Conceito de Solidão em Paul Tillich

Jessé Pereira da Silva

"E quando despediu as multidões, subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a tarde, lá estava ele, só." Mt 14.23


A solidão é uma das experiências mais ambíguas. Apesar de ouvirmos a todo momento que ela consome multidões de pessoas em toda parte, quero contrapor esta opinião dizendo que a solidão está mais e mais rarefeita e arrancada de nós. Vou dar um exemplo que estou vivendo agora. Sou professor da língua inglesa numa conceituada escola de São Paulo. Todos sabem que o magistério requer duas experiências básicas: o encontro da aula e o recolher-se para gestar a aula. Sem o recolher, a aula fica comprometida. No entanto, tem se alastrado um novo modismo, ou melhor, um vírus empresarial pragmatista de proporção planetária que é o famigerado total quality. Este vírus não se contentou em contagiar somente o mundo industrial, mas tem sido freneticamente imposto praticamente a todas as áreas de atividades humanas trabalhistas. Foi aí que começou um verdadeiro inferno no mundo educacional. O recolher foi arrancado do professor. Obriga-se o professor a trabalhar numa sobrecarga de horários insuportável, dentro e fora da aula. Contraditoriamente, querem mais qualidade, mais capacidade de reflexão a todo momento, mais imaginação, mais sobriedade, muito maior atenção e auto-aprendizado, materiais e recursos metodológicos mais apurados - a qualidade total em tudo.

Nada disso pode ser conseguido sem a possibilidade da solidão. Nenhuma melhora podemos ter na vida se uma de suas realidades polares for suprimida, a saber, o encontro e o recolhimento. Recolhimento sem encontro é perigoso. Gera o acanhamento, o isolamento, o ressentimento ou a ostentação. Encontro sem recolhimento, sem a solidão, gera o enfado, o vício dos olhos, o cansaço, a exaustão e a perda tanto do outro como principalmente de si. O pensamento de Tillich é todo permeado por esta preocupação. No seu entender, somos uma junção irrefutável destas duas realidades - a essencial e a existencial. Nossa tensão fundamental própria chega à consciência na ansiedade de perder nossa estrutura ontológica através da perda de um ou outro dos elementos polares [1] . Assim, a fé só pode ser entendida como o exercício incondicional de manter as polaridades existencial e essencial, que se dá em nossa ansiedade de não ser aquilo que essencialmente somos. Ocorre que tanto as caracterísitcas essenciais, quanto as existenciais são abstrações. Na realidade, elas aparecem na unidade complexa e dinâmica que é chamada vida. "O poder do ser essencial está ambigüamente presente em todas as distorções existenciais." [2]

Vamos caminhando na vida e de repente nos surpreendemos a nós mesmos com a frase - preciso estar só comigo mesmo. Esta frase revela a realidade de nossa polaridade. "Preciso estar só comigo mesmo" é uma frase que só pode ser dita porque há uma parte de nós que se perdeu, que não está conosco e quer voltar, pois onde concretamente está não se sente em casa, não se sente bem. Sem o fato fundamental de que nosso eu possui esta dinâmica polar de achar-se e perder-se de si mesmo, esta expressão não possuiria sentido algum.

Tillich chama de solitude este exercício de preservação de nossa unidade. Em outros momentos também chama de solidão fundamental ou positiva. Quando um dos elementos polares é perdido ou suprimido pelo outro, nossa unidade própria se quebra fazendo surgir a solidão existencial ou negativa. Esta possiblidade é que gera a solidão que comumente falamos. Talvez seria importante analisar porque a solidão existencial tornou-se muito mais catalizadora de nossas atenções do que a solitude. Tenho um bom número de suspeitas a este respeito mas não quero me deter nelas agora. A solidão existencial é, portanto, conseqüência de uma unidade perdida. Ela ocorre através da individualização finita, podendo dar-se de dois modos: ou como uma auto-afirmação onde se perde o mundo e a comunhão, gerando a dor do isolamento, do ensimesmar-se; ou como mergulho completo na coletivização, no terror da multidão. Nos dois modos perde-se a individualidade. No primeiro, a individualidade é perdida na forma de auto-relação finita; no segundo, ela é perdida na anulação da subjetividade.

Este quadro nos faz ver que não há como buscar uma felicidade eterna sem manter a tensão de "ter que oscilar ansiosamente entre individualização e participação, e de ser consciente do fato de que deixamos de existir se um dos pólos se perde, pois a perda de qualquer dos pólos significa a perda de ambos." [3] Tillich alerta que nenhuma psicologia ou sociologia deveria ignorar esta dinâmica pois é esta tensão que origina muitos problemas psicológicos e sociológicos. Mas muito maior advertência deve haver para o fato de que pouco valor ou atenção temos dado à solitude, pela qual deveriam se preocupar a filosofia e a teologia. A solitude baseia-se no fato de que a perda da própria estrutura ontológica é uma possibilidade e não uma necessidade. Ser finito e livre é estar ameaçado. Mas uma ameaça é uma possibilidade e não uma realidade. É disto que trata a fé. "A ansiedade da finitude não é o desespero da autodestruição. O cristianismo vê na imagem de Jesus-como-sendo-o-Cristo uma vida humana na qual todas as formas de ansiedade estão presentes, mas também, na qual, todas as formas de desespero estão vencidas. É somente neste sentido que Jesus pode ser entendido como razão da fé cristã, pois nele é possível distinguir finitude 'essencial' de desintegração 'existencial', ansiedade ontológica de ansiedade de culpa." [4]

Para entender a dinâmica da solidão solitude, é necessário atrelá-la à compreensão tillichiana do que significa o ser auto-centrado. Tillich anota que "o eu é um ser sob a dimensão da autoconsciência e nunca deve ser equivocado com um objeto, cuja existência pudesse ser discutida, ou como parte de um ser vivo, mas sim como o ponto ao qual todos os conteúdos da consciência estão referidos." [5] O Eu é um centro que opera em movimento duplo: recebe a vida e responde a ela. Dito de outro modo, auto-centralidade é uma contínua luta com a desintegração, dependendo assim de duas forças básicas: aquela que encaminha para a auto-identidade e aquela que encaminha para a auto-alteração. Ou seja, a vida adoece (o eu se desintegra) se o eu for incapaz de firmar-se como unidade centrada diante dos numerosos estímulos e não resistir ao impacto destrutivo das impressões que o atraem para direções múltiplas e contraditórias. Por outro lado, a vida também adoece se, debaixo de tais impactos, for incapaz de manter funções particulares equilibradas com outras. Neste caso, o medo de perder-se a si mesmo pode resultar numa indiferença ao ambiente de tal forma que impeça qualquer auto-alteração, transformando a auto-identidade numa forma morta. Auto-centralidade e solitude se interpenetram. A solidão essencial é a própria condição e expressão de completa auto-centralidade. Cada indivíduo é estruturalmente centrado e esta centralidade o isola do conjunto da realidade que lhe é diferente. Ele é só em seu mundo, mas por ser assim é que pode participar do mundo sem limites. Perder-se de si acontece quando o indivíduo mantém-se aprisionado à finitude, seja interna ou externamente. Achar-se a si mesmo dá-se na forma de encontrar sua centralidade. O encontrar-se só pode ocorrer a partir de um contraste de si consigo mesmo, e não com algo externo, com uma presença. Kierkegaard uma vez ressaltou:
"Aquele que não se torna só consigo mesmo, ainda que mantenha silêncio, não o terá. O silêncio só é possível para aquele que, em verdade, torna-se só consigo mesmo." [6]

Como ser auto-centrado, o homem tem o seu mundo próprio e é consciente dele. Sua centralidade lhe dá a capacidade de participar de seu mundo e o amor, que é o poder dinâmico da vida, o impele a esta participação. No estado de ser essencial, a participação humana não é interrompida no caso de uma rejeição ou restrição por parte de uma realidade particular, finita. "Ser só na finitude essencial" diz Tillich, "é uma expressão da completa centralidade do homem (...) É a condição para a relação com o outro. Aquele que é capaz de ter solitude é capaz de ter comunhão." [7]

Tudo o que experimentamos é sempre uma forma acidental que ao fundo faz transparecer uma solidão fundamental. Nem mesmo a mais intensa experiência comunitária pode transformar a realidade da solidão em algo abstrato, pois a solidão essencial é a própria razão da pessoa manter-se como tal em seu auto-exercício, em seu auto-desenvolvimento, quer estando só ou acompanhada. Assim, a experiência da fé só é transparente para uma pessoa se, ao ser tomada pelo incondicional, ela é mantida sobre si mesma num ato central de pessoa inteira. "Se acontecer que apenas uma das funções que constituem a pessoa for identificada com a fé, desfigura-se o sentido da fé. Cada função do espírito humano participa do ato de crer. Qualquer verdade parcial será parte de um erro global." [8] Dessa forma, é erro achar que a solidão oferece um conhecimento inferior ou duvidoso diante do conhecimento científico porque a solidão propicia a participação com todo o ser e não meramente ao que é visto como objetivamente particular. A tentativa de análise puramente objetiva da solidão é um equívoco tão grande quanto o de achar que um instrumento musical específico é mais real e mais certo do que a música que ele toca. Uma lei física, um fato histórico, uma constatação psicológica ou sociológica pode possuir uma certeza tamanha que ela na prática é por si suficiente. Mas teoricamente tal certeza sempre tem algo de imperfeito, pois a qualquer momento ela pode ser questionada pela crítica e por novos conhecimentos. Bem diferente é a dinâmica da solidão. Não se baseia em formas de intuição e do pensamento, apesar de não combatê-los. A verdade da solidão é existencial e essencial. Na verdade da solidão não existe o problema teórico de certeza maior ou menor, do provável ou improvável. A solidão gira em torno da questão de ser ou não-ser. A verdade da solidão não é condicionada por um juízo teórico. Também é erro subordinar a solidão ao sentimento. A realidade da solidão não é fruto de um sentimento subjetivo como se ela fosse extinguida nos momentos em que não é sentida. A solidão toma a pessoa totalmente num modo em que o sentimento não pode produzi-la, mas apenas condicioná-la ou revelá-la.

A "dimensão insondável" não pode ser encontrada "à nossa frente" como um projeto ou objeto, nem mesmo como sensações ou inclinações. Ao contrário, está "por trás" de nós como verdadeiro sujeito do Ego que é consciente de Si mesmo em nós e no mundo. Em qualquer atividade humana a solidão mantém-se como ponto de partida básico. Ocorre que ela é abortada rápido demais quando nos pomos a caminho. Começamos a viver e a falar da história, da política, da sociedade e até de cada um, como se tais coisas fossem todos e ninguém ao mesmo tempo. Desse modo, adquirimos uma vontade de 'conscientizar', 'transformar' e 'politizar' os outros, quando na verdade, esta vontade sofre de uma ilusão ótica que somente procura transformar pessoas e estruturas sociais pelo exterior. Esta ilusão freqüentemente identifica revolução com libertação. O verdadeiro ego que é livre, só pode sê-lo em contato com sua vacuidade, que é o terreno ontológico comum da liberdade pessoal e do mundo objetivo e problemático.

Existe uma tendência moderna em não dar o devido valor à solidão essencial e sua relação com a solidão existencial e a auto-reclusão. Ao descrever o homem, descreve-se só a sua alienação. Foi a partir dessa preocupação que me despertei para com as implicações profundas da solidão essencial para a teologia. A teologia deve se aliar ao existencialismo para mostrar o caráter universalmente humano da solidão em interdependência com o perder-se no coletivo. Mas isto é só meio caminho na tarefa teológica. O fim da solidão dinâmica do homem é aquele que o prepara para o encontro, para a comunhão: quando experimenta-se o eros, que é o estar apto a voltar-se para algo de forma integral e, reciprocamente, ser recebido por algo também integralmente.

Termino transcrevendo as palavras de desafio de Tillich:
"Às vezes Deus nos empurra para fora da multidão para que penetremos uma solidão que não desejávamos, mas que, apesar disso, nos toma por completo. O profeta Jeremias diz: " - Sozinho eu permaneço, porque a Tua mão tem estado comigo." Deus quer que façamos a pergunta da verdade que possa nos isolar da maioria dos homens, e que possa ser perguntada somente em solidão. Ele quer que rompamos com os modos rotineiros dos homens que trazem desonra e ódio sobre nós; um rompimento que só pode acontecer em solidão. Ele quer que penetremos as fronteiras de nosso ser, onde o mistério da vida aparece, e ele só pode aparecer em momentos de solidão [9] . (...) Na pobreza da solidão todas as riquezas estão presentes. Ousemos experimentar a solidão - nos deparar com o eterno, encontrar o outro, ver-nos a nós mesmos." [10]

Mestre em Ciências da Religião pela UMESP. Professor universitário.


NOTAS

[1]TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, São Paulo/São Leopoldo, Edições Paulinas/Editora Sinodal, 1987, p. 169 a 170.
[2]Id., ibid., p. 63.
[3]Id., ibid., p. 170.
[4]Id., ibid., p. 172.
[5]Id., ibid.,. p. 413.
[6]KIERKEGAARD, Sören. Purity of Heart Is to Will One Thing. p. 47.
[7]TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. p. 299.
[8]Id., Dinâmica da Fé. São Leopoldo, Editora Sinodal, 1970, p. 24.
[9]Id., The Eternal Now - Sermons. London, SCM Press, 1963, p. 15 .
[10]Id., ibid., p. 17 .