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Processo da Comunicação*

Luiz Beltrão

A comunicação, entendida como algo que um indivíduo concebe, codifica e emite intencionalmente para obter de outrem uma reação, estabelecendo-se entre ambos um intercâmbio de sentimentos e idéias orientadoras de sua conduta em determinada situação, é, por natureza, um fenômeno dinâmico, uma vez que exige dos seus agentes uma permanente atividade psicossocial, no sentido de se adaptarem às mudanças que aquele algo, a mensagem, opera no ambiente.

Processo é sinônimo de curso, de marcha, de seguimento, de caminho, de giro. No decorrer do passado, não se pode identificar seu começo nem seu término. Se entramos num salão onde se joga ping-pong, não podemos saber quem iniciou a partida, pois a bola vai e vem continuamente de um para outro jogador, e as interrupções e os pontos marcados fazem parte das regras, nada nos dizendo sobre o princípio da competição. O que vemos é um tratamento contínuo, são relações em evolução, cada lance afetando o outro e exigindo novo posicionamento para dar seqüência ao jogo.

Verifica-se o mesmo com o processo da comunicação: a sua fonte (quem inicia aparentemente o jogo) só pôde entra em ação (idealizar, codificar e emitir a mensagem) por ter sido, anteriormente, receptor dos ingredientes (signos, vocábulos e códigos) agora utilizados no tratamento daquele enunciado específico. Assim, para a análise do processo, teremos de paralisar sua dinâmica, simbolizando-o em um esquema estático pela identificação de seus elementos básicos, descrição de suas características e relações teóricas, mapeamento de seu desenvolvimento, apuração de suas condições, verificação de suas conseqüências. E, como estas constituem parte do processo e não o seu fim, o que podemos obter com esse artifício é, apenas, u modelo, um esquema, um retrato do processo, sujeito a todas as limitações e até mesmo a deformações, a que se subordinam as tentativas de estratificação do movimento e da vida.

  • Capítulo do livro “Temas Básicos em Comunicação”. São Paulo: Paulinas, 1983, pp. 13-16

Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional, Ano 10 n.10, 99-101, jan/dez. 2006

ANUÁRIO UNESCO/METODISTA DE COMUNICAÇÃO REGIONAL • 10

Os elementos básicos (fonte/comunicador – mensagem/canal – receptor/destinatário) são absolutamente interdependentes. Na comunicação interpessoal direta, os primeiros e os últimos desses elementos se confundem em um só ou uns poucos indivíduos, situados frente a frente; se, entretanto, esses elementos se encontram distanciados, o comunicador será pessoa, instituição ou aparelhagem mecânica que, havendo recebido a mensagem de uma fonte, a decompõe e a faz chegar a um receptor, que a recompõe para servi-la ao destinatário. Na conversação de amigos em torno de uma mesa de bar, temos o exemplo da primeira modalidade; numa conversação telefônica, temos a segunda, pela interferência de um canal artificial, cuja função é, exatamente, a de decompor, na entrada, o código idiomático nos impulsos do código binário, recompondo-o no auscultador, assim permitindo ao destinatário a decodificação.

Quanto à mensagem, elemento imaterial da comunicação, jamais pode dispensar

o canal, seja ele natural – a exemplo da emissão de sons codificados através do ar, tal como ocorre na conversação entre amigos que se encontram – seja artificial, como no caso de um diálogo telefônico. Teria sido essa indissolubilidade a primeira geratriz da discutida proposição: o meio é a mensagem.

Já que falamos em diálogo (do grego “conhecimento a dois”), parece-nos oportuno acentuar que toda comunicação visa a estabelecer relações e somar experiências. Em última análise, tem por objetivo uma troca de informações entre fonte e destino. Essa troca, esse diálogo autêntico, não implica aceitação taxativa, concordância entre as partes; nem reclama reação imediata ou no mesmo código.

É sabido que o silêncio não só responde a muita mensagem como, freqüentemente, realimenta os esforços da fonte para a insistência no seu discurso. Também não se discute que o diálogo não se estabeleça pelo nãoentendimento, pela negativa de um dos interlocutores de acatar a proposição do outro. E também não se exige que determinada mensagem alcance uma reação pronta, arranque de súbito o destinatário de sua momentânea inapetência para o ato comunicacional.

O fenômeno se torna significativamente detectável quando se aprecia o processo da comunicação de massa, por natureza industrial, vertical e indireto. Nela, as mensagens são produtos padronizados, “fabricados” por uma fonte que, do alto ex cathedra, os distribui, através de potentes veículos, a um público imensurável, porque disperso no espaço ou no tempo/espaço e, portanto, anônimo, heterogêneo, inorganizado e, por isso mesmo, sem qualquer representação legítima. As reações da massa de destinatários não podem ser verificadas por indicativos de qualidade (por exemplo: as cartas ao editor), uma vez que partem de pessoas ou grupos determinados, parcelas ínfimas da audiência global. As avaliações costumeiras, mediante pesquisas em comunicação, são sempre mais quantitativas (recepção) do que qualitativas (acatamento/rejeição); de qualquer modo, significam uma aproximação, e não um referendum.

PROCESSO DA COMUNICAÇÃO

Mesmo os teóricos que denunciam a comunicação massiva como um processo unilateral, como uma negação do diálogo, como uma imposição e jamais um intercâmbio, mesmo eles se fundamentam nos efeitos que, em determinadas condições psicossociais, técnicas e até circunstanciais, são concausados, na vida social, pelas mensagens obtidas e repetidas pelos seus meios multiplicadores e/ ou de longo alcance. ( A propósito, chegou-se até a formular uma outra proposição largamente difundida: os meios são as massa-gens).

Daí considerarmos que também há diálogo na comunicação de massa: a reação, o retorno, não podendo ser efetivado em linguagens e códigos idênticos aos utilizados pela fonte, surge exatamente com as mudanças de comportamento social a curto, médio ou longo prazo. Um diálogo, ainda que sui generis.

Do que foi exposto, conclui-se que todas as tentativas de análise do processo da comunicação como um todo esbarram no insuperável atributo do dinamismo essencial do fenômeno. Desde que o imobilizamos, retiramos-lhe a energia, o substituímos por um corpo inerte, que submetemos a uma autópsia, com a intenção única de alinhar pistas, a partir dos seus elementos básicos. Essas pistas poderão ser utilizadas quando o estudioso se curvar, como um cientista sobre o microscópio, na identificação, observação e registro cuidadoso dos inúmeros fatores que comandam as relações de processos específicos, na tentativa e na esperança de surpreender e isolar aquele que é decisivo na produção de um efeito pré-determinado. Tarefa difícil, senão impossível, mas que sempre vale a pena.