Alguns aspectos do catolicismo brasileiro atual - Considerações a partir da visão da modernidade em Paul Tillich

Etienne A. Higuet

A maioria dos historiadores da cultura ocidental reconhece na secularização um dos fenômenos marcantes da modernidade, conseqüência direta do processo de emancipação do sujeito individual racional e de suas implicações políticas e científicas. Hoje se vê melhor que a secularização não significa o fim da religião. Trata-se antes da "autonomização" do domínio "secular" ou profano ou da emancipação progressiva da tutela religiosa alcançada em todos os setores da cultura: política, economia, ciência, moral, direito, educação, arte etc. A secularização libera a sociedade da tutela das religiões ou, mais exatamente, dos seus órgãos de autoridade, as igrejas. A evolução ulterior leva normalmente ao desaparecimento de qualquer sentido religioso, mas pode também desembocar num pluralismo das concepções de Deus, do mundo e da humanidade. A nova credibilidade do religioso no mundo contemporâneo pode até ser vista como expressão da própria modernidade: na pós-modernidade, não haveria mais contradição radical entre religião e secularização[1].

Os escritos de Paul Tillich oferecem uma descrição dos principais traços da modernidade em relação com as duas grandes correntes religiosas do ocidente: o protestantismo e o catolicismo. No campo religioso, a modernidade se apresenta como figura singular da polaridade da substância católica e do princípio protestante, caracterizada pela ruptura da tensão e pela tendência à absolutização de um dos pólos. Resulta daí a contradição entre uma heteronomia idólatra e uma autonomia vazia, o que desperta o desejo de reconquistar a teonomia perdida. De acordo para entender a modernidade como secularização, os dois grandes ramos do cristianismo reconheceram seus aspectos positivos e negativos, o protestantismo adotando uma atitude geralmente mais favorável.

Teceremos, num segundo momento, algumas considerações sobre a visão tillichiana da evolução do catolicismo romano, a qual deverá ser parcialmente reformulada e ampliada, especialmente no que diz respeito às últimas décadas do século XX.

Enfim, na principal parte do artigo, analisaremos as reações de alguns setores do catolicismo brasileiro atual diante da nova situação da religião na sociedade e na cultura modernas e/ou pós-modernas.


Modernidade, substância católica e princípio protestante em Paul Tillich

Para Tillich – como para Weber e Troeltsch, entre outros – o protestantismo é a religião da modernidade. É a religião do secular e da autonomia da cultura moderna: "O protestantismo mantém um vínculo estreito com o mundo secular e um grande número de realizações seculares, (...) nutre uma verdadeira paixão pelo secular"[2]. Isso resulta da origem comum do protestantismo e do humanismo liberal nas correntes renascentista e iluminista. Os dois movimentos exerceram uma influência tão decisiva na formação da mentalidade moderna que Tillich chega a designar os quatro últimos séculos como "protestantes" ou "protestantes-humanistas"[3]. Caracterizam-se pela luta comum a favor da autonomia do sujeito humano racional e contra toda heteronomia ou lei alheia.

O protestantismo nasceu de um protesto profético ou crítico contra a absolutização da substância católica na igreja romana. No começo, a substância católica é uma dimensão polar do cristianismo e até da fé humana universal, em tensão permanente com o princípio protestante. Ela inclui três elementos: o sacramental ou intuição da presença do sagrado e da profundidade do ser em toda realidade transparente a seu próprio fundamento; a comunidade ou substância do amor, baseada na realidade sacramental do novo ser, que reúne os indivíduos alienados uns dos outros, manifestando-se assim como princípio de resistência a reificação das pessoas na vida social; a autoridade real, essencial para a vida, que exprime a verdade do fundamento do ser, manifestando-se através da tradição e dos símbolos.

Mas, desde a época da Reforma, a igreja romana é marcada pela transformação do sacramento em lei, em pressão contra Deus; pela despersonalização do amor, reduzido a obras salutares; enfim, pela metamorfose da autoridade real em autoridade de princípio, que institui um lugar absoluto de autoridade, escapando de qualquer crítica. O princípio protestante deve então exercer uma ação profética contra a absolutização sacerdotal – heterônoma e idólatra – de uma igreja, de um sistema de ordens, de sacramentos, de modos de vida e de dogmas[4]. Pelo seu protesto profético, o protestantismo aproxima-se da autonomia, do secular e do profano. Para ele, todas as pessoas e todas as coisas são profanas, tornando-se sagradas apenas na medida em que simbolizam a santidade divina[5]. O protestantismo encontra-se assim na origem do secularismo, não o contrário. Pela própria natureza, o protestantismo exige uma realidade secular, um protesto concreto contra a esfera do sagrado e contra a arrogância eclesiástica, um protesto incorporado ao secularismo.
Em toda forma protestante, o elemento religioso deve ser vinculado a um elemento secular e questionado por ele. (...) O secularismo é exatamente o corretivo do qual o protestantismo precisa contra a tentação de toda esfera religiosa e de todo sistema eclesiástico, de querer identificar-se ao incondicionado ao qual remetem[6].

A época moderna e sua admirável criatividade resultam da união da fé protestante com a fé humanista liberal, particularmente visível na difícil luta pela autonomia. Para Tillich, a teonomia ou o incondicionado manifestado na cultura está mais próximo da autonomia que da heteronomia, pois a teonomia é definida como autonomia informada por uma substância religiosa[7]. Só pode surgir quando a lógica da autonomia é levada até o fim, pois é a resposta à questão implícita na autonomia, a questão da substância religiosa e do sentido último da vida e da cultura. Enquanto movimento antes de tudo leigo, o protestantismo pode mais facilmente constituir uma síntese com o iluminismo, ao passo que, nos países católicos, cristianismo e iluminismo estão em conflito até hoje[8].

No início, o protestantismo precisou de aliados para resistir às antigas autoridades. Acabou fazendo aliança com o humanismo, que tinha primeiro repudiado. Aos poucos, a crítica autônoma confundia-se com a crítica protestante: na exegese bíblica, na consciência histórica, na educação, no progresso científico, no ascetismo intramundano e nas atitudes ativistas. Pois o humanismo resistia às mesmas coisas que o protestantismo: os "mitos de origem" que caracterizavam a era pré-protestante ou católica e expressavam o sentido das relações humanas com as potências originárias ou criadoras da natureza e da história. O humanismo revoltou-se contra o mito das origens em nome da humanidade autônoma e o protestantismo, em nome do espírito da antiga profecia e das doutrinas da predestinação e da justificação[9]. A dicotomia sujeito-objeto e a perda do sentido da presença imediata das origens e das fontes criadoras da vida humana foram conseqüências não desejadas deste processo. A personalidade e a comunidade se tornaram simples coisas objetivas, perdendo o seu poder e a sua profundidade intrínseca. A mesma coisa acontecia com os produtos da tecnologia. O espírito da finitude autosuficiente – o espírito burguês – passou a dominar até na religião. A humanidade burguesa apresentou-se como a realização da idéia cristã de humanidade[10]. Aliado do humanismo, o protestantismo não era mais que o aspecto religioso do capitalismo.

Do seu lado, o catolicismo conduz, desde a Contra-Reforma, uma luta defensiva ao mesmo tempo contra o protestantismo e contra a cultura autônoma. As tendências fundamentais da atitude espiritual católica resultam da aplicação do ideal medieval à situação presente. A idéia de humanidade foi doravante afirmada a partir da idéia da unidade da cristandade; não, contudo, no sentido democrático idealista, mas a partir de uma unidade religiosa hierárquica, à qual os diversos povos devem se submeter[11]. Até na construção social, o princípio unificador é a Igreja com sua ordem hierárquica superior a todos os poderes terrestres, ordem ontologicamente fundamentada. A igreja romana, essencialmente sacramental, é uma igreja do Deus presente nos objetos, nas pessoas e nas ações, mas nela, os sacramentos são administrados no modo mágico, exclusivamente pela hierarquia. A igreja romana tornou-se heterônoma, desde que impõe ao espírito humano uma lei alheia. O ápice da oposição do catolicismo à modernidade foi alcançado pela doutrina da infalibilidade pontifícia e pela definição do dogma da assunção da Virgem Maria[12].

Mas o ser humano atual não pensa, de modo algum, em abandonar a autonomia. Distingue-se, contudo, das gerações anteriores pelo fato de não ser mais um criador de autonomia seguro de si; é inquieto, dividido e muitas vezes desesperado. Entende-se então facilmente que as igrejas – sobretudo a igreja romana – recomendem, face à autonomia quebrada, a volta à autoridade e à tradição das igrejas. Nesta perspectiva, o último ato da autonomia seria submeter-se à heteronomia. Esse apelo, porém, foi pouco ouvido, pelo motivo que o ser humano que vive na autonomia – mesmo quebrada e esvaziada – faz a experiência de algo que não pode abandonar de modo algum e que perderia se quisesse responder ao apelo da igreja católica: a situação-limite humana ou a ameaça incondicional ao ser do homem. O protestante opõe-se a todas as tentativas de evitar essa situação por meios religiosos, mesmo quando eles se apóiam na plenitude, a profundidade e a amplitude da piedade mística e sacramental[13].

Como superar, afinal de contas, as contradições da nossa época? Tillich pensava que somente através da junção da substância católica e do princípio protestante, o cristianismo poderia enfrentar o destino da modernidade na sociedade industrial, em particular a inversão sufocante da corrente emancipadora da subjetividade:
a substância católica, com a força dos seus símbolos e da sua tradição, com o poder da eterna transparência do sentido eterno nos seus símbolos e sacramentos; o protestantismo, com o seu protesto contra toda tentativa de produzir um sistema, onde autoridades absolutas transformam os seres humanas em máquinas[14].

Catolicismo e modernidade

Queremos aqui manifestar o nosso amplo acordo com Tillich a respeito da evolução histórica. Enquanto grande parte do protestantismo acabou se identificando com a causa da modernidade, o catolicismo permaneceu, até o fim do século XIX, do lado de fora desta aventura protestante. O catolicismo ocidental queria-se decididamente antimoderno, a medida que a razão das Luzes solapava a autoridade da revelação e da tradição, e que o advento das sociedades democráticas contestava diretamente o princípio hierárquico da sociedade-igreja. O "catolicismo intransigente" foi a resposta histórica que pretendia manter a integridade da tradição cristã frente às reivindicações sacrílegas da modernidade (Syllabus de Pio IX, 1864). Apenas com o Concílio Vaticano II e a constituição Gaudium et Spes, haverá um reconhecimento oficial das expressões mais autênticas da cultura moderna e dos valores mais altos expressos na consciência civil como manifestações da graça divina que opera na história.

Após a euforia do Concílio e já sob Paulo VI, o catolicismo romano parece querer voltar, pelo menos no seio das esferas dirigentes, a uma atitude militante frente à modernidade e à secularização. A modernidade em crise – o que Tillich chamava de autonomia quebrada – assume doravante a figura do pluralismo cultural e religioso. A forma atual deste pluralismo vincula-se àquilo que foi caracterizado como pós-modernidade, conseqüência, por sua vez, da secularização. Resultam daí, no campo religioso, o fato que a religião deixou de dar sentido às totalidades sociais e o processo de individualização da vida social e da verdade salvífica. A identidade religiosa não é mais necessariamente aquela que foi prescrita por uma organização religiosa: o indivíduo constrói a própria identidade religiosa pela apropriação dos elementos necessários à satisfação das suas necessidades de comunicação e sentido. A conseqüência é um pluralismo religioso radical, já que coexistem legitimamente e competem entre si instâncias diversificadas de atribuição de sentido à vida individual e coletiva. Estamos na direção de uma dinâmica "ecumênica", capaz de escapar completamente da regulação das organizações eclesiásticas. A religião define-se, agora em diante, como "a procura espiritual de uma relação com o sagrado e não mais como um processo de identificação com o conjunto das regras rituais e normativas de uma igreja"[15]. Assim, no caso do catolicismo, a instituição não deve mais ser considerada como norma de referência, mas apenas como um dos elementos que entram na composição da identidade católica, ela mesma plural e heterogênea.

A crise atual da modernidade manifesta-se no catolicismo – entre outros fenômenos – pela nostalgia do pré-moderno e do antimoderno, que se exprime pela volta decidida à predominância da substância católica ou sacramental e da heteronomia. Podemos discernir nitidamente nas palavras de João Paulo II o ideal de uma "cristandade", que quer devolver à igreja católica o seu papel tradicional de preservação dos princípios fundamentais, não apenas na sociedade religiosa mas também na sociedade civil. Em meio à crise das grandes ideologias que dominaram até agora a modernidade, parece se esboçar, da parte da igreja, a busca de uma nova situação que possa garantir novos espaços e novas formas de presença dos cristãos na sociedade, assim como uma nova inspiração cristã dos valores sociais, em troca da legitimação religiosa das instituições políticas. Esse plano, essencialmente antimoderno, transparece através do estilo imprimido por João Paulo II ao próprio pontificado, embora não faltem traços indiscutivelmente modernos, como as freqüentes viagens apostólicas, o uso eficaz dos meios de comunicação de massa, a busca permanente de contato direto com as grandes massas. Essas formas de modernidade não contradizem os motivos mais profundos de uma atitude basicamente diferente: a modernidade é apreciada apenas quando pode ser enquadrada na afirmação de uma nova cristandade. A ação do papa e do Vaticano opõe-se efetivamente em diversos pontos fundamentais ao espírito moderno: eclesiologia e ecumenismo, implicações para o dogma, em particular cristológico, do pluralismo cultural e da pesquisa histórico-crítica, celibato dos padres, ordenação de mulheres, fundamentos da moral, moral sexual, bioética, concepções políticas e sociais.

Nos documentos romanos, o tema da secularização recebe de antemão uma avaliação negativa. Confunde-se a secularização, em grande parte, com a expansão do ateísmo militante ou implícito e com a descristianização, entendida sobre tudo como recusa ativa da fé cristã. Insiste-se nas suas conseqüências antropológicas nefastas: perda de sentido (moral), de liberdade, de verdade, de "comunhão", em outras palavras, ressalta-se a crise espiritual do ocidente, que justifica, por sua vez, a "nova evangelização". Para os partidários dessa última, em particular para o papa, a autonomia é tudo menos um valor. O discurso oficial mobiliza de preferência grupos (especialmente de jovens) de tendência tradicionalista, com aspectos sectários, extremamente identificados com a fala de João Paulo II, isto é, com uma concepção de conquista ou reconquista católica – no seio das sociedades secularizadas da Europa[16].


Modernidade e catolicismo no Brasil

Precisamos reconhecer honestamente que o esquema interpretativo de Tillich permaneceu eurocêntrico e parece hoje, se já não era o caso já anteriormente, fortemente simplificador, não podendo dar conta do catolicismo nem do protestantismo brasileiros atuais, na sua extrema complexidade. De fato, no Brasil, todo movimento religioso que penetra as massas torna-se rapidamente sincrético, pelo simples fato do caráter mestiço da população, vivendo cotidianamente num ambiente complexo de mentalidades, idéias e tradições[17].

Do ponto de vista do pluralismo religioso, cruzam-se criativamente a pré-modernidade, a modernidade e a pós-modernidade no espaço social brasileiro[18]. Pode-se até falar num modelo brasileiro de pluralismo, presente desde a época da conquista: a junção dos elementos esparsos oriundos das diversas tradições religiosas tem como resultado uma identidade flutuante e compósita, que não admite nenhum "centro" nem eixo organizador e recapitulativo. Assistimos constantemente a novos empréstimos e a uma permanente reinterpretação de elementos das diferentes tradições e sistemas culturais, em vista de formar novos sistemas, como acontece no sincretismo brasileiro, no qual nunca se chega a uma verdade unificada. O princípio de identidade, princípio radical da lógica, é sempre relativizado. Assim como escreveu Oswaldo de Andrade: "Nunca fomos catequizados. O que fizemos, foi o carnaval". O pluralismo cultural e religioso contemporâneo em nível mundial, tipicamente pós-moderno, reencontraria, assim, as linhas de forças fundamentais do pluralismo tradicional brasileiro.

Todavia, em todos os momentos da sua história, esse modelo foi questionado por instâncias, grupos sociais, instituições ou influências orientadas no sentido da modernidade tradicional, organizadora e burocrática, eficazmente técnica. Essa orientação expressou-se através dos jesuítas, dos bispos reformadores, das congregações estrangeiras, dos grandes colégios religiosos, do protestantismo educativo e missionário, da implantação das estruturas administrativas, paroquiais e diocesanas, das missões populares – todas forças de apoio e difusão do Sujeito moderno e racional, de uma "modernidade" multiforme. Resulta daí uma dicotomia fundamental, que atravessa os séculos, entre duas atitudes opostas, frente à pluralidade e mais ainda ao sincretismo: de um lado, a atitude da instituição eclesiástica enquanto tal, das suas instâncias de reprodução e dos grupos mais estreitamente vinculados à sua influência direta; do outro, a atitude de amplas camadas de fiéis, com graus diversos de compromisso em pertenças religiosas múltiplas e em reinterpretações criativas. Na prática, a instituição vê-se muitas vezes forçada de esquecer suas reticências e de fechar sabiamente – ou pastoralmente – os olhos frente às misturas, às duplas pertenças, às identidades múltiplas, às mais variadas combinações. Por exemplo, até as tentativas de voltar à "pureza" do catolicismo romano devem sempre levar em conta, se não quiserem isolar-se completamente do povo católico, as formas sincréticas dominantes na mentalidade geral, como a crença nos espíritos e a fé na reencarnação[19]. O universo tradicional do sincretismo, emblematicamente pré-moderno, tende a sempre se reproduzir.

Observamos, então, na hierarquia católica, uma alternância de tolerância e de rejeição em relação com as formas religiosas sincréticas. A reação conservadora atual apresenta-se como reafirmação da "autenticidade" e negação do sincretismo. Ela reproduz a atitude ambígua de João Paulo II em relação à modernidade: moderna nos métodos, conservadora nas idéias. Podemos mencionar os diversos projetos de "nova evangelização", onde esta assume o rosto de uma campanha de "recatolicização". Os mesmos traços estão presentes nos planos de pastoral nacionais, regionais e diocesanos, nos programas da Rede Vida de Televisão (entre outros), nos textos e nas imagens – não podem faltar Nossa Senhora e a figura mediática do papa - oferecidos aos visitantes de sites Internet ligados a dioceses ou instituições religiosas diversas. Sem falar dos numerosos canais de rádio e da imprensa diocesana. Os principais atores pertencem a uma nova classe de bispos, visceralmente unidos ao papa e mais interessados pela espiritualidade que pela ação social, sem abandonar, todavia, essa última: é mais uma questão de prioridade e de inspiração que de exclusão. A ação social tende também a tornar-se menos pluralista – como as novas Cebs – e mais enraizada em grupos e movimentos explicitamente católicos.

A "nova evangelização" mobiliza os novos movimentos de espiritualidade, como a Renovação Carismática, Foccolare, Movimento neo-catecumenal, Encontros de casais com Cristo, Cursilhos, Nova Aliança, Movimento de Schönstatt, além de movimentos tradicionais como o Apostolado da Oração, Vicentinos e a Legião de Maria. Por outro lado, ressurge o catolicismo de massa: as grandes romarias (Aparecida, Juazeiro, Canindé, Belém...) e as reuniões festivas nos estádios nunca atraíram tanto as multidões. Os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção de Maria são reafirmados. A igreja administra o culto dos santos mais populares, como são Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, santa Rita de Cássia, a santa das causas desesperadas, santa Edwige, padroeira dos endividados, ou santo Expedito, cuja resposta é a mais "expeditiva". A bem da verdade, precisamos reconhecer que a instituição apenas "canaliza" uma devoção popular sincrética, cujo conteúdo e cujos ritos lhe escapam em grande parte. A igreja assume – através da congregação redentorista – a imensa basílica da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, mas influi pouco sobre a devoção dos fiéis. O caso do Padre Cícero é mais exemplar ainda: proibido até a morte de exercer o ministério sacerdotal, tornou-se o santo mais popular do Nordeste. Numerosos romeiros assistem à missa celebrada em seu louvor na igreja local a revelia das normas romanas.

Há sinais de volta ao catolicismo intransigente, como condenações ou afastamentos de teólogos. Os casos de Leonardo Boff e Ivone Gebara são os mais conhecidos, mas há muitos outros "por baixo do pano". As questões de moral sexual, como o aborto e o uso de preservativos são as mais sensíveis. Positivamente, as convicções são reafirmadas em alto e bom som: por exemplo, um dos links do portal Internet http://www.catolico.org.br, da diocese de Rio Preto – SP, tem como título "ser católico". Eis o texto:
SER CATÓLICO
No desafio de um mundo cada vez mais inspirador para a prática do mal, levando-o à violência e à descrença em todos os sentidos, trazemos esta proposta infundida nos tantos apelos proclamados pela nossa Santa Igreja.

Aqui queremos expor idéias, conceitos e apelos para que os católicos tenham coragem de SER CATÓLICO em todos os meios de vivência do homem.

A "nova evangelização" vincula-se também à afirmação de uma nova cristandade, que se exprime pela presença renovada dos representantes da instituição em todos os lugares de visibilidade da vida social e política – presença que, apesar da separação oficial entre a Igreja e o Estado, está longe de limitar-se às cerimônias civis e militares. Alguns exemplos recentes: a tentativa de mediação (positiva no seu fundo) entre o governo e o movimento dos sem-terra; a integração da Pastoral da Criança e da Campanha da Fraternidade contra a droga na ação social do Estado; o vasto movimento de reconhecimento dos cursos de teologia pelo MEC (no caso, os protestantes estão tão ou mais interessados que os católicos); a concessão de canais de rádio e televisão; as celebrações organizadas na ocasião da doença e do falecimento do governador de São Paulo, Mário Covas. Trata-se apenas de uma pequena amostra... No seio da sociedade pluricultural e plurireligiosa do Brasil, o catolicismo está lutando para reconquistar posições momentaneamente perdidas ou enfraquecidas, sendo muitas vezes forçado de aliar-se a grupos religiosos "aceitáveis", como o judaísmo e o protestantismo histórico. O que não exclui, por outro lado, pressões e conflitos com as instâncias políticas: a igreja conseguiu até agora impedir a votação de leis de descriminalização do aborto e de aprovação das uniões homossexuais. Obteve certos resultados nos casos de uso indevido de imagens religiosas, em emissões evangélicas ou desfiles de carnaval. Não pode, todavia, impedir as cenas de nudez (a bacanal de Herodes!) na representação da paixão de Cristo nem dissuadir um público de mais de nove mil pessoas de assisti-las toda noite, no maior teatro ao ar livre do mundo, em Nova Jerusalém, a 180 quilômetros de Recife. O êxito foi menor ainda no caso das campanhas pelo uso da "camisinha" e nas tentativas de controlar a pornografia e a violência na televisão.

Analisaremos para concluir a forma atualmente mais popular do catolicismo em São Paulo, reunindo paradoxalmente os elementos de pré-modernidade identificados por Tillich com a substância católica, a modernidade racional do princípio protestante e a pós-modernidade festiva e exuberante da nova sensibilidade religiosa. Estamos falando do padre Marcelo Rossi, do seu bispo, Dom Fernando Figueiredo e do seu principal instrumento de difusão, a Rede Vida de Televisão. Tratava-se de por em prática no Brasil o projeto moderno/conservador de João Paulo II, até com certo mimetismo. Ex-professor de educação física e vocação tardia, o padre Marcelo irrompeu na mídia nacional há três ou quatro anos. Especialista em patrística e atual bispo de Santo Amaro - SP, dom Fernando é um dos líderes da nova ala conservadora/modernizadora do episcopado brasileiro. O padre Marcelo introduziu na paróquia dele um novo estilo de celebração inspirado ao mesmo tempo na renovação carismática e na música Gospel das igrejas eletrônicas norte-americanas, amplamente difundida no Brasil pelas comunidades neo-pentecostais. Com o crescimento exponencial do público, foi preciso procurar locais maiores: galpões industriais ou comerciais. O padre Marcelo "estourou" então literalmente na televisão, invadindo os programas de grande audiência do domingo à tarde: Faustão, Gugu, Xuxa e outros, estrelando também nos programas de entrevistas, ao lado de ídolos da música popular e de atores de novelas. Sem deixar de vestir o traje eclesiástico, fez o maior sucesso junto ao público em geral com a "aeróbica de Jesus", apesar da debilidade (ou, talvez, por causa dela) dos textos e das músicas. Gosta de lembrar a palavra de santo Agostinho: cantar é rezar duas vezes. Em conseqüência, vendeu milhões de discos de canção religiosa alegre e descontraída. A missa dominical reúne milhares de pessoas, conseguiu até um milhão para as "show-missas"de algumas grandes festas, quando contou com a participação do"rei" Roberto Carlos, de Sandy e Junior, xitãozinho e xororó, Agnaldo Raiol etc, e com a transmissão da Rede Globo.

Este ano como no ano passado, o padre Marcelo organizou o "Carnaval de Jesus", que animou em cima de um trio elétrico, como em Salvador. No estacionamento de um grande shopping, oitenta e cinco mil pessoas cantaram, dançaram, desfilaram para Jesus, agitando os braços e soltando bexigas coloridas. Fugindo da depravação da grande festa pagã, não se esqueceram de rezar pela saúde do governador (falecido alguns dias depois) e de aplaudir o deputado que amavelmente emprestara o local e o trio elétrico. Fora a presença dos anjos em cima do altar, o texto da missa e a catequese são os mais tradicionais possíveis, a Virgem Maria ocupando um lugar de destaque. Dom Fernando, que tem pouco talento para a pregação, aproveita o carisma do padre Marcelo para transmitir sua mensagem. O público - muitos jovens, maioria de mulheres - vibra com os apelos à conversão, à penitência, experimenta a alegria de ser perdoado e de viver em comunhão. O "encontro da família" é retransmitido pela Rede Vida, o "canal da família e da boa nova". Os sinais visíveis da fé e da prática católica estão em toda parte, sobretudo Maria e o Santíssimo Sacramento. O novo "Santuário do Terço Bizantino", inaugurado com grande festa no Domingo de Ramos, deverá ter um restaurante popular com refeições a um real.

Dom Fernando e o Padre Marcelo ocupam também um espaço cotidiano na Rede Vida, animando juntos a Oração da Manhã e da Noite, que sempre termina com a bênção do Santíssimo. Três vezes por dia, é rezado o "Terço bizantino", um achado do Padre Marcelo, seguido do rosário tradicional. Uma das seqüências de "mistérios" é especialmente interessante: "Eu Amo Jesus", "Eu Amo a Igreja", "Eu Amo a Igreja Católica", "Eu Sou feliz por ser católico", "Obrigado, Senhor, por fazer parte dessa admirável Igreja Católica Romana", cada frase sendo repetida dez vezes com a maior compenetração. O padre Marcelo possui também um site na Internet: http://www.padremarcelorossionline.com.br ou http://www.terra.com.br/padremarcelo, onde realiza novenas online e reza a missa ao vivo cada domingo. Há também uma sala de chat, onde o padre responde às perguntas dos católicos, uma biografia do padre, fotos, vídeos e testemunhos, notícias e orações. Enfim, o padre publicou um livrinho, com o título já conhecido "Eu sou feliz por ser católico"[20]. É uma seleção de citações dos Pais da Igreja, herança de dom Fernando, que escreveu o prefácio. Os títulos dos capítulos são sintomáticos: Eucaristia: o corpo e o sangue de Jesus; presença real; Maria à luz dos escritos dos Padres; a Igreja católica apostólica romana; a hierarquia da Igreja católica; as imagens na Igreja católica; a Bíblia e o cânon bíblico; a primazia de Pedro.


Conclusão

Como no mundo inteiro, o catolicismo brasileiro é um mundo bastante diversificado. A perda quase total do controle da instituição sobre a cultura global permite que a maior parte daqueles que continuam identificando-se como católicos possa assumir, no plano religioso assim como no plano ético, atitudes pouco conformes às diretrizes do papa e dos bispos. As categorias desenvolvidas por Paul Tillich, em particular os conceitos de heteronomia do poder sagrado, despersonalização do amor na comunidade e autoridade de princípio, nos parecem ainda válidas e esclarecedoras, quando nos restringimos à consideração das posições da hierarquia e da corrente restauradora. Essa não reluta em usar as técnicas mais modernas na sua estratégia de reconquista frente aos cultos afro-brasileiros, à expansão do pentecostalismo e às novas espiritualidades. Essa estratégia aproveita, sem dúvida, para ocupar a frente do palco, uma conjuntura favorável, marcada pela crise das Cebs, da Teologia da Libertação e dos movimentos populares em geral. Poderíamos até discernir uma tentativa católica de fazer a economia da modernidade, passando diretamente da pré-modernidade medieval à pós- ou ultra-modernidade. Mesmo assim, é impossível evitar certas concessões à religiosidade popular sincrética, até nas manifestações mais triunfalmente católicas, isso em razão das características próprias do pluralismo religioso tradicional e atual. Aliás, é na religião vivida que perceberíamos mais facilmente o sacramentalismo universal, os símbolos vivos e a substância do amor que resiste à reificação, todos elementos expressos na idéia de substância católica.

Por outro lado, a renovação do catolicismo militante pode ser vítima do próprio sucesso: a sua incorporação ao mundo da mídia o torna dependente das visadas manipuladoras deste último, que tendem a fazer dele um dos múltiplos produtos do mercado religioso, em busca de utilidade marginal. A perda de substância religiosa que derivaria daí não poderia deixar de ser vista por Tillich como um dos últimos avatares da modernidade. Aqui se faz sentir a necessidade de uma nova intervenção profética do princípio protestante, a favor da aliança entre a transparência sacramental e o poder crítico da autonomia secular.


NOTAS

[1]François-André Isambert. Sécularisation. In: Encyclopaedia Universalis, CD-ROM Universalis N° 4, Paris, 1998.
[2]"Théologie et architecture", in: TILLICH, P. Substance catholique et principe protestant (trad. A. Gounelle), Paris/Genève, Cerf/Labor et Fides, 1995, p.366.
[3]ADAMS, J.L. O conceito de era protestante segundo Paul Tillich. In : A Era protestante (trad. J. Maraschin), São Paulo, Ciências da Religião, 1992, p. 286.
[4]Ver: Substância católica, princípio protestante e decisão socialista. In: TILLICH, P. Substance catholique et principe protestant, op.cit., p. 347-362.
[5]Cf. The Protestant Era (abridged). Chicago, The University of Chicago Press, 1957, p. 229-230.
[6]Le pouvoir formateur du protestantisme, in: TILLICH, P. Substance catholique et príncipe protestant, op.cit., p. 258.
[7]Cf. TILLICH, P. Aux Confins. Paris, Planète, 1971, p. 45.
[8]Cf. TILLICH, P. Le christianisme et les religions. Paris, Aubier, 1971, p. 292-294.
[9]Cf. ADAMS, J. L ., op. cit., p. 291.
[10]Cf. id., p. 293.
[11]Cf. TILLICH, P. La situation religieuse du temps présent. In: La dimension religieuse de la culture. Écrits du premier enseignement. Paris/Genève/Québec, Cerf/Labor et Fides/ Laval, 1990, p. 231s.
[12]Cf. TILLICH, P. Histoire de la pensée chrétienne. Paris, Payot, 1970, p. 265.
[13]Cf. TILLICH, P. La proclamation protestante et l’homme d’aujourd’hui. In: Substance cathoique et principe protestant, op.cit, p. 56-61.
[14]Substance catholique, principe protestant et décision socialiste. Op.cit, p. 361.
[15]Enzo Pace, apud SANCHIS, P. O campo religioso será ainda hoje o campo das religiões? In: HOORNAERT, E. (org.) História da Igreja na América Latina e no Caribe – 1945-1995. Debate metodológico. Petrópolis, Cehila/Vozes, 1995, p. 92.
[16]Para os parágrafos anteriores, ver: GEFFRÉ, C. & JOSSUA, J. P. (org.) La modernité en débat, Concilium 244, 1992. Em particular os artigos de Giovanni Turbanti e Jean-Louis Schlegel.
[17]Cf. HOORNAERT, E. As igrejas cristãs no campo religioso latino-americano e caribenho: deslizamentos, apreensões, compromissos. In: HOORNAERT, E. (org.), op.cit., p. 34.
[18]Para as reflexões seguintes, ver: SANCHIS, P., op.cit., p. 81-131.
[19]Reencontramos aqui tanto os cultos afro-brasileiros e o espiritismo, quanto a diversidade dos pentecostalismos, os movimentos neo-orientais reunidos na nebulosa do New Age e a religiosidade "holista" do movimento ecologista.
[20]ROSSI, M. Eu sou feliz por ser católico. São Paulo, edição do autor, 2000.