ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent Theology – Theological Perversions in Sex, Gender and Politics. London/New York: Routledge, 2000.

Etienne Alfred Higuet

A autora, teóloga argentina de tradição quacre, formada nos moldes da Teologia da Libertação nos anos 70, na época da ditadura militar, é atualmente professora de ética cristã e teologia prática na Universidade de Edinburgo (Escócia).

Esta breve resenha apresenta, num primeiro momento, a obra no seu conjunto, para comentar, em seguida, algumas páginas dedicadas a Paul Tillich. A própria autora caracteriza a sua reflexão teológica como materialista, indecente, apaixonada, imprudente. Os seus instrumentos são a Teologia da Libertação, a Teologia da transgressão (Queer Theology), o pós-marxismo, a análise pós-colonial e a filosofia pós-moderna francesa. Trata-se de desconstruir as codificações teológicas e sociais que sustentam a nossa relação com o Sagrado. Fazendo uso de uma "hermenêutica da suspeita" – em continuidade e em ruptura, ao mesmo tempo, com a Teologia da Libertação - a autora pretende resgatar as áreas excluídas, no seu sentido global, da teologia: a pobreza e a sexualidade. Parte do pressuposto de que toda teologia implica numa prática sexual e/ou política consciente ou inconsciente e que práticas políticas e atitudes sexuais estão simetricamente correlacionadas. Por não dirigir o olhar para a pobreza urbana, em particular das mulheres pobres e rebeldes das metrópoles latino-americanas, a Teologia da Libertação não percebeu que a subversão, por essas mulheres, dos códigos sexuais e de gênero, era o resultado de sua luta por vida e dignidade e levava à produção de ricas metáforas de Deus baseadas na interface entre sexualidade e pobreza.

Em conseqüência, a desestabilização das construções e identidades sexuais comumente aceitas é um passo importante nas estratégias de desconstrução dos projetos políticos e econômicos hegemônicos. Ao desvendar a ideologia sexual da teologia sistemática, pretende-se abalar os alicerces das teorias econômicas e políticas. Em vista de explicitar os mecanismos econômicos da produção da Teologia da Libertação, especialmente a partir do lugar atribuído a mulheres pobres e dissidentes no processo de organização das teologias sistemáticas, o primeiro capítulo analisa os ciclos de construção e desconstrução dos relatos fundantes no continente latino-americano desde a Conquista. Em seguida, o método de "indecentização" é testado na figura de Maria e formas indecentes de mariologia popular surgem como alternativas para a mariologia ainda bem comportada da Teologia feminista da Libertação. Usando o seu método até a "per-versão", a autora desconstrói princípios tradicionais da TL, como a solidariedade – em busca, no caso, de vestígios de "homossolidariedade" – e propõe uma compreensão cristológica a partir de epistemologias sexuais marginais, como o modelo do "Bi/Christ" (Cristo bissexual). Na seqüência, Marcella Rathaus desenvolve uma teologia narrativa das "estórias sexuais" marginais (fetichismo, "couro", travestis) a partir do papel desempenhado por essas narrações nas comunidades pobres. O objetivo é descobrir nos relatos populares os sinais de rebeldia contra a opressão política, sexual e cristã. Enfim, trata da globalização na perspectiva de uma teologia sexual indecente, mostrando como as formas hegemônicas de sexualidade – em particular a heterossexualidade patriarcal – condicionam o pensamento e as relações econômicas nos países pobres.

Em sintonia com as intenções afirmadas na Introdução, a autora não recua perante expressões consideradas "pornográficas" e até chulas pelo pensamento dominante. Ela pratica, no próprio modo de escrever, uma teologia "que não usa roupas íntimas". Os seus principais alvos são as figuras de Maria – na forma de Nossa Senhora da Guadalupe – e de Jesus no catolicismo latino-americano. Ela dedica também algumas flechas ao nosso teólogo de referência, Paul Tillich. É disso que vamos tratar na segunda parte da nossa resenha.

O livro faz referência a Tillich em dois momentos. O primeiro situa-se no parágrafo inicial : "Per/vertindo a teologia sistemática e o caso do cristianismo com sabor de baunilha (Vanilla)", do capítulo 3, intitulado "Dizendo obscenidades à teologia – A teologia como ato sexual". A teologia é uma ideologia sexual sacralizada, tanto do ponto de vista da ortodoxia como da ortopráxis, e a teologia sistemática "é uma teoria sexual arbitrária com implicações divinas" (88). Entre as duas maneiras de falar em "sexo": como identidade de gênero ou como atividade sexual, a teologia feminista da libertação costuma privilegiar a primeira. Ora, o sexo enquanto desejo ou concupiscência foi a preocupação dominante da teologia durante séculos, na realidade, em vista de condenar os "desejos concupiscentes da carne". Quando a teologia falava em pecado e graça, tinha os olhares constantemente voltados para as camas, os banheiros e os sofás dos outros. As dificuldades encontradas pela teologia sistemática são parecidas com as dificuldades que atingem as pessoas comuns na sua vida sexual: relações hierárquicas, posições corporais, padrões monogâmicos de pensamento. A diferença é que a teologia passa seu tempo em tentar controlar e camuflar o sentido vital que as pessoas procuram. Aqui, o caso de Paul Tillich aparece como exemplar. Um trecho do livro de Mary Daly, Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism (London: The Women’s Press, 1978), remete às memórias de Hanna Tillich, onde a esposa do teólogo afirma que seu marido era incapaz de enfrentar a realidade imediata de sua vida, empurrada para práticas sado-masoquistas, e a ocultava atrás de abstrações teo-ideológicas. O que se criticava não era o fato em si mesmo, mas a falta de "coragem de ser" e de integridade de Tillich, que não o deixaram assumir (literalmente: "botar para fora") a sua sexualidade e toma-la como objeto da sua reflexão teológica. Perdeu assim a oportunidade de "transgredir" a imagem tradicional de Deus, do mesmo modo que todos os outros "teólogos de gabinete" (closeted theologians), que produzem espiritualidades esquizofrênicas, onde ficam separados os campos da teologia pública e da teologia privada. Embora a concepção do amor de Tillich fosse mais baseada em Eros que em Ágape, ele acabou refletindo sobre a própria vida íntima – marcada por aspectos nitidamente sem "sabor de baunilha" (non-Vanilla) - "no modo elíptico, obscuro e hipócrita da teologia heterossexual" (88). Conforme a autora, Vanilla designa uma vida sexual sem opções, sem aventuras nem experiências radicais. "A teologia Vanilla será então o campo das decisões tomadas por outros em nosso nome, como no caso da Teologia Sistemática Sexual" (89). Se Tillich tivesse assumido as próprias tendências sexuais, poderia ter refletido sobre uma "salvação pelo couro", oferecendo uma contribuição valiosa ao cristianismo de tipo Vanilla. O que o impediu foi a sua posição de intelectual orgânico (no sentido gramsciano) da Sociedade Civil norte-americana, colaborando para manter a hegemonia das forças capitalistas de controle institucional, social e cultural. Assim como outras formas de pensamento, a teologia foi uma vítima do sistema ideológico dominante, tornando-se uma teo-ideologia ilusória. Ela pode ter alcançado um alto poder de impacto no campo da culpa, mas não nos ajudou no reconhecimento das vidas sexuais que são efetivamente nossas.

O outro trecho que nos interessa aqui está no capítulo 4: "Teologia das estórias sexuais", no parágrafo "Teologia sistemática a partir das margens da sexualidade" (144-148). A autora volta a falar do "botar para fora" (coming out) das tendências sexuais íntimas. Em geral, as pessoas tomam consciência de suas diferenças já na infância, percebendo, ao mesmo tempo, que elas "não cabem" na sociedade e na família. Elas entram então numa crise profunda, que pode levar até o suicídio. A solução está em assumir publicamente a diferença (para a autora, a homossexualidade), aceitando todos os riscos que tal atitude implica. Isso se faz por meio de "histórias de vida" ou pequenos relatos feitos a amigos, a autoridades ou à comunidade religiosa reunida (se for uma comunidade aberta a diferenças sexuais!). Recolhidas e transmitidas indefinidamente, essas "estórias" passam a fazer parte da rede de instrumentos de auto-compreensão, junto com outras experiências comunitárias. Os testemunhos (em castelhano no texto: testimonios) – sempre presentes nos cultos na América latina, enquanto formas de coming out – deixam de ser relatórios de condenação da própria existência passada e de aceitação das normas estabelecidas e das regras sexuais. Essas estórias de coragem deixam de reproduzir uma ordem conformista, para criar uma rede de gente rebelde, do tipo de rebeldia que alimenta a teologia com um profundo questionamento da existência. Isso se chama, na tradição quacre, "falar a verdade ao poder". Re-contar estórias faz parte do culto, constitui um ato litúrgico em si mesmo e uma nova fonte de energia para as lutas de libertação.

Em seguida, Marcella Althaus-Reid comenta o livro de J. Nelson, The Intimate Connection. Male Sexuality, Masculine Spirituality. London: SPCK, 1992. Há uma distinção importante entre as teologias da sexualidade e as Teologias Sexuais. As primeiras usam um método idealista, quando partem de uma concepção preestabelecida de Deus e da Bíblia, que decorre de suas opções político-sexuais. Trata-se de uma visão legalista e repressiva, profundamente redutora da sexualidade e do próprio Deus, que se torna um Deus da ordem social, não da justiça. Ao contrário, as Teologias Sexuais "são teologias materialistas, que encontram o seu ponto de partida nas ações e nos atos sexuais das pessoas, sem polarizar o social a partir do simbólico" (146). A compreensão do sagrado nasce da sexualidade humana, não o contrário. As teologias indecentes não arrancam páginas dos livros das nossas experiências sexuais. Voltamos assim a falar das "páginas arrancadas" da teologia de Tillich, onde a cruz aparece junto a mulheres despidas e amarradas. A autora remete novamente a Mary Daly (no livro já citado e em Pure Lust. Elemental Feminist Theology. London: The Women’s Press, 1984), que discute a pornografia e os rituais sádicos como excisão e infibulação na perspectiva da objetivação das mulheres no patriarcado. No cristianismo, "o sofrimento das mulheres é prazer"(Daly 1978: 94). No patriarcado, o desejo é fálico, violento, indulgente consigo mesmo, nivelador das formas de vida, separador do espírito e da matéria. Isso abrange desde a pornografia do Marquês de Sade até a teologia sado-masoquista de Karl Barth (!). Para as mulheres, o desejo é "Paixão pura: tensão não adulterada, absoluta e simples para alcançar a abundância do ser" (Daly 1984: 3). A Teologia Feminista da Libertação precisa superar o temor da homossexualidade, tão forte na América latina, e abandonar as suas preocupações pelas estórias de sexo reprodutivo heterossexual e de papeis de gênero. Re-contar estórias sexuais nas reuniões de congregação é uma forma de sexo oral que pode construir o projeto de libertação do Reino melhor que as estórias heterossexuais reprodutivas que costumamos usar. Em conseqüência, a nossa autora sugere uma concepção do Reino como Heterotopia em vez de Utopia. Na linha de Foucault, a heterotopia caracteriza a "coexistência de diferentes ordens de espaço e a materialidade de formas diferentes de relações sociais e de modos de pertença"(147). As heterotopias são relações de proximidade entre os diferentes, configurando um processo de convivência de linhas políticas, sociais e históricas diversas. Por outro lado, Deus deve ser definido como Desejo, assim como é visto pelas teologias da comunidade trinitária, por exemplo em Juan Luís Segundo. Enfim, conforme Deleuze e Gattari (A Thousand Plateaus. Capitalism and Schizofrenia. London: The Athlone Press,1988), o desejo é um processo social que reúne a ordem social e a ordem simbólica, a alma e a matéria.

Estamos de acordo: a teologia deve ser des-construtiva e crítica. Aliás, os principais pressupostos da autora: a equivalência entre sexualidade e poder e a teologia como ideologia sexual, já foram utilizados por representantes da Escola de Frankfurt, como Herbert Marcuse, por psicanalistas heterodoxos como Wilhelm Reich e por um Michel Foucault, caracterizado como pensador "pós-moderno". Contudo, parece-me que Marcella Althaus os manipula de modo um tanto sistemático e dogmático, não levando sempre em conta a complexidade do real. Ela está sendo então levada a "demonizar" as atitudes masculinas e a idealizar a posição das mulheres, de preferência homossexuais. Ela desqualifica unilateralmente a heterossexualidade, identificada com a ideologia patriarcal – embora continue, apesar de tudo, de ser a prática da imensa maioria da humanidade – e a reflexão teológica conceitual. Acusando o pensamento dominante de reducionismo, ela introduz sorrateiramente outras formas de redução ideológica. É o que fez também a Teologia da Libertação, só que no campo da política e não da sexualidade. A TL entendia o pensamento abstrato como pura projeção das relações sociais de dominação. A nossa teóloga transfere o mesmo mecanismo para o domínio da sexualidade, com a mesma absolutização dogmática maniqueísta. Reavivando os preconceitos marxistas a respeito do caráter alienante da religião popular, ela nivela o sentido das imagens e dos símbolos no catolicismo latino-americano. Afinal, ela apresenta muitas intuições instigantes e provocativas (às vezes, até de mais!), mas as mesmas necessitariam de uma verificação mais atenta. Achamos muito interessante o uso de um método de análise das narrativas populares, mas por que remeter apenas a "estórias" de natureza sexual? O "pansexualismo" de Freud sofreu críticas justificadas da parte dos seus discípulos imediatos, como Carl Gustav Jung.

Quanto a Tillich, ele sofre nas mãos da nossa autora o mesmo processo redutor. O fato de não revelar na praça pública os seus segredos mais íntimos não invalida por si só a sua reflexão – mesmo ontológica, mesmo abstrata. Sem querer "inocentar" o nosso teólogo no seu relacionamento conjugal (afinal, ninguém é totalmente inocente nem totalmente culpado), achamos que a "hermenêutica da suspeita" deveria ser aplicada também às denúncias de Hanna, visivelmente marcadas pelo ressentimento. Além do mais, a tendência sado-masoquista aparece fora de qualquer contexto existencial ou biográfico e de modo indireto, através do julgamento de Mary Daly. Quem é capaz de enfrentar todos os elementos da própria existência com total "Coragem de Ser"? A alma humana é bem mais complexa que Marcella Althaus quer admitir. Além do mais, a hermenêutica contemporânea nos ensinou a desistir de desvendar as motivações psicológicas ocultas dos autores e a preocupar-nos com o mundo do texto.


NOTA

Etienne Alfred Higuet, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo e Presidente da Sociedade Paul Tillich do Brasil.

ethiguet@uol.com.br