O Significado de Desespero e o Problema do Suicídio em Paul Tillich

Jonas Madureira

"Antes de me suicidar exijo que me assegurem a respeito do ser, eu gostaria de estar seguro a respeito da morte".

Antonin Artaud


O século XVII, época literária que costumamos chamar de período barroco, foi, particularmente, uma época marcada pela tensão entre opostos irreconciliáveis. De um lado, a perspectiva renascentista, cheia de otimismo e celebração da vida; de outro lado, a ascese, uma vida religiosa dedicada à reclusão e negação do mundo. É neste período que viveu William Shakespeare. No palco de sua conflitante época, exibiu Hamlet em profundo desespero provocado pela tensão do "Ser ou não ser?". Contudo, a tensão vivida por Hamlet, além de desvendar o desespero dos homens, levou o dramaturgo a refletir, também, sobre a hipótese do suicídio em seu clássico monólogo: seria o suicídio a realização da fuga do "desespero humano"? Ao compararmos as alternativas entre a vida e a morte, não seria menos terrificante suportar os males que nos afligem - e certamente nos afligirão - ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos? Haverá alguma possibilidade do homem se livrar da culpa e da condenação?

Paul Tillich afirma que "os sonhos no solilóquio de Hamlet, que poderemos ter após a morte e que torna covardes todos nós, são assustadores, não devido seu conteúdo manifesto, mas devido seu poder de simbolizar a ameaça do nada, em termos religiosos, da 'morte eterna'" [1] . Para Tillich, a causa da angústia é o absolutamente desconhecido "depois da morte". Ele a considera como "o estado no qual um ser tem ciência de seu possível não-ser" [2] . O ponto extremo desta consciência existencial do não-ser, que se configura numa ameaça, é o "desespero"; estado subseqüente e derradeiro. É subseqüente na medida em que sucede ao estado de angústia e derradeiro porque é uma situação extrema ou de "linha de fronteira", onde não se pode ir além dela [3] . Mais do que um problema psicológico ou ético, segundo Tillich, o "desespero" é a "marca final da condição humana". Em suas palavras é "no desespero, e não na morte, [que] o homem chega ao fim de suas possibilidades" [4] .

Sua interpretação do "desespero humano" vem do existencialismo kierkegaardiano. Em uma das suas aulas, dadas na Escola de Teologia da Universidade de Chicago, registrada no livro "Perspectivas da teologia protestante nos séculos XIX e XX", Tillich, influenciado pela filosofia de Kierkegaard, afirmou que vivemos em angústia e desespero: "Vivemos em angústia porque somos finitos e em desespero porque vivemos essa angústia num estado finito de solidão" [5] . Após ter feito esta afirmação, recomendou a todos os teólogos a leitura de duas obras de Kierkegaard, a saber, o "Conceito de angústia" e "A doença até a morte". É por meio destas leituras que Tillich concebe essa espécie de gradação do "desespero".

O desespero é humano porque somente o homem pode saber o que é o desespero. Os animais não sofrem dessa enfermidade; ela é estritamente suscetível aos homens. Em "A doença até a morte", Søren Kierkegaard conceituou o desespero como uma "doença mortal" no sentido de se estar "mortalmente doente" [6] . Contudo, para chegar a descrição do estado de desespero como estar "mortalmente doente", Kierkegaard partiu, primeiramente, da definição do homem como espírito. Mas, o que ele entendia por espírito? Entendia o espírito como o eu, uma relação que não se estabelece com qualquer coisa alheia a si, mas consigo própria (interioridade). Não é uma mera relação, pois, é orientada não "em si", mas em seu "voltar-se" sobre si própria [7] . Conseqüentemente, conclui-se que o homem é espírito na mesma medida em que, também, é uma síntese de dois termos: de finito e infinito, de temporal e eterno, de liberdade e necessidade, por exemplo. O homem é esta dialética, percebida nesta síntese. Contudo, na relação de dois termos, Kierkegaard notou que a própria relação se configura num terceiro, pois, não há, entre os termos, uma relação direta. Se pensarmos no homem como uma síntese de alma e corpo, necessariamente, os dois se unirão num terceiro termo que Kierkegaard denominou como "uma potência amiga desejosa de constituir a relação" [8] . Qual é, pois, a relação do espírito com esta potência amiga? Qual a relação do espírito consigo mesmo e com a sua condição? A esta relação, Kierkegaard chamou de "desespero". O desespero é um estado conflitante entre "o desejo de nos desembaraçar do nosso eu" e "a vontade desesperada de sermos nós próprios". A angústia é, portanto, dupla angústia: a angústia de ser e de ter medo de ser. O desespero, por sua vez, é o estado-limite de conflito das relações que culminam na discordância interna de uma síntese. Não que o desespero seja uma conseqüência da discordância, mas da relação orientada sobre si própria. Isso faz do desespero uma "doença mortal", porque torna o homem consciente da indestrutibilidade do eu. Eis a tautologia da enfermidade humana: desespero desesperado pela incapacidade de se desvencilhar do eu. Sobre isso afirmou Kierkegaard:
"No desespero, o morrer continuamente se transforma em viver. Quem desespera não pode morrer; assim como um punhal não serve para matar pensamentos, assim o desespero, verme imortal, fogo inextinguível, não devora a eternidade do eu, que é o seu próprio sustentáculo" [9] .

Até aqui, vimos o desespero como uma espécie de constrangimento oriundo da impossibilidade do homem libertar-se de si próprio. Tillich está de acordo com o fundamento destes argumentos. Está cônscio de que o desespero é inescapável. A própria palavra, segundo ele, significa "sem esperança" expressando "o sentimento de uma situação da qual não existe 'saída'" [10] . Além de Kierkegaard, Tillich também tem em mente uma peça teatral de Jean-Paul Sartre, escrita em 1944, um pouco antes do fim da guerra. A peça tem como título "Huis Clos", no português "Portas Fechadas". Para muitos, a peça é o drama que mais nitidamente reflete as preocupações filosóficas do seu autor. Sua interpretação é absolutamente inseparável das teses de "O ser e o nada", em que o essencial das relações entre as coisas é o conflito [11] . A peça é a estória de três pessoas condenadas ao inferno. Não o inferno cristão, com cheiro de enxofre e a presença de Satã como carrasco, mas uma sala decorada no estilo do Segundo Império, com três poltronas e uma estátua de bronze sobre a lareira. Levados a esta sala pelo Criado chegam os "mortos": Garcin (um homem de letras), Inês (uma funcionária dos correios, lésbica) e Estelle (uma mulher da alta sociedade) são enclausurados e condenados ao inferno por não terem assumido a liberdade que lhes facultava sua condição humana. Cada um, a seu modo, escolheu uma forma de alienação e foram obrigados a se tolerarem mutuamente. Assim, todos descobriram que "o verdadeiro inferno são os outros" e perceberam que o carrasco era cada um deles para cada um dos outros [12] . A face do desespero se revela somente na última cena, quando Inês tomada pelo ódio tenta o suicídio, golpeando-se com uma faca. Mas, os mortos só morrem uma vez. Nem faca, nem venenos acabarão com os três, que estão juntos, definitivamente e irremediavelmente. A experiência do desespero, descrita por Sartre nessa peça, aponta para a questão decisiva que está teologicamente envolvida no significado de desespero e o problema do suicídio arrazoado por Tillich: "Por que o suicídio não pode ser considerado uma fuga do desespero?" [13] .

Conforme Tillich, a dor do desespero é a "agonia de ser responsável pela perda do sentido de nossa existência e de ser incapaz de redescobri-lo" e, assim, semelhantes aos três indivíduos enclausurados e condenados ao conflito mútuo descrito por Sartre, "somos trancados em nós mesmos em conflito com o nosso próprio ser" [14] . Por isso, não há fuga no estado de desespero, pois, ninguém pode fugir de si mesmo. É a partir desta problemática que se questiona o suicídio como uma forma de se livrar de si mesmo. Pergunta-se: "O suicídio é uma espécie de anseio por um repouso sem conflito?" Para Kierkegaard, é justamente este anseio que nos leva ao extremo desespero. A angústia que surge em meio ao perigo crescente tornando a morte em esperança, na verdade, transforma a esperança numa pseudo-esperança que sucumbe ao desespero. Este, por sua vez, afirma que nem se quer podemos "morrer" [15] . Para Tillich, o suicídio é uma autonegação da vida, podendo ser uma autonegação externa (suicídio físico), psicológica (a vontade inconsciente de viver é minada e o suicídio assume o lugar em termos de não resistência à aniquilação ameaçadora) ou metafísica (observável naquelas culturas que pregam a autonegação da vontade, não em termos de suicídio físico ou psicológico, mas em termos de esvaziamento da vida de todos os conteúdos finitos, de forma que seja possível a entrada na identidade última) [16] . Segundo Tillich, todas estas tendências suicidas são tentativas de evitar a situação de desespero na dimensão da finitude. Ele não nega que o suicídio possa eliminar as condições de desespero nesta dimensão. Contudo, questiona se ela é a única. Não seria a culpa, um elemento do desespero responsável em revelar uma outra dimensão? Os olhos de Tillich estão direcionados no plano do "último" e "incondicional", pois, "o desespero é também o desespero ante a culpa e a condenação" [17] . Quando se afirma esta "dimensão do último", frente ao elemento da culpa e da condenação, o suicídio não pode ser a fuga final. Talvez, Tillich estivesse pensando no inferno descrito por Sartre. Lá, o elemento da culpa estava sempre presente rondando a mente dos "mortos" assegurando a eternidade do conflito. A morte não representa descanso, ao contrário, revela o conflito que a evoca. É, portanto, na dimensão do eterno que o suicídio fracassa. O fracasso, que é o suicídio, se dá sempre na "consciência de culpa" que nos leva a crer que ninguém pode escapar dessa situação.

Outra experiência do desespero é expressa na experiência de condenação. Em Divina Comédia de Dante Alighieri, as almas suicidas são condenadas ao inferno. A situação dos suicidas é agonizante. Eles se tornam arbustos cujas folhagens servem de alimento para as Harpias. Este tipo de descrição do fim dos suicidas poderia representar a impossibilidade de salvação do desespero? De acordo com Tillich, o ato externo de suicídio não deveria ser destacado como uma "condenação religiosa ou moral especial", mas sim como uma prática baseada na "idéia supersticiosa de que o suicídio [externo] exclui, definitivamente, a operação da graça salvífica". Segundo Tillich, a experiência do desespero é, também, expressa no símbolo da "condenação eterna". Porém, para ele, a "condenação eterna" é uma "combinação de palavras sem sentido", pois, só Deus é eterno. Então, Tillich propõe uma substituição desta expressão. Ao invés de se falar em "condenação eterna" dever-se-ia falar em "afastamento em relação à eternidade", pois, não é a condenação que é eterna, mas, sim, o fundamento do ser. Deus é este fundamento e nele o ser se alicerça. Deus é o ser-em-si que supera a dialética entre essência e existência.

Em suma, para Tillich, a experiência de afastamento da eternidade é o estado de desespero, pois, marca uma experiência além dos limites da nossa finitude como, também, denota a situação de estar preso ao divino sem estar a ele unido num ato de amor. Tillich finaliza afirmando que "o homem nunca é isolado do fundamento do ser, nem mesmo no estado de condenação" [18] .

Terminamos esta reflexão com o trecho final de um belíssimo texto poético de Artaud intitulado "Sobre o suicídio".
"Mesmo para chegar ao estado de suicídio, devo esperar o retorno de meu eu, preciso do livre jogo de todas as articulações de meu ser. Deus me colocou no desespero como em uma constelação de impasses cuja radiação chega a mim. Eu não posso nem morrer, nem viver, nem desejar morrer ou viver. E todos os homens são como eu" [19] .

Jonas Madureira é aluno de graduação na PUCSP.


NOTAS

[1]Cf. A Coragem de Ser, de Paul Tillich, São Paulo, Paz e Terra, 1976, p. 30.
[2]Idem, p. 28.
[3]Idem, p. 42.
[4]Cf. Teologia Sistemática, de Paul Tillich, São Leopoldo, Sinodal, p. 302.
[5]Cf. Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX e XX, de Paul Tillich, São Paulo, Aste, 1999, p. 178.
[6]Cf. O Desespero Humano, de Søren Kierkegaard, Os Pensadores, São Paulo, Abril, 1974, p. 341.
[7]Idem, p. 337.
[8]Cf. O Conceito de Angústia, Søren Kierkegaard, Editorial Presença, p. 66.
[9]Op. Cit., O Desespero Humano, p. 341.
[10]Op. Cit., Teologia Sistemática, p. 302 e A Coragem de Ser, p.43.
[11]Cf. O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre, Petrópolis, Vozes, 2001, p. 454.
[12]"Digo a vocês que tudo estava previsto. Eles previram que eu havia de parar diante desta lareira, tocando com minhas mãos esse bronze, com todos esses olhares sobre mim. Todos esses olhares que me comem. Ah! Vocês são só duas? Pensei que eram muito mais numerosas. Então, isto é que é o inferno? Nunca imaginei… Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… são os Outros". Fala de Garcin. Cf. Entre Quatro Paredes (Huis Clos), de Jean-Paul Sartre, São Paulo, Abril, 1977, p. 98.
[13]Op. Cit., Teologia Sistemática, p. 303.
[14]Op. Cit., Teologia Sistemática, p. 302.
[15]Op. Cit., O Desespero Humano, p. 341.
[16]Op. Cit., Teologia Sistemática, p. 302-303.
[17]Op. Cit., A Coragem de Ser, p. 42.
[18]Op. Cit., Teologia Sistemática, p. 304.
[19]Cf. Linguagem e Vida, de Antonin Artaud, São Paulo, Perspectiva, 1995, p. 250.