Os Meios da Presença Espiritual: Considerações sobre a teologia sacramental de Paul Tillich

Carlos Jeremias Klein

Introdução

Este trabalho tem por base os textos de Paul Tillich "Natureza e Sacramento", originalmente de 1929, que faz parte da coletânea "A era protestante" (capítulo 7, p. 121-137) e "A Vida e o Espírito", Volume III, Parte IV, da Teologia Sistemática.

Um estudo da teologia sacramental de Tillich deve levar em conta a célebre questão da "substância católica e do princípio protestante", suscitada por esse autor. A "substância católica", comenta o teólogo Etienne Higuet, inclui três elementos: "o sacramental ou intuição da presença do sagrado e da profundidade do ser em toda realidade transparente a seu próprio fundamento; a comunidade ou substância do amor, baseada na realidade sacramental do novo ser…; a autoridade real… que exprime a verdade do fundamento do ser, manifestando-se através da tradição e dos seus símbolos" [1] . Quanto ao "princípio protestante", Higuet observa que, para Tillich, desde a época da Reforma,
A igreja romana é marcada pela transformação do sacramento em lei… pela metamorfose da autoridade real em autoridade de princípio, que institui um lugar absoluto na autoridade… O princípio protestante deve então exercer uma ação profética contra a absolutização sacerdotal… de uma igreja, de um sistema de ordens, de sacramentos, de modos de vida e de dogmas [2] .

Em "Natureza e Sacramento", Tillich afirma "todos os aspectos da crítica protestante podem ser interpretados como ataques do espírito protestante à tendência católica da objetivação sacramental e da demonização do cristianismo" [3] . Por outro lado, o medo da "demonização dos sacramentos" não deveria levar o protestantismo à "redução da mediação sacramental do Espírito" ou, como se deu no protestantismo norte-americano, ao "desaparecimento do sentimento sacramental" [4] .


1. Natureza e Sacramento

A questão "natureza-sacramento" coloca-se, sobretudo, a partir da Reforma Protestante. Lutero, segundo Tillich, não conseguiu elaborar "uma teoria clara e consistente" dos sacramentos, mas "o elemento místico" continuou presente. As divergências sobre o sacramento da Ceia do Senhor entre Lutero e Zuínglio impediram a unificação da Reforma, em sua origem. A teologia reformada [5] representa de modo pleno a aplicação do "princípio protestante", um exemplo é a resposta do Catecismo de Heidelberg na questão da missa, considerando-a "maldita idolatria" [6] .


1.1 O Sacramento do Batismo

Inicialmente, Tillich trata do sacramento do batismo. No Catecismo de Lutero encontra-se a afirmação de que "sem a Palavra de Deus, a água não passaria de simples água e não haveria batismo". Tillich questiona a expressão "simples água": "Se a água como tal pode ser descrita como 'simples água', por que usa-la afinal? Porque não seria suficiente a 'Palavra de Deus' sem qualquer água? Por que precisamos ainda de sacramentos?" [7] E encontra três possíveis respostas à pergunta sobre o sentido do elemento natural nos sacramentos, encontradas nas seguintes interpretações: a simbólico-metafórica, a "ritualista" e a realista.

A interpretação "simbólico-metafórica", no caso do batismo, considera água como um símbolo da purificação da impureza do pecado ou da morte e ressurreição para uma nova vida. Tillich lembra que seriam possíveis outros símbolos para representar a mesma idéia, como uma passagem através do fogo ou descida a uma caverna. Assim, essa interpretação não requer qualquer "relacionamento necessário e intrínseco entre água e batismo" [8] .

A interpretação "ritualista" do sacramento afirma que a conexão entre água e batismo encontra-se na instituição divina: "Em virtude desse mandamento a água adquire significado sacramental desde que empregada na celebração adequada do rito do batismo" [9] . Nesta interpretação não há relacionamento intrínseco entre água e batismo, a relação é totalmente acidental. Tillich considera resíduo deste conceito, nominalista, "a reivindicação protestante de que o sacramento precisa ter sido instituído por Cristo segundo os relatos bíblicos" [10] .

A terceira interpretação, a realista, "percebe certo caráter especial ou qualidade própria da água, com seu poder particular. Em virtude desse poder natural a água pode tornar-se, adequadamente, portadora de poder sacro e transformar-se, assim, em elemento sacramental" [11] . A relação entre água e batismo, neste caso, não é arbitrária, mas necessária. Nesta interpretação, a água não é "simples água", como queria Lutero. Tillich considera a concepção realista adequada à natureza do sacramento.


1.2 O Sacramento da Ceia do Senhor

Para Tillich, o sacramento da Ceia do Senhor apresenta, em sua análise, mais dificuldades que o do batismo. Os elementos são dois, pão e vinho, e resultam do trabalho humano. Ainda mais, representam o corpo de Cristo, que "na qualidade de corpo transcendental situa-se além da natureza" [12] . Embora o corpo do Jesus da História seja inacessível a nós, por outro lado, "é precisamente esse corpo que se faz acessível a nós porque se transformou em corpo transcendente. Permanece corpo; não se transforma em espírito; para me expressar com mais precisão, torna-se 'corpo espiritual'" [13] . E dessa maneira torna-se acessível, mas não perceptível.

As três interpretações relativas ao sacramento do batismo podem ser aplicadas à Ceia do Senhor. E Tillich considera evidente que apenas a interpretação realista é possível. Se os elementos da Ceia do Senhor pretendessem simbolizar "o espírito de Cristo", estaríamos "tentando simbolizar o preto por meio do branco" [14] . Pois o simbolizado é o corpo de Cristo. E admite que a teoria de Lutero da ubiqüidade do corpo de Cristo é válida na explicação, mesmo que logicamente absurda.

Tillich considera a concepção católica de transubstanciação a resposta mais simples ao problema. É possível que Tillich não contemple devidamente determinados aspectos dessa interpretação, por exemplo, aquele que o teólogo Leonardo Boff denomina "a parusia do mistério": "Pelo sacramento se afirma a identidade: na mediação está presente a graça, dá-se a parusia do mistério que deixando sua obscuridade inviolável resplandece numa palavra, se corporifica simbolicamente num gesto e se comunica numa comunidade" [15] . Os protestantes, em geral, afirmam a permanência dos elementos pão e vinho. Parte da tradição protestante admite a interpretação que Tillich denomina ritualista, focando o sacramento na instituição e no mandamento divino, sendo este responsável pela reunião do corpo de Cristo com o pão e o vinho: "Mas esta interpretação eliminaria, praticamente, o elemento principal da Ceia do Senhor que é o corpo exaltado de Cristo; pois nem a oferta e a bebida do vinho, nem o partir e o comer do pão possuem relação simbólica com o Cristo transcendente, embora pelo menos o partir do pão seja símbolo claro do evento do Gólgota" [16] .

Resta a interpretação realista, que pode explicar o pão e o vinho "como representações dos poderes naturais que nutrem o corpo e desenvolvem no corpo humano as mais altas possibilidades da natureza. Indicam a presença do poder divino salvador na base natural da vida espiritual em todas as dimensões bem como na vida espiritual em si mesma" [17] .


1.3 Modos de interpretar a natureza e exemplos da interpretação realista

Tillich refere-se a alguns conceitos de natureza encontrados na história: mágico-sacramental, técnico ou racional-objetivo, vitalista, romântico-simbólica e o novo realismo ou conceito realista-histórico.

Na interpretação mágica "todas as coisas estão cheias de certa energia material capaz de dotar as coisas ou parte das coisas, até mesmo o corpo humano… de poder sacro. O poder natural das coisas contém ao mesmo tempo o poder sagrado, e qualquer relacionamento com as coisas acaba sendo ritualista" [18] . Convém notar que nesse estágio "sagrado" não está em oposição ao profano, essa distinção não existia. Este conceito da natureza pode ser chamado "pan-sacramentalista".

Contudo, o relacionamento com a natureza não poderia limitar-se a atos mágicos e surge a necessidade do uso de métodos racionais-objetivos: "A natureza passa a ser controlada, objetivada e destituída de suas qualidades… torna-se incapaz de carregar o poder transcendente" [19] . Tillich observa, contudo, que as qualidades das coisas resistem e não cedem completamente ao ponto de vista técnico-objetivo.

A terceira interpretação, a vitalista, vê em tudo expressões da vida, de um processo vital, de um "élan vital" ou "poder criador da vida". Essa corrente vem desde os tempos da filosofia grega. Tillich, estranhamente, não menciona seu contemporâneo o filósofo Henri Bergson, representante maior dessa corrente no século XX. O problema desta interpretação, para Tillich, é que o poder da natureza é um poder sem significado, "sem qualquer relação com o espírito ou com a transcendência" [20] .

A quarta interpretação, a romântico-simbólica, "quer devolver à natureza o seu caráter qualitativo, a sua profundeza e seu sentido. O poder das coisas seria o poder da alma ou do espírito presente nelas" [21] . Tillich observa que este conceito "é pouco consciente das estruturas reais da natureza… Por esta razão… não pode nos oferecer base sólida para a nova teoria do sacramento" [22] . Em lugar do "pan-sacramentalismo" da primeira interpretação, teríamos um "pan-simbolismo".

Tillich passa a considerar o que denomina "novo realismo", unindo as compreensões medieval e moderna do termo "realismo". Lembra as contribuições de Schelling, Goethe e Rilke à nova compreensão das "profundezas da natureza": "O poder e o sentido da natureza devem ser buscados dentro e por meio de suas estruturas objetivas. Na natureza o poder e o caráter físico não se separam das estruturas significativas e objetivas… A vida origina-se num nível muito mais profundo do que a dualidade cartesiana do cogitatio e da extensio" [23] . Para fornecer os fundamentos de uma "nova teoria protestante dos sacramentos" a compreensão neo-realista é necessária, mas não suficiente, pois os sacramentos, no cristianismo, devem referir-se ao novo ser em Jesus, o Cristo, ou seja, deve compreender também uma dimensão histórica e, no caso, história da salvação.
Quando se interpreta a natureza desta maneira realista e, ao mesmo tempo, histórica, os objetos naturais transformam-se em portadores do poder e do sentido transcendentais e podem ser usados como elementos sacramentais. Mantém-se a crítica protestante contra qualquer utilização diretamente mágica ou mitológica da natureza enquanto repositória do sagrado. A natureza, ao ser trazida para o contexto da história da salvação, liberta-se de sua ambigüidade… A natureza não é inimiga da salvação; não precisa ser controlada por meio da ciência, da técnica, de termos morais, nem deve ser privada de qualquer poder que lhe seja inerente para servir ao "Reino de Deus", como o pensamento calvinista inclina-se a acreditar; em vez disso, afirmamos que a natureza é portadora e objeto da salvação [24] .

Para Tillich, esta quinta interpretação da natureza (o conceito neo-realista e histórico) constitui base para uma redescoberta protestante da teologia dos sacramentos.

Alguns exemplos da interpretação realista da natureza são apresentados por Tillich no capítulo "Natureza e Sacramento", que vimos analisando, como os quatro elementos da natureza da filosofia grega (água, terra, ar e fogo), as pedras preciosas (livro do Apocalipse), a "luz", o poder da vida vegetativa (mito do paraíso, no livro de Gênesis, e a árvore da vida, na Nova Criação, conforme o Apocalipse), o poder dos animais (simbolismo religioso de energia do touro, do leão e da águia, o cordeiro como símbolo do sacrifício de Cristo no Calvário [25] e, em sentido negativo, o poder "demônico" da serpente e de outros animais) e o poder do corpo humano.

Para uma teoria dos sacramentos, a água desempenha um significado especial, por ser o elemento natural do batismo. O poder do corpo humano, por sua vez, relaciona-se com o sacramento da Ceia do Senhor e merece algumas considerações especiais:
De tal maneira concentram-se no corpo humano todas as potências da natureza que nele transcendem as formas inferiores e chega-se ao nível da liberdade… A vinda do Reino de Deus é acompanhada pela cura do corpo humano… No corpo de Cristo, situado no "centro da história", a natureza atinge a plenitude. Esse corpo é o órgão mais perfeito do Espírito e de sua experiência. É aí, naturalmente, que se fundamenta o sacramento da Ceia do Senhor [26] .

2 Os sacramentos como Meios da Presença Espiritual, na Teologia Sistemática de Tillich

Em sua Teologia Sistemática Tillich afirma que "o espírito como uma dimensão da vida une o poder de ser com o sentido de ser. Espírito pode ser definido como atualização do poder e sentido unidos entre si" [27] . Dentro dos limites de nossa experiência, Tillich comenta que esta experiência é apenas do homem. Serve-se, em geral, da expressão "Comunidade Espiritual" para referir-se à igreja e "Presença Espiritual" para a manifestação do Espírito divino.

Para John Dourley, "o sacramentalismo de Tillich supera as posições da maioria das comunidades cristãs porque orienta sua metafísica, ontologia e epistemologia a partir de um forte panteísmo" [28] . Tillich, em "Perspectivas da teologia protestante nos séculos XIX e XX", ao tratar do pensamento de Spinoza, comenta os mal-entendidos relacionados ao termo "panteísmo":
(Deus) está nas profundezas de tudo quanto existe. Não é igual a todas as coisas, das quais é fundamento e unidade, e não a soma de todos os particulares… Portanto a palavra "panteísmo",que pode ser traduzida pela expressão "Deus é tudo" é inadequada e enganosa. Eu gostaria que todos os que acusam Lutero ou eu mesmo de panteísta pudessem definir o termo antes de usá-lo [29] .

Quanto aos "meios da Presença Espiritual", para a tradição teológica cristã são a Palavra e os sacramentos: "Sobre eles a igreja se fundamenta e sua administração faz com que a igreja seja a igreja" [30] . Observa Tillich que a dualidade Palavra e sacramento tem sentido, pois a realidade tanto pode ser comunicada pela expressão vocal de uma pessoa como pela presença silenciosa do objeto em face de um sujeito [31] . Os termos palavra e sacramento "designam dois modos de comunicação em relação à Presença Espiritual. Palavras que comunicam a Presença Espiritual se tornam a Palavra, ou, em termos tradicionais, a Palavra de Deus. Objetos que são veículos do Espírito divino se tornam materiais e elementos sacramentais num ato sacramental" [32] . O presente trabalho restringe-se à questão dos sacramentos.

Na questão do número de sacramentos, Tillich afirma que as igrejas cristãs, em suas controvérsias,
desconsideram o fato de que o conceito 'sacramental' abarca mais do que sete, cinco ou dois sacramentos que podem ser aceitos por uma igreja cristã. O sentido mais amplo do termo denota tudo aquilo em que a Presença Espiritual foi experimentada; num sentido mais restrito, refere-se simplesmente a alguns 'grandes' sacramentos em cujo ofício a Comunidade Espiritual se auto-atualiza [33] .
A questão da importância e necessidade dos sacramentos relaciona-se com concepções sobre a natureza do homem. Em uma antropologia de tendência dualista, em que a natureza do homem "é concebida simplesmente em termos de autoconsciência lúcida, de intelecto e vontade, então palavras, palavras doutrinais e morais, podem ser portadores da Presença Espiritual. Não podem ser aceitos como portadores do Espírito, nem atos, nem nada do que seja sensual e afete o inconsciente" [34] . Neste caso, observa Tillich, os sacramentos se mantidos perdem importância, tornam-se obsoletos. Afora essa ênfase no aspecto consciente, que leva à uma desvalorização dos sacramentos, no outro extremo há o risco de uma distorção mágica da experiência sacramental, mesmo no cristianismo:
A Reforma foi um ataque concentrado sobre o sacramentalismo católico romano. O argumento que usaram era que a doutrina do opus operatum na igreja romana distorcia os sacramentos rebaixando-os ao nível de mera técnica mágica de atos não-pessoais. Se o sacramento tem efeitos em virtude da mera celebração, o ato centrado na fé não é essencial ao seu valor salvífico. (Somente resistência consciente ao sentido do sacramento anularia seu efeito). Conforme o juízo da Reforma, isto perverte religião em magia para obter graça objetiva do poder divino [35] .

Diante disso, é importante traçar uma linha limítrofe "entre o impacto de um sacramento sobre o eu consciente através do inconsciente, e técnicas mágicas que influenciam o inconsciente sem o consentimento da vontade" [36] . Tillich nota que embora desde o Renascimento as ciências técnicas substituíram a magia, o elemento mágico ainda é uma realidade entre seres humanos, e cita exemplos como encontro entre ouvintes de um sermão, de um discurso político, espectador e ator, do(a) amado(a) com o(a) amante, etc. "Como elemento de um todo maior que é determinado pelo eu centrado, expressa a unidade multidimensional da vida. Mas se for exercido como ato particular, intencional – desconsiderando o centro pessoal – se torna possessão demoníaca. E todo sacramento corre o perigo de se tornar demoníaco" [37] .

No protestantismo, a "redução da mediação sacramental" do Espírito deu-se mais na Tradição Reformada (ligada aos reformadores Zuínglio e Calvino) do que no luteranismo. Na teologia de Zuínglio "O Espírito divino age ao lado dos sacramentos e não por meio deles. Trata-se de um sinal obsequioso, como um distintivo. É um símbolo inspirador, mas nada tem a ver com a fé e salvação subjetivas, dependentes apenas da predestinação" [38] . O reformador Calvino formulou uma espécie de teologia dos sacramentos "via-média" entre Zuínglio e Lutero [39] . Essa drástica redução da mediação sacramental deveu-se ao "medo da demonização", presente numa concepção mágica. O resultado, diz Tillich, "é uma intelectualização e moralização da Presença Espiritual ou, como entre os quacres, uma interioridade mística" [40] . Observa, esse autor, que com a redescoberta do inconsciente no século XX, a mediação sacramental do Espírito pode ser melhor entendida e avaliada:
Poderíamos dizer até que uma Presença Espiritual captada apenas mediante a consciência é intelectual e não verdadeiramente Espiritual. Isso significa que a Presença Espiritual não pode ser recebida sem um elemento sacramental mesmo que esse seja oculto. Em terminologia religiosa, poderíamos dizer que Deus toma posse de cada aspecto do ser humano através de cada meio possível. A fórmula 'princípio protestante e substância católica' se refere definitivamente ao sacramento como meio da Presença Espiritual. O conceito de unidade multidimensional da vida fornece a base para essa fórmula. O catolicismo sempre tentou incluir todas as dimensões da vida em seu sistema de vida e pensamento, mas ele sacrificou a unidade, isto é, a dependência da vida em todas as dimensões, inclusive a religiosa, do juízo divino [41] .
Tillich rejeita tanto a teologia católica da "transubstanciação" quanto a reformada do "sinal". Os elementos sacramentais não são "sinais que apontem para algo estranho a si mesmo", mas símbolos e como tais estão intrinsecamente relacionados com aquilo que expressam:
Eles têm qualidades inerentes (água, fogo, óleo, pão, vinho), que os tornam idôneos à sua função simbólica e são insubstituíveis. O Espírito "usa" os poderes de ser da natureza para "entrar" no espírito humano… não é a qualidade dos materiais como tais que os torna meios da presença Espiritual, é, isso sim, sua qualidade de serem trazidos para dentro da união sacramental. Esta consideração exclui tanto a doutrina católica da transubstanciação que transforma um símbolo numa coisa a ser manipulada, bem como a doutrina reformada do caráter de sinal do símbolo sacramental. Um símbolo sacramental não é nem coisa nem sinal. Ele participa do poder daquilo que simboliza e, portanto, pode ser um meio do Espírito [42] .
Quanto à pergunta se a Comunidade Espiritual "está presa a meios definidos da Presença Espiritual", Tillich comenta que resposta comporta um sim e um não:
na medida em que a Comunidade Espiritual atualiza o Novo Ser em Jesus como o Cristo não pode ocorrer nela nenhum ato que não esteja sujeito ao critério daquela realidade sobre a qual se baseia a comunidade… Os atos sacramentais… devem referir-se aos símbolos históricos e doutrinais nos quais foram expressas as experiências revelatórias que conduziram à revelação central [43] .

Mas, dentro destes limites, "a Comunidade Espiritual é livre para se apropriar de todos os símbolos que sejam adequados e que tenham poder simbólico" [44] . Diante disso, questões apologéticas entre igrejas cristãs sobre o número de sacramentos perdem relevância.


Algumas Reflexões Finais

Para Tillich a teologia protestante dos sacramentos não deve admitir "recaídas em atitudes pré-proféticas ou pré-protestantes", em sacramentalismo mágico, como tem acontecido no catolicismo. Sem fé não há sacramento. "o sacramento não pode se transformar numa coisa ou objeto entre outros. O poder intrínseco da natureza não é suficiente para criar sacramentos. Só pode ser portador do poder sacramental. É claro que sem o portador não pode haver poder sacramental, e a presença do sagrado não se faz presente" [45] .

A questão do medo da demonização dos sacramentos por rebaixamento dos mesmos em nível de magia não deveria levar setores do protestantismo à desvalorização dos sacramentos. Pois também na "palavra", por exemplo, de um sermão ou discurso, podem haver aspectos mágicos indesejáveis, "demônicos".

Seria interessante uma discussão entre torno das expressões "Presença real de Cristo", na Ceia do Senhor, e a expressão de Tillich em sua teologia sacramental, a saber, "Presença Espiritual".

Em Perspectivas da teologia protestante nos séculos XIX e XX, Tillich observa como a "redução da mediação sacramental do Espírito" se acentuou mais na "Idade da Razão": Kant "não acredita na presença do Espírito divino no espírito humano, com suas manifestações de êxtase. Nega radicalmente a presença mística do divino… A luta entre o bem e o mal era a luta moral. Graça e oração não tinham lugar nesse esquema" [46] . Tillich comenta também a contribuição do romantismo (filosofia da natureza) de Schelling para uma doutrina da graça, portanto, sacramental. Referindo-se ao protestantismo norte-americano (do qual o protestantismo de missão no Brasil se originou), conclui:
Eu diria… que o protestantismo americano nunca teve um período romântico, com exceção de poucos indivíduos, e que por isso tem preservado até agora um tipo de religião completamente voltada para atitudes moralistas herdadas do iluminismo, longe de qualquer conceito de graça… Quase não se menciona nos sermões ouvidos nos Estados Unidos a presença do divino precedendo o que fazemos. Uma outra conseqüência dessa atitude é o desaparecimento do sentimento sacramental. O pensamento sacramental só tem sentido quando o infinito se faz presente no finito, quando o finito não apenas se submete às exigências do infinito, mas conserva em si poderes salvadores, poderes da presença do divino [47] .

A "experiência sacramental" perdeu importância na Reforma e quase desapareceu com o Iluminismo. Uma teologia que valorizasse tanto a "substância católica", quanto o "princípio protestante" constituir-se-ia em referencial para uma recuperação da importância dos sacramentos nas igrejas protestantes.


Carlos Jeremias Klein é doutorando em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo e professor no Centro Universitário Filadélfia e no Seminário Teológico Rev. Antonio de Godoy Sobrinho em Londrina.


BIBLIOGRAFIA

ALTMANN, Walter. Lutero e libertação. São Leopoldo, Sinodal; São Paulo, Ática, 1994.

BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Petrópolis, Vozes, 1982.

CRUZ, Eduardo R. A concepção de "naturalismo extático" em Paul Tillich. Correlatio Nº 1. www.metodista.br/Noticias/correlatio.

DENZINGER, Enrique. El Magistério de la Iglesia. Barcelona, Herder, 1963.

DOURLEY, John. Substância católica e princípio protestante: Tillich e o diálogo inter-religioso. Correlatio Nº 1. www.metodista.br/Noticias/correlatio.

HIGUET, Etienne Alfred. Alguns aspectos do catolicismo brasileiro atual – Considerações a partir da visão da modernidade em Paul Tillich. Correlatio Nº 1, www.metodista.br/Noticias/correlatio.

______. Misticismo e sincretismo na espiritualidade ecológica brasileira. In Estudos de Religião, Ano XV, n. 20. São Bernardo do Campo, Metodista, 2001.

TILLICH, Paul. A era protestante. São Paulo, Ciências da Religião, 1992.

_______. História do pensamento cristão. São Paulo, Aste, 1988.

_______. Perspectivas da teologia protestante nos séculos XIX e XX. São Paulo, Aste, 1986.

_______. Teologia Sistemática. São Paulo, Paulinas, 1984.


NOTAS

[1]Higuet, Etienne A . Alguns aspectos do catolicismo brasileiro atual – Considerações a partir da visão da modernidade em Paul Tillich. Correlatio Nº 1, www.metodista.br/Noticias/correlatio, p. 2.
[2]Idem..
[3]Tillich, Paul. A era protestante, p. 121.
[4]Tillich, Paul. A teologia protestante nos séculos XIX e XX, p. 146.
[5]A expressão refere-se à corrente do protestantismo ligada aos reformadores Zuínglio, Ecolampádio, Bucer e Calvino, ou seja, distinta da tradição confessional luterana.
[6]Tillich, Paul. A era protestante, p. 121.
[7]Ibidem, p. 122.
[8]Idem.
[9]Ibidem, p. 123.
[10]Idem.
[11]Idem.
[12]Idem.
[13]Ibidem, p. 123,124.
[14]Ibidem, p. 124.
[15]Boff, Leonardo. Igreja, carisma e poder, p. 131.
[16]Tillich, Paul. A era protestante, p. 124.
[17]Ibidem, p. 125.
[18]Ibidem, p. 126.
[19]Ibidem, p. 127.
[20]Idem.
[21]Ibidem, p. 128.
[22]Idem. Eduardo R. Cruz observa que aqui Tillich se perfila com os cientistas. Diferentemente de Tillich, acrescenta Cruz, teólogos (como Boff) "acabam sendo presas de sereias que estão à margem da ciência e apresentam então uma ciência mais 'humana', mais propensa a confirmar a fé cristã, mais interessante… Ao invés do grosso da comunidade científica, tais teólogos vão escolher um ou dois mais à margem, que seriam cientistas mais 'confiáveis', porque falam mais de Deus, de indeterminismo e imprevisibilidade, de espírito, etc" (A concepção de "naturalismo extático" Paul Tillich, 2002, p. 8).
[23]Idem.
[24]Ibidem, p. 129.
[25]Na antiguidade cristã o cordeiro era uma das representações de Cristo. O Concílio de Nicéia II (772-795), que condenou os iconoclastas, decidiu que Cristo somente poderia ser representado por figura humana. Com isto queria ressaltar a verdadeira humanidade de Cristo "Nós recebemos as sagradas imagens, nós submetemos ao anátema os que não pensam assim… Se alguém não confessa a Cristo nosso Deus, circunscrito segundo a humanidade, seja anátema"(Denzinger, Enrique, El magistério de la Iglesia, 1963, p. 112). Mas o Espírito Santo continuou sendo representado em forma corpórea de pomba.
[26]Ibidem, p. 132. Tillich passa a exemplificar também com objetos não naturais (como ícones) e com o poder da palavra, tão cara à tradição protestante. Quanto aos quadros e esculturas: "Se certas personalidades manifestam o sagrado na sua transparência ao divino, e são, assim, consideradas santas, tal manifestação não se expressa apenas na vida espiritual, mas na totalidade do organismo que inclui 'alma e corpo'. Os quadros e esculturas dos santos não teriam sentido algum sem o pressuposto de que sua santidade expressa-se por meio de seus corpos e, especialmente, das faces. Santidade não é obediência moral, mas 'qualidade do ser'" (Ibidem, p. 135).
[27]Tillich, Paul. Teologia Sistemática, 1984, p. 470.
[28]Dourley, J. Substância católica e princípio protestante: Tillich e o diálogo inter-religioso. Correlatio Nº 1, 2002, p. 2.Todavia, Tillich "só vai reconhecer esse fundamento na conclusão do terceiro volume (TS) de seu sistema e, assim mesmo, sob o disfarce de 'panenteísmo'". Etienne Higuet observa "Não deve, contudo, passar despercebido o fato de que Tillich fala num panenteísmo escatológico, descartando assim a pressa de fazer desde já a experiência da presença gratificante de Deus em tudo e todos, sem contradição nem ambigüidade" (Misticismo e sincretismo na espiritualidade ecológica brasileira, in Estudos de Religião, Ano XV, n. 20, 135-155, jan/jun. 2001).
[29]Tillich, Paul. Perspectivas da teologia protestante nos séculos XIX e XX, p. 104.
[30]Ibidem, p. 477.
[31]Idem.
[32]Idem.
[33]Ibidem, p. 478.
[34]Idem.
[35]Idem. O teólogo luterano contemporâneo Walter Altmann nota que a crítica protestante à doutrina opus operatum não mais se mantém "na medida em que a teologia católica já não entende dessa forma simplista o ex opere operato… também para o Vaticano II… os sacramentos 'supõem a fé', a alimentam, fortificam e exprimem… o que certamente é uma formulação bela para o que Lutero queria acentuar"(Lutero e libertação, 1994, p. 155, nota 5).
[36]Idem.
[37]Idem.
[38]Tillich, Paul. História do pensamento cristão, 1988, p. 237.
[39]Uma hipótese de meu projeto de doutorado é que a presença da teologia sacramental de Zuínglio é predominante no presbiterianismo brasileiro, embora o mesmo se identifica como "calvinista".
[40]Tillich, Paul. A era protestante, p. 478.
[41]Ibidem, p. 479.
[42]Idem.
[43]Ibidem, p. 479-480.
[44]Ibidem, p. 480.
[45]Tillich, Paul. A era protestante, p. 135.
[46]Ibidem, p. 82.
[47]Tillich, Paul. A teologia protestante nos séculos XIX e XX, p. 146.