Blanches de Paula [*]
O presente artigo elucida algumas indicações sobre temas que precisam ser aprofundados dentro da psicologia pastoral em diálogo com a teologia. Adentra em temáticas do cotidiano que potencializam a necessidade de uma reflexão teológico-pastoral sobre as vivências das pessoas em sociedade. Oferece subsídios para discussões que podem ser estreitadas principalmente com o aconselhamento pastoral.
Psicologia pastoral – cotidiano – cuidado pastoral
Blanches de Paula é Pastora Metodista, doutoranda em Ciências da Religião e professora da FaTeo/Umesp.
| [*] | Texto apresentado no 2º Simpósio da Rede de Psicologia Pastoral Latino-Americana ocorrido nos dias 02 a 06 de julho de 2006 em São Bernardo do Campo, SP. |
Expressões presentes na linguagem das pessoas – como “Freud explica”, “Deus cura” – elucidam a influência da psicologia e da pastoral nas tramas relacionais do dia-a-dia. É fato que a psicologia pastoral tem contribuído amplamente com a teologia, principalmente no aconselhamento pastoral [1]. Com sua forte marca interdisciplinar, a psicologia pastoral evidencia sua presença no cotidiano das pessoas. Procura adentrar nos meandros do ser humano e da teologia com o olhar psicológico, especialmente psicanalítico e humanista. De outro lado, a psicologia pastoral percorre aparatos bíblicos, inserindo uma dimensão antropológico-existencial na hermenêutica bíblica. Porém, parece que, por vezes, a psicologia pastoral está embuída de uma tendência a um “fundamentalismo psicológico clínico”. Nesse sentido, a saúde “psicopastoral” seria demarcada pela única via hermenêutica: a psicológica. Diante disso, é vital que os temas a serem visitados ou revisitados em psicologia pastoral venham identificados com novas possibilidades de ler o ser humano. Assim, surgem algumas indagações: Qual é o objetivo e contribuição da psicologia pastoral numa sociedade como a de hoje? Quais os componentes que ainda faltam vir à tona na proposta de trabalho da psicologia pastoral? Para dialogarmos sobre o tema proposto, destaco os tópicos:
Este é um tema que não é novidade em nossa agenda na área de psicologia pastoral. Porém, aliado à inclusão social é necessário repensarmos também o patamar eclesiástico ou, melhor dizendo, religioso. O que significa para as pessoas participarem, aliarem-se a uma comunidade religiosa nos dias de hoje? O que elas buscam quando necessitam de ser escutadas e orientadas a partir da nossa formação em psicologia pastoral? Evidentemente, a inclusão eclesiástica, religiosa, supera os ditames estatísticos, nos remetendo ao processo de identificação das pessoas com um espaço de esperança que é um dos focos das igrejas, das comunidades religiosas. Diante disso, há grande necessidade de revermos nossas eclesiologias e formas de nos envolvermos em comunidade. Ademais, o foco da psicologia pastoral vai além do eclesiástico. Nesse sentido, podemos considerar o espaço eclesiástico como parte da rede psicológico-pastoral.
Um outro fenômeno que está inserido no dia-a-dia das pessoas envolve o medo e a insegurança na convivência nas cidades. Como parte de uma emoção que é inerente ao ser humano, o medo da violência tem modificado, de forma significativa, a imagem do mundo das pessoas. O enclausuramento nas grandes cidades tem criado novos tipos de relacionamentos e também de famílias. De outro lado, a imagem do mundo habitado tem despertado vários tipos de discussão e criação de grupos e redes de apoio para lidar com o medo, com a instabilidade e com a insegurança. Nesse prisma, o medo da cidade tem proporcionado o nascimento da demanda sócio-existencial de grupos humanos por identificação. Além disso, deparamos com a geografia espacial que denota uma noção conceitual e cultural de espaço no mundo urbano. O espaço é permeado não só pela demarcação de fronteiras, mas também pela sensação de segurança. Porém, percebe-se que o espaço de vivência e convivência tem causado sofrimento significativo na vida das pessoas. A mobilidade dentro do mundo urbano se dá pela busca de um bem-estar, segurança, sonho... A mobilidade é permeada por um mecanismo de comunicação e crença.
A psicologia pastoral é desafiada também a dialogar com a infância e juventude de nosso país e continente em dois matizes: da expectativa de vida e também de maneiras de se relacionar, do seu mundo afetivo e do trabalho. Os ciberencontros que acontecem com predominância na classe média, acredito eu, têm transformado as configurações de relacionamentos entre as pessoas, especialmente a juventude.
Os ciberencontros têm criado novas formas de relacionamento. A distância “espacial” entre as pessoas, de certa maneira, garante o não enfrentamento das rupturas existenciais tão dolorosas. Ou seja, os ciberencontros têm sido um componente vital para a evitar sofrimento e frustração. Nasce assim a “afetividade virtual”. A imagem do mundo se mistura ao mundo da imagem! Surge uma questão: como a psicologia pastoral responde às demandas dos relacionamentos virtuais de nossos tempos?
Definir o sofrimento humano é uma tarefa desafiadora num contexto em que sua presença tornou-se diária na vida de tantas pessoas. É uma sensação de um profundo perder-se que atinge o pensamento, o sentimento, o corpo. Negá-lo é evocá-lo. Na psicologia, o sofrimento está ligado à dor. Evidentemente, ao falarmos sobre o sofrimento é impossível não adentrarmos na dinâmica dos personagens mencionados na vivência do mesmo: as pessoas, a fé, o panorama vivencial.
A psicologia considera que o sofrimento pode ser neurótico dentro do fenômeno do masoquismo, ou seja, a pessoa quer sofrer. O sofrimento está focado no sentimento de que a vida vai ser conduzida quase que inteiramente ou “inteiramente” pelos outros, é a perda do “direito de opinar pela própria vida”. [2]
Como podemos perceber, não existem conceitos que, por si mesmos, consigam explicar o sofrimento na sua totalidade. O sofrimento não é conceituado com argumentos lógicos, teológicos e científicos puros. O sofrimento pode atingir o ser humano independentemente de sua crença. Convivemos com o sofrimento, mas isso não quer dizer que o aceitamos.
O isolamento pode impactar alguém que, convivendo numa comunidade de fé, sente-se excluído porque não consegue aceitar as explicações mais comuns para o sofrimento como: “foi vontade de Deus”, “você está em pecado”, “o diabo causou isso”. De certa forma, o que pode de um lado trazer certo consolo, pode mascarar o que verdadeiramente a pessoa está sentindo naquele momento. O sofrimento faz calar argumentos da fé que não incluem o não respondível, que está nas entranhas de cada um/a de nós.
A psicologia pastoral, como parte da rede de apoio de pessoa, família, cuidador/a, pode ser um espaço de expressão do “sofrimento sem exílio”. Ademais, a psicologia tem ampliado seus estudos sobre a influência terapêutica da Espiritualidade na saúde das pessoas. Portanto, vem questionando modelos de Espiritualidade que possam nutrir o sofrimento e a dor humana sem uma elaboração adequada. François Varone nos ajuda a redimensionar o conceito de sofrimento: “*O sofrimento humano é o resultado normal da fragilidade física e moral da humanidade e do mundo. O sentido de tal sofrimento é, dessa forma, puramente imanente ao acontecimento e às suas causas concretas, em princípio assinaláveis*”. [3]
Ao tratar do sofrimento, perguntamo-nos: a psicologia pastoral está voltada única e exclusivamente para as pessoas de dentro de nossas igrejas, ou ela amplia sua contribuição com a saúde pública ao ampliar sua atuação como parte de redes de apoio em prol do cuidado com o ser humano?
A Sociologia da Emoção – ramo que tem sido pesquisado no Brasil pelo antropólogo brasileiro Mauro Guilherme Koury, dentre outros – tem possibilitado pesquisas em áreas de interesse da psicologia pastoral, como luto, vergonha, culpa, dentre outras. Para Koury, as intervenções na realidade do sofrimento social devem incluir, em suas ações, o conhecimento de grandes restrições que o brasileiro tem para expressar seu sofrimento existencial.
A individualização crescente das relações sociais no Brasil atual vem tendendo a um refreamento do processo de individuação do sujeito que sofre a perda, através do mascaramento da dor, do sofrimento e da morte. Essa tendência social de escamoteamento da expressão pública dos sentimentos e a valorização da interiorzação, enquanto espaço da intimidade, do privado, ou da subjetividade, cria uma predisposição permanente no indivíduo à desconfiança no outro, e por extensão, no social. Parece tender a ser administrado socialmente através do princípio do desempenho [4].
A exacerbação da interiorização pode redundar em sérios riscos para a saúde pública em nosso continente. Os estudos da sociologia da emoção podem nos ajudar a ampliar nossas visões sobre o ser humano e sua relação social. Uma observação que faço diante dessa maneira de lidar com o campo das emoções humanas é que a pesquisa, liderada por esse antropólogo, levanta dados, porém não chega a se debruçar em possíveis caminhos e ou intervenções sociais. Diante do olhar interdisciplinar para a sociedade nos defrontarmos com a necessidade de checar a realidade dos serviços de saúde de nossos países.
Um diálogo muito promissor entre a psicanálise e a psicologia pastoral, por exemplo, tem contribuído de forma significativa com a hermenêutica existencial tanto da teologia como da psicologia. Tem possibilitado o encontro entre dois campos do saber, antes de difícil acesso. E as outras escolas de psicologia? Até que ponto elas são consideradas como parte do diálogo? Além disso, nossa indagação norteia o alcance da psicologia pastoral nos setores economicamente desfavorecidos, numa sociedade em que as pessoas procuram o referencial pastoral para lidar com situações que lhes causam doenças e mal-estar social.
Um exemplo bastante promissor foi a iniciativa da psicologia brasileira ao repensar sua inserção social mediante o Banco Social de serviços em psicologia [5] – maio de 2003 a agosto de 2005. As linhas de interação e inserção do Banco Social, diante da vulnerabilidade social marcada por várias facetas em nossa sociedade foram:
A avaliação desse programa trouxe mudanças significativas no cenário psicológico em nosso país. Evidentemente, a contribuição de autores latino-americanos têm demonstrado uma preocupação marcante sobre a pauta social. As transformações que a psicologia vem atravessando podem iluminar a psicologia pastoral no que se refere à sua inserção social. De outro lado, as reflexões e atuações da pastoral também podem iluminar sua faceta de cuidado no diálogo com a psicologia.
Quais as áreas de pesquisas em que precisamos avançar? Quais são nossos públicos-alvo? Como as pessoas lidam com sua saúde no que tange à dimensão psíquica? Quais os métodos que poderiam nortear nossas pesquisas? Parte dessas perguntas evoca como estamos apreendendo a interpretação bíblica na psicologia pastoral. É fato que a Bíblia não trata de forma específica todos os temas humanos. Porém, a interpretação cristã da Bíblia destaca valores de conduta das pessoas que vivenciam a fé no Deus que nos acompanha em nossa história. Pautados nesse fator, é indispensável repensarmos também a formação acadêmica da psicologia pastoral no que ela vem trabalhando no decorrer da formação teológica. Um dado importante, a ser também colocado na mesa, é o tempo despendido, em nossas escolas de formação, em prol da psicologia pastoral. O que é estritamente psicológico; o que é estritamente pastoral em nossa atuação e pesquisas? Essa distinção é importante?
Enfim, o que nos desafia quando olhamos o panorama da psicologia pastoral diante dos temas atuais?
Que esses desafios fomentem novas luzes do cuidado pastoral numa sociedade carente de recursos sócio-afetivos!
AMATUZZI, Martins Mauro. Psicologia e Espiritualidade. São Paulo: Paulus, 2005.
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
FERNANDO, Edson; REZENDE, Jonas. Dores que nos transformam. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Sociologia da Emoção: O Brasil urbano sob a ótica do luto. Petrópolis: Vozes, 2003.
VARONE, François. Esse Deus que dizem amar o sofrimento. Aparecida: Santuário, 2001.
_____ http://www.pol.org.br (acesso em 20 de maio de 2006).
| [1] | A autora não encara como sinônimas as expressões psicologia pastoral e aconselhamento pastoral. O aconselhamento pastoral envolve outras ciências, além da psicologia, para subsidiar o exercício do cuidado, com ênfase maior, evidentemente, na teologia. |
| [2] | FERNANDO, Edson; REZENDE, Jonas. Dores que nos transformam. Rio de Janeiro, Mauad, 2002, p. 194. |
| [3] | VARONE, François. Esse Deus que dizem amar o sofrimento. Aparecida, Santuário, 2001, p. 266. |
| [4] | KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Sociologia da Emoção: O Brasil urbano sob a ótica do luto. Petrópolis, Vozes, 2003, p. 198. |
| [5] | Para maiores informações consultar o site do Conselho Federal de Psicologia: http://www.pol.org.br |
