A psique como sacramento, de John P. Dourley. Tradução de Elizabete G. M. L. Jansen. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.

Tommy Akira Goto

A psique como sacramento é uma valiosa obra de John P. Dourley que tem como objetivo estabelecer a relação da teologia com a psicologia. John Dourley é renomado teólogo católico, analista junguiano e professor de Estudos Religiosos na Carleton University – Ottawa. Dourley tem como base de seu pensamento o diálogo entre estas duas ‘ciências’ – teologia e psicologia.

Não é tarefa fácil estabelecer e dar continuidade ao diálogo entre teologia e psicologia. Muitas tentativas têm sido feitas, porém sempre parece haver predominância de uma das partes. Dourley, neste livro, concretiza esta tarefa estabelecendo o diálogo entre a teologia de Paul Tillich e a psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Trata-se de frutífero diálogo que se mantém aberto e receptivo tanto às convergências como às divergências do pensamento de ambos autores. Nesta obra, são tratados temas como psicologia da religião, sacramentos, símbolos religiosos, Trindade, cristologia, desenvolvimento da personalidade, teologia e espiritualidade dentre outros na perspectiva de Tillich e Jung.

Além de representar o diálogo sobre a religiosidade no pensamento de Tillich e Jung, A psique como sacramento, é o relato de como a experiência religiosa tem seus fundamentos, tanto na ‘base do ser’ quanto na psique humana. Este é o ponto de partida como indica o título do livro, expressando a idéia de que a psique é dotada de sentido sagrado.

A análise de Dourley parte do problema apologético. Tillich e Jung comparecem aí, pois, como dois grandes apologetas do cristianismo do século XX. Dourley identifica a crítica que Tillich e Jung fazem quanto à destruição da religião no Ocidente. Procuram em contrapartida recuperar o sentido originário da religião por meio da experiência do ser em Deus. Desta maneira, o autor do livro mostra como a teologia de Tillich estabelece certa intimidade com a psicologia de Jung no que se refere à experiência religiosa. Nesse sentido, os dois autores procuram restaurar o sentido espiritual da humanidade.

Uma das principais relações que Dourley percebe nesses autores é a preocupação sobre a perda da sensibilidade religiosidade. Como conseqüência disso temos a perda do sentido dos símbolos religiosos, tão importantes na constituição e desenvolvimento da personalidade. Isso porque, tanto Tillich quanto Jung acreditam ser a religião e seus símbolos o aspecto fundamental na constituição do ser humano. Dourley afirma que "o símbolo fornece ao homem acesso a uma humanidade mais equilibrada e elevada, que é experimentada como uma dádiva e como sucesso alcançado." (Cf. p.69) Assim, a sociedade moderna tem necessidade de buscar novo sentido para a religião, seja nos aspectos psicológicos ou nos teológicos.

Dourley não se restringe apenas à intersecção dos autores no contexto da religiosidade em termos de sistemática ou dogma, mas em examinar criticamente como Tillich e Jung interpretam fenômenos como Deus e a união dos opostos, o Cristo não histórico, o Espírito Santo e finalmente o papel das instituições religiosas.

Para o autor do livro o importante é evidenciar como Tillich e Jung se aproximam da simbólica religiosa e do conceito de Deus, seja na interpretação onto-metafísica ou na psicológica. Como exemplo, Dourley desenvolve a questão da Trindade em Tillich e Jung mostrando que eles são unânimes ao afirmar que a Trindade surge na "experiência do homem da profundeza dos processos de sua própria vida, tanto humana quanto divina." (Cf.71) Outro ponto desenvolvido por Dourley é a exploração de como os autores se baseiam na idéia de um Deus vivo que habita "dentro do homem", ou seja, no interior da psique humana. Na teologia de Tillich, Deus é o fundamento do ser humano. A psicologia de Jung também se aproxima desta idéia, na qual entende Deus como arquétipo do si-mesmo, dentro das estruturas do inconsciente coletivo humano.

As relações entre o pensamento de Jung e Tillich são estabelecidas a todo o momento por Dourley que conduz com clareza e exatidão as análises dessas idéias. Mesmo tendo de enfrentar algumas divergências com os autores estudados como, por exemplo, quando Jung se declara cientista empírico, Dourley procura entender, além dessa cientificidade, a sua psicologia fundada na profundidade do ser. O mesmo também acontece em relação a Tillich que se diz teólogo, ao mesmo tempo em que alicerça sua sistemática religiosa no âmbito da personalidade.

Esta exemplar obra de diálogo interdisciplinar, dá testemunho do que o próprio Dourley procurou com tanta diligência quando se deu contra de que "neste trabalho vital, realizado na profundidade da alma humana, a tarefa psicológica e religiosa é uma só."


O autor é aluno do curso de pós-graduação em Ciências da Religião da UMESP.