais tarde difundíamos em livro (“Comunicação e Folclore – São Paulo, Melhoramentos, 1971) como o intercâmbio de mensagens culturais,a a expressão de idéias e informações dos públicos marginalizados rurais e urbanos, utilizando meios ligados direta ou indiretamente ao folclore.

Esses públicos, constituídos de minorias alienadas de processus desenvolvimentista econômico e cultural da sociedade envolvente e, por vezes mesmo em conflito com as forças que a compõem e mantêm, compreendem:

  • Conferência proferida no I Encontro de Folclore da Paraíba (Pombal, 1976). In: Documento NUPPO, Ano I, N. 3, João Pessoa: UFPB, 1979

Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 10 n.10, 81-85, jan/dez. 2006

  1. Grupos rurais intelectual, econômica e geograficamente marginalizada. (Foram os que pesquisamos para a aludida tese) Habitantes, de áreas isoladas, carentes de energia elétrica, vias de transporte eficientes e meios de comunicação modernos, sub-informados, desassistidos pelas instituições propulsoras da evolução social e das metas de desenvolvimento perseguidas pelas classes dirigentes do País, se constituem de indivíduos analfabetos ou semialfabetizados, de baixíssima renda per capita e cuja cultura está fundamentada em crenças e hábitos arraigados e tradicionais. Por isso, o intercâmbio de informações e a expressão de opiniões, idéias e atitudes desses públicos se fazem através de agentes e meios ligados diretamente ou indiretamente ao folclore.

Utilizam-se, preferentemente, de canais interpessoais diretos: as conversas, os relatos e desafios em verso, os pregões e as pregações, a canção popular, os autos e representações dramáticas e folclóricas, as cerimônias e festas do calendário religioso. No entanto, alguns canais indiretos são empregados, destacando-se as inscrições, gravuras e pinturas, os folhetos de cordel, os almanaques e “folhinhas”, produtos artesanais como bonecos de barro, ex-votos, bentos e medalhas, fitas, velas e estandartes. A composição e impressão de folhetos, volantes, pequenos jornais e revistas é tipográfica, de caixa e manual; as técnicas artesanais são as mais primitivas. Quando utilizam produtos de progresso técnico para a comunicação, a preferência é pelo mais simples como serviços de alto-falantes com fios, em lugar de radioemissoras ou fotografias de máquinas de caixão, muitas vezes fabricadas ou adaptadas pelos próprios operadores, conhecidos como lambe-lambe.

Dado que o universo vocabular desses grupos é reduzido e particularíssimo, não são capazes ou dificilmente decodificam mensagens acaso recebidas pelo rádio (embora hajam vulgarisado os transistores), pelo cinema e, mas raramente, pela televisão, quando a linguagem desses meios foge à linearidade ou alcança um certo grau de preciosismo simbolista. Dessas peculiaridades estão perfeitamente conscientes os agentes produtores das mensagens de folkcomunicação, que são aqueles líderes de opinião, identificados nas pesquisas e estudos LAZARSFELD, BERELSON, KATZ e outros teóricos da comunicação de massa, e que não são, fatalmente, em uma pequena comunidade interiorana o vigário ou o chefe político. Esse líder-comunicador de folk, cantador, poeta de cordel, ceramista, etc.) tem, geralmente, uma situação social idêntica à dos seus liderados (audiência de folk), coma mesma vivência: ocupa uma posição de competência em determinada área de ação; é um extrovertido, não se isola e é muito relacionado e apreciado no meio; realiza freqüentes visitas a outros lugares, tendo assim acesso a fontes de informação que a sua audiência, sedentária, não conhece; está mais exposto do que o seu público aos meios de comunicação de massa e, finalmente, tem habilidade em re-codificar a mensagem de modo a ser por ele entendida. O seu estilo se caracteriza pela simplicidade, ordem direta, imagens facilmente identificáveis, linhas e contornos definidos, redundância, vocabulários e sintaxes acessíveis a mentalidade pouco dadas a aventuras do espírito.

(No diagrama anexo, damos uma idéia do processo da folkcomunicação, a partir das teorias do fluxo de comunicação em dois e em múltiplos estágios e dos estudos de KLAPPER e DUMAZEDIER, segundo os quais a mensagem da comunicação de massa se atomiza e, por diversos motivos, entre os quais o grau de credibilidade que merece o emissor, não provoca resultados senão por intermédio do líder de opinião, que a recebe, traduz e emite pelos meios de comunicação de folk (canais específicos) à sua audiência).

  1. Grupos urbanos socialmente marginalizados. De composição diversificada, a maioria tem sua característica no reduzido poder aquisitivo de sua renda econômica. Por isso, habitam favelas e bairros periféricos das cidades em barracos ou mocambos, começam a trabalhar ainda crianças e mal freqüentem a escola primária, são subnutridos e desconhecem comodidades e facilidades que gozam as demais parcelas da comunidade urbana.

Embora seu universo vocabular seja mais amplo, pesquisas realizadas através de seus cursos de comunicação e instituto de opinião pública no exterior e no País, entre as quais destacamos a promovida pelo Prof. Mário L. Erbolato com seus alunos da universidade Católica de Campinas, SP, comprovam sua reduzida capacidade de decodificação das mensagens elaboradas na linguagem da imprensa e do rádio, canais a eles mais acessíveis do sistema de comunicação social, já que, por motivo econômico não freqüentam cinema e poucos são telespectadores.

Além dos meios de que se valem os grupos rurais para receber mensagens de fora, demonstram preferência pelos veículos e base de ilustrações, tais como os quadrinhos e fotonovelas, conforme os estudos e pesquisas de HABERT e BOSI (professoras brasileiras editadas pela Vozes) a cujas mensagens, contudo, dão interpretação própria, adequando-as à sua realidade.

Quanto à expressão do seu pensamento e sentir, das suas aspirações e necessidades valem-se, sobretudo, de manifestações coletivas, atos públicos, promovidos por instituições próprias, como associações desportivas e beneficentes , escolas de samba e outras agremiações carnavalescas e diversionais, irmandades, confrarias e congregações religiosas, através de jogos, mutirões, música, canto, alegorias, folhetos, volantes, “correntes, inscrições, autos folclóricos, espetáculos circenses e teatro mambembe, procissões, romarias, cultos especiais do catolicismo popular, do espiritismo, da umbanda e do candomblé, além de confissões evangélicas pentecostais.

O processo de elaboração e difusão das mensagens para os grupos urbanos economicamente frágeis da sociedade é o mesmo do esquema acima representado e os agentes-comunicadores devem ter as mesmas características de liderança e

Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 10 n.10, 81-85, jan/dez. 2006

capacidade de diálogo em termos e sob linguagens de domínio pleno da audiência.

Outros grupos urbanos, que se valem da folkcomunicação para a difusão de suas mensagens, se constituem de indivíduos marginalizados por contestação à cultura ou à organização social estabelecida. Trata-se de agentes de filosofias morais e políticas divergentes dos costumes e práticas da comunidade, de que estão apartados voluntária ou forçadamente e que procuram, pela manifestação das suas idéias, aliciar novos elementos para suas fileiras ou minar as instituições dominantes.

Tais grupos se caracterizam mais pela clandestinidade e/ou despistamento que utilizam na elaboração e emissão de suas mensagens do que pela sua situação econômica, nível intelectual ou status social. De acordo com o público a que desejam atingir, ora se valem dos media de folk – notadamente inscrições em paredes, volantes impressas, mimeografadas, datilografadas ou colagens ora penetram subreptíciamente nos meios de massa, através de mensagens de duplo sentido, seja em matérias grafojornalísticas, incluindo-se charges e ilustrações fotográficas, seja no rádio, de preferência pela letra de canções populares, seja na televisão, notadamente em “novelas” e programas humorísticos, como , ainda, no cinema, em documentários ou filmes de ficção. Assim, não obstante esses últimos veículos estarem sujeitos à censura de espetáculos e diversões públicas, muitas mensagens escapam ao geralmente escasso conhecimento da teoria da comunicação, à normatização bitolada de atuação e decisão e mesmo ao nível de cultura humanística, que se deve esperar superior, dos agentes do poder público encarregados de tão delicada função.

Entre os grupos contestatórios de que tratamos, destacam-se pela mais freqüente incidência de sua ação comunicacional:

  1. o erótico-pornográfico, que utiliza, de modo sistemático, as paredes de sanitários públicos ou de estabelecimentos muito freqüentados, como escolas, restaurantes e hospitais;
  2. O político-partidário extremista, que se vale, para o público de folk, de inscrições de paredes, principalmente, e para a massa de atos de terrorismo (atentados, seqüestros, explosões de bombas, distúrbios, etc) de grande repercussão.

Ambos os grupos contam, ainda, com uma rede de comunicação underground, que edita e distribui folhetos, jornais, gravuras, películas cinematográficas, discos e recursos audiovisuais não legalmente registrados e cuja difusão é também feita às escondidas.

CONCLUSÕES

Do exposto concluímos que, ao notável esforço desenvolvido pelos pesquisadores brasileiros no levantamento, análise e registro das manifestações

GRÁFICO 1 – PROCESSO DA FOLKCOMUNICAÇÃO

da cultura folclórica, os interesses do desenvolvimento sócio-econômico-cultural juntam, agora, um trabalho de interpretação dessas manifestações de segmentos da população rural e urbana, não integrados, por diversos motivos, no sistema de comunicação social, a cujos meios não têm acesso.

São as ideologias, os fatos e as situações da atualidade que levam as nações a uma ação conjunta com vistas à promoção do bem estar coletivo. E o folclore não é uma peça de museu, não se estratifica no tempo: é um fenômeno social dinâmico, como magistralmente expôs e defendeu em congresso internacional o jamais esquecido EDISON CARNEIRO. Através de formas tradicionais e mesmo anacrônicas que se caracterizam as manifestações da “sabedoria popular”, palpita uma atualidade,que requer que seja surpreendida e utilizada pelas instituições filosóficas, governamentais e econômicas orientadoras do desenvolvimento nacional. Somente assim se alcançará, através de um efetivo intercâmbio de mensagens, a integração dos usuários da folkcomunicação nos programas que visam a paz, a justiça e o progresso do país.

Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 10 n.10, 81-85, jan/dez. 2006