IRWIN Alexander. Eros, Toward the World – Paul Tilich and the Theology of the Erotic.
Observa-se na experiência humana forte conexão entre religião e sexualidade. Paul Ricoeur nos lembra que no Ocidente esta relação passou por três estágios. Nos primeiros tempos da humanidade não havia real separação entre ambos. Quando as grandes religiões monoteístas surgiram, havia claro divórcio entre o sagrado e o erótico. A religião era vista como essencialmente transcendente, enquanto a sexualidade tornava-se vergonhosa. Vivemos agora no terceiro período desta relação, quando se procura novamente reunir o erótico com a experiência do sagrado.
Neste contexto, Paul Tillich exerceu papel fundamental que Irwin procura recuperar em sua obra. Poderíamos dividir o seu livro em dois eixos temáticos. Primeiramente, o autor expõe sistematicamente a forma como Tillich trabalha a questão do Eros, sem, no entanto,criticá-lo. No segundo momento, orienta suas análises do erótico na teologia de Tillich, pela ótica da teologia feminista.
No primeiro capítulo da obra, Irwin procura definir os conceitos com os quais irá trabalhar. Eros não é entendido como sinônimo de libido. A libido é parte componente do Eros mas não sua totalidade. Eros é a complexa e misteriosa força que modela as relações entre seres humanos e o mundo no qual habitam (p.7). O erótico está presente em todas as áreas de atuação humana: nas relações interpessoais, no conhecimento, em ações e movimentos políticos e na experiência humana do sagrado.
Neste ponto, torna-se evidente a influência do pensamento romântico em Tillich que Irwin, infelizmente, deixa passar desapercebidamente. Nas relações interpessoais, o erótico age como elemento promovedor da participação de um ser no outro, não havendo dominação ou fusão dos indivíduos, mas participação. Há união sem se perder a individualidade de cada ser.
Irwin defende a idéia de que em Tillich, o erótico também se configura como elemento fundamental na relação com o sagrado. O autor recupera com brilhantismo e clareza o debate travado entre Nygren e Tillich. Com base em escritos dos reformadores do século XVI, Nygren defende completo antagonismo entre Ágape e Eros. Em sua concepção, Ágape é o amor de Deus espontâneo e sem motivação fora da natureza divina. Eros seria ainda amor, mas inferior a Ágape, relegado à resposta do homem ao amor recebido de Deus. Esta linha de pensamento teve profunda influência no pensamento protestante mais recente. Ela está presente nos debates de Tillich a respeito do amor (especialmente em Love, Power and Justice), ainda que não faça referências direta a autores específicos.
Na visão do autor, Tillich falha na tentativa de superar o antagonismo entre Eros e Ágape defendendo a unidade ontológica do amor, sendo que mesmo na mais espiritualizada relação temos a presença do Eros. Irwin destaca que Tillich tem por objetivo, não a fusão entre Eros e Ágape. Estas são qualidades distintas do amor. No entanto, verifica-se a participação de uma qualidade na outra.
Enriquecendo a discussão, Irwin relaciona a teorização de Tillich sobre Eros com a sua controvertida vida pessoal. Ponto positivo na obra de Irwin é o fato de não se prender apenas à vida íntima de Tillich e seu comportamento com relação ao sexo, comportamento esse que causou e tem causado as mais variadas reações: desde ódio à admiração. Irwin procura relacionar o conceito teórico de Tillich com sua prática. Afinal, Eros não se reduz ao mundo das abstrações, mas é algo prático, vivencial e existencial. Como o autor vale-se do aparato teórico feminista para analisar a questão do erótico na teologia de Tillich, não poderia ser diferente em relação à sua vida pessoal. E, como todo aparato teórico-metodológico, este também abre novos horizontes ao mesmo tempo que limita outros. Neste sentido, o autor considera positivamente o envolvimento de Tillich em diferentes formas de vitalidade do Eros nas suas diversas amizades com pintores, escritores e na sua vida boêmia da Alemanha dos anos 20 (p.109). No entanto, ao tratar do relacionamento de Paul Tillich com Hannah Tillich, sua esposa, Irwin não hesita em submetê-lo a duras críticas, com base na obra biográfica dela, From Time to Time, onde seu sofrimento se torna evidente. Irwin, entretanto, não se aprofunda na avaliação da vivência do erótico. Faltou demonstrar em suas análises em que dimensão esta forma de vivência do erótico teria sido fundamental para a concepção do poder criativo do Eros no pensamento de Tillich e a importância disso para a quebra de instituições burguesas e patriarcais.
Irwin defende a polêmica tese de que " o projeto teológico de Tillich não significa que suas reflexões sobre Eros tenham exercido influência direta na teoria cristã feminista ou womanist" (p.154). O leitor mais atento perceberá que falta na obra certa visão panorâmica do tratamento da questão do erótico no pensamento cristão. A única referência de contextualização que o autor faz é o debate entre Tillich e Nygren. Em nossa opinião, isto faz com que Irwin perca de vista as influências que Tillich recebeu (como no caso do romantismo) e conexões históricas como esta, entre Tillich e a idéia feminista de Eros. O tratamento do erótico na teologia feminista e suas implicações para a luta política são frutos de um diálogo com problemáticas e idéias que aparecem embrionariamente no pensamento de Tillich. Assim, não há como negar a influência de Tillich na teoria feminista de amor.
Dentre os vários pontos que o autor desenvolve na crítica a Tillich, gostaríamos de destacar dois pontos. Corretamente, ele indica o fato de que Tillich se apóia na terminologia tradicional para construir seu pensamento, o que limita em muitos sentidos suas idéias. Isto traz como conseqüência, a não superação do contraste entre Eros e Ágape. Neste sentido, a teologia feminista tem se mostrado inovadora ao cunhar novos termos para definir antigas e novas formas relações e na superação deste contraste. Ainda, Irwin destaca que a abordagem dada ao tema é extremamente teórica. Vários autores têm demonstrado que em Tillich, problemáticas concretas são quase sempre tratadas abstratamente. No entanto, na própria obra (capítulo 3), Irwin destaca a presença do Eros em todos os campos da ação humana e suas implicações éticas, nos dando claro exemplo de como questões elaboradas teoricamente têm influência na vida prática. Tillich parte do entendimento ontológico do amor para suas implicações éticas nas diversas facetas da vida humana.
O livro, com sua linguagem acessível, destina-se a todas as pessoas interessadas no descobrimento desta face do pensamento tillichiano. Na problemática que procura levantar, Irwin se mostra original, fornecendo-nos novos elementos para discussão do pensamento de um dos maiores teólogos do século XX. A obra também se mostra valiosa para pessoas interessadas em debater a questão do erótico na tradição cristã, em especial a grupos feministas que tão importantes contribuições têm feito para o desenvolvimento desta temática.
O autor é mestrando em Ciências da Religião no Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.








