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O legado brasileiro da contínua procura de um sistema conexional metodista aberto

Da autonomia da Igreja Metodista no Brasil ao Plano para a Vida e a Missão da Igreja

Helmut Renders


Resumo

O texto é uma releitura da busca da autonomia da Igreja Metodista no Brasil em 1930 e outros de momentos relevantes dos últimos 75 anos da sua história, à luz de um princípio organizador específico da eclesiologia wesleyana, a sua conexidade. A autonomia é interpretada como busca de um sistema de conexão aberto e proporcional. Numa época da atomização institucional da religião, esse legado torna-se desafio e proposta: conexidade como “multicentralidade proporcional”, que propõe uma rede de práticas e teorias locais em diálogo que, em conjunto, constroem uma visão global que valoriza o local.


Palavras chave

Metodismo brasileiro, autonomia, dependência, local, global, sistema de conexão, conexidade.


Helmut Rendersé Professor de Teologia Sistemática e História da UMESP/FATEO e secretário executivo do Centro de Estudos Wesleyanos; Doctor of Ministry e doutorando em Ciências da Religião; membro do grupo de pesquisa TEOMEB da FATEO/UMESP. Endereço eletrônico: helmut.renders@metodista.br.


Introdução

Neste artigo objetivo discutir o passo para a autonomia da Igreja Metodista no Brasil à luz de um dos princípios estruturais eclesiásticos mais originais do metodismo: a sua conexidade. Faço essa ligação na convicção de que nem a autonomia pela autonomia, nem a internacionalidade pela internacionalidade garantem ou impedem, categoricamente, o que se chama, na visão metodista, conexional. Quem quiser, hoje, pensar globalmente e agir localmente, precisa reavaliar a sua compreensão de conceitos como igreja autônoma, igreja global ou igreja mundial e investigar seus potenciais a favor de uma conexidade dinâmica e aberta [2]. Somente assim a visão de uma igreja conexional tornar-se-á mais do que um mero desejo piedoso, como também não se criará, ingenuamente ou não, o pesadelo de estruturas que escondem dependências e promovem a fatídica não-solidariedade frente aos desafios do outro.

No primeiro parágrafo, Autonomia como perda..., desafio à rejeição do conceito autonomia em nome de um universalismo formal. No segundo parágrafo, Surgimento e espírito..., examino a origem da idéia do sistema conexional e enfatizo seu caráter flexível e dinâmico. Em A conexidade como parte integral... investigo a abrangência da visão eclesiástica da Igreja Metodista na década de trinta, inclusive a sua abertura para um projeto pan-protestante (Ecumenicidade e autonomia) sem recuo a um projeto meramente nacional (Catolicidade e autonomia). No mesmo capítulo, alego que na crise paradigmática designada como pós-moderna — que afeta duramente as instituições e o lado institucional da religião — as categorias da “ecumenicidade” e da “catolicidade” enriquecem-se mutuamente para imaginar e projetar uma rede de práticas e teologias locais. No último capítulo, retorno mais especificamente à situação da Igreja Metodista no Brasil e sugiro passos para promover uma conexidade que conduza uma missão a favor dos/as mais necessitados/as.


1. Autonomia como perda da universalidade eclesiástica

Autonomia e conexidade podem ser compreendidas simplesmente como conceitos antagônicos. Assim, argumenta Patrick Streiff, recentemente eleito bispo pela conferência central da Europa do Sul e África do Norte. “Empreendimentos missionários resultaram no passado, com freqüência, em dependências. O grito da autonomia era em muitas partes do mundo uma reação ao sofrimento pelo autoritarismo de nações estrangeiras.” Depois, porém, ele alega: “Mas, nem dependência, nem autonomia [...] são conceitos biblicamente fundados do Corpo de Cristo.” [3] Para o bispo Streiff, autonomia é sinônimo de independência e isso opor-se-á a interdependência. Apesar de simpatizar-se com as lutas de povos oprimidos e ter uma visão realista das dependências criadas em nome do sistema de conexão, Streiff critica a criação de novas igrejas autônomas por contrariar um elemento chave da eclesiologia bíblica. Podemos perguntar, porém: se ainda em 2005 (!) existem fortes elementos de dependência no sistema conexional da IMU e, se esse sistema tinha sido mais avançado na década 20 do que no restante do século XX [4], a busca da autonomia não representa, em primeiro lugar, uma sensibilidade kairótica? Enquanto o sistema de conexão não superar as suas estruturas opressoras, uma autonomia possibilita um novo passo em direção a um sistema conexional mais aberto, não somente pro forma. Afinal, qualquer tipo de conexidade sem igualdade é ilusão, e um diálogo significante nasce de dois discursos fortes, livres, e, por causa disso, capazes de se comprometer com o outro e consigo.


2. Surgimento e espírito de um sistema conexional

Conexidade, apesar disso, adquiriu diversos sentidos e aspectos nos últimos 250 anos. Uma breve volta às suas origens indica uma compreensão menos formal ou estrutural. Para Wesley, ao redor de 1748, o sistema de conexão marca, basicamente, a comunhão profunda entre cristãos verdadeiros. Com o crescimento do movimento precisava-se conferir a missão em andamento. Isso se chamava “estar em conferência” Pertenciam ao sistema conexional os/as pregadores/as dispostos/as à itinerância contínua, fato que flexibilizou a missão a favor dos/as mais necessitados/as. [5] De fato, a conexão era menos uma estrutura eclesiástica do que uma rede cujo centro foi formado pelos irmãos Wesley. Essa “ordem evangélica” [6] operou no território da Grã-Bretanha. Na passagem do metodismo para os EUA, criou-se, por razões circunstanciais, em segunda vez, um sistema conexional autônomo. Enquanto todas as missões metodistas inglesas transformar-se-iam em igrejas autônomas, depois e durante o declínio do império britânico, as missões norte-americanas seguiram três modelos distintos: a independência plena, a delegação de certos direitos a conferências centrais, a autonomia ou a unificação com outras igrejas evangélicas no local. Mas, seja qual for, o caminho historicamente escolhido, precisa, em primeiro lugar, compreender o espírito de uma estrutura conexional:

Nos seus melhores momentos, o sistema conexional metodista tinha sido mais do que uma forma de cooperativismo, mais do que uma política, mais do que um termo classificatório. O sistema de conexão era um preceito wesleyano, uma visão eclesiástica, um princípio missionário, um compromisso de aliança, uma ética de igualdade e proporcionalidade, uma estratégia tática, um estandarte elástico e evolvente, uma teologia na práxis. [7]

Concordo com o autor que as discussões sobre aspectos formais do sistema de conexão precisam ser transformadas em esclarecimentos da visão de ser igreja. Enquanto a hoje: talvez seja menos a hora de engenharia eclesiástica do que a da recuperação de uma visão conexional e de compromisso mútuo. Na história, o sistema conexional foi estabelecido tanto oralmente (por eventos, associações voluntárias) como por associações obrigatórias (classes), programas e conexões cooperativas, federativas e profissionais. Mas, como os “[...] três dominantes estilos de sistema conexional do século XX — a conexidade cooperativa, federativa e profissional — estão em pleno declino” fala-se hoje da necessidade de conceber uma “conexidade pós-cooperativa”, situação que provoca no metodismo no nível mundial “crises, incertezas, e tumultos internos”. [8] A questão da autonomia, um assunto que mobiliza o metodismo brasileiro, é nesse cenário somente um dos debates da crise mundial da conexidade metodista que interage com uma transição paradigmática maior do que ele.


3. Autonomia como passo em busca de uma conexão aberta

Nos anos 20, o metodismo brasileiro procurou seu caminho entre os diversos modelos em discussão. Houve concílios regionais que defenderam mais a independência absoluta, a continuação dos laços estabelecidos, e os dois projetos de mediação: ou pela criação de concílios gerais, tendencialmente mais favorável à continuação, ou pela autonomia, exigindo modificações mais profundas. A discussão resultou em maioria a favor do conceito autonomia, ou seja, numa proposta de mediação entre uma independência total e a continuação das estabelecidas dependências eclesiásticas. Ficou claro, entre 1930 e 1970, que a forma como a autonomia foi concebida não conduziu ao sistema de conexão votado. Somente mudanças mais profundas a favor de uma liderança ainda mais nacional e um novo contrato com a anterior igreja mãe sobre a forma de relação aproximaram, no fim da década de 70, a Igreja Metodista a esse objetivo. Apesar disso, a autonomia brasileira manteve sempre fortes aspectos conexionais, expressos nas suas tendências pan-protestantes e confirmado pela sua visão de participação em nível mundial. Discutirei a conexidade da autonomia brasileira em seguida, mediante os conceitos ecumenicidade e catolicidade.


3.1 Ecumenicidade e autonomia

Limito aqui o conceito ecumenicidade a um projeto protestante. Nos estudos sobre a autonomia da igreja Metodista, avaliam-se como sua causa, em ordem cronológica, as limitações do sistema antigamente em vigor [9], interesses nacionais estadunidenses [10] e interesses nacionais brasileiros [11]. Eu gostaria de acrescer a essa discussão, mais estrutural e causal, um elemento de interpretação: a significante tendência pan-protestante antes e durante a época da autonomia. De certo modo, o pan-protestantismo era uma opção missionária que já apareceu com a chegada de Newman em 1867, e com expressão abrangente a partir da conferência missionária do Panamá em 1919, quando a América Latina foi dividida em esferas de interesses de missões denominacionais. Na década de trinta, é justamente a autonomia que possibilita uma nova fase de um pan-protestantismo de forma nacional. Ele idealizou projetos tão diversos como a Universidade Evangélica – e a formação teológica – intra-denominacional no Rio de Janeiro, como o hinário evangélico, o atual hinário metodista, e elaboração inter-denominacional de revistas da escola dominical. De certo modo, o pan-protestantismo nacional representava uma visão conexional intra-denominacional justamente num momento da autonomia. O mesmo compromisso conexional se expressa, para mim, pela mudança do nome da igreja na década de setenta. No momento em que a ênfase no local se tornou opressora e não libertadora, o metodismo brasileiro reafirmou a sua identidade metodista como algo que transcende o nacionalismo, no caso, um nacionalismo ditatorial. Dessa forma, tanto a ênfase no local — Igreja Metodista do Brasil —, como a re-afirmação da dimensão universal — Igreja Metodista — mostra uma sabedoria conexional que transcende a mera oposição independência-dependência.


3.2 Catolicidade da igreja cristã e autonomia

A visão conexional, entretanto, não se limitou a uma mera visão nacional. A então Igreja Metodista do Brasil, no seu segundo Concílio Geral em 1934, compartilha uma visão da sua vocação eclesiástica e estabelece, além da sua agenda nacional, uma agenda (!) mundial: [12]


A Atitude da Igreja Metodista do Brasil perante o Mundo e a Nação

Considerando que a Igreja Metodista do Brasil é uma organização independente e que este Concílio representa o espírito da Igreja, sentimos a necessidade de declarar nossa atitude e missão perante a nação e o mundo. Reconhecendo nossa responsabilidade na solução dos enormes e graves problemas morais e espirituais que defrontam a nação e o mundo, nós nos revestimos de forças divinas para a execução da tarefa a que nos propomos e, procurando manifestar as convicções que mantemos, esperamos tornar mais clara a nossa própria visão. [13]

Logo em seguida, afirma-se que o recuo a uma mera fé pessoal não seria suficiente para caminhar como uma igreja autônoma:

A visão do Reino de Deus deve elevar-nos acima das correntes da história e das mudanças complexas do mundo de modo que, com vistas elevadas, possamos observar os interesses humanos antagônicos e voltar novamente ao seio da vida humana para fazer a nossa parte pela cristianização da ordem social com nova coragem e fé renovada. Combatemos a tentação de fugir da vida, com seus problemas e lutas para nos enclausurarmos na religião pessoal. [14]

Conseqüentemente, favorecem-se alianças nacionais e internacionais para desafiar a miséria do cotidiano, o crescente perigo de conflitos bélicos e o crescente racismo. Com essa ampla perspectiva, os/as defensores/as da autonomia manifestaram mais uma vez uma visão conexional e solidária.

As Igrejas Evangélicas do Brasil sentem cada vez mais a sua responsabilidade em face de todos os grandes problemas que agitam o mundo e que interessam o nosso país e a Sociedade. Unidas fundamentalmente no Espírito de Jesus Cristo, na orientação comum e na mesma esperança, o espírito de fraternidade e cooperação as aproxima cada vez mais. [15]

Nessa ampla visão aparece o aspecto da catolicidade da Igreja cristã, conceito pouco considerado no Brasil.


3.3 Conexidade e catolicidade como conceitos complementares

A “marca eclesiástica” da catolicidade, estabelecida pelo Credo Niceno-Constantinopolitano, é muito importante para o sistema conexional metodista e ajuda-o a não ser identificado com um mero projeto formal ou estrutural. Por outro lado, rediscute-se hoje em dia, com repercussão mundial, o que o missiólogo Robert Schreiter chama a “nova catolicidade”. [16] Para Schreiter “Uma nova catolicidade [...] é marcada por uma totalidade de inclusão e plenitude da fé mediante um padrão de intercâmbio e comunicação intercultural.” [17] Schreiter sonha com uma rede de teologias locais se comunicando de igual para igual. Acredito que, para chegar a esse ponto, o conceito conexidade pode, agora, contribuir para a interpretação de catolicidade. A catolicidade precisa ser conexional, para superar a sua tentação de instalar e manter um centralismo em nome da universalidade e para assumir os aspetos igualitários da conexidade. A nossa tarefa é a de imaginar, comunicar e realizar da melhor forma uma dinâmica que se mostre mais capaz do que até agora a atender aos desafios contemporâneos culturais e, conseqüentemente, religiosos:

A permanente co-relação entre a pressão uniformizante sobre a cultura e as iniciativas à procura de sua autonomia podem promover uma nova identidade mediante reconstruções hermenêuticas da história e um renascimento cultural, mas também degenerar na direção de novos nacionalismos e etnicismos. [18]

Busca-se, então, daqui a diante, interpretar catolicidade pelo critério da conexidade e a conexidade pelo critério da catolicidade.


4. A contínua busca do desenvolvimento da conexidade numa igreja autônoma

Acredito estar claro que, segundo a minha perspectiva, a idéia da autonomia não se opõe, ao projeto de uma igreja profundamente conexional e que há indícios de que o processo da autonomia da Igreja Metodista no Brasil pode e deve ser interpretado como um passo para o estabelecimento de uma práxis e teologia local, base fundamental para uma conexidade de verdade. Mas, isso não significa que uma autonomia, uma vez alcançada, garante, quase que automaticamente, a conexidade. Os perigos do processo, mencionados por Volker Kuester são reais e, como eu receio, sempre presentes em todo processo e em todo mundo. Precisamos também perguntar: A memória da autonomia como reação libertadora contra um centralismo equivocado hoje está nos conduzindo a uma sensibilidade interna e nacional cada dia maior em relação aos problemas dos sem voz e sem vez? Olhando mais nessa direção, não podemos subestimar a também intuição kairótica do Plano para a Vida e a Missão da Igreja Metodista – que acresceu à discussão de se a autonomia trouxe realmente o fim da dependência, a pergunta: Como uma igreja autônoma pode dinamizar a sua missão! Um sistema de conexão mundial é um excelente modelo para “reparar na trave que está no próprio olho”.

Também não podemos esquecer a intuição expressa anteriormente de que, em tempos de transição tanto no nível mundial como no local, a incerteza faz parte do caminhar e que deveríamos resistir à tentação de nos libertar dessas tensões brutais e profundamente existenciais mediante iniciativas meramente formais ou estruturais. O sistema conexional, antes de ser uma estrutura e antes de ser expresso por programas, é uma relação, como já afirmamos, caracterizada por “uma ética de igualdade e proporcionalidade”.

Para superar os impasses — tanto do centralismo como também da atomização eclesiástica, por serem contra-produtivos para a missão —, sugiro enfatizar nesse momento, os elementos da comunicação.


4.1 Carisma episcopal e competência comunicativa

Não é por acaso que a discussão a respeito de eclesiologia envolve na Igreja Metodista uma discussão sobre o ministério episcopal. Um importante ingrediente do carisma episcopal, ministério ao qual se atribui a tarefa de garantir a unidade da igreja e a eficácia da missão, é o carisma da comunicação ou da condução de processos contínuos antigamente designados como “estar em conferência”. A isso poderíamos chamar liderança comunicativa, transparente e cooperativa. Ou seja, tão angustiados pelos efeitos de uma época de transição paradigmática em nível mundial – em que antigas certezas e formas perdem, visivelmente, a sua força formadora e integradora, e no qual novos caminhos ainda não têm uma aceitação suficientemente ampla para se sedimentarem –, precisamos valorizar a tarefa de interlocutores de diálogo. A autoridade comunicativa do ministério episcopal é hoje desafiada como nunca, mas também necessária como nunca. Precisamos confiança no processo de conferir para encontrarmos os novos caminhos ou, talvez, para que eles nos encontrem. Em seguida, vou me limitar a três aspectos ministeriais.


4.2 O sistema conexional e a ordem presbiteral

Em segundo, lembro o papel fundamental dos pregadores na conexão da época de Wesley. É dificilmente imaginável que a igreja se fortaleça sem uma ordem presbiteral forte. Porém, ela não deve se restringir a um tipo de lobismo eclesiástico. Ela deve se co-responsabilizar na busca de um sistema de conexão aberto. Para isso, a ordem presbiteral, inclusive os bispos, precisam se submeter aos interesses da missão e contribuir para um sistema conexional aberto aos leigos e às leigas.


4.3 Reavaliação do ministério dos superintendentes

Em terceiro: para que o sistema de conexão funcione melhor, a comunicação entre o nível local e o nível nacional precisa melhorar. Isso era, antigamente, a tarefa principal do superintendente. Duas vezes ao ano, estando presente no nível local, ele dirigia tanto o encontro do planejamento (no início do ano) como o encontro de avaliação (no seu final). O superintendente tinha também uma grande tarefa de comunicação, em duas direções: defendendo aspectos locais diante do concílio dos superintendentes na presença do bispo, e explicando aspectos globais no nível local.


Considerações finais

75 anos depois da criação de uma igreja autônoma, o metodismo brasileiro sofre a atomização de uma igreja autônoma. Isso é problemático, por que a missão acontece mediante pessoas que criam vínculos com outras, que estão construindo um sistema conexional dinâmico de relacionamentos e compromissos mútuos. A sensibilidade kairótica, que estava por detrás da autonomia e da criação do Plano para a Vida e a Missão da Igreja Metodista, precisa ser levada mais adiante. Em vez de seguir a lógica institucional e seus representantes, e sobreestimar a importância de estruturas, e em vez de abrir mão da visão de uma conexão maior, é preciso procurar uma cultura de diálogo. Os problemas paradigmáticos não se resolvem por decretos, nem por decisões conciliares, nem pela congregacionalização da igreja no nível local, mas na experiência de um caminhar em conjunto, de um sistema de conexão vivo e flexível onde se procura ganhar o outro e a sua confiança. Com a convicção de que, em conjunto, conduzimos um projeto que vale a pena, inclusive as penas de doloridos processos de comunicação. A contínua busca do desenvolvimento da conexidade nessa igreja autônoma, sempre com o objetivo de melhorar o caminhar da missão, conduzirá o metodismo brasileiro, nos próximos 75 anos, para novas conquistas e o manterá no caminho de ser igreja, comunidade missionária, a serviço do povo.


Referências bibliográficas


Atas do 2o Concílio Geral da Igreja Metodista do Brasil. Porto Alegre de 4 a 19 de janeiro de 1934. São Paulo: Imprensa Metodista, 1934.

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JOSGRILBERG, Rui de Souza. O movimento da autonomia. História, Metodismo, Libertações: ensaios. VVAA (ed). São Bernardo do Campo: EDITEO, 1990, p. 93-134.

LAWSON, David J. Ist die Evangelisch-methodistische Kirche noch eine globale Kirche? – parte I. EmK Geschichte: Quellen, Studien, Mitteilungen. Ano 26, n. 1, mar. 2005, p. 50-52.

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ROCHA, Isnard. História do Metodismo no Brasil. São Paulo: Imprensa Metodista, 1967.

SCHREITER, Robert J. A nova catolicidade: a teologia entre o global e o local. Tradução: Cecília Camargo Bartalotti. São Paulo: Edições Loyola, 1998 (1a edição: 1997).

SCHREITER, Robert J. Constructing local theologies. Prefácio de Edward Schillebeeckx. Maryknoll: Orbis Books, 1999 (1a edição: 1985)

STREIFF, Patrick. Ist die Evangelisch-methodistische Kirche noch eine globale Kirche? – parte II. EmK Geschichte: Quellen, Studien, Mitteilungen. Ano 26, n. 1, mar. 2005, p. 52-56.


Notas


[1]Na designação das juntas de missões metodistas há diferenças significantes. A Igreja Metodista Unida optou pelo conceito “global”, por exemplo, em “General Board of Global Ministries”. Hoje, essa linguagem é considerada como inadequada. Veja David J. LAWSON. Ist die Evangelisch-methodistische Kirche noch eine globale Kirche? – parte I, 50. Lawson defende o uso de “global” no sentido de “planetário” e rejeita “internacional” por ser “nacionalista”. Veja também Patrick STREIFF. Ist die Evangelisch-methodistische Kirche noch eine globale Kirche? – parte II, 53, que, por sua vez, rejeita “global” por ser hoje o lema do liberalismo econômico e vetado pelos defensores da justiça social. Ele prefere “conexão mundial”. Na Igreja Metodista de Inglaterra usa–se “World Office” em vez de “Global Ministries”. A expressão transpira o projeto de uma fé pública e, no momento, não está carregada de significados colaterais. Um escritório é um ponto de contato e um lugar de definição de relações.
[2]Emprestei os conceitos “conexidade aberta” ou “conexão aberta” de Rui de Souza Josgrilberg.
[3]STREIF, EmK, p. 53.
[4]Ibidem, p. 52.
[5]Eu sigo aqui a abordagem de Richard P. HEITZENRATER. Connectionalism and itinerancy, 23-38.
[6]Uma expressão de Albert Outler que descreveu essa conexidade como uma ordem evangélica numa igreja anglo-católica.
[7]Russel E. RICHEY. Introduction. Connectionalism, p. 3.
[8]Ibidem, p. 18.
[9]Isnard ROCHA. História do Metodismo no Brasil, 1967.
[10]Duncan Alexander REILY. Os Metodistas no Brasil, 67-92.
[11]Rui de Souza JOSGRILBERG. O movimento da autonomia, 93-134.
[12]Mencionei a importância dessa declaração em Helmut RENDERS. Sobre o uso litúrgico..., 61.
[13]Atas do 2o Concilio Geral da IMdB, 95-97.
[14]Atas do 2o Concilio Geral da IMdB, 96-97.
[15]Ibidem, p. 97.
[16]Robert J. SCHREITER. Constructing local theologies, 1999.
[17]Robert J. SCHREITER. A nova catolicidade, 1998, 149.
[18]Volker KUESTER. Von der lokalen Theologie zur neuen Katholizität, 365.