TILLICH, Paul. Dogmatik. Marburger Vorlesung von 1925. Herausgegeben von Werner Schüssler (= Dogmática. Curso de Marburg de 1925. Editado por Werner Schüssler). Düsseldorf, Patmos, 1986.
Para apresentar esta importante obra póstuma de Paul Tillich, cujo manuscrito foi descoberto por Werner Schüssler no arquivo Tillich de Harvard, usamos as respectivas introduções do mesmo Schüssler e de Jean Richard. O texto contém a matéria de aulas ministradas em Marburg em 1924 e 1925, e retomadas – com modificações – em Dresden e Leipzig, de 1925 a 1929. Está em continuidade com projetos já esboçados em 1905, 1911 e 1913, de "conquistar o mundo por meio de um sistema de pensamento". Não se trata de "Dogmática" no sentido tradicional, mas de "Teologia de combate", na qual Tillich luta em duas frentes: de um lado, contra a "teologia da fuga", que abandona a realidade ao mecanicismo naturalista da visão burguesa do mundo (teologia liberal); de outro, contra a "neo-ortodoxia" barthiana, que se desinteressa das questões culturais, sociais e políticas. Tillich procura um caminho novo para enfrentar o principal problema da época – entendida como modernidade -, o problema da secularização e da indiferença religiosa. O nosso tempo é caracterizado pela perda de sentido em geral e pela perda de força dos símbolos religiosos em particular. Para atender à situação atual, a teologia deve voltar à metafísica e à interpretação da história, e adotar um "método existencialista", que parta das experiências concretas dos seres humanos e das perguntas que surgem dessas experiências. A Dogmática de 1925, que prepara em muitos aspectos a Teologia Sistemática dos anos 50 e 60, já oferece um sistema teológico consistente e deve ser considerada como importante marco do pensamento teológico no século XX.
A Dogmática trata do que nos diz respeito incondicionalmente, como afirma a primeira tese. É uma "ciência prática", comprometida com seu objeto. A consciência que tenho de mim mesmo contém, implicitamente, o incondicionado como seu próprio fundamento. Aí encontra-se o fundamento último da religião. O incondicionado ressoa na força simbólica das expressões religiosas. O grande problema atual é que a maioria das expressões religiosas da tradição cristã –inclusive o termo "Deus" - perdeu sua força simbólica fora dos círculos eclesiásticos. Para resgatar sua dimensão mais profunda, Tillich substitui os termos religiosos tradicionais por expressões de consonância mais filosófica. O trabalho da dogmática consistirá então em devolver aos conceitos teológicos seu sentido incondicional. Apóia-se na revelação, que "é o ato no qual o que nos diz respeito incondicionalmente vem ao nosso encontro" (fr.19) na forma de irrupção irresistível. "O que nos diz respeito incondicionalmente é também o que está incondicionalmente próximo", isto é: o fundamento mesmo do nosso ser (fr. 22). A revelação chega a nós por meio da palavra profética, que é a expressão em linguagem simbólica da experiência religiosa imediata. E a dogmática retoma esse discurso originário numa forma conceitual, científica. Por exemplo, entendendo o termo "Deus" como símbolo, a dogmática consegue superar o teísmo supranaturalista.
O método da correlação – característico da Teologia Sistemática – desenha-se já como em filigrana na dogmática de Marburgo. Em primeiro lugar, há perfeita correlação entre a ação divina ( que é o incondicional) e a experiência humana (os seres humanos): são como duas faces da única e mesma realidade; só existem em relação recíproca. Por outro lado, a correlação do divino e do humano implica, no pólo divino, a correlação da transcendência e da imanência, da "clausura" e da "abertura" de Deus em relação conosco. Em segundo lugar, encontramos a correlação da consciência culpada e da ira de Deus. A alienação da consciência culpada já está presente nas noções de religião e correlação. A religião exprime sempre a separação e a exterioridade em relação a Deus. É a conseqüência da atualização do si mesmo individual. No estado de alienação, aparecem as duas dimensões do pecado: a perversão do ser criado e a perversão da imagem do criador. "O divino se demoniza. O pecado é a demonização de Deus na consciência do pecador, provocando, correlativamente, a reação demônica do divino: a destruição como julgamento" (fr.175). Em terceiro lugar, a experiência da revelação comporta, indissociavelmente ligados, os dois pólos objetivo e subjetivo. A revelação atualiza, torna presente para nós, por meio de símbolos, o que nos diz respeito incondicionalmente. Por isso, não pode ser reduzida à comunicação de conteúdos objetivos (fazendo do incondicionado um objeto), nem ao simples processo subjetivo do espírito humano (não podendo irromper e impor-se a nós). "Até em Cristo, só há revelação quando intervém a correlação. Em si mesmo, no sentido de sua existência histórica, ou de suas atividades reveladoras passadas, o Cristo é parte da história que não nos diz respeito incondicionalmente" (fr.34). Enfim, a mensagem bíblica está em correlação com a situação presente. A correlação do passado e do presente, do texto da Escritura e da minha situação presente, exige a união metodológica da interpretação teológica e da exegese histórica da Escritura. Trata-se da correlação de dois contextos ou horizontes religiosos e sócio-culturais complexos: a situação concreta do autor bíblico e o lugar concreto do teólogo de hoje.
Além da longa introdução, o manuscrito de 1925 comporta duas partes temáticas: um tratado da criação e um tratado de soteriologia. Tillich segue a distinção dos dois modos de ser, natural e histórico, o que implica em duas considerações teológicas: uma ontologia teológica (ou protologia) e uma escatologia teológica. No tratado da criação, Deus criador e o ser criado não são considerados dois seres diferentes, mas os dois pólos da mesma experiência, da mesma correlação reveladora. As propriedades de Deus correspondem às propriedades "religiosas" do mundo. O processo teológico consiste, pois, em desvendar a dimensão religiosa do mundo, isto é, sua condição criada. Consiste em destacar o momento teórico contido no ato religioso e em explica-lo cientificamente. É a concepção tradicional, agostiniana, da teologia como intellectus fidei (genitivo subjetivo). A segunda parte da Dogmática trata da salvação, propondo uma interpretação teológica da história. O pressuposto da história é o que contraria a essência enquanto unidade com o divino. A história é história da salvação enquanto superação do que se opõe à essência: superação da alienação e do demônico. Tillich fala da salvação como ato eterno de Deus que irrompe em nossa história. Trata-se do advento do Cristo, da encarnação do Verbo. Mas Tillich afasta a concepção mitológica da encarnação – de um Deus descendo do céu e andando na terra – a favor de outra representação simbólica, a do fundamento portador da história irrompendo em nossa história. A história é assim, ao mesmo tempo, veículo da salvação (identificada com a revelação) e objeto da mesma. Nela, efetiva-se a luta e a vitória sobre o demônico, perversão da criação. Tillich mantém o princípio da correlação entre a revelação perfeita com o que a "antecede", as religiões do mundo e o que a segue, sua atualização na igreja.
Isso significa que todas as religiões de todas as épocas – inclusive o cristianismo enquanto religião – são consideradas, em teologia dogmática, como preparação da revelação perfeita, do mesmo modo que o Antigo Testamento. É importante assinalar que, para Tillich, a história da cultura profana ou autônoma é também componente da história da religião. A teologia dogmática abre assim a porta à teologia da cultura.
Este breve resumo deve bastar para ressaltar a importância dessa obra de Tillich ainda desconhecida do público de língua portuguesa. A Dogmática de 1925 inscreve-se no esforço constante do nosso teólogo em sistematizar a correlação da mensagem cristã com a situação cultural presente em suas múltiplas dimensões: social, política, artística, ética, pedagógica, filosófica, científica e religiosa. Essas ainda é a situação da nossa conturbada modernidade – e pós-modernidade. Embora escrita numa linguagem bastante abstrata, ela não deixa de oferecer ao leitor de hoje fonte de riquezas insuspeitas para a reflexão e a discussão, além de profundas intuições, podendo contribuir assim à renovação do pensamento teológico.








