"Felizes os puros de coração, porque verão a Deus"
(Mateus 5.8)
"Chegai-vos a Deus e ele se chegará a vós. Purificai as mãos,
pecadores. E vós que sois de vontade dividida, limpai o
coração." (Tiago 4.8)
"Não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não
quero. Ora, se eu faço o que não quero, já não sou eu que
estou agindo, e sim o pecado que habita em mim." (Rm 7.19-20)
Podemos dizer que vivemos numa era de crise da vontade. Uma crise que se manifesta nas mais variadas formas. Por um lado, ela pode ser observada tanto no desejo ilimitado que quer desejar tudo, quanto por outro lado, na indiferença total do desejar - o desejo morto. Pode ser percebida também na predominância do desejo que não sabe mais o que querer, causando assim um choque na estrutura do ser humano. A crise da vontade é séria pois é justamente a vontade que opera a atualiza a liberdade humana. Uma crise na vontade acaba por acarretar a crise da liberdade e, consequentemente, do destino. E pior ainda, ela acaba corroendo nossa alma, nosso corpo, nosso ser inteiro, levando-nos ao pior tipo de morte, pois tudo o que somos depende do que desejamos. É no desejar que vamos plasmando e esculpindo nosso ser. Nós somos aquilo que desejamos e o como desejamos. Nosso ser vai tomando as formas numa pintura que a nossa vontade vai desenhando.
Paul Tillich considera o tema da vontade como um dos mais delicados, complexos e difíceis de lidar. Em primeiro lugar, a vontade é algo essencialmente dinâmico e "não pode ser pensada como algo que é; nem pode ser pensada como algo que não é." [1] A vontade é em si o exemplo extremo da ambigüidade humana. Ela é o "me on, a potencialidade de ser ou o poder de ser". E a potencialidade de ser requer sempre um contraste sempre presente entre o não-ser e as coisas que são. O nosso poder-de-ser fica a todo momento sob o impacto do puro não-ser. Este fato fundamental é mostrado na narrativa da criação através da necessidade do vazio, da disformidade e da noite que precedem a vontade de se criar. Portanto, a vontade não é uma realidade compacta podendo ser analisada como um ser ao lado de outros seres. Não se trata de classificar a vontade como "um elemento polar em contraste polar com o elemento de pura forma" [2] . Nem é tampouco uma mera função psicológica ou um espaço inconsciente "como se fosse um celeiro cheio de coisas que pertenciam uma vez aos espaços superiores, nos quais brilha o sol da consciência. A vontade, consciente ou inconsciente, é mera potencialidade, e não deveria ser pintada com a imagem do real, pois o "elemento dinâmico no homem está aberto em todas as direções. Ele não está preso por nenhuma estrutura a priori limitadora.
Tillich entende a vontade como o "estar relacionado com estruturas significantes, viver nos universais, compreender e estruturar a realidade." [3] Isto não implica em agir por um propósito; significa viver em tensão com e para algo objetivamente válido. Apesar de estar aberta em todas as direções como possibilidade, a vontade humana não é sem direção, caótica ou indeterminista. Ao mesmo tempo que é aberta, sua abertura é sempre transcendente e compelida na direção de conteúdos significantes. Estes dois elementos abertura e direção, estão sempre presentes na dinâmica da vontade. Tudo o que desejamos requer a tendência de se criar novas formas, coisas novas ao mesmo tempo em que tende a conservar uma forma própria como base desta criação. Nossa vontade sempre aspira pela união entre identidade e diferença, entre repouso e movimento, conservação e mudança. Assim, é impossível falar do ser sem falar do vir-a-ser. Um vive do outro. O que está para ser apontado pela vontade é tão genuíno em nós como o é aquilo que permanece imutável no processo do querer. Em nosso querer o novo, sempre preservamos algo como medida de mudança. "Qualquer processo", argumenta Tillich, "que sacrifica a identidade que permanece daquilo que é no processo, sacrifica o próprio processo. Sacrifica sua continuidade, a relação daquilo que é condicionado com as condições, o alvo interior (telos) que torna um processo uma totalidade." [4] A vontade então requer tanto autotranscendência como autoconservação. Nossa autotranscendência está limitada somente pela estrutura que nos torna aquilo que somos: um eu completo que tem um mundo. Somente com esta base podemos transcender qualquer situação dada, transcender a nós mesmos sem limites em todas as direções.
É em contraste com a liberdade que a vontade adquire seu ponto mais decisivo. A vontade que aprende com a dinâmica da vida é aquela que percebe a interrelação entre liberdade e destino. Liberdade e destino são elementos básicos que tornam a vida possível, transcendendo nossas necessidades sem destruí-las.
Tanto o determinismo modernista quanto o indeterminismo pós-modernista pressupõem que existe uma coisa entre outras coisas chamada vontade, que pode ter ou não a qualidade de liberdade. Entretanto, por definição, uma coisa como objeto completamente determinado, carece de liberdade. A liberdade de uma coisa é uma contradição em termos. Se este fosse o caso, o determinismo estaria mais correto ao afirmar que uma coisa é uma coisa. Já o indeterminismo protesta dizendo que a consciência moral e a cognitiva pressupõem o poder de decisão responsável; só que entende este poder de decisão livre como sendo fruto de um objeto ou uma função chamada "vontade", caindo então numa contradição em termos, sucumbindo de volta no determinismo. Ele se esquece, como vimos atrás, que a vontade é estar relacionado com estruturas significantes, compreender e estruturar a realidade. Para o indeterminismo, a vontade é algo contingente, uma decisão destituída de motivação última, um acidente ininteligível, totalmente incapaz de fazer justiça à consciência moral e cognitiva por cuja causa havia se proposto. Tanto o indeterminismo quanto o determinismo são teoricamente impossíveis porque negam sua reivindicação de expressar a verdade. A verdade pressupõe uma decisão pelo verdadeiro contra o falso, e tanto o determinismo quanto o indeterminismo tornam tal decisão ininteligível. Nossas tendências deterministas ou indeterministas precisam perceber que a liberdade não é a liberdade de uma função chamada "vontade", mas liberdade do homem — o ser que não é uma coisa mas um eu completo, uma pessoa com todos os seus fundamentos. Cada parte e cada função que constitui o homem como tal participa de sua liberdade. Qualquer compreensão parcial ou fragmentada do nosso desejar só é possível à luz da liberdade do todo e não o contrário. Assim, nossa liberdade é sempre experimentada como deliberação, decisão e responsabilidade.
A deliberação é, em última análise, um ato de pesar, sejam motivos ou argumentos. Do Latim librare — pesar. A pessoa que pesa está acima dos motivos que pesa. A palavra decisão como também a palavra incisão, provêm da idéia de cortar, do latim decaedere que vem de caedere - cortar [5] . Imaginemos uma pessoa tomando uma decisão. Uma decisão corta possibilidades que eram reais. Diante de uma situação, a pessoa autocentrada decide, faz o corte como um todo, através de seu centro pessoal diante dos motivos. A pessoa que faz o corte está para além daquilo que corta ou exclui. Seu centro pessoal tem possibilidades, mas ele não é idêntico a nenhuma delas. A palavra responsabilidade expressa a conseqüência inevitável de responder e assumir todas as conseqüências e implicações de sua decisão. Ninguém poderá fazer isto por ela, justamente por seu ato não ser determinado nem por algo fora dela, nem por qualquer parte dela, mas pela totalidade centrada de seu ser. Ela decide-se com sua totalidade e terá de responder com sua totalidade. Não há como somente parte dela decidir e somente parte dela ser responsável. A liberdade é a experiência de um ser sempre total e a vontade permanece intimamente implicada à sua dinâmica.
Mas a vontade também é compreendida em contraste com o destino. Quando tomo uma decisão "é a totalidade concreta de tudo o que constitui meu ser que decide e não um sujeito epistemológico." [6] O faço com meu corpo, com meus impulsos psíquicos e com meu espírito, incluindo as comunidades às quais pertenço, o passado não recordado ou recordado, o ambiente que me moldou, o mundo que causou um impacto sobre mim e todas as minhas decisões anteriores. Tudo isto é meu destino. A concreticidade do meu ser. Destino não é um poder estranho que vem a mim. É minha própria pessoa formada pela natureza, pela história e por mim mesmo. Nosso destino é a base de nossa liberdade. É a liberdade que participa na estruturação do destino. O destino está em polaridade com a liberdade, não sendo seu oposto, mas apontando suas condições e limites. Nossa vontade está todo tempo inserida na dinâmica polar entre liberdade e destino. Mas a base de nosso poder volitivo é sempre a liberdade. O destino só pode ser realidade para um ser que é fundamentalmente livre.
Esta mesma dinâmica pode ser observada na polaridade espontaneidade e lei. Espontaneidade é a atuação que nasce no eu. Uma reação a um estímulo é espontânea se procede da totalidade centrada e auto-relacionada de um ser. Mas espontaneidade não é uma atuação auto-suficiente e independente como pensamos. Ela está em interdependência com a lei e só pode ser entendida em contraste com a lei. Freqüentemente tenho escutado pessoas, até as letradas, dizerem que não agüentam mais esta conversa fumegante e senil de natureza essencial. Escuto também pessoas dizerem que não são culpadas de nada. "Culpa de quê? O que foi que eu fiz?" E eu fico pensando: será que a realidade essencial humana e a realidade da culpa podem ser conquistadas ou superadas assim? De fato, é tentador obter conforto na franca atitude de acharmos que somos no fundo homens de boa vontade. E nos indignamos quando percebemos que cada sentença na mensagem de Paulo é dirigida justamente aos tão chamados homens de boa vontade. Quem entre nós não se sentiria cheio de boa vontade? Mas o apóstolo sempre soube que há sempre uma grande dificuldade em sermos capazes de esconder permanentemente de nós mesmos e dos outros os motivos de nossas ações. Também suspeitava que nos é difícil labutar em nossos afazeres sem fim e ao mesmo tempo nos certificarmos quanto ao bem de tudo aquilo que vamos fazendo; e que não conseguimos esconder de nós mesmos que nosso comprometimento com nosso trabalho pode ser também um modo de evitar um comprometimento humano genuíno, ou de escaparmos a nós mesmos. Suspeitava ainda também que nos é difícil sermos pais e mães que amam seus filhos afetuosamente e estarmos convictos de que somente sentimos amor por eles e não domínio. Tinha também uma desconfiança para com atos de auto-repressão moral, suspeitando que sua causa bem que poderia ser uma covardia para não se revoltar contra as razões de tal repressão. E, inversamente, suspeitava também dos atos ousados de revolta e não-conformismo, sabendo que suas razões podiam ser a inabilidade de resistir a persuasão irresponsável da multidão.
As palavras do apóstolo querem mostrar que em todos estes casos e em muitos outros, experimentamos um poder que mora em nós e dirige nossa vontade contra ela mesma. "O nome deste poder é pecado" [7] Nossa boa vontade talvez não seja tão boa assim. O ser humano tem a estranha tendência de ser contraditório o tempo todo. Nossa vontade carece de profundidade. E profundidade não aponta para uma zona fumacenta ou misticista. Quer somente apontar que há uma realidade por debaixo do que está aparente. E não é privilégio somente para alguns, mas deve ser acessada por todos pelo simples fato de que ninguém pode escondê-la ou suprimi-la permanentemente. Mais cedo ou mais tarde os motivos submarinos de nossas ações aparecem.
Mas "a palavra pecado", lamenta Tillich, "acabou caindo no ridículo ou no escárnio tanto entre os cristãos quanto entre os não-cristãos." [8] Ora provoca vergonha, ora riso, ora indignação, ora tormento e pavor. De fato ela pode produzir as imagens mais distorcidas.
Pecado não é esta ou aquela fraqueza humana. O apóstolo muito pouco falou de pecados, mas quase sempre falava de Pecado, no singular e com letra maiúscula. Pecado como o poder que controla o mundo e a mente, pessoas e nações. O pecado que pode se apoderar de nossa vontade não é uma lista de coisas que não devemos fazer e, se fizermos, pecamos. E nem é o oposto. Esta é uma imagem pobre, boba e distorcida de pecado. Nós não somos meio pecadores e meio bons. Nós somos totalmente pecadores e totalmente bons. Todos os pecados são manifestações do Pecado – aquilo que nos faz fazer o que não queremos. Nos faz perder a identidade conosco mesmo, não importando se a chamamos de ser essencial ou qualquer outra expressão. "O pecado nos deixa com a vontade esfacelada e dividida", nos alerta a carta de Tiago. Kierkegaard também nos lembrou que pureza de coração é desejar uma coisa só. É ser aquele de vontade não dividida. Sermos seres totais e lúcidos diante de nós mesmos – este é nosso imperativo essencial. Quanto mais fugirmos dele, mais o próprio pecado nos levará de volta a ele. Diante do pecado, é impossível permanecermos no aparente. A dor é inevitável. E onde há dor é impossível não aprofundar. "Quem quer que tenha se encontrado depois de ter-se perdido sabe quão profunda sua perda de si era." [9]
Estas considerações são muito importantes para a crítica teológica com respeito às tendências científicas cristalizadas que se propõem a descrever o homem como ser. O conceito de libido, por exemplo, indica a vontade ilimitada do homem de se liberar de suas tensões biológicas, especialmente sexuais, e obter prazer dessa liberação de tensões nas mais diversas atividades humanas. Muito tempo antes de Freud, a teologia já havia descrito esta tendência como concupiscência — "a vontade ilimitada de atrair o conjunto todo da realidade para si mesmo" [10] , que pode se traduzir numa fome ilimitada de prazer , de conhecimento, de poder, de riqueza ou mesmo de galgada espiritual. Entretanto, tais visões, que se justificam por seu realismo honesto e apurado, ignoram o contraste entre o ser essencial e o ser existencial do homem, optando somente por uma descrição existencial, como se fosse possível suprimir a realidade do eros essencial do homem. "São descrições adequadas ao homem somente em sua condição existencial mas não em sua condição essencial." [11] Na relação essencial do homem consigo mesmo e com seu mundo, a libido não é concupiscência. Não é uma vontade ilimitada de arrastar o conjunto todo da realidade para si mesmo, mas uma qualidade entre outras qualidades do amor — eros, philia e ágape. O amor não exclui a libido, mas a recebe em si mesmo. Quando isto ocorre a libido deixa de ser uma vontade ilimitada e se dirige a um objeto definido, querendo o outro ser, seja na forma de libido, eros, philia ou ágape. Vontade, ou libido distorcida, quer o próprio prazer através do outro ser, mas não deseja o outro ser. Esse é o contraste entre vontade como amor e vontade como concupiscência.
Temos a impressão de que, ao descrever o ser do homem, certas descrições não deixam clara esta distinção e se esquecem que na natureza essencial do homem a vontade de se unir com o objeto do amor é efetiva por si mesma. Não é indeterminada, mas definida. É amor e não concupiscência.
Expressões como "vontade distorcida", "vontade como concupiscência", "vontade essencial" e " vontade como amor" têm nos causado um tremendo incômodo. Elas nos levam para uma idéia de disciplina com cheiro asceta, para aquela tentativa disfarçada de controle e manipulação, seja de si mesmo, das pessoas, da fé ou até de Deus. Daí nossa ojeriza do misticismo, do ascetismo e da palavra disciplina, que no fim são elas próprias puras expressões de vontade distorcida. Nosso incômodo é correto. Contudo, temos freqüentemente esquecido o que o cristianismo quer dizer quando nos chama à disciplina, que é exatamente a vontade essencial ou vontade como amor.
Haveria algum sentido na idéia de uma vontade que se disciplina? Todos nós sabemos de cór a conclusão cortante do protestantismo que aponta para a realidade irremediável da escravidão da vontade, que é o fato de que a existência é sempre uma mistura de fato e ato, sendo que nenhum ato a partir da alienação existencial pode superar a alienação existencial. Mas isto não deve ser entendido como fatalismo ou derrotismo, diminuição da liberdade ou da autonomia humanas. Ao contrário, a doutrina da escravidão da vontade pressupõe a liberdade da vontade. "Somente aquilo que é essencialmente livre pode cair em escravidão existencial" [12] , nos diz Tillich. A possibilidade de realização do nosso ser não é estranha ao corpo. Este a busca continuamente. Contudo, nosso corpo aprende a sabedoria de que tentar superar a alienação com o poder da existência alienada exige um esforço desgastante e impossível que culmina num fracasso frustrante. Vontade alienada não vem acompanhada de alegria e muito menos consegue produzi-la. Mas a base protestante de tal intuição sobre a escravidão da vontade é paulina. No entanto, o próprio apóstolo escreveu ao coríntios numa aparente contradição dizendo: "Vigiai, permanecei firmes na fé, sede corajosos, sede fortes! Tudo o que fizerdes seja feito em amor." (I Cor. 16.13-14). A este respeito, Tillich aconselha a todos que possuem responsabilidade por outros, como pais, professores, pastores, conselheiros, amigos: "Não use o imperativo "seja" para ninguém sem temor, tremor e hesitação. Se você usar, você penetrará o mistério da divina eleição e poderá destruir uma vida ao exigir algo de uma pessoa que ela não é." [13]
O terreno da disciplina é por demais complexo e delicado. Comumente, conclui-se que podemos ser fortes se nos sujeitarmos a uma forte disciplina e como conseqüência, podemos nos tornar poderosos em relação aos outros. Estes nós chamamos de pessoas de personalidade forte. E de fato, a força sempre é fruto de pessoas hábeis e determinadas. Mas aqueles que têm esta habilidade e são admirados como personalidades fortes devem ser vigilantes: "devem possuir uma disciplina, um cuidado em notar se sua força tem fraqueza em sua base, se ela exclui os elementos da vida que constituem a riqueza e a glória da vida." [14] Se não observarem sua fraqueza, ela pode jorrar como ódio por aqueles que atestam a abundância da vida. Esta abundância, os fortes não conseguem resistir porque ela revela a fraqueza na qual sua força é construída.
O ser forte é forte somente se ele tomar cuidado e vigiar sua força, cônscio do fato de que há fraqueza em sua força. Há um não-cristão em cada cristão. Há um ser fraco em cada ser forte, uma covardia em cada corajoso e uma descrença em cada crente e uma hostilidade em cada amor. Disciplina ou vigilância significa que o forte nunca pode descansar ou confiar em sua força. "Tenha cuidado quando você for considerado ou se considerar forte" [15] , adverte Tillich. O apóstolo pediu aos coríntios a permanecer sobre algo que é mais profundo que o universo físico, social ou espiritual. Algo que não se abala, porque todos os níveis do universo repousam lá – o terreno divino. Permanecer nele é permanecer na fé. Permanecer disciplinadamente na fé, com vontade pura, significa não desistir daquela fé que sozinha pode nos fazer ultimamente fortes, pois ela é o acesso ao terreno último. A disciplina última, a força última, está em resistir e rejeitar a força que nasce da desonestidade. Permanecer na fé não quer dizer aderir um conjunto de crenças ou modelos, mas aponta para algo que está além da dúvida, na profundidade em que o nosso ser está enraizado. É o terreno divino que nos dá forças a não nos racharmos em dois ou em partes. A indisciplina, o desleixo traz como conseqüência perigosa e imediata a experiência de ser rachado em partes. "Aquele que é unido a si mesmo é invencivelmente forte. Mas quem é forte assim? Somos todos dominados por forças que conquistam partes de nosso ser e desintegram nossa personalidade e nossa vontade. Não só perdemos o poder da palavra mas também perdemos a força que é encontrada numa vontade unida e centrada. Somos obstruídos por compulsões, que podem ser chamadas de poderes demônicos. E quem pode exortar uma vontade dividida para ser forte ? À qual lado da vontade pode tal exortação ser emitido?
Mesmo no meio da ambigüidade podemos ouvir uma voz: "Sede corajosos!" O poder de cura, que vem do terreno no qual permanecemos em fé, pode penetrar nossa vontade e uni-la num ato de coragem. É a coragem que toma em si a ansiedade de nossas obstruções. É ela que é o centro mais íntimo da fé e dela nossa força maior emerge dominando os forças que nos dividem. Somente assim podemos ser fortes e ter força de vontade.
Mas a apóstolo não termina seu conselho com a vigilância, a firmeza de fé ou a coragem. A vontade que é forte se baseia além destas. "Tudo o que fizerdes seja feito em amor." Sem amor, a vontade forte torna-se uma lei para os fracos. E a lei faz aqueles que são fracos a ficarem ainda mais fracos. Leva-os ao desespero, ou à rebelião, à uma vontade isoladora, ou ao julgamento, ou à uma vontade indiferente, como vemos em nossas populações. Vontade forte sem amor destrói primeiro os outros e depois a si mesma. O amor na vontade não é uma emoção irrelevante. É o sangue de vida, o poder de reunião do que está separado. É a aceitação do que é julgado. É a participação no que é fraco, como Deus participa em nossa fraqueza e nos dá força por sua participação.
Tillich quer apontar sempre que a vida tem uma vontade básica, fundamental e que precisa ser percebida: o movimento contínuo de união e separação. Identidade completa ou separação completa negam a vida. "A vida cessa no momento de separação sem união ou de união sem separação." [16] E a nossa vontade não tem como estar desvinculada deste movimento básico. Ele é a vontade maior. Nossas vontades menores estão ou devem ser subordinadas a esta vontade maior. Jung também percebeu isto e chamou esta vontade de vontade superior. Dizia ele:
"É sabendo da existência do confronto com uma vontade superior em meu próprio sistema psíquico que eu conheço a Deus." [17]
Para a fé, a Palavra que cria a ação não procede da vontade em si mesma, mas do fundamento divino: "No princípio era a Palavra..." (João 1.1ss). É a vontade de Deus que instaura as demais vontades. T. S. Eliot expressou isto muito bem em uma de suas poesias:
"Em nosso ritmo de vida terrena nos cansamos da luz.
Ficamos felizes quando o dia finda, quando a brincadeira acaba;
E o êxtase (do dia) é muita dor.
Somos crianças de cansaço fácil; e o dia é longo demais para trabalho ou brincadeira.
Nos cansamos da distração ou da concentração, dormimos e somos felizes no dormir,
Controlados pelo ritmo do sangue e do dia e da noite e das estações.
Devemos apagar a vela, desligar a luz e reacendê-la.
Sempre extinguir, sempre reacender a chama.
Assim, Te agradecemos por nossa pequena luz, mesclada com a sombra.
Te agradecemos pois nos compeles a construir, a encontrar, a criar,
Pelas extremidades dos nossos dedos e pelos raios dos nossos olhos.
E depois de termos construído um altar para a Luz Invisível,
Podemos colocar sobre ele as pequenas luzes para as quais nossa vista mortal é feita." [18]
A vontade menor que aprende da vontade maior sabe que a vida compreende separação contínua, mas esta é sempre superada pela reunião. Nosso corpo aspira por união na forma de sua incessante busca de genuína alegria e felicidade. É preciso aprender a ouvir esta voz dentro do corpo. É o corpo afinal a nossa grande razão, observou Nietzsche:
"Preferi, meus irmãos, a voz do corpo são; é uma voz mais sincera e mais pura.
O corpo são, o corpo cheio de ângulos retos, fala com mais sinceridade e mais pureza; fala do sentido da terra. (...)
O corpo é uma razão em ponto grande, uma multiplicidade com um único sentido,
Uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. (...)
Os sentidos e o espírito são instrumentos e joguetes;
Por detrás deles encontra-se o nosso próprio ser.
Ele esmiuça com os olhos dos sentidos e ouve com os olhos do espírito.
Por detrás dos seus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um senhor mais poderoso,
Um guia desconhecido. Chama-se 'eu sou'. Habita no seu corpo; é o seu corpo.
Há mais razão no seu corpo do que na sua melhor sabedoria.
O próprio ser sorri do seu Eu e dos seus saltos arrogantes.
Quem criou a estima e o desprezo, o valor e a vontade? [19]
Conversar com o corpo faz ver que há duas maneiras de falar sobre o sentido da vontade humana. Numa linguagem paulina, uma coisa é desejar como escravo, outra coisa é desejar como filho. Ou seja, só um Novo Ser pode produzir um novo atuar. Sem uma dimensão incondicional e superior da vontade, acabamos caindo num pragmatismo, ou na arbitrariedade, ou no infrutífero choque das vontades, ou mesmo nas lutas desintegradoras da vontade dominadora.
Há um anseio maior que precede nossas vontades condicionadas e imediatas. Tal anseio já está presente antes do ato da vontade. Quando alguém pronuncia a palavra de que é necessário obedecer a Deus, tal palavra só tem sentido se for compreendida como um apelo a "ser nada mais que aquilo que já se é" [20] e que tentar deixar de sê-lo é inútil. Uma palavra assim tem que pressupor que o anseio de felicidade precede à vontade e não é a sua conseqüência. Parece que isto foi muito bem captado pelo poeta Fernando Pessoa em uma de suas odes:
"Só esta liberdade nos concedem os deuses:
Submetermo-nos ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade a liberdade existe. [21]
A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos.
É aqui que a vontade precisa render-se à fé. É necessário uma confiança íntima de que a reunião supera e superará a separação. E é preciso também nutrir-se e estruturar-se na confiança de que, ao nos separarmos, a união ainda subsiste dando sentido à separação, pois é a reunião que impõe o movimento de separação em nome de uma qualidade sublime, incontrolável e inesgotável de vida que precisa ser aprofundada, aprendida, desenvolvida e descoberta cada vez mais, à qual damos o nome Deus e para qual o movimento da vontade é atraído.
Mestre em Ciências da Religião pela UMESP. Professor universitário.