O Simbolismo do Coração
A palavra "coração"
A etimologia da palavra "coração" como símbolo revela sua universalidade. "A raiz indo-européia krd ou kered deriva de kardia, em grego; que se desenvolve para cardíaco, cardiograma, endocárdio, pericárdio e outros termos médicos. Cor, em latim desenvolve-se para cordial, acordar, discordar, recordar, recurso, coragem e misericórdia. Sua terminação pelo sufixo aumentativo traz a idéia de reforço. Muitas autoridades associam "credo" com esta raiz latina cor, que deriva também para credencial, acreditar, crédito, credulidade, recrear etc. E, finalmente, heorte, em anglo-saxão, que se desenvolve para heart, hearten, hearty, heartless etc".
Podemos concluir, do acima exposto, que a raiz krd expressa principalmente a idéia de centro, reforçada, em português, pelo sufixo ção. A expressão desse centro aparece claramente em caroço/coroço. Seus derivados também indicam formas de conhecimento, como nas palavras: credo, acreditar e crédito; ou de comportamento, como em cordialidade e misericórdia.
Lembrar com o coração é decorar ou recordar. Brigar com ousadia e intrepidez é brigar junto com ele, isto é, com coragem. Ficar sem ele é ficar descorçoado, sem centro e sem direção. Chegar a soluções conjuntas é unir os corações, como em concordar, chegar a um acordo. Ser prudente ou sensato é ser cordato, assim como resolver ou recobrar os sentidos é acordar.
O coração no altar dos deuses
Entre os povos nahuas, maiae e astecas, por muitos séculos, aproximadamente de 500 a.C. até o fim do império asteca em 1697, o coração foi um dos símbolos centrais, se não o principal, em diferentes mitos e rituais religiosos. No mito de criação encontrado no livro sagrado Popol Vuh, do povo maia, o nome Huracán (Deus) é o "coração do céu": "Após ter dado três sinais, um relâmpago, um relâmpago curto e um relâmpago longo, Huracán deu luz à escuridão e criou o homem e a terra". É da "iluminação" do coração divino que se faz a consciência e se inicia a discriminação. A escuridão, no estado pré-egóico, é predominante. Tudo está em potencial, contido no Self. Mas são necessários sua ruptura e seu desmembramento, a desintegração, na linguagem analítica, para que a consciência possa existir.
Outro mito: ... nadava pelas águas sem fim, a grande fêmea, o Monstro da Terra, devorando tudo o que via, até que dois deuses – Quetzolcoatl e Tezecatlipoca – transformados em serpente, romperam seu corpo. De seu desmembramento foram formados a terra e o céu. Entretanto, a terra-monstro virou uma deusa que, às vezes, chorava à noite, desejando comer corações humanos e recusando-se a permanecer em silêncio ou a se tornar fértil enquanto não fosse banhada com sangue humano. Este mito dos nahuas fala da criação do mundo, não pela súbita mãe, feito por dois deuses-serpente. O elemento fálico invade as águas amnióticas, rompe a totalidade urobórica devoradora e cria a consciência. Entretanto, aqui, morta a grande mãe, ela vai para a sombra e atua negativamente, ameaçando destruir a criação. Para que a vida pudesse continuar era preciso agora o sacrifício de corações.
O mito da grande mãe rejeitada e devorando os corações expressa o embate entre o masculino e o feminino, entre o patriarcado e o matriarcado. Os seres humanos revivem nesse mito a convivência com a mãe castradora e má. Para salvar-se dessa figura, cria um ritual sacrificial para assegurar a continuidade e fortalecimento da consciência. Os nahuas e os astecas mantinham o ritual de renascimento a cada 52 anos, quando apagavam todos os fogos, limpavam tudo o que era velho e esperavam o nascimento de novo sol. Para isso, acendiam a fogueira sobre o peito de determinado prisioneiro à meia-noite. Seu coração alimentava o fogo. Acreditavam que se não houvesse fogo suficiente, o sol se extinguiria ou os seres humanos se transformariam em animais. A felicidade seria alcançada quando alguém chegasse à casa do sol, onde se tornaria imortal. A tradição do sacrifício do coração tornou-se comum entre os habitantes do México e da América Central e visava sempre a homenagear determinado deus. Esses rituais aconteciam durante as principais atividades do calendário. O sacrificado alimentava a imagem do deus homenageado. Assim, para que o deus sol pudesse vencer a batalha contra a lua e as 400 estrelas diariamente, precisava ser da comida mais sagrada que era o sangue humano. O ponto mais alto da celebração consistia na elevação do coração pulsante em direção ao sol, quando se uniam reforçando a energia e a vitalidade do povo.
Existem relatos de soldados espanhóis que observaram os rituais de sacrifício astecas. No começo os sacrifícios eram voluntários com o objetivo de salvar o mundo. Não pretendiam punir ou vingar povos inimigos. O Sacerdote, ao se alimentar do coração da vítima, assimilava sua força e coragem, da mesma forma que os ídolos untados com seu sangue adquiriam vida e poder. Os nahuas acreditavam que todos nasciam com coração e face corporais, muito embora precisassem, depois, de novo "coração deificado" e nova "face verdadeira". A palavra comum para coração era yollotl, derivada de ollin, movimento. Quando o coração tornava-se divino pelo esforço humano, passava a ser chamado yoltéotl. Para os nahuas, o "brilho do coração" deveria aparecer na face, tornando os traços humanos seus reflexos. Assim, "fazer coração" e "fazer faces" significava crescimento da força espiritual. Esses dois aspectos constituíam a crença no ser humano centrado. Sem o segundo coração e a segunda face, seríamos seres errantes sem o centro nem objetivo. Nos rituais de iniciação um jovem escolhido era treinado por um ano. Depois de encerrado o tempo, de livre vontade, ele era conduzido ao alto de uma pirâmide onde seu peito era cortado pelo sacerdote e seu coração oferecido pulsante ao deus sol. Esse ritual tornou-se modelo simbólico para todos. Esse coração purificado se unia ao coração solar divino num ato sacrificial simbólico e assegurava a permanência da grande estrela e da vida sobre a terra.
Elegias para acalmar o coração
No século XIV a.C. já aparece a idéia de doença em conseqüência da ira divina e o pedido para que deuses ou deusas "abram o coração" e concedam perdão. O suplicante, após exame de consciência, dirige-se ao coração da divindade e suplica-lhe ajuda para obedecer a vontade divina. Preces como essas são redigidas em acádio e sumério, encontradas já no II a.C. e desenvolvidas também pelos babilônios com o mesmo objetivo. Estas preces chamavam-se "elegias para acalmar o coração do deus zangado", e geralmente eram proferidas em face de desgraças e doenças. A primeira parte da oração pedia que "o coração enfurecido do Senhor se aplacasse". Na segunda, o suplicante confessava a culpa. Na terceira, expressava a aflição ao perceber que "Deus, com seu coração encolerizado, lhe atingira" e na última, suplicava-lhe perdão: "Quando se aplacará, ó meu Deus, ó minha Deusa, teu coração hostil? Que o teu coração, como o coração da mãe carnal, do pai carnal, se aplaque". Tanto sentimentos de raiva quanto de amor, de ódio e de perdão, centram-se no coração dos deuses e também dos seres humanos.
O coração em julgamento
"Se os olhos vêem, se as orelhas entendem e se o nariz respira, eles conduzem ao coração aquilo que recolheram e ele organiza as decisões. A língua, então, as anuncia". (A. Erman, La religion des egyptiens, Paris, Payot, 1952, p.118).
Na cultura e religião egípcias, o coração é símbolo fundamental. Está presente nas orações, nos mitos cosmogônicos e nos rituais funerários como centro da vida, lugar da inteligência, da vontade e da consciência moral. Na teologia de Memphis (aproximadamente 2700 a.C) Ptah, deus da criação, a fim de dar materialidade à força do verbo criador, pensou no universo com o coração. Seu coração é o lugar da atividade criativa e da imaginação. De início, manifestou-se por meio do logos (verbo) mas somente com o coração a criação tornou-se real. O Egito politeísta passa a ter somente o sol como maior divindade a partir da dinastia de Amom-Rê (XII), divindade solar suprema. O deus sol habita o coração, cria o universo e nele são depositadas esperanças de cura e salvação.
O curso do sol representa o modelo do destino do homem: descida à escuridão, morte e ressurreição. A evolução e ascensão da alma, e sua transformação pela purificação, consistem num segundo nascimento para a eternidade única e imutável. Os egípcios estavam convencidos de que morte e vida fazem parte do mesmo processo contínuo e complementar. A morte só é real para os que falham no processo de julgamento. Este julgamento era conhecido como o processo de "pesagem do coração". Para os egípcios o coração (ou ab) ligava-se intimamente à alma. Do coração da mãe descia o sangue para o útero onde a criança era gerada; por isso os filhos eram chamados de "sangue do coração". Era considerado o órgão mais importante, por isso, quando ocorria a mumificação era o único órgão conservado no corpo; era o centro dos pensamentos bons e ruins, centro da vida. Com o objetivo de ajudar a alma do morto na viagem pelo desconhecido, com o passar de várias dinastias, alguns textos formaram o que ficou conhecido como Livro dos Mortos deixado junto aos corpos dos falecidos e recitado pelos sacerdotes durante o processo de mumificação em várias cerimônias a fim de que os mortos pudessem reencontrar a alma e usar seu corpo novamente.
- Segue o capítulo XXVII, no qual Ani suplica ao deus para que seu coração não lhe seja arrebatado e fique para sempre no submundo. No papiro de Amen-Hetep, referente ao mesmo capítulo, lemos:
- Meu coração está comigo, e nunca deverá acontecer de ele ser levado embora. Eu sou o senhor dos corações, o matador do coração. Eu vivo na justiça e na verdade, e é nelas que meu coração habita. Sou Hórus, um coração puro dentro de um corpo puro. Vivo pela minha palavra e meu coração assim vive. Não se permita que meu coração seja levado ou que seja ferido oi cortado por me ter sido arrancado. Seja-me permitido existir no corpo de meu pai Seb e no corpo de mãe Nut. Não fiz mal contra os deuses; nem pequei por orgulho. (Sri E. A. Wallis Budge, The Egypctian Book of the Dead (The Papyrus of Ani), Nova York, Dover Publications, Inc., 1967, p.308).
Algumas inscrições encontradas junto às múmias em escaravelhos de pedra por exemplo, dão informações de "balanças" usadas possivelmente em cenas de julgamento do coração sempre presente nos papiros funerais, onde o coração do morto é pesado na sua presença contra a pena da deusa Maat. Quarenta e dois juizes também estavam presentes, cada um de uma província do Egito, com o dever de examinar diferentes aspectos da consciência do morto. O lugar onde isso ocorria chamava-se "Sala da Dupla Justiça". Na extremidade desta, sentava-se Osíris, juiz e redentor, à espera de seu filho, que veio da terra, isto é, o falecido. O processo tinha a seguinte forma (1) confissão purificadora, justificativa por não ter cometido erro algum contra os homens (2), elogio fúnebre (3), interrogatório de ordem iniciatória pelos juizes (constituído de duas vertentes: o sentido moral, de seguir os princípios que governam o universo segundo a tradição egípcia e a convicção de que isso poderia ser alcançado por meio dos rituais sagrados, do conhecimento e da bondade).
Em diferentes papiros temos a descrição desse julgamento como o coração do falecido posto na balança contra o julgamento de Maat, emblema da justiça e da verdade. Vários deuses estavam presentes: Anúbis, com a cabeça de chacal, experimenta a lingüeta da balança. Ao lado dele, Thot, escriba dos deuses, registra o resultado do julgamento. Hórus o pronuncia. Atrás de Thot, à espera, fica a monstruosa Am-rit, a devoradora dos corações (Manfred Lurker, The Gods and Symbols of Ancient Egypt, Londres, Thames and Hudson, 1980). Os detalhes da cena de julgamento variam conforme os papiros, mas é comum em todos eles que o coração tinha que ter o mesmo peso que a pena de Maat. O monstro estaria pronto a devorar o coração de quem não passasse no teste. Se os pratos se equilibrassem seria dito "Foi feito o equilíbrio na balança. Seu coração é justo, pois não é mais pesado do que uma pluma." (Albert, Champdor, Le Livre des Morts, Paris, Édtions Albin Michel, 1963). Dessa forma o morto estava justificado. O "coração de sua mãe", o "coração de seu segundo nascimento" não testemunhou contra ele e assim, sua alma poderia ser elevada ante o deus sol e Ísis (a deusa mãe). Ele passa a ser imortal e a natureza oculta do universo lhe é revelada. É o segundo nascimento. O homem renasce no espaço celeste (sua mãe) e a alma será admitida em Heliópolis (cidade do sol). No mito da criação, é o coração de Ptah que dá movimento à sua obra. Nas preces, o coração humano fala ao coração divino, pedindo ajuda e iluminação. A vida moral e religiosa concentra-se simbolicamente no coração, que precisa ser redimido para voltar ao seu criador. Na mitologia egípcia, os deuses, Ptah, Amon, Aton e Hórus entre outros, representam cada um deles uma província e em si o centro maior que dirige o destino. Eles são a gênese do segundo nascimento.
Para os egípcios quanto mais leve o coração, maior a consciência e o conhecimento; por isso, utilizam a pena (da deusa Maat) como símbolo de leveza e movimento entre o céu e a terra, assim como a pomba que representa o Espírito Santo para os cristãos. A morte na figura de Am-rit, é a grande mãe destruidora que engole o homem assoberbado de culpas. Destrói seu coração pesado.
O lugar secreto
O coração participa no hinduísmo em diversos tipos de meditação e práticas; é com freqüência encontrado nos textos religiosos. É considerado lugar da "consciência pura", de Shiva, Brahman, Krisna, o deus absoluto (não-eu). Está além do tempo e do espaço, mas pode posicionar-se no coração físico ou um pouco mais à direita do centro, por meio do conhecimento. Para os sábios hindus, a consciência é o coração do hrdayam (hrd = coração + ayam = eu sou), o centro daquilo que somos realmente (Ramana Maharshi, The Spiritual Teaching of Ramana Mararshi, Boston, Shambhala, 1988) entre o centro e a totalidade.
Nos textos sagrados as divindades habitam o coração. A meta no processo de conhecimento é descobrir Krishna, que está situado no coração dos seres vivos. Nos textos sagrados também é possível encontrar a expressão "caverna do coração", no sentido de lugar oculto. O desenvolvimento espiritual acontece a partir deste ponto oculto e secreto, considerado o local do "segundo nascimento". Para os hindus, esse simbolismo para ter sentido, deve resultar da experiência corpórea. Por fim, essa experiência, entre coração e sentido superior, decorre de anos de prática da meditação. Essa busca é conhecida como "conhecimento do coração" ou "conhecimento da caverna": "Há esta cidade de Brahman [o corpo] e nela o palácio, o pequeno lótus do coração, e nele o pequeno éter. O que existe dentro desse pequeno éter é o que precisa ser procurado, é o que precisa ser compreendido. E se lhe perguntarem: ' em relação àquela cidade de Brahman, e o palácio nela, isto é, o pequeno éter dentro do coração, que há nela que precisa ser procurado ou compreendido?' então ele deve responder: 'tão grande quanto o éter é assim também o éter dentro do coração. Tanto o céu quanto a terra, tanto o fogo como o ar, tanto o sol quanto a lua, tanto o relâmpago quanto as estrelas estão contidos dentro dele, e o que quer que esteja nele aqui no mundo, e o que quer que não esteja, tudo está contido dentro dele.'" (Chhãndogya Upanishad (8.1.2) in The Upanishads, vol.1, org. por Max Müller, Nova York, Dover Publications, Inc., 1962). O coração, portanto, é como semente, mas com o potencial do vir-a-ser. É ponto de origem e de retorno.
Para os hindus o éter é uma substância que tudo penetra e produz. É um símbolo de Brahman, o Espírito Divino que se expande e retrai representando todo o processo de vida. Segundo algumas passagens dos Upanishadas, o conhecimento que vem do coração é realmente o verdadeiro, pois capacita o homem a passar do mundo ilusório para o real. Contudo, para que se siga o caminho do coração, é necessário clareá-lo por meio da renúncia e sacrifício para que ele se torne um espelho mais acurado do self. O desejo de união com o self, é a meta, o que leva a imortalidade. O coração carnal e o espiritual fundem-se num só corpo na caverna do coração.
O lugar do som universal
Em oposição à tradição patriarcal védica, na Índia desenvolveu-se sob a denominação Tantra Yoga, um sistema no qual a figura feminina, representada pela deusa suprema Shakti tem tanta importância quanto o deus supremo Shiva. Assemelha-se a conversas entre esses deuses, são manifestações polares do único princípio transcendente. No mistério da criação, o masculino é a eternidade e o feminino, o tempo. Seu objetivo é trabalhar com as energias masculinas e femininas, despertando-as por meio de vários exercícios. Ao longo da coluna se dispõem sete chakras ou centros de energia. Na base desta, estaria a kundalini, energia representada por uma serpente adormecida. Por meio dos exercícios é possível despertar essas energias num movimento ascendente em vários níveis até a iluminação total. (Arthur Avalon, The serpent power. The secrets of Tantria and Shaktic Yoga, Nova York, Dove Publications, Inc., 1974).
O coração flechado
O deus do amor, personificado em Madana está ligado à realização dos desejos e ao desejo de felicidade. A pedido do deus Indra, rei dos deuses, Madana, ilustrado de modo jovem e forte com arco e flechas, vai até Shiva que há tempos se encontra no alto do Himalaia absorto em suas meditações. Por esses tempos o universo todo sofria, porquanto o deus da misericórdia havia se esquecido de sua missão de libertar os homens do sofrimento. Era necessário que se unisse a Shakti, deusa da existência, para que sua missão fosse cumprida. Madana foi convocada para que por meio de suas cinco flechas de rosas celestiais despertasse o coração de Shiva. No exato momento em que seu coração foi atingido pelas rosas, seus olhos se abriram e ele viu sua esposa Shakti; contudo, reduziu Madana a cinzas. A viúva de Madana, Rati, o desejo, pediu a Shiva que seu marido lhe fosse restituído .Seu pedido foi atendido. Porém, Madana voltou sob a forma de imagem e por isso, Rati (o desejo) procura o amor por todo o universo, sem nunca conseguir encontrá-lo. Madana, também chamado Kama, é uma forma de Ágni, deus do fogo, nascido das águas, fonte de vida e ligado à união e à criação. Como Eros, é o primeiro dos deuses a nascer, dando a toda a criação o tom primaveril. Além de carregar arco e flechas, enlaça de longe a vítima e puxa-a para perto com um gancho. No plano corporal, opera por meio do sexo; no plano superiro, é a vontade do Criador (Heinrich Zimmer, Philosophies of Índia, Nova York. Pantheon Books, 1951).ks, 1951).
Para os hindus, quando se é atingido pelas flechas e aprisionado pelo desejo, a pessoa se torna "esquecida de si mesma" e é condenada a sucessivas reencarnações. Somente as flechas no coração de Shiva, possibilitaram sua união à existência, dando forma e matéria a seus pensamentos. Se isso não acontecesse , estaria perdido em seus devaneios.
O coração circuncidado
No Antigo Testamento a palavra lev (coração) ocorre cerca de 1024 vezes de três formas (1) como lugar da mente e lugar da intelectualidade – guarda os ensinos e a bondade de Javé – (2) como lugar dos sentimentos – abriga sentimentos de alegria, exultação e dor, e de sofrimento na presença ou ausência divina – (3) como centro da vida moral e religiosa. Mas, o símbolo do coração talvez apareça com maior intensidade ao surgir a nova aliança entre Deus e seu povo. No livro do Jeremias, lemos este anúncio de Deus : "Eis que virão os dias em que concluirei com o povo de Israel (e de Judá) uma nova aliança. Imprimirei a minha lei nas suas entranhas e a escreverei em seus corações. Então, eu serei o seu Deus e eles serão meu povo". – Jeremias 31.31-34.
A conscientização da presença divina no coração substitui a lei externa. O que fora gravado na pedra agora estava no corpo. ( cf. Jeremias 32.39-4 e . Ezequiel 10.19-21). Para que essa idéia se concretizasse era necessário circundar o coração. Essa idéia já está presente em Moisés, Deuteronômio 10.16. A "circuncisão do coração" é ato simbólico de entrega total do homem ao seu centro (Deus). O sacrifício é o ato simbólico ritualístico que propicia a união entre o coração humano e o coração divino completando a aliança sempre almejada.
O sagrado coração
No cristianismo, hoje em dia, o coração simboliza grande força. Descrito nos evangelhos e nos escritos de santos e místicos, transformou-se em objeto de culto vivo e atuante. Diversas passagens bíblicas mencionam o coração. A vida espiritual nasce dele, desenvolve-se e une as pessoas; é lugar central que une todos num só ideal. Encontramos o simbolismo do coração na idéia de "aliança" em Romanos 2.29 e 2Cor 3.2-3 onde os "mandamentos são impressos" e o caráter humano se estrutura. Na busca da "comunidade íntegra", 2Cor 6.13 e na "entrega" do coração à própria divindade para que se tornem iguais ( cf. Mateus 11.29-30). Ser "gentil e humilde de coração" revela caráter de pureza e nobreza que torna o indivíduo apto a participar da igreja e da vida eterna (1 Tim 1.5). Quanto maior a capacidade amorosa deste coração, maior o ágape, isto é, maior será a possibilidade de reunião amorosa entre os novos cristãos (Lucas 24.32).
As pregações falam direto ao coração. Trata-se de conhecimento não intelectual, mas emocional. Tal como a sensação quente de fogo correndo pelo corpo, junto com a forte emoção sentida quando se ouve a palavra criativa e transformadora. É uma forma de entendimento objetivo, direto, como fala Orígenes (século III), e mais tarde Gregório de Nyssa (século IV), a explicar a famosa passagem do Cântico dos Cânticos 5.2. O conhecimento intelectual é posterior à vivência direta, não-reflexiva.
O culto do sagrado coração parte da devoção ao "lado traspassado de Cristo". Os padres da igreja e os cristãos de Roma (séculos II e III) costumavam meditar sobre a ferida, mas sem referência direta ao coração. Santo Agostinho achava que o coração representava o lugar do nascimento da igreja : "Cristo é atravessado com a lança depois da morte, para que brotem os sacramentos que fundamentam a igreja" – V.V.A.A., Um coração para sempre, São Paulo, Loyola, 1988, p.27 – e também como lugar da experiência religiosa e da individualidade. Na Idade Média (entre 1100 e 1250) se estrutura o culto do coração com o surgimento de meditações a seu respeito. Vários santos e santas dedicam-se a essa devoção: São Bernardo de Claraval, Santa Lutgarda, São Boaventura e Santa Gertrude. Acreditavam que suas aflições resultavam do afastamento do lugar de regeneração, do coração. O religioso em pecado encontrava no coração manancial de energia salvadora para a sua remissão: "Atrevi-me a tocar com meus lábios o teu coração, tão amável amante, e apagar nele minha sede" – São Pedro Canísio, século XVI em V.V.A.A., op. cit. p.31.
Dizia-se que do coração traspassado de Cristo jorrava a água sagrada da salvação simbolizando renascimento. Juntamente com a água do batismo, era forte elemento remissor de pecados. Essa idéia já aparece no Antigo Testamento quando Moisés faz jorrar água das rochas cumprindo a, nas palavras de Cristo (João 7.37-38). À medida que o simbolismo da água e da fonte associa-se à figura da grande mãe (Carl G. Jung,Collected Works, vol.5, parágrafo 319), podemos interpretar o coração de Cristo como vaso ou útero do renascimento (...) Beber dessa água é encontrar o divino e se redimir dos pecados, voltando ao estado original. O culto ao coração se espalhou e a entrega do coração do religioso ao coração de Cristo torna-se eixo para a busca da compreensão do mistério da vida e da morte.
Santa Teresa de Ávila (1515-1582), freira espanhola, jovem, ao rezar frente ao crucifixo tem a seguinte visão: "Representava de modo tão impressionante um Cristo coberto de chagas, que logo ao primeiro olhar me senti perturbada com a lembrança do que por nós sofreu. O coração despedaçou-se-me de remorsos ao pensar na ingratidão para com aquelas chagas (...) Senti que a partir daí Jesus finalmente penetrou no meu coração duro e assim descobri que Seu amor está acima de todos os gozos da terra, acima de todas as delícias." – Marcelle Anclair, Santa Teresa de Ávila, Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1953. Em outra visão diz: "(...) vi junto de mim, à minha esquerda, um anjo em forma corporal, o que só me é dado muito excepcionalmente (...) tinha nas mãos um dardo de ouro, e julguei ver na ponta do ferro uma chama. Pareceu-me que me traspassava algumas vezes com o dardo o coração até o mais íntimo e que mo arrancava deixando –me abrasada em grande amor de Deus. A dor era tão violenta que me fazia gemer e a tal ponto excessiva era a suavidade desta dor vivíssima, que não era possível deixar vê-la terminada e a alma já não se contentava senão em Deus. Dor espiritual, não corporal, se bem que o corpo não deixasse de ter nela alguma e mesmo grande parte. É uma troca de amabilidades tão suave entre Deus e alma que peço a Deus faça experimentar a quem pense que eu minto." – Santa Teresa de Jesus, Obras Completas, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 8ª edição, 1986.
Para Santa Teresa de Ávila, esses encontros significavam a presença de Cristo. No êxtase era tomada de grande força e muita coragem, que a levavam à realização de tarefas difíceis. A sensação de flechas e fogo ferindo-a aparece em outros de seus escritos, sempre acompanhada de prazer e dor. O sofrimento é "penoso e deleitoso": "Ó verdadeiro Amor, com quanta piedade, com quanta suavidade, com quanto deleite, com quanto cuidado e grande mostra de amor curais estas chagas, as quais com as setas do mesmo amor haveis feito! Como se pode aplacar tão denso e deleitoso tormento?" – Exclamaciones 16,2, ibid.
Em 1610, São Francisco de Sales tomou como brasão para sua ordem um coração flechado e rodeado de espinhos com a inscrição dos nomes de Maria e Jesus. A partir de então, o culto ao coração é mais difundido. A jovem religiosa francesa, Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690) inicia um processo de meditação e êxtase com grande influência na igreja. Durante suas visões recebeu diversos preceitos reconhecidos no mundo inteiro. Teve a primeira visão durante um baile na adolescência. De acordo com essa visão, flechas atravessavam-lhe o coração causando queimaduras e dor profunda , sempre sentidas quando se aventurava a trilhar os caminhos do mundo. A partir dos 24 anos, passava de 10 a 12 horas em êxtase no convento. Pelo sofrimento chegava à união com o divino. Era o caminho para Deus: "Quanto mais eu sofro, mais eu agrado esse amor sagrado que acende três desejos em meu coração – sofrer, amar e comunicar e morrer para me unir a Ele." – Margareth Yeo, These Three Hearts, U.S.A., The Bruce Publishing Company, 1940, p.202.
Santa Margarida sofria de intensas dores do lado esquerdo do peito, provavelmente dores precordiais, "mitigadas" pelas sangrias praticadas, segundo ela, por ordem de Jesus Cristo. Seu confessor, o padre Claude de la Colombière, ao celebrar a missa, na sua presença, sentiu também intenso calor, como se queimasse nele o amor divino. Nessa mesma missa, ao comungar, Santa Margarida viu o coração divino sob o símbolo de um forno ardente com dois outros corações (o seu e o do padre) unidos e se consumindo, e ouviu: "Assim meu puro amor une para sempre esses três corações." - Margareth Yeo, These Three Hearts, op. cit. p.220. O fogo destrói, transforma e une. Não há distinção aqui entre o coração corporal e o simbólico. Para Santa Margarida, eles eram um só na união mística com Deus.
Observa-se que essas visões se estruturam de maneira semelhante. Em todas o êxtase é essencial e permite o estado de união mística entre o religioso e Deus. O coração de Cristo substitui o coração do místico. O desejo é de fusão entre os corações. Esse culto é profundamente devocional e não intelectual. C.G. Jung relaciona "as setas das visões com as intrigas e fofocas das freiras (...) em relação a Santa Teresa e Santa Margarida. (...) podemos ver nas setas significados masculinos e libidinosos, relacionados com desejos sexuais reprimidos" que faziam o corpo queimar e doer. Os aspectos sensuais e sexuais estão implícitos em quase todas as visões e êxtases dessas freiras. "Tanto Santa Teresa quanto Santa Margarida eram jovens, que já na infância haviam sofrido doenças inexplicáveis, provavelmente de origem emocional. Ambas perderam a mãe na primeira infância e se ligaram fortemente ao pai, o qual, por usa vez, principalmente no caso de Santa Margarida, também não pôde despender os cuidados necessários à filha (...) podemos ressaltar a bipolaridade com que o símbolo do coração aparece nas suas visões. O sofrimento é "doce" e "doloroso". Percebe-se, em vários relatos, o prazer do sofrimento. A dor aplacando a culpa do pecado, provavelmente decorrente de fantasias e sensações sexuais proibidas (incestuosas?). As flechas que penetram seu corpo têm óbvia conotação fálica, reforçada pela presença do jovem anjo, meio adolescente, figura de animus em forma de espírito. É ele que penetra, causa êxtase (orgasmo?) e dor. A dor acompanhante aplaca a culpa do prazer proibido. O prazer genital estaria aqui deslocado para o "prazer cardíaco", numa clara analogia entre o órgão genital feminino, o útero, e o coração." – p.99. A figura do anjo pode ser relacionada à de Eros, porquanto sua aparência jovem e vigorosa carregando arco e flechas, asas e, atingindo e inflamando os corações de paixão, assumem aspecto torturador e doloroso, mas que permite a síntese dinâmica das potencialidades do atingido. As flechas despertam a consciência adormecida das jovens. Nesses relatos, também se encontra presente a dualidade entre a adoração do coração ferido, sangrando e do que "brilha com o sol". Projeta-se o coração do místico no coração de Cristo.
Na Alta Idade Média a devoção ao coração de Cristo recebe maior impulso. É o lugar das transformações, do mistério e da purificação. O místico deseja perder-se dentro dele a fim de percorrer o caminho da vida. No século XVII, o coração de Maria, mãe de Cristo, começou a ser venerado por São João Eudes, fundador da Congregação de Jesus e Maria; ensinava que o coração de Maria levava os fiéis para perto de Deus, uma vez que Maria sempre podia interceder por nós junto ao filho. V.V.A.A., Um coração para sempre,op. cit., p.33. A partir do século XVII, com Blaise Pascal, filósofo e matemático francês, o coração é reafirmado como centro das resoluções e vontades, único meio para se chegar a Deus , popularizando a frase "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Portanto, "(...) a verdade e a divindade só podem ser descobertas pelo conhecimento do coração." – p.101.
A figura do coração com raios retilíneos, claros, de aspecto luminoso, é chamada por R. Guénon, de "coração irradiante". O coração com raios flamejantes na parte superior, com idéia de calor, é chamado de "coração ardente". A luz, como símbolo do conhecimento, é aqui representada pelo sol: conhecimento direto, intuitivo; e pela luz lunar: como conhecimento refletido, dado pela razão Nesse caso, o conhecimento da percepção (experiência de êxtase), intuitivo, como no hinduísmo, é chamado de "conhecimento do coração". O simbolismo do coraçã representa quase sempre o calor e a luz.
O caminho dos místicos cristãos é o caminho do coração ardente semelhante à tradição Bhakti hindu, onde o coração é o lugar da aspiração e do encontro com os deuses. Já para os sacerdotes brâmanes, o caminho mais apropriado é do coração irradiante, isto é, do conhecimento real e verdadeiro (satya), pois somente ele possibilita a passagem do mundo ilusório para o real. O coração, como o sol, ilumina e aquece. Alcançar o equilíbrio entre essas duas formas de libido, ou entre o sentimento e o pensamento, é um dos desejos da modernidade.
Outro aspecto significativo do culto ao coração é a representação do coração de Maria rodeado por rosas, e o de Cristo, pela coroa de espinhos (a rosa, na cultura medieval era símbolo da benção celestial e os espinhos, da humilhação, martírio e crucificação de Cristo). O coração de Maria mostra o sofrimento da mãe pela morte do filho, que redime e perdoa por meio das rosas que oferece a quem invoca; o coração é apunhalado em algumas representações, mas irradia paz e se abre como refúgio para os que buscam. Maria, arquétipo da grande mãe. Esse coração transmite segurança, calor e proteção. O coração de Cristo, repleto de espinhos, representa o mito do herói sacrificado que revela "o caminho do oração", meio para o amor e para o conhecimento de si mesmo: centro ardente e irradiante.
Fichamento (anotações e idéias resumidas), preparado por Elisa Rodrigues, do capítulo 3 (p. 51-106) da obra A psique do coração: Uma leitura analítica do seu simbolismo, de Denise Gimenez Ramos. Coleção Estudos de Psicologia Junguiana por Analistas Junguianos, São Paulo, Editora Cultrix, 1990. Esta obra serviu de base para a conferência que a professora Denise pronunciou no sábado 29 de abril de 2002, por ocasião do "Oitavo Seminário sobre o pensamento de Paul Tillich", no auditório Iota da Universidade Metodista de São Paulo. A conferencista é professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Elisa Rodrigues é bolsista da CAPES e mestranda em Ciências da Religião na UMESP.








