As dimensões do amor
Eros é um dos nomes do amor. Dedicaremos o essencial da nossa reflexão a seus aspectos éticos e políticos. Contudo, já que estamos também introduzindo o tema do seminário, iniciaremos com algumas definições do próprio Tillich .
Para Tillich, o amor é o poder iniciador e constitutivo da vida. O amor exprime, em todas as suas qualidades, uma tendência ou um desejo ontológico à reunião dos elementos separados da vida com o fundamento ao qual pertencem, mas com o qual romperam, nas condições da alienação existencial. A maior força do amor está na sua capacidade de reunir os seres mais radicalmente separados, as pessoas humanas individuais.
Tillich distingue quatro tipos ou qualidades do amor: A primeira, epithymia ou libido, é o desejo de unir-se pelos sentidos à realidade material, no prazer de comer e beber, na atração sexual ou na emoção estética. Não é busca do prazer pelo prazer, mas desejo de união com a realidade que é fonte do prazer, em vista da realização vital de si mesmo. A segunda, philia, é o pólo pessoal do amor, a qualidade de amizade, que reúne dois indivíduos humanos centrados e participando um no outro em pé de igualdade. A terceira, Eros é a qualidade mística do desejo amoroso. Eros busca a união com toda realidade portadora de valores, por causa desses valores: o belo e o verdadeiro na natureza e na cultura e na sua fonte divina. É o "movimento do que é inferior em poder e sentido na direção do que é superior" . Enfim, Ágape é a qualidade transcendente ou religiosa do amor, fonte transcendente do conteúdo do imperativo moral, criação do Espírito divino e dimensão da vida eterna. Mesmo as "transcendendo" e sendo critério delas, ágape não existe isolada das três outras qualidades do amor .
O amor inclui sempre, de diversas maneiras, todas as suas qualidades, em razão da unidade multidimensional da vida humana. Até a qualidade de libido do amor está presente nas formas mais elevadas do eros, da philia e da ágape. "Há um elemento de libido até na amizade mais espiritualizada e no misticismo mais ascético. Um santo sem libido deixaria de ser uma criatura. Mas tal santo não existe" . Há uma distinção entre ágape e as outras qualidades do amor, sempre integradas uma à outra e presentes em toda experiência do amor. Pelo seu caráter transcendente, ágape não pode ser experimentada como força vital, senão através das outras e especialmente do eros. Contudo, em todas as decisões morais, ágape deve ser o elemento determinante, pois é ligado à justiça e transcende a finitude do amor humano. Sozinha, ágape se tornaria moralista e legalista. Mas sem ágape, o amor perderia a sua seriedade. Contudo, Tillich não vê uma ordem hierárquica entre as qualidades do amor, a não ser em relação à ágape.
As múltiplas faces de Eros
A concepção do erótico abrange um espectro extremamente amplo de experiências, práticas culturais e relações. Embora não se identifique com os impulsos sexuais e libidinais, eros os contém indiscutivelmente.
O amor humano para com Deus é da natureza de eros, pois inclui "elevação do inferior para o superior, dos bens inferiores para o summum bonum" . Além disso, o amor governa o ciclo de separação e reunião que estrutura todas as dimensões da realidade humana e cósmica. Nesse ciclo, sempre está presente uma dimensão de eros. Eros não é apenas a energia que impulsiona todas as realizações culturais e todas as formas de experiência mística, mas é simplesmente a força que anima cada movimento no mundo. Está presente nos "poderes originários da existência", nas forças elementares da origem que são o sangue, o solo, o grupo social , energias que estão na base da sexualidade, da economia, da política e da religião e não podem ser controladas pela racionalidade analítica. Eros aparece assim como essencialmente ambíguo e demônico, criador e destruidor ao mesmo tempo.
Seguindo Platão, Tillich encontra o eros nas emoções e nos sentimentos, mas também no "amor filosófico da sabedoria", no desejo apaixonado de participar do belo, do bom e do verdadeiro no sentido último das palavras. Manifesta-se na relação pedagógica, na criação artística, na pesquisa científica, na produção técnica de objetos culturais, isto é, em todo processo criativo, superando a objetividade pura graças à participação subjetiva. Tillich retoma dos mais antigos teólogos cristãos o conceito de gnosis, que significa ao mesmo tempo a união cognitiva, mística e sexual. Para ele, existe uma unidade fundamental entre o conhecimento, o amor sexual e a união extática descrita no misticismo religioso . Além do eros da ética e da política – que vamos desenvolver a seguir – Tillich apresenta também o desejo "erótico" de reunião com o divino e com o mundo da natureza e da cultura. Em todas as suas formas, eros é sempre ao mesmo tempo poder da origem, energia demônica da existência alienada e força de superação da separação entre a existência e o seu fundamento essencial.
É importante ressaltar, antes de tudo, que, para Tillich, tanto o imperativo moral, quanto a fonte dos mandamentos morais e a motivação da ação moral são de natureza religiosa, já que enraízam-se no amor, eros e ágape, cujo fim último é sempre a reunião com o fundamento divino do ser. A dimensão religiosa ou incondicional do imperativo moral se manifesta no nosso ser essencial. A fonte última dos preceitos morais é igualmente transcendente: é o amor criado pelo Espírito de Deus. A graça, enfim, e não a lei, é a maior força de motivação moral.
O ponto de partida encontra-se no ato de conhecimento, que é um encontro com a realidade, carregado de eros. O encontro cognitivo de duas pessoas humanas é a forma mais alta da experiência cognitiva participativa "enraizada no Eros" e é o fundamento da vida moral. Tillich chama "comunhão" essa experiência de "participação num outro self plenamente centrado e individualizado" . Ela só pode acontecer numa relação em tensão entre dois centros pessoais autônomos. O indivíduo se descobre a si mesmo como pessoa graças à "resistência" oferecida pelo outro sujeito, quando o próprio desejo vem bater na vontade independente do outro. Aí se manifesta a dignidade moral intrínseca da pessoa, que não permite que seja tratada como objeto se não se quiser aniquilar o seu ser . É apenas na união erótica que atravessa e supera a separação, pelo desejo do outro que respeita a sua autonomia, que o self pessoal pode aceder a si mesmo. O encontro pessoal, a relação Eu-Tu é a experiência que produz o reconhecimento da força obrigatória do imperativo moral. O outro si mesmo é o único limite, o limite incondicional que se opõe ao desejo concupiscente da libido na situação de alienação, de subjugar e absorver a realidade toda como objeto e conteúdo do próprio self. O outro pode ser destruído na sua base orgânica e psíquica, não na sua dimensão espiritual. Assim, o desejo de possuir e dominar pode transformar-se numa relação respeitosa da diferença e da liberdade individual . A vida moral é assim, para Tillich, uma relação "erótica" entre seres humanos vivos, num contexto existencial concreto, e não um conjunto de leis e princípios abstratos.
A concupiscência infinita encontra o seu adversário na autonomia irredutível do outro ser humano. O desejo de dominação torna-se desejo de comunhão, desejo de união com o objeto de amor por ele mesmo, pois os impulsos libidinais e eróticos deixam de ser infinitos para investir-se num objeto específico. O amor torna-se um critério decisivo de avaliação do comportamento moral e de toda realização autêntica da justiça. Todas a implicações da idéia de justiça (ou de "justo") surgem na situação de encontro pessoal. São conseqüências da obrigação de reconhecer toda pessoa potencial como pessoa real. O compromisso pessoal – não a observância formalista da lei – é um elemento "fundacional" da ação moral autêntica e enraíza-se no amor como "princípio moral último" . O amor pode estruturar adequadamente a relação interpessoal por causa do seu caráter ao mesmo tempo absoluto (imutável na sua essência) e relativo (sempre atento à nova situação concreta). O amor liberta do absolutismo das leis, tradições, convenções e autoridades, ainda mais se forem sagradas. Trata-se do amor como ágape, mas este inclui sempre as outras qualidades do amor, em particular a dimensão mística participativa do eros e a dimensão de compaixão e simpatia da philia.
A moralidade verdadeira não pode encontrar a sua motivação apenas nas normas institucionais, com seu sistema de recompensas e castigos, mas precisa de uma motivação "transmoral", que é a própria força do eros. Trata-se de um poder que nos empurra, além das exigências da situação concreta e do amor pelo outro indivíduo, na direção de um ideal de justiça que é o "bem em si", isto é, o divino, o valor supremo. Voltamos assim ao princípio do amor como força divina possuindo o ser humano individual e dando coerência e intenção a suas ações morais. Na linha de Platão, o eros tillichiano cria uma ponte entre os domínios religioso e moral, produzindo uma correlação entre finalidades morais particulares e o desejo dos seres humanos de participar na vida divina, que é o bem em si. Pelo poder divino-humano do eros, que transcende os mandamentos morais sem nega-los, pode ser alcançada a essência do verdadeiro, do bem e do belo. Eros, o amor apaixonado pela beleza, pela verdade e pela justiça, manifesta-se assim como motivação transmoral da ação moral. Antecipando a nossa participação na vida divina, superamos então a cisão entre a existência e a essência .
Afinal, o único fundamento firme para a vida moral é o desejo de participar na vida da comunidade formada pelo Espírito divino, é a aspiração a uma relação "salva" com o fundamento do ser. A relação erótica com o fundamento dá o poder de traduzir os ideais em ações éticas. Da união de eros com ágape resulta uma preocupação moral informada pela graça, capaz ao mesmo tempo de "ouvir" a situação particular e de orientar-se para o horizonte último do destino espiritual da humanidade. A graça cria um estado de reunião, no qual a separação do nosso ser verdadeiro e do nosso ser real é superada de modo fragmentário e o domínio da lei que comanda fica quebrado. Apontando a necessidade de correlação entre a justiça e a ação reta com a dinâmica da paixão humana, Tillich pretendia superar o dualismo kantiano. Para ele, as raízes da motivação moral devem ser encontradas nas próprias paixões. Contudo, a sua orientação mística tende a reduzir as relações humanas específicas e as decisões éticas a simples meios no caminho de uma relação abstrata com o divino .
Mas a ação moral criativa e responsável só pode acontecer no seio de uma comunidade de pessoas, onde as relações são sempre eroticamente carregadas. O eros da comunidade, encontrado nos grupos de juventude e nos movimentos socialistas dos anos vinte, introduzia um dinamismo novo nas estruturas rígidas da sociedade burguesa. Apesar dos riscos de subjetivismo anárquico, a afirmação da qualidade mística da comunidade era um antídoto à destruição racionalista das relações comunitárias na sociedade moderna . Como qualquer organismo vivo, o grupo social baseia-se numa forma de amor de união e constitui assim uma comunidade. E o espírito de unidade, a força da comunidade no grupo "fundamenta-se no amor dirigido pelas suas qualidades de eros e philia" Para Tillich, o relacionamento de tipo erótico entre povos e nações chega a ser uma condição sine qua non de paz na humanidade global. O consenso a ser alcançado depende mais do "eros da comunidade" como fonte de simpatia e compreensão que das normas legais e das reflexões teóricas .
Já no período do socialismo religioso na Alemanha, Tillich afirmava que só o eros conseguiria subverter a reificação das relações numa sociedade baseada na alienação econômica, a exploração de classe e o culto da tecnologia, do capital e do progresso. Do mesmo modo, o sucesso do socialismo autêntico dependia do reconhecimento, pelo proletariado e seus líderes, de uma vinculação erótica com as forças da origem, com os níveis mais profundos do desejo compartilhado e do sentimento comunitário, apesar de todos os riscos de deturpação demônica no "romantismo político" . A autonomia racional na concorrência capitalista não preenchia o desejo de apoio e segurança presente nos indivíduos, desejo que só podia ser atendido pelos poderes de eros no aconchego das comunidades. Os objetivos e as medidas racionais só podiam dar certo se informados por uma paixão erótica pela comunidade. Por esse motivo, não se podia abandonar a idéia de nação, mas precisava tentar superar a sua ambigüidade. Combatendo o patriarcalismo, as mulheres desempenhariam um papel específico, trazendo elementos da energia erótica da origem na luta pelo socialismo e nas comunidades envolvidas com essa luta. As forças eróticas não racionais, que cumprem de qualquer modo um papel vital na política, devem ser colocadas a serviço da causa da justiça social e política, em vez de sustentar a opressão. Não se deve esquecer que o poder e a autoridade dos grupos dirigentes na sociedade não subsistem sem o espírito comunitário fundado no amor de união, que é o poder de eros e philia . "Relações de sangue, de língua, de tradições e de memória produzem muitas formas de eros, que possibilitam a existência da estrutura de poder" . As relações eróticas do grupo são também a condição de manutenção de todo sistema legal, além do conceito abstrato de justiça e da vontade de poder . A realização do "justo" num contexto histórico e social concreto depende, pelo menos parcialmente, de vínculos eróticos equilibrados – no respeito das diferenças e das liberdades – em toda sociedade humana.
Eros é a ponte que permite a passagem do pensamento à ação histórica responsável. O desejo do kairos, do momento histórico decisivo, produz um conhecimento capaz de atender às exigências práticas específicas deste momento, pela percepção da dimensão de eternidade que nele se manifesta. É um conhecimento apaixonado e decidido, que nos faz entrar numa comunidade responsável pela vida que nos toca, assumindo as tarefas e os desafios que a história nos apresenta .
Nas relações entre seres humanos, o poder demônico (criador/destruidor) do amor precisa ser temperado e "formalizado" pela justiça. Conforme Amour, pouvoir et justice , a justiça permite a adequação entre a forma e o conteúdo da relação – entre a legalidade e a situação concreta -, e introduz um princípio de igualdade última entre todos os humanos e um princípio de fraternidade ou solidariedade comunitária. É a justiça que governa o processo de reunião no respeito das diferenças e das liberdades. Teologicamente, a forma superior da justiça é a justiça criadora que se expressa na graça de Deus, que perdoa em vista da reunião.
Algumas reflexões críticas.
O grande mérito de Tillich, quando procura fundamentar a moralidade das ações humanas na tensão entre o amor, o poder, e a justiça, é de tentar superar o solipsismo da consciência clara para si mesma. Ele sabe que o comportamento humano não é dirigido apenas por regras formais, mas encontra o seu dinamismo num potencial de energias vitais ao mesmo tempo diversificadas e coordenadas, se interpenetrando mutuamente. Como Freud bem mostrou, a fonte da ação encontra-se nas pulsões do desejo e suas motivações são, em grande parte, inconscientes ou subconscientes.
Em segundo lugar, a riqueza e a diversidade das abordagens de Eros na obra de Tillich – em relação com uma experiência existencial multifacetada – faz ruir o edifício construído em cima das categorias metafísicas do sistema teológico, por mais que o próprio autor tente segurar suas vigas de sustentação. A abstração filosófica tenta em vão ocultar a emoção e a paixão. Isso constitui para nós um elemento positivo, uma brecha onde a vida concreta possa engolfar-se. Na mesma linha, só podemos apoiar a ênfase dada por Tillich à corporeidade e às relações dos corpos como lugar de encontro entre seres humanos, individual e coletivamente, na tensão entre afirmação de identidade e participação e, em conseqüência, como lugar de questionamento ético e de elaboração da reflexão moral. Tillich propõe uma ética centrada no mundo da vida e não em princípios abstratos, quando ressalta a unidade existencial das relações humanas, caracterizadas pelo desejo erótico para com o mundo, os outros, a sociedade, e finalmente Deus. A ética não pode ser separada dos outros campos da existência humana, já que está profundamente implicada na cultura (que inclui a ciência, a arte, a filosofia, a economia, a política, a educação, a ecologia...) e na experiência religiosa.
Contudo, o privilégio concedido às categorias ontológicas e aos ideais platônicos abstratos (o bom, o belo, o verdadeiro...) leva a negligenciar uma análise fenomenológica aprofundada das relações concretas em termos de eros, libido, philia e ágape, o que não permite a Tillich abordar toda a complexidade do tema da integração e da interpenetração das qualidades do amor. A ampliação e generalização excessiva do eros acabam absorvendo todas as formas não só de amor mas de relação com a realidade em totalidade, com o mundo, com os outros, com Deus – perdendo o seu poder de compreensão específico de cada modo de relação. Colocando o acento na reunião fusional do separado, Tillich tende a minimizar as diferenças e sua tensão erótica assim como o valor e a integridade da personalidade individual. Do mesmo modo, privilegia a eternidade dos valores no sentido platônico em relação ao seu caráter socialmente construído. Não dá um conteúdo suficientemente concreto ao conceito de justiça, sobretudo quando se trataria de ações concretas nos campos da economia e da política. Tillich nunca desenvolve explicitamente a idéia que a justiça é o critério para distinguir o eros essencial e criativo das expressões distorcidas e demônicas do erótico.
Tillich trata muito genericamente do Eros nas relações intersubjetivas e no campo da sexualidade, na comunidade e na política, o que tem conseqüências negativas na hora da decisão concreta. Por exemplo, como distinguir entre o uso moral e o uso imoral de Eros, entre uma energia libertadora e uma energia opressora? Como distinguir entre a face positiva e a face negativa das forças da origem, que são o solo, o sangue, o grupo e até o princípio do chefe ou lider carismático (Führerprinzip)? Qual comportamento será efetivamente destruidor ou demônico? Como catalisar as energias numa ação política concreta pela justiça ou pela paz? O pensamento metafísico abstrato reduz o amor a um sentimento oceânico indiferenciado que pode diluir a radicalidade da exigência ética e autorizar a justificação ideológica da opressão, tanto na relação conjugal machista quanto na dominação política totalitária. Não é sempre suficiente apontar a ambigüidade de toda relação, às vezes é preciso colocar o dedo na ferida! Além disso, subsiste, às vezes, a suspeita da manutenção de uma hierarquia de tipo platônico entre o intelectual/místico e o corporal/orgânico e sentem-se resquícios de um dualismo graça/natureza .
A dificuldade encontrada para distinguir e articular eros e ágape não deixa de ser um sintoma desse mal-estar. Na linha da sua crítica (de inspiração kantiana) ao supranaturalismo, Tillich reduz ágape a uma pura forma sem conteúdo, a forma da justiça e do reconhecimento da pessoa na sua radical dignidade e diferença. O conteúdo de ágape identifica-se então ao conteúdo de eros, acrescentando a forma da exigência ética. Outras vezes, ele parece hesitar em abandonar a concepção tradicional de ágape como realidade sobrenatural transcendente específica, maravilhosamente criada pelo Espírito Santo e milagrosamente infundida nos corações, desembocando em normas e comportamentos tipicamente cristãos. Nenhuma das duas posições é plenamente satisfatória, pelo fato de ambas manterem o dualismo das éticas e de seus fundamentos, contrário ao princípio de encarnação. Em Tillich, a consideração da real natureza de ágape permanece abstrata e formal, como um teologomenon não integrado ao domínio da experiência.
Um caminho poderia ser encontrado do lado da teonomia, auto-transcendência da vida humana provocada pela graça agindo de modo imanente, integrada ao eros em tensão rumo à superação sempre fragmentária e inacabada do demônico. A experiência e a ética cristãs não induzem um comportamento diferente de um comportamento – simplesmente mas plenamente – humano. A auto-transcendência pode produzir realizações teonômicas ou kairóticas da cultura e da história humanas quando, por um momento, essas realidades se abrem ao poder do Incondicionado, da Graça ou da Presença Espiritual. A ágape aparece assim frente ao eros como seu ideal ou seu limite, como um amor que realiza de modo igual a diferença e a participação. Mas, para que isso possa acontecer, é preciso manter a linguagem profética da diferença e da ruptura ao lado da linguagem mística da participação e da união. Ora, Tillich abandona progressivamente a linguagem profética presente nos primeiros escritos, em particular nos textos que tratam do socialismo religioso.
Parece-nos que uma ética do amor baseada numa descrição fenomenológica rigorosa da experiência ética originária, como a ética da alteridade de Emmanuel Lévinas ou a ética do "Si mesmo como o outro" de Paul Ricoeur, poderia enfatizar de um modo mais feliz a exigência ética que se revela na "resistência" do outro na relação face a face Eu-Tu e a importância da comunidade na origem da experiência ética – que conduz ao ser pessoa numa comunidade de pessoas . Daria também um conteúdo concreto e experiencial à ágape, inclusive nos seus aspectos jurídicos e institucionais, sociais e políticos, frente à dimensão energética essencialmente ambígua de eros e libido. Para tal descrição fenomenológica, o material parenético e narrativo fornecido pela encenação da história de Jesus de Nazaré nos evangelhos sinóticos permanece inigualável, porém não exclusivo, assim como o entendeu a teologia latino-americana da libertação. Contudo, o resgate do desejo na concepção tillichiana do amor e da ética permanece como conquista inegociável.
Professor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da UMESP. Presidente da Sociedade Paul Tillich do Brasil.