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As escrituras gnósticas e as origens cristãs

Elisa Rodrigues

Resumo

O artigo introduz nas características básicas de escritas gnósticas e interpreta a intenção dos seus autores não como oposição radical a tradição judaica e cristã, mas como re-leitura das suas escritas fundantes na base do conhecimento a partir de uma conciencia superior.


Palavras-chave

Gnosticismo — cristianismo primitivo — Bíblia — hermenêutica bíblica.


Elisa Rodrigues é teóloga e profesora da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Mestre e Doutoranda em Ciências da Religião (Umesp). Integrante do projeto de pesquisa Orácula: Grupo de Estudos em Apocalíptica (FAPESP).


À guisa de introdução


A discussão sobre o gnosticismo principia com a descrição do grupo que formou o movimento. Primeiramente, o sentido histórico do termo gnóstico designa o nome auto-atribuído por um grupo de cristãos antigos, os gnõstikoi. Em segundo lugar, entende-se por gnóstica a literatura que apresenta os temas fundantes e a cosmovisão desse grupo. Os gnósticos pautavam sua relação com a divindade a partir do que lhes era fundante: a gnose (substantivo do verbo gignósko que significa conhecer). Gnose (gnôsis) significava o conhecimento, o contrário da ignorância. Seria um estado de consciência superior, como “discernimento”. [1]

Neste ensaio discutiremos o gnosticismo como expressão religiosa de certos grupos cristãos. Utilizaremos o mito gnóstico A Realidade dos Governantes ou Hipóstase dos Arcontes [2] da Biblioteca de Nag-Hammaddi [3] para investigar como os gnósticos concebiam a origem do cosmos e da humanidade. Partimos do pressuposto que seus mitos fundantes expressavam a maneira como se relacionavam religiosa, social e politicamente com o mundo. Tal expressão à medida que refletia a cultura também produzia a cultura gnóstica. As escrituras gnósticas e as origens cristãs ilustram “a diversidade e riqueza espiritual” dos primeiros séculos da EC. Assim como Elaine Pagels [4] ficamos curiosos com a sugestão de que se textos gnósticos fossem incluídos no cânon oficial, talvez a expressão cristã de hoje fosse diferente.


1) Resumo da narrativa


O mito Realidade dos Governantes é iniciado com a evocação de um escrito Paulino (Ef 6:12): “Por causa da realidade das autoridades, inspirado pelo espírito do pai da verdade, o grande apóstolo – referindo-se às autoridades das trevas – disse-nos que ‘nosso combate não é contra carne e sangue; mas contra as autoridades do mundo e as hostes espirituais de maldade’” – RG 86,2-25.

Em seguida, é relatado que Ialdabaõth foi punido com cegueira por querer ser como Deus, o Pai da totalidade. Por isso, foi chamado Samael, que quer dizer deus cego em aramaico e indica o sentido de ignorância. Depois disso, os governantes viram a imagem da Incorruptibilidade refletida sobre as águas e desejaram possuí-la, como eles eram “de baixo” e a Incorruptibilidade “de cima” isso não foi possível. Então, eles modelaram um ser humano conforme o corpo deles e conforme a imagem de Deus. Esse ser, porém, não podia levantar-se e arrastava-se pelo chão. Embora o governante-chefe tenha soprado sobre a face do ser, somente quando o espírito desceu e habitou nele, o humano deixou de ser animado e passou a ser alma-vivente. O ser humano chamou-se Adão e logo foi incumbindo pelos governantes de nomear os animais da criação. Também dos governantes veio o privilégio e a responsabilidade de viver e zelar pelo jardim. Eles o instruíram para que não comesse a “árvore do conhecimento do bem e do mal” e lhe deram a mulher, que retiraram de seu lado e preencheram com carne, chamada Eva. A partir da criação de Eva, Adão retornou ao estado de ser meramente animado e o espírito passou a habitar em Eva.

Depois disso, os governantes viram Eva e se agitaram. Desejaram possuí-la, mas novamente a tentativa foi fracassada. O espírito que habitava em Eva riu-se deles, pois eram como ignorantes, e disfarçou-se em árvore enquanto eles desonravam apenas sua sombra. Então, o espírito, agora chamado de princípio espiritual feminino, deixou a árvore e passou para uma serpente que falou com Eva e instruiu-lhe a tomar e comer do fruto da árvore do bem e do mal. Segundo a serpente, esse fruto abriria os olhos de Eva e Adão e ambos seriam como deuses. Os seres meramente animados comeram do fruto e imediatamente souberam que estavam “nus do elemento espiritual”. Por causa disso, depois de interrogados pelo governante-chefe, Adão e Eva foram expulsos do jardim e a serpente, sem o espírito, foi amaldiçoada.

A expulsão do jardim resultou numa vida de trabalho árduo para Adão e Eva. Eles tiveram como filhos Caim, Abel e Set. O último, segundo Eva, substituiu Abel que foi assassinado por Caim por causa da inveja que ele sentia de seu irmão pastor, cujas ofertas votivas foram aceitas por Deus. Depois, Eva deu à luz Nõrea que, posteriormente, tendo sido impedida de embarcar na grande arca construída por Noé por orientação dos governantes, soprou e destruiu a arca que teve de ser novamente construída. Os governantes vieram até Eva e desejaram-na também, mas ela os recusou chamando-os de “governantes das trevas” e “malditos”. Nõrea re-afirmou que eles eram “de baixo” e os renegou, mas tendo sido ameaçada pelos governantes, clamou pelo auxílio do deus da Totalidade e foi atendida. Um anjo, Eleleth (prudência) veio em seu auxílio e a instruiu sobre sua raiz.

Então se inicia uma nova parte do mito em que Nõrea é a narradora. Nesta parte, a narrativa se parece com uma revelação e o mediador é o anjo que diz a Nõrea que os governantes não tinham poder algum sobre ela. Ela era a raiz da verdade e “por causa dela ele é manifestado no fim dos tempos e estas autoridades serão dominadas”. Depois dessas coisas, o anjo revelou a origem do cosmos e da humanidade. Disse que Ialdabaoth era um ser andrógino gerado nas sombras e com forma de leão, que por ter ciúme de deus, ele foi condenado. Na sua condenação, ele criou o mundo e sete filhos para os quais se apresentou como o deus da totalidade. Por causa disso foi lançado ao Tártaro por Zoe, filha de Pistis Sophia. Um dos filhos de Ialdabaoth, em face do poder de Zoe, voltou-se para a divindade e foi encarregado do sétimo céu. O anjo então revelou que Norea era pertencente ao pai primevo, do alto e da luz incorruptível. Os governantes não poderiam tocá-la e após três gerações, nasceria aquele que os libertaria definitivamente do cativeiro e do erro das autoridades. O mito encerra com um poema de libertação.


2) A moldura da literatura gnóstica


Os gnósticos identificavam-se como pessoas aptas a gnôsis de Deus. Esses grupos podem ser identificados também pelos termos setianos, barbeloistas, barbelognósticos, ofianos ou ofitas. Sabe-se que a maior parte dos textos gnósticos que se conhece passou pelo processo de cristianização [5] e, portanto, sofreram alterações na forma de apresentação e nos conteúdos.

Os textos que descrevem relatos sobre as origens do cosmos e da humanidade com caráter sagrado e de revelação divina são considerados mitos. Na tradição judaico-cristã, assim como na tradição de outras civilizações antigas, os mitos de origens são comuns. Para G. S. Kirk, os mitos servem a diferentes funções. Isto significa que não são apenas narrativas fantásticas a cerca de divindades ou das origens. Os mitos possuem funções como a organização de estruturas sociais. Por isso, a narrativa mítica é muito mais do que farsa ou lenda. Por trás do mito há um conjunto de imagens concretas que origina a narrativa e à medida que o mito é recitado se materializa em ações e relações sócio-culturais, que fornecem sentido seus grupos de origem. [6]

Embora alguns gnósticos refutassem a autoridade das escrituras reconhecidas como de origem judaica e pretendessem substituí-las, tanto a Bíblia Hebraica quanto a literatura neo-testamentária eram produtoras de sentido para esse grupo. A ausência de lideranças instituídas para coordenar os primeiros cristãos provavelmente possibilitou que não houvesse uniformidade na maneira de interpretar e seguir os ensinos de Jesus.

Embora a literatura gnóstica não faça parte do cânon oficial da igreja cristã podia ser encontrada com certa facilidade nas comunidades cristãs, por volta do II e III séculos ainda. [7] É provável que entre Roma, Egito e Alexandria, as diversas escrituras e tradições a cerca de Jesus e seus ensinos circulassem de modo espontâneo. Após a morte de Jesus, discípulos e seguidores do movimento se guiavam pelas memórias dos apóstolos. Quando essas testemunhas oculares começaram a morrer foram substituídas, nas liturgias das reuniões cristãs, pela leitura de escritos e das cartas paulinas [8].

Provavelmente a expressão “grande apóstolo” presente na Realidade dos Governantes seja referência a Paulo (Cf. Col 1,13; Ef 6,12). Essa passagem denuncia que entre os gnósticos, Paulo era uma liderança respeitada. Bentley considera que os textos gnósticos destacavam grande originalidade quanto às interpretações da Bíblia Hebraica e do Novo Testamento, todavia, se caracterizavam pela oposição ao movimento cristão. Mas será que a formulação dos escritos gnósticos teria seu motivo principal na oposição aos escritos judaico-cristãos, como sustenta esse pesquisador?


3) Mitos gnósticos sobre as origens


Os mitos gnósticos basicamente se desenvolvem em quatro cenas: a expansão de um solitário princípio (deus) num universo não material e completo; criação do universo (estrelas, plantas, terra, inferno e outros); criação de Adão, Eva e seus filhos e a história subseqüente da raça humana [9].


a) Os campos semânticos

Os mitos gnósticos possuem termos que aparecem freqüentemente. Os personagens míticos eram descritos em termos de hierarquias celestiais, como: a descendência de Set (semente, posteridade – Gn 4:25); os filhos da luz; a raça perfeita; a raça indômita. Outras expressões importantes são: universo espiritual (com relação ao lar dos gnósticos); grandes eternos éons; imortais; totalidade; governantes; poderes; autoridades (humanidade não-gnóstica, os inimigos celestes demoníacos) [10].


b) Temas recorrentes


Dualidades

A dualidade característica da estrutura de pensamento do mundo antigo e a rivalidade entre universo espiritual e material aparecem como fio que permeia os principais temas dos mitos gnósticos. Entre eles destacamos a renúncia à vida material, o ascetismo e a contemplação. Esses três temas são invocados nos mitos como necessários comportamentos a fim de que se obtenha o reino ou um bem maior somente ganho no futuro. Em geral, há certa similaridade com a cosmovisão apocalíptica que compreende o mundo em termos de oposições (alto/baixo; bem/mal; corpo/espírito e outros).


Ascetismo e Abstinência

Alguns ditos de Tomé demonstram certo hermeticismo [11] originado em antigos movimentos cristãos grego-egípcios que promoviam a crença na divinização humana. De acordo com a crença de uma essência divina interna, o corpo mortal se tornaria imortal em função do conhecimento de si mesmo que conduziria o humano ao conhecimento da natureza divina [12].

Outras características dessa iniciação hermética eram a ênfase na piedade e na pureza, principalmente a abstinência dos prazeres proporcionados pelo mundo. Porém, isso não significa que todos os herméticos eram ascéticos ou que todos os gnósticos fossem abstinentes. Alguns eram designados para procriar e perpetuar a raça humana.

Elaine Pagels destacou em seu livro Adão, Eva e a Serpente que as histórias da tradição judaico-cristã falavam a respeito da sexualidade, da abstinência ou da pureza sexual sempre por meio dos mitos. Sempre que mencionados, os personagens Adão, Eva e a Serpente serviam para explicitar o comportamento sexual judaico-cristão: o que deveria ou não ser feito. Professores judeus, antes e depois de Jesus, ao evocarem o Gênesis, ensinavam desde como deveriam ser as práticas sexuais até como a nudez em público era desprezível. O ato sexual era destinado à procriação [13].


Batismo Gnóstico

O batismo era o rito que marcava a vida espiritual do gnóstico. Envolvia renúncia, instrução, aprendizagem e a iniciação de um novo estado de vida e parentesco. Com o batismo se recebia também a gnosis e a capacidade de vencer a morte” [14]. A pureza obtida ritualmente determinava o grau de parentesco com o divino e atribuía ao indivíduo status de pessoa íntegra, portanto, filho da luz.


Sexualidade

Para alguns gnósticos o sexo era comportamento recriminável já que estava ligado diretamente ao corpo que era concebido como matéria irrelevante. No entanto, em A Realidade dos Governantes a repugnância ao sexo não é clara. Nessa narrativa, a beleza atribuída ao ser celestial supremo foi refletida nas águas e desejada pelos seres inferiores. O texto parece caracterizar a beleza divina mas o desejo pecaminoso. Assim, torna a beleza inacessível e enfatiza que o desejo não realizado torna-se impulso destrutivo. Os seres inferiores tentaram tomar a imagem da Incorruptibilidade à força, mas fracassaram. O estado de pureza de um gnóstico não assentia à mistura com seres de outras espécies, “os de baixo”, os governantes, jamais poderiam se relacionar sexualmente com os que fossem descendentes de Set: “os filhos da luz”.


Geografia mítica

As personagens dos mitos gnósticos se movimentavam freqüentemente entre os éons. Conforme a Realidade dos Governantes, a Incorruptibilidade “do alto” olha para baixo e sua imagem é refletida nas águas. Os governantes, “de baixo”, a vêem e se apaixonam. Assim, o mito traça espécie de geografia mítica por onde as personagens passeiam livremente. Tal jogo também está presente nos escritos bíblicos e agrega outros sentidos. Tudo que é do alto é bom (Cf. Lc 24,49; Tg 1,17; 3,15 e 16), Jesus é do céu e bom (1Co 15,47), mas o que é de baixo é mal (Jo 8,23) e inferior ao que é do alto [15]. Tais temas não são exclusivos do movimento gnóstico, ao contrário, apresentam características semelhantes a outros grupos como Qumran.


Corpo e alma

Os cristãos gnósticos compreendiam o corpo em termos de realidade material finita, assim, chamavam-no “vestimenta” da alma. Para esse grupo, o corpo era o depósito da alma, mas em si carregava o peso da materialidade impura e maldosa. Em oposição a essa realidade, a alma pura e boa por meio da qual se chegaria à gnose de deus submetia-se ao jugo de estar presa ao corpo. Deste modo, os impulsos “carnais” representavam perigo ao objetivo gnóstico de chegar-se a deus. Desejos, paixões e sexualidade, deste modo, entremeavam os mitos e estabeleciam limites de pureza e impureza que regulavam a religião e a organização do grupo.

Apesar do desejo dos governantes em apoderar-se da imagem perfeita da incorruptibilidade refletida nas águas, o desejo não pôde ser atendido em função da hierarquia celestial, reforçada pela de geografia mítica. Essa cena lembra o Gênesis: “a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas” (2:1).


4) A Realidade dos Governantes: Autoria, datação e origem.


Segundo a pesquisa apresentada por James Robinson [16], a RG é uma narrativa anônima que se baseia em Gn 1-6 sob a forma de discurso de revelação. O texto denuncia certo toque helenístico, mas é fortemente marcado por elementos da tradição judaica. O documento que pertence à biblioteca de Nag-Hammadi é provavelmente do fim do século II e traduzido do grego para o copta [17].

Os assuntos de data e proveniência são complicados em decorrência da interpretação cristã que usa o Gênesis como base. Assim, discurso de revelação, soteriologia e escatologia teriam sido resultados desse processo de cristianização. É plausível que esse texto seja obra de algum mestre gnóstico com objetivo de instruir sua audiência. Ele, assim como seu grupo, possuía conhecimento da literatura judaico-cristã e submetia-se a autoridade paulina. Eles seriam familiares à tradição judaica e à apocalíptica cuja cosmovisão prevê a providência e a esperança para comunidades reprimidas, seja por perseguição política ou pressão de outros grupos religiosos [18]. Os gnósticos teriam definido sua própria natureza espiritual em oposição ao domínio e à escravização das autoridades. Assim, os cristãos gnósticos podem ter esperado que seriam mais duráveis que os arcontes, e seus destinos celestiais seriam mais gloriosos. [19]


a) Personagens Míticos

A trama mítica gnóstica é repleta de personagens. Em especial, na Realidade dos Governantes, os personagens são protagonistas de duas esferas de poder que se enfrentam – o bem e o mal – tal como nos mitos de combate orientais que, posteriormente, cederam suas estruturas para a teologia cristã do evangelista João e do apóstolo Paulo.

Os personagens Imortais são: o Pai da Totalidade – também chamado de Verdade ou Luz incontaminada; a Incorruptabilidade – que preside à totalidade (onde reside o espírito virgem), superior às autoridades do caos (RG 93,31); a Sabedoria (Pistis Sophia); Vida (Zoe), a filha de Pistis Sophia. O Espírito ativo na humanidade, Espírito de Vida, é também o princípio espiritual feminino (RG 87,4-8).

Os Governantes ou Autoridades figuravam o espaço visível. Eles possuíam alma, mas não espírito. Eram animados (psykhikos) e não tinham lei. Eles eram: Ialdabaoth, principal governante (também chamado Sacla e Samael, deus dos cegos), Sabaoth, filho de Ialdabaoth, os Sete descendentes de Ialdabaoth (incluindo Inveja, Morte etc) e O Anjo da Cólera.

Basicamente a Humanidade dos textos gnósticos fala a respeito de Adão, Eva (contraparte de Adão) e os filhos Caim (gerado pelos governantes), Abel (gerado por Adão), Set (gerado por deus), Norea (filha da incorruptibilidade) os filhos da luz (descendentes de Norea).


b) Os filhos da luz versus os filhos das trevas

Na tradição literária judaico-cristã, verificamos menções sobre o dia do enfrentamento entre o bem e o mal: a batalha escatológica, considerada gênero literário [20]. A batalha escatológica alude ao conflito que haverá entre os filhos da luz (Cf. Lc 16,8; Jo 12,36; Ef 5,8; I Ts 5,5) e os filhos das trevas no dia final. Esse conflito será protagonizado pelos seres espirituais angelicais (liderados por Miguel) versus os demônios (comandados por Belial). Alguns textos da literatura bíblica mencionam essa ocasião por meio de expressões como: “virá o fim” (Mt 24,14), “dia do juízo” (Mt 10,15) e “naquele dia” (Mt 7,22).

Na RG, o Pai da Totalidade e os gnósticos enfrentam os Arcontes que representam as autoridades das trevas (Cf. RG 97,10-19). De acordo a revelação na RG, os gnósticos obterão vitória sobre os Arcontes, mas deveriam conhecer essa realidade de autoridades más a fim de combatê-las (RG 86,26). A oposição entre filhos da luz e filhos das trevas é recorrente na tradição judaica. Atestamos sua aparição em diversos extratos de Qumran: “Na guerra, os filhos da luz serão os mais fortes durante três lotes para derrotar a impiedade; e em (outros) três, o exército de Belial se cingirá para fazer retroceder o lote de [...] Os batalhões de infantaria farão derreter o coração, porém o poder de Deus reforçará o cora[ção dos filhos da luz]. E no sétimo lote a grande mão de Deus submeterá [Belial e to]dos os anjos de seu domínio e todos os homens de [seu lote]” – 1QM I, 13-15.

Segundo L. Schiavo, no tempo de Jesus as idéias de oposição encontravam terreno fértil em Qumran [21]. No prólogo da Regra da Comunidade o dualismo é afirmado na divisão entre Filhos da Luz em conflito com os Filhos das Trevas (1QS I, 9). Deve-se dar especial atenção ao Tratado dos dois Espíritos (1QS III,13-IV,26) [22], na declaração que Deus “criou o homem para dominar o mundo, e pôs nele os espíritos, para que caminhe por eles até o tempo de sua visita: são os espíritos da verdade e da falsidade (...) Na mão do Príncipe das Luzes está o domínio sobre todos os filhos da justiça; eles andam por caminhos de luz. E na mão do Anjo das trevas está todo o domínio sobre os filhos da falsidade: eles andam por caminhos de falsidade” (III, 17-21).

Algo semelhante acontece em 11Melquisedec (11Q13). Neste texto, Melquisedec é reconhecido como juiz escatológico que realizará o julgamento divino sobre Belial com a ajuda dos que estão ao seu lado, “os espíritos angélicos do céu” (11Q13, 7-8) [23] .

Nas tramas míticas, o combate entre luz e trevas era o fio condutor das relações entre seres celestiais e humanos. Parece que a cosmovisão apocalíptica e o gnosticismo compartilhavam do mesmo universo simbólico que fornecia elementos fundantes para a formação da identidade e da religiosidade de ambos. As guerras nas regiões celestiais espelhavam os conflitos do mundo material. Todavia, a batalha se dava na forma de continuidade e essa geografia mítica projetava os limites que delineavam as comunidades gnósticas.


5) Considerações Finais


Já foi sugerido que os escritos gnósticos possuem similaridades com a literatura paulina. O emprego de termos como “filhos da luz”, “filhos das trevas”, “hostes espirituais”, “carne”, “corpo”, “alma”, “guerra”, universo material e universo espiritual demonstram isso. Mas, além disso, a lembrança do “grande apóstolo” evocada no princípio do mito demonstra a relação estabelecida entre gnosticismo, judaísmo e cristianismo dos séculos I e II.

Assim como as epístolas paulinas abrangiam certamente o perímetro Roma, Egito e Alexandria, tais tradições míticas também circulavam, mas a recepção das comunidades era autônoma. Apesar de não serem identificados na literatura neo-testamentária, os governantes são sinônimos dos “principados” e das “potestades do mal” de Paulo (Cf. Ef 3,10; 6,12; Cl 1,16; 2,15). Com isso, percebemos que os personagens assumem estigmas diferentes e invertem funções, mas emergem do mesmo quadro de referências culturais.

Apesar de ter sido alvo da interferência de algum editor cristão, o mito gnóstico interpretou o Gênesis da Bíblia Hebraica, fundiu elementos do ascetismo de Qumran e invocou a autoridade dos ensinos de Paulo. A incursão por essas literaturas, ao nosso ver, demonstra que o mestre gnóstico e sua audiência implícita não se opunham ao judaísmo e tampouco ao cristianismo. Ao contrário, é mais provável que eles viviam essa tradição, todavia, representavam uma expressão religiosa que se relacionava de modo diferente como os textos fundantes do judaísmo e do cristianismo. Ao passo que entre judeus e cristãos, a serpente simbolizava o desvio, os gnósticos consideravam sua atuação instrutora e o fruto da árvore, revelador. Para eles, o caminho que os conduziria ao encontro com Deus era o conhecimento obtido por meio de um estado de consciência superior.

A Realidade dos Governantes, entre outras coisas, fornece pistas sobre concepção religiosa e organização social gnóstica. Para nós, o gnosticismo e sua literatura refletem o dinâmico panorama religioso do I século da EC e requer da exegese re-aproximação com referencial teórico atento às peculiaridades das origens cristãs, e isento das classificações “ortodoxos” e ou “heréticos”. As re-formulações gnósticas da herança judaico-cristã expressavam a autonomia de grupos cristãos que se apropriaram da força simbólica das narrativas sagradas e re-ordenaram suas interações sociais à luz dos novos sentidos que atribuíram aos símbolos da tradição. Embora os novos sentidos aparentemente sejam contrários à interpretação judaica e cristã, eles são, para nós, apenas inversões que se dão em contextos onde há processos de difusão de outros sistemas culturais.

Portanto, não se trata de oposição simplesmente, mas de inversão ocasionada pelos processos de adaptação cultural a que os cristãos estavam continuamente expostos.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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Notas


[1]Cf. PAGELS, Elaine. Adão, Eva e a serpente. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. pp. 93-94.
[2]Neste texto, usaremos a abreviação RG para A Realidade dos Governantes.
[3]Em 1945, nas montanhas de Nag-Hammadi (Egito), foram descobertos vários textos escritos em língua copta, datados entre os séculos I e IV. Esses textos se referem aos inícios da tradição cristã no mundo antigo e apresentam evidências de influências judaicas, egípcias e gregas. Cf. PIÑERO, Antonio (ed.). Textos gnósticos Biblioteca de Nag Hammadi II: evangelios, hechos, cartas. Madrid: Editorial Trotta, 1999. (Colección Paradigmas: Biblioteca de las Ciencias de las Religiones).
[4]Cf. PAGELS, Elaine. Além de toda crença: O evangelho desconhecido de Tomé. Trad. Manoel Paulo Ferreira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
[5]LAYTON, Bentley. As Escrituras Gnósticas. Traduzido por Margarida Oliva. São Paulo: Loyola, 2002. p.XVII.
[6]Cf. KIRK, G. S. Myth: Its meaning & functions in Ancient & Other Cultures. Berkeley and Los Angeles: Cambridge University Press/University of California Press, 1973. pp. 252-289.
[7]LAYTON, Bentley. As Escrituras Gnósticas. p.XX.
[8]Cf. BITTENCOURT, B.P. O Novo Testamento: metodologia da pesquisa textual. Rio de Janeiro: JUERP, 1993. pp. 59-92.
[9]LAYTON, Bentley. As Escrituras Gnósticas. p.13.
[10]Linguagem identificada em Paulo: o embate entre luz e trevas, universo material e universo espiritual; os dois domínios separados por um véu (Cf. RG 94,8).
[11]O hermetismo foi uma religião que existiu na Síria (entre o I e II século). Eles cultuavam a divindade chamada Nebo que foi identificada com Hermes, em Edessa e Harran.
[12]DE CONICK, April D. Seek to See Him: Ascent and Vision Mysticism in the Gospel of Thomas. Leiden/New York: Brill, 1996. p.9.
[13]PAGELS, Elaine. Adão, Eva e a serpente. pp.29-61.
[14]LAYTON, Bentley. As Escrituras Gnósticas. p.19.
[15]Confira também Jo 3,31; 19,11; Gl4,26; Cl 3,1-2.
[16]ROBINSON, James M. (ed). The Nag Hammadi Library in English. 3ª ed. San Francisco: Harper &Row/New York, Grand Rapids, 2000.
[17]KUNTZMANN, R. e DUBOIS, J. D. Nag Hammadi: o evangelho de Tomé. Textos gnósticos das origens do cristianismo. São Paulo: Paulinas, 1990. 181p.
[18]De acordo com Martinus, a apocalíptica é a cosmovisão dos grupos de cristãos de tradição judaica que integravam o movimento apocalíptico. Esses grupos se caracterizavam por desenvolverem postura de resistência frente às opressões políticas e religiosas. Nos escritos bíblicos, essa cosmovisão e movimento podem ser identificados por meio do gênero literário apocalipse, especificamente em Dn 7-12 (AT) e no Apocalipse de João (NT). Cf. MARTINUS, Boer de. “A influência da apocalíptica judaica nas origens do cristianismo: gênero, cosmovisão e movimento social”. Trad. de Paulo Augusto de Souza Nogueira, in Estudos e Pesquisas em Religião, 19(2000): 11-24.
[19]BULLARD, R. A. “The Hypostasis of the Archons (II,4)”. In ROBINSON, James M. (ed). The Nag Hammadi Library in English. 3ª ed. p.161-169.
[20]RODRIGUES, Elisa (et al). Batalha escatológica. In: Palavra de Deus, Palavra da Gente: as formas literárias na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2004. pp.164-165.
[21]SCHIAVO, Luigi. O mal e suas representações simbólicas. O universo mítico e social das figuras de Satanás na Bíblia. In: Estudos de Religião 19 (2000): pp.65-83.
[22]Cf. ALLEGUE, Jaime Vásquez. Los Hijos de la Luz y los Hijos de las Tieneblas. El prólogo de la Regla de la Comunidad de Qumrén. Navarra: Editorial Verbo Divino, 2000. 433p.
[23]ADRIANO FILHO, José. Melquisedec, um redentor celestial e juiz escatológico. Um estudo de 11Melquisedec (11Q13). In: Estudos de Religião 19 (2000): pp.45-64.