Teologia no Plural: Fragmentos biográficos de Paul Tillich
A vida de todo pensador renomado, freqüentemente, possui numerosas análises e descrições biográficas. O filósofo e teólogo Paul Tillich (1886-1965) não é uma exceção [1] . A variedade das referidas descrições não facilita sínteses detalhadas da vida e da obra do autor. Tillich foi um dos mais destacados teólogos do século XX [2] e sua produção teológica e filosófica tem sido objeto de estudos de pessoas renomadas nos campos protestante e católico [3] .
No Brasil, cresce o interesse por este teólogo, tanto no protestantismo como no catolicismo, e também em círculos não-teológicos e seculares. Em diferentes centros multiplicam-se trabalhos acadêmicos, artigos, formação de grupos de estudos e outras referências à Tillich que revelam a pertinência de sua produção para os dias de hoje.
Paul Tillich viveu a efervescência do debate com a teologia liberal que predominara no século XIX. Ele ofereceu sínteses satisfatórias ao criticá-la, sem, contudo, perder a comunicação com a linguagem moderna e com o mundo secularizado que conheceu, tanto na Europa como nos EUA, para onde migrou em 1933 devido às formas repressivas surgidas com os totalitarismos políticos do período.
Ao lado das análises da vida e obra de Tillich efetuadas por diferentes autores, estão os próprios escritos auto-biográficos do autor. Estes representam conteúdos singulares, pois na medida em que Tillich sempre exerceu a tarefa de historiador não como um coletor de dados e de fatos, mas como um intérprete, os escritos autobiográficos dele tornam-se uma peculiar reflexão teológica. Mais do que isso, apresentam as bases epistemológicas dos conceitos e das posições teóricas e práticas por ele assumidas ao longo da vida.
Dentre os escritos, é possível destacar quatro: a) 'What am I?' My search for Absolutes [4] ; b) My Travel Diary: 1936 – Between two worlds [5] ; c) On the boundary: an autobiographical sketch [6] (que representa uma nova versão, revisada pelo autor, da primeira parte de The Interpretation of History (1936); e d) "Autobiographical Reflections" [7] (incluído em uma obra de vários autores sobre a teologia de Tillich, publicada originalmente em 1952). Além desses escritos, destaca-se também a introdução à obra The Protestant Era (1948), onde também são apresentados aspectos autobiográficos.
Dentre as diferentes possibilidades de sistematização e periodização da vida e obra de Tillich, serão seguidas as etapas por ele apresentadas em "Autobiographical Reflections": 1. os primeiros anos da vida (1886-1900); 2. o período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial. (1900-1913); 3. a experiência como capelão e os anos pós-guerra (1914-1933); 4. o período vivido nos EUA, a partir de 1933, onde se dedicou sobretudo aos estudos teológicos mais sistemáticos.
1. Os primeiros anos (1886-1900)
Até o início da Primeira Guerra Mundial, Paul Johannes Tillich (20/8/1886 – 22/10/1965) possuía uma vida estável na Alemanha, seu país natal. Filho de pais protestantes, nasceu em Starzeddel, pequeno povoado de Brandenburg, província próxima de Berlim. Tillich necessitava constantemente transferir-se de cidade devido ao trabalho pastoral de seu pai, um pastor luterano que chegou a ocupar postos de relevância na estrutura eclesiástica. As mudanças constantes e os estudos não modificaram o perfil conservador da formação que seus pais lhe deram.
Viver no século XIX implicava uma vida de relativa paz, em especial pelo florescimento da sociedade burguesa. Por outro lado, como posteriormente avaliou Tillich, isso implicava também viver em uma "feiúra estética" e em uma "desintegração espiritual". Tal consciência gerava impulsos revolucionários contra o período burguês, por ele chamado de autocomplacente. Tratava-se do fato de os valores humanistas cristãos estarem adormecidos sob as formas anti-religiosas da sociedade burguesa. Apesar dessas críticas feitas por Tillich, ele afirma que sentia saudades da estabilidade, do liberalismo e da tradição do século XIX [8] .
A vivência de sua infância em casa paroquial e na igreja de estilo gótico produziu em Tillich forte admiração pelo sagrado. Isso marcou a sua reflexão tanto nos trabalhos sobre religião como nos teológicos. De posse dessa experiência dos primeiros anos de vida, a metodologia utilizada por ele na filosofia da religião constitui-se em partir da noção do sagrado, desenvolvendo-a até chegar a de Deus.
O contato com a natureza, com a simplicidade da vida rural, com as perspectivas de harmonia cósmica fortaleceu uma nostalgia numinosa do infinito e a perspectiva da presença do divino no mundo. Dessa presença são derivados (e não ao contrário) a mística, as implicações estéticas e sacramentais e os elementos lógicos e éticos da religião. Isso, posteriormente, sob a influência de Friedrich Schleiermacher (1768-1834) – em especial a obra Discursos sobre a Religião – e de Rudolf Otto (1869-1937) – em especial O sagrado – redundou na participação de Tillich em movimentos de renovação litúrgica e em uma reavaliação do misticismo cristão e não-cristão [9] .
Além da relação especial com a natureza, o romantismo significou também uma relação com a história. As marcas da vivência rural já referidas, em especial pelos limites impostos por viver no ambiente paroquial com o pai, reforçou em Tillich o sentimento de viver o passado no presente. Isso possibilitou que, em suas reflexões teóricas posteriores, especialmente nos EUA, pudesse criticar o fato de as pessoas conhecerem intelectualmente os fatos, mas não estabelecerem com eles uma relação existencial.
Tillich afirmou que sem a influência do romantismo medieval que arraigou-se no pensamento europeu ele não poderia estar convencido da idéia de um período teônomo no passado e de uma nova teonomia no futuro [10] .
Todavia, a simultânea admiração de Tillich pela grande cidade, em especial Berlim, reforçou as perspectivas críticas que contribuíram posteriormente para a valorização dos elementos de questionamento, de participação e de democracia próprios do mundo urbano. Ao formular o conceito de teonomia, ele não havia jamais desprezado o interesse pela perspectiva autônoma. O teólogo teve na infância, em um certo sentido, uma visão limitada e restrita devido ao ambiente provinciano. A estrutura da sociedade prussiana, embora não totalitária, era por demais autoritária e disciplinada. Tillich admirava tudo isso, uma vez que não conhecia os elementos democráticos.
Mesmo assim, teve muitas dificuldades em superar os impactos do sistema autoritário em sua vida pessoal. Sua mãe (Wilhelmina Mathilde), que faleceu jovem quando ele possuía apenas 17 anos, e seu pai (Johannes Oskar Tillich) tinham personalidades muito fortes. Tillich sofreu o forte impacto da perda de sua mãe, depois de uma longa luta contra o câncer. Ele havia travado uma relação intensa com ela. Desde essa época estavam plantadas raízes do interesse de Tillich por Eros, culpa e ansiedade, o que posteriormente o incentivou a dialogar com a psicologia [11] .
Em perspectiva similar, a relação de Tillich com o pai possuía aspectos tensos e até mesmo competitivos. Não obstante a isso, o seu pai, embora conservador, gostava de filosofia e isso possibilitava aos dois longas discussões filosóficas. Isto levou a "descobertas" e a um gosto pela autonomia. Nessa experiência encontram-se sementes das reflexões sobre o "princípio protestante", que atua contra o sistema de heteronomia.
Quando, posteriormente, Karl Barth (1886-1968) realçará o elemento revolucionário no pensamento de Tillich ao acusá-lo de estar sempre brigando contra o "Grande Inquisidor" (cf. Dostoievski, em Os Irmãos Karamasov), Tillich afirmará que a história tem mostrado que, de fato, o "Grande Inquisidor" está sempre presente na política e na teologia, ainda que de maneira disfarçada. O balanço das motivações romântica e revolucionária permaneceu como problema básico da vida e do pensamento de Tillich [12] .
A respeito de viver no limite entre os dois temperamentos de seus pais, afirmará, em On the Boundary, que, para a interpretação da história, o elemento mais destacado é a linha que avança em direção a uma meta, ao contrário da premissa clássica platônica do círculo fechado em si mesmo. A luta entre dois princípios opostos constitui o conteúdo da história. Para Tillich, a experiência familiar desde os primeiros anos de vida o ajudou a descobrir que a verdade se encontra no curso da luta e do destino pessoais e não no imutável além, indicado por Platão [13] .
2. Os anos pré-guerra (1900-1913)
A mudança para Berlim em 1990 possibilitou, para Tillich, os estudos humanistas no Friedrich-Wilhelms-Gymnasiun. As matérias centrais eram grego e latim, o que ocasionou um interesse pela cultura e pelos filósofos gregos. A influência da filosofia clássica adquirida no Gymnasium, ao lado da tradição cristã adquirida na família e na sociedade, formou um núcleo central de pensamento que poderia gerar três alternativas: a ânsia de se fazer a opção por uma ou outra formação que teve; a possibilidade de um criticismo geral; ou a busca de uma síntese construtiva. Esse terceiro caminho foi o que prevaleceu na vida e nas reflexões teóricas do autor [14] .
Tillich viveu a sua infância em áreas rurais. Nesse contexto, cresceu e dele posteriormente sofreu influência para produzir várias de suas obras. A filosofia da natureza de F.W.J. Schelling (1775-1854) – e do romantismo alemão em geral – era a expressão direta dos sentimentos de Tillich.
Ele viveu no campo, mas admirava a cidade. O romantismo gerado pela vivência rural não produziu um rechaço da civilização técnica. Isso se deu em função da admiração que possuía pela vida na cidade. A perspectiva urbana revelou para Tillich a importância dos círculos intelectuais e dos movimentos políticos e sociais. A contemplação do mar, por exemplo, que já na adolescência iria tornar-se uma atitude de forte interesse, representava o "elemento imaginativo necessário para a doutrina do Absoluto como fundamento e abismo da verdade dinâmica, e da inclusão do eterno na finitude como essência da religião" [15] . A alternância regular dos elementos próprios da vida rural e da urbana marcou a vida e a obra de Tillich [16] .
A partir de 1904, Tillich estudou filosofia em Tubinga e teologia em Halle, um destacado centro do pietismo alemão. Concentrou as pesquisas em torno dos grandes filósofos alemães, especialmente Schelling. Sobre ele são os seus dois primeiros grandes trabalhos Die Religionsgeschichtliche Konstruktion in Schellings Positiver Philosophie, Über Voraussetzungen und Prinzipien (A construção histórico-religiosa na filosofia positiva de Shelling: sobre pressupostos e princípios), em 1910, para receber o grau de doutor em filosofia na Universidade de Breslau; e Mystik und Schuldbewusstsein in Schellings Philosophischer Entwicklung (Mística e consciência de culpa no desenvolvimento filosófico de Schelling), em 1912, para o grau de licenciado em teologia na Universidade de Halle. Posteriormente, já no período da guerra, Tillich, durante um recesso de seu trabalho em 1915, apresentou a dissertação de habilitação teológica Der Begriff des Übernatürlichen, sein dialektischer Charakter und das Prinzip der Identität, dargestellt an der supranaturalistischen Theologie vor Schleiermacher (O conceito de sobrenatural, seu caráter dialético e o princípio de identidade apresentado com base na teologia antes de Schleiermacher).
Paul Tillich, portanto, sofreu forte influência romântica. Marcado pela "Gothic perfection", estabeleceu uma relação com a natureza na qual prevalecia a atitude estético-meditativa ao contrário da relação científica-analítica ou técnica-controladora. Essa é a razão do interesse dele por Schelling, o que influenciou, por exemplo, a doutrina da participação da natureza no processo de queda e de salvação.
Essa perspectiva também reforçou a crítica de Tillich ao teólogo liberal Albert Ritschl (1822-1899), pois este indicava um infinito vácuo entre natureza e personalidade. A natureza, para o teólogo liberal, seria algo a ser moral ou tecnicamente controlado. No máximo seria admitido um sentimento subjetivo em relação a ela.
Tillich, ao contrário, influenciado pelo romantismo alemão, pela poesia (especialmente de Goethe), por uma herança do luteranismo que afirma ser o finito capaz do infinito (infra-lutheranum) advogou uma real comunicação e uma participação mística na natureza [17] .
A imaginação romântica gerada nos tempos de adolescente transformou-se em Tillich em um tipo de imaginação filosófica que o acompanhou por toda a vida e produção. A imaginação filosófica – aguçada pela leitura de Shakespeare, pela admiração e análise das obras de Botticelli e pela poesia de Rilke – dotou-o de capacidade para combinar categorias, efetuar abstrações em termos concretos e utilizar diferentes possibilidades conceituais. Por outro lado, admitia que tal caminho era por demais perigoso, uma vez que a capacidade imaginativa pode tomar por real aquilo que é imaginação, abster-se da experiência, da crítica racional e do diálogo. Não obstante a isso, Tillich viu-se reforçado pela consciência desse perigo a direcionar-se cada vez mais à seriedade da religião profética [18] .
Os estudos dessa época deixaram marcas profundas no pensamento de Tillich. A vida acadêmica na Alemanha era extremamente individualista. Isso gerou nele um anseio por expressões de vida mais comunitárias e grupos de fraternidade [19] .
A influência filosófica de Schelling – em especial o segundo período desse autor, chamado de filosofia positiva – e a de Sören Kierkegaard (1813-1855) contribuiu para um certo rompimento com o idealismo de Friedrich Hegel (1770-1831), não obstante as fortes marcas que o pensamento desse último filósofo deixou em Tillich. Todavia, é sobretudo a aproximação com as filosofias da existência o elemento de maior caracterização em Tillich, que desde os primeiros estudos filosóficos, observou atentamente as indicações de Kierkegaard. Para ele, uma das principais contribuições de Kierkegaard foi a demonstração da tendência de ocultamento das ambigüidades da existência individual efetuado pela filosofia da essência. Kierkegaard rompeu com a perspectiva idealista hegeliana, formulou uma interpretação radical da ansiedade humana e do desespero da vida e marcou, com esses elementos, a visão filosófica e teológica de Tillich.
Em perspectiva bastante similar encontra-se a influência de Karl Marx (1818-1883) no pensamento de Tillich. Este deve a Marx, entre outros aspectos, a compreensão do caráter ideológico do idealismo, assim como de qualquer outro sistema de pensamento que esteja a serviço das estruturas de poder e, para isso, encubra aspectos da realidade. O teólogo, firmado nessa contribuição de Marx, fazia referência à advertência de Lutero ao "endeusamento" como sendo um equivalente religioso do conceito de ideologia na filosofia. Tillich valoriza o marxismo – assim como a psicanálise – como método para desmascarar níveis ocultos da realidade.
Tillich concluiu que, diante da situação de desespero própria de todos os seres humanos (Kierkegaard) e da condição histórica da humanidade marcada pela luta de classes (Marx), pode ser considerado falso todo e qualquer sistema fechado e harmonioso [20] .
Para a crítica do pensamento idealista, Tillich absorveu sobretudo as perspectivas filosóficas de dois outros grandes filósofos: Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Martin Heidegger (1889-1976). De Nietzsche, ele valorizou, entre outras, a concepção da afirmação extática da existência (em especial, ante o contexto de sofrimento e de morte que posteriormente foi gerado pela guerra) e a noção de afirmação da vida.
Para Tillich, Heidegger iria reunir os elementos das filosofias da existência de Schelling, Kierkegaard e Nietzsche; isto é, as principais influências filosóficas sofridas por Tillich. Nesse sentido, são fortes as conexões entre os pensamentos de Heidegger e de Tillich. A interpretação heideggeriana da existência humana requer, entre outros aspectos, uma doutrina da liberdade e da finitude humanas. A filosofia existencial, para Tillich, formula de maneira nova e radical a pergunta cuja resposta a teologia oferece ao realçar o dado da fé [21] .
Nos estudos teológicos, ele sofreu ainda a influência de seu professor Martin Kähler (1835-1912), especialmente pela crítica histórica ao Novo Testamento, que gerou em Tillich um ceticismo quanto aos relatos bíblicos como crônica histórica. Considerava-os como mensagem, como kerigma. Essa perspectiva contribuirá posteriormente para a sua crítica ao liberalismo teológico, assim como para a sua teologia da história.
3. Os anos após o início da Primeira Guerra Mundial (1914-1933)
Após o período de estudos, Tillich atuou como pastor. Trabalhou em um vilarejo próximo de Berlim e depois em um dos subúrbios da cidade. Após ordenar-se em agosto de 1912, casou-se com Margarethe Wever, em setembro de 1914.
Com a eclosão da Primeira Guerra, alistou-se voluntariamente como capelão militar. Sua auto-biografia indica a importância desse período para a formação de sua consciência crítica, política e para o amadurecimento de sua personalidade. Influenciado pelos ideais liberais da passagem do século, Tillich considerava a possibilidade de uma integração social entre as perspectivas do Cristianismo e do humanismo, cuja síntese se constituiria por intermédio da filosofia clássica alemã. As experiências que viveu nesse período foram determinantes para um processo de reflexão e de revisão.
A realidade cruel e sangrenta revelada pela guerra, em especial os efeitos de sofrimento e morte para as classes subalternas, mostrou outra face da vida para Tillich. Dessa experiência irrompe um forte questionamento da vida burguesa e idealista, tanto pessoal como da visão da Igreja que possuía.
Ele atuou por quatro anos como capelão da Primeira Guerra Mundial (setembro de 1914 a setembro de 1918). Logo nos primeiros meses, constatou que a unidade alemã era uma ilusão e que a nação estava dividida em classes sociais. Além disso, percebeu que as massas industriais consideravam a Igreja como uma aliada inquestionável dos grupos dominantes.
Nos resultados da guerra estavam o colapso do império germânico e o surgimento da revolução socialista. Nesse contexto surge o movimento do socialismo cristão, do qual Tillich e outros intelectuais tomaram parte. Ele foi simpático às questões sociais, da forma como eram problematizadas pela revolução alemã.
O contexto político da guerra reforçou a influência do pensamento de Karl Marx em Tillich. Todavia, este sempre estabeleceu, em relação ao marxismo, uma relação dialética que, em suas próprias palavras, "combinava um sim e um não". A palavra "sim" referenciava-se aos elementos proféticos, humanísticos e realísticos no estilo apaixonado e na profundidade do pensamento de Marx. O "não" era dirigido aos elementos calculistas, materialistas e ressentidos presentes na análise, na polêmica e na propaganda de Marx. O ressentimento observado no marxismo é expressão direta da influência de Nietzsche no pensamento de Tillich.
Para o teólogo, a autonomia requer sempre um "sim" e um "não" a todas as formas de pensamento. Acrescenta, ainda, que o "não" é sempre dialético. Um "não" não-dialético seria tão primitivo e improdutivo quanto um "sim" não-dialético [22] .
Após a guerra, Tillich vivenciou a efervescência política própria do momento, em especial pelo fortalecimento dos movimentos operários e socialistas. Com a participação na articulação do "socialismo religioso" [23] , ele e os demais intelectuais que o integravam buscaram uma aproximação com as massas operárias, especialmente para demonstrar a dimensão religiosa presente e necessária nos ideais revolucionários dos trabalhadores.
Segundo Tillich, o movimento do socialismo religioso queria combinar dois elementos: o senso de responsabilidade social com as massas de trabalhadores deserdados (que era possível ser encontrado nos ideais avivalistas do século XIX) e a aceitação da análise sociológica dos socialistas franceses e alemães (que se visualizava mais nitidamente em Karl Marx). Todavia, de um modo geral, essa proposta não encontrou ressonância na compreensão das massas e o movimento não teve o êxito esperado.
Depois da guerra, Tillich manteve o interesse pelo marxismo. Todavia, a crítica ao stalinismo possibilitou, ainda mais, aspectos revisionistas. Isso é notório na produção teórica do Instituto de Pesquisas Sociais (Escola de Frankfurt) [24] . Nesse sentido, esteve próximo das concepções de Theodor Adorno – que foi orientado por Tillich na tese de habilitação acadêmica – e de Max Horkheimer – um dos dirigentes do Instituto, com quem possuía profunda amizade. Além disso, a crítica ao marxismo o levou a uma proximidade com as idéias de Karl Mannheim e de outros autores.
Teologicamente, foi a doutrina luterana que contribuiu para que Tillich, ao rever aspectos do marxismo, criticasse o que chamou freqüentemente de utopismo. O pecado, a ânsia de poder e todas as formas e impulsos ambíguos que marcam a situação humana inviabilizariam o estabelecimento do Reino de Deus dentro do domínio da realidade histórica. Não se pode, portanto, alcançar o Reino dentro do tempo e do espaço. Todo utopismo estaria, para Tillich, condenado à desilusão metafísica.
Ao lado da efervescência política, observou-se outro estilo de vida, também de instabilidade, no qual se destacou uma perspectiva cujos aspectos de crise existencial somaram-se a uma vida boêmia e de interesses pela criatividade, pelas artes, em especial o expressionismo, e pela crítica à sociedade burguesa. Nesse momento, entre fevereiro de 1920 e novembro de 1921, em meio a conflitos gerados pelo interesse amoroso de sua esposa por um de seus amigos e pelas conseqüências da vida boêmia de Tillich, foi desfeito o seu casamento. Porém, tempos depois, Tillich casou-se, em março de 1924, com Hanna Werner Gottschow, pintora e poetisa que conhecera nos círculos artísticos e intelectuais de que participava [25] .
O período do entre-guerras é considerado como um dos mais importantes na vida de Tillich. Nessa época ele formulou os primeiros recursos metodológicos e conceitos teológicos como o princípio da correlação, Kairos, princípio protestante e outros; dialogou com o pensamento neo-ortodoxo de Karl Barth, em especial a possibilidade de uma relação orgânica entre a criatura e Deus; e iniciou sua carreira universitária .
De 1919 a 1924 lecionou filosofia da religião em Berlim. Estabeleceu, nessa época, bases teóricas da "teologia da cultura". O contexto em que produzia suas reflexões era marcado por problemas sociais diversos, por uma estrutura social em dissolução e pela eclosão de uma arte revolucionária e da perspectiva da psicanálise que gerava novas consciências antes reprimidas. Tais características fizeram emergir questões e intuições que acompanharam Tillich no desenvolvimento de toda a sua teologia. Sintomaticamente, a aula inaugural que ministrou em Berlim, em 1919, denominou-se "A existência de Deus e a psicologia da religião", e o curso oferecido no verão do mesmo ano intitulou-se "O Cristianismo e os problemas sociais do presente". Um de seus escritos de destaque foi elaborado nessa época: Über die Idee einer Theologie der Kultur (Sobre a idéia de uma teologia da cultura), de 1919.
De 1924 a 1925 lecionou teologia em Marburgo. A ida para essa cidade fez com que Tillich se defrontasse mais diretamente com a neo-ortodoxia teológica. Basicamente sua constatação e crítica deu-se em três direções: a) a não-consideração dos problemas culturais pelo pensamento teológico; b) a rejeição completa aos teólogos liberais; e c) a exclusão das idéias sociais e políticas da reflexão teológica. Ainda em Marburgo (1925), formulou os primeiros escritos de sua Teologia Sistemática que somente viria a ser publicada, com muitas diferenças de conteúdo, em 1951, já nos EUA. Nesse período estabeleceu-se com maior proximidade a influência filosófica de Heidegger e das filosofias da existência de um modo geral.
De 1925 a 1929, deu aulas de teologia em Dresden e Leipzig, e de 1929 a 1933 em Frankfurt. Desse período são vários artigos filosóficos e teológicos que, posteriormente, foram incorporados em obras destacadas como: The Interpretation of History (1936) e The Protestant Era (1948). Diferente dos escritos sistemáticos do período americano, a referida produção de Tillich possuía caráter mais ensaístico e foi o resultado de palestras, nas quais um dos elementos fundamentais eram as "questões dos ouvintes" e não as dos alunos. Ele considerava que em debates, interpelações e reações mais imediatas, o elemento existencial aflorava mais efetivamente do que nos escritos sistemáticos. Para o teólogo, o desafio era não permitir que o elemento existencial destruísse o sistemático e nem o sistemático sufocasse o existencial. Avaliar essas diferenças em sua produção teórica foi de grande valia para o dinamismo de toda a sua obra [26] .
Para se pensar a relação entre Reino de Deus e história em Tillich, os escritos de filosofia social e ética desse período constituíram-se em bases significativas para o desenvolvimento do pensamento posterior do autor. Em Der Sozialismus als Kirchenfrage (O socialismo como uma questão da Igreja) (1919), ele indicava a questão socialista como um dos desafios para a Igreja, uma vez que esta não estava nem teórica e nem praticamente mobilizada para a problemática.
Em Masse und Geist. Studien zur Philosophie der Masse (Massa e Espírito: estudos sobre filosofia da massa) (1922), Tillich examina os movimentos de massa e utiliza obras de arte representativas como símbolos de mudanças de atitudes. No ano seguinte, com Grundlinien des Religiös[en] Sozialismus. Ein systematischer Entwurf (Linhas básicas do socialismo religioso: um esboço sistemático) (1923), ele efetua uma crítica ao anarquismo e ao pacifismo como formas de não-interpelação transformadora das leis que regem a sociedade. Em 1926, o autor analisa as formas culturais e religiosas de maneira geral nas primeiras décadas do século XX com a obra Die Religiöse Lage der Gegenwart, traduzida para o inglês em 1932 com o título The Religious Situation (A Situação Religiosa).
Posteriormente, com Die Überwindung des Persönlichkeitsideals (A superação do ideal de personalidade) (1927), Tillich faz uma avaliação crítica da idéia de personalidade. A concepção básica é de que na idéia de personalidade, o poder de ser do humano perde a predominância diante do poder de autodeterminação humana.
Na virada da década, Tillich produziu uma série de escritos em que apresentou, em linhas gerais, um tipo de programa relativo à dimensão política da fé cristã. Klassenkampf und religiöser Sozialismus (Luta de classe e socialismo religioso) (1930); Sozialismus (Socialismo) (1930); e Religiöser Sozialismus (Socialismo Religioso) (1931); apontam as questões programáticas do socialismo religioso, em especial a síntese entre as dimensões profética e política que revelam a perversão da natureza humana e a finitude dos projetos históricos. Todavia, foi sobretudo com Protestantisches Prinzip und Proletarische Situation (O princípio protestante e a situação proletária) (1931) que estabeleceu bases teóricas para a reflexão em torno do tema da idolatria. Nesse artigo, o autor elabora uma crítica a expressões históricas do protestantismo, especialmente pela incapacidade delas em perceber aspectos do contexto social e político.
Da mesma forma, os escritos de filosofia da religião desse período contribuíram também para estabelecer bases teóricas para o futuro desenvolvimento do pensamento de Tillich, especialmente a preocupação central deste trabalho, que é a relação entre Reino de Deus e história. Destacam-se, assim, os seguintes escritos: Kairos (1922), The Protestant message and the man of Today (A mensagem protestante e o mundo atual) (1929) e The Formative power of Protestantism (O poder formativo do protestantismo) (1929). Nesse último, especialmente, ele destaca a graça e a fé como dimensões fundamentais da vivência religiosa. Esta possui forte potencial anti-idolátrico e sua perspectiva utópica possibilita o interagir criativo do passado, presente e futuro [27] .
Ao final dessa época, a força crítica do pensamento filosófico e teológico de Tillich encontrava grande expressão e os conflitos com o nazismo foram inevitáveis. Além da perspectiva socialista do teólogo estava a sua atenção às minorias perseguidas pela visão totalitária de Adolf Hitler, que chegara ao poder em fevereiro de 1933.
Tillich publicou, entre outros trabalhos, Das Problem der Macht: Versuch einer philosophischen Grundlegung (O problema do poder: tentativa de um embasamento filosófico) (1931); Zehn Thesen em Die kirche und das Dritte Reich: Fragen und Forderungen deutscher Theologen (Dez Teses – A Igreja e o Terceiro Reich: perguntas e exigências de teólogos alemães) (1932); e Die sozialistische Entscheidung (A decisão socialista) (1932/1933), em que Tillich indica, entre outros aspectos, a natureza demoníaca e ideológica do Nacional Socialismo ao destruir as pessoas e até a própria humanidade.
Foi demitido da cátedra e migrou para os EUA em 1933, aos 47 anos de idade, com a ajuda do teólogo norte-americano Reinhold Niebuhr (1892-1971) [28] .
4. Anos americanos (1933-1965)
Tillich chegou com a família nos EUA no dia 4 de novembro de 1933. Foi recebido por Horace Friess, do Departamento de Filosofia da Universidade de Columbia, com quem manteve relacionamento. Posteriormente, integrou em Nova York os quadros do Union Theological Seminary (UTS) de 1933 a 1955. Até o falecimento, Tillich exerceu intensa atividade acadêmica, ao publicar escritos em um amplo leque de temáticas e ao ministrar palestras e conferências em eventos ecumênicos e grupos interdisciplinares de estudos científicos.
Os longos anos vividos no UTS foram elogiados por Tillich, em especial pelo fato de essa instituição teológica constituir-se em uma comunidade de vida e de trabalho, distinto do individualismo acadêmico da Alemanha. O UTS, assim como a cidade de Nova York, representava uma "ponte" do mundo, devido ao caráter cosmopolita pela presença e constantes visitas de renomadas pessoas das diversas áreas do conhecimento provenientes de outras partes do globo. Isto possibilitou à sua teologia uma ampla visão do mundo. No UTS, Tillich lecionou Filosofia da Religião e Teologia Sistemática por mais de duas décadas. Também lecionou Teologia Filosófica, uma cadeira criada especialmente para ele, a partir de 1937.
Nesse período, ele teve oportunidade de retornar à Europa para participar de importantes eventos de natureza ecumênica. Entre as suas contribuições, está a redação final da terceira sessão da Conferência Ecumênica de Oxford (Inglaterra, 1937) sobre Vida e Ação: "Igreja, Povo e Estado ante a ordem econômica". As viagens confirmaram ainda mais a inviabilidade de um retorno breve de Tillich ao país natal.
Ao lado disso, crescia o interesse do UTS pela contribuição teológica de Tillich. Nessa época, havia sido editada a já referida coleção de ensaios em filosofia política e em filosofia da história, com o título The Interpretation of History (A Interpretação da História). Escritos como esse e o trabalho docente de Tillich colaboraram com a sua integração ao universo acadêmico norte-americano, assim como com a divulgação das perspectivas teológicas dele.
Além do trabalho no UTS, nesse período o teólogo colaborou regularmente com o Departamento de Filosofia da Columbia University, ministrando cursos e seminários. Apresentou conferências na New School of Social Research, de Nova York, e integrou com professores americanos e alemães o Philosophy Club e o Theological Discussion Group.
Tillich perdeu o contato com poetas e artistas como havia mantido na Europa, em especial depois da Primeira Guerra. Todavia, manteve vínculos próximos com movimentos intelectuais, como o da psicologia do profundo, por exemplo [29] .
O interesse de Tillich pela psicologia já havia alcançado contornos teóricos em 1929, em Frankfurt, quando Kurt Goldstein e Adhemar Gelb o incentivaram a estudar a teoria psiquiátrica. Todavia, foi sobretudo nos EUA que o diálogo entre teologia e psicanálise ganhou maior substancialidade. Tillich, como já referido, participou do grupo de psicologia de Nova York e entrou em contato com pensadores como Erich Fromm, Rollo May, Harison e Grace Elliott, Seward Hiltner, David Roberts, Howard Clinebel, Carl Rogers e Gustave Weiger. Com eles aprofundou, sobretudo, as reflexões em torno do mito e do símbolo.
O diálogo entre teologia e psicanálise se aprofundou nas décadas de 1940, 50 e 60 com diferentes matizes e motivações. Nos anos de 1940, a cultura norte-americana formou, entre outros aspectos, um sentimento de estar arraigada a valores tradicionais em busca talvez de uma visão monolítica para enfrentar as inseguranças do período da Segunda Guerra Mundial. Nos anos 50, um sentimento de otimismo penetrou a cultura e gerou, ainda mais, atitudes de superioridade dos valores anteriormente assimilados. Todavia, tal otimismo não evitou na sociedade, com o advento da "Guerra Fria" e de diferentes movimentos contestatórios, insegurança e ansiedade. Nesse contexto, Tillich desenvolveu temas como o da ansiedade, culpa, aceitação, coragem e ser.
Em 1952, em uma reflexão filosófica de destaque e de grande divulgação – The Courage To Be (A Coragem de Ser) –, Tillich apresentou vários desses temas, sobretudo o problema da ansiedade que domina o ser humano moderno e os reflexos dela na filosofia, na história, na literatura e na vida cotidiana. Examinou, entre outros aspectos, a coragem de aceitar as dimensões do mundo que cercam o ser humano, a coragem da solidão e a de participar do poder criador que existe em todo ser humano [31] .
Tillich manteve também o interesse pelas questões políticas. Continuou contribuindo com o movimento do socialismo religioso e da solidariedade com emigrantes e refugiados políticos. A partir de 1936, presidiu o Self-Help, o comitê de ajuda a refugiados políticos, e em 1944 participou, como coordenador, da fundação do Council for a Democratic Germany.
Tillich recebeu cidadania norte-americana em março de 1940. Continuou o trabalho docente, mas sempre em conexão com palestras e inserções variadas na vida pública. Durante os anos da Segunda Guerra Mundial, ocupou-se das questões éticas e religiosas que cercavam as igrejas e demais questões políticas. Sempre com atenção especial aos processos de democratização da Alemanha, sua terra natal, assim como às possibilidades de uma nova ordem social, inspirada nos ideais de igualdade e justiça social.
Na articulação entre teoria e prática, Tillich produziu diversos escritos nesse período: em 1937, The End of the Protestant Era (O Fim da Era Protestante), originalmente publicado com o título Protestantism in the Present World-Situation (Protestantismo na Presente Situação Mundial), em 1938, The Kingdom of God and History (O Reino de Deus e História); em 1939, Religion und Weltpolitik (Religião e Política Mundial); e em 1940 Freedom in the Period of Transformation (Liberdade em um Período de Transformação). Os próprios títulos desses trabalhos indicam o viés político das ênfases teológicas de Tillich. Neles encontra-se a constante preocupação do autor pela dimensão teônoma da reflexão política e sistemática.
Após a guerra, avolumaram-se as viagens de Tillich e a sua produção alcançou maior divulgação. As reflexões em torno dos temas de "fronteira" acentuaram-se. Está demarcada, nessa perspectiva, uma série de temas teológicos, em especial na relação entre Igreja e sociedade. Nesse sentido, são os escritos: The Shaking of the Foundations (O Abalar das Estruturas) (1948), The Protestant Era (A Era Protestante) (1948), Politische Bedeutung der utopie im Leben der Völker (Significado Político da Utopia na Vida dos Povos) (1951), Love, power and justice (Amor, poder e justiça) (1954) e A History of Christian Thought (História do Pensamento Cristão) (1956) [32] .
O período nos EUA foi, para Tillich, de aprofundamento e sistematização de sua teologia. Após lecionar no UTS, trabalhou na Universidade de Harvard, de 1955 a 1962, onde estabeleceu estudos interdisciplinares e obteve forte reconhecimento dos círculos intelectuais norte-americanos. Anteriormente, já havia publicado o primeiro volume de Systematic Theology (Teologia Sistemática) (1951). Os outros dois volumes foram publicados, respectivamente, em 1957 e 1963.
Muitas obras, algumas delas coletâneas de artigos anteriormente publicados, foram divulgadas nesse período. Ainda que possuam um certo caráter ensaístico, tais obras mantêm fortes conexões com os conteúdos apresentados nos volumes de sua Teologia Sistemática. Destacam-se: The New Being (O Novo Ser) (1955), Biblical Religion and Search for Ultimate Reality (Religião Bíblica e a Busca da Realidade Última) (1955), The Eternal Now (O Eterno Agora) (1956), Dynamics of Faith (A dinâmica da Fé) (1957) e Theology of Culture (Teologia da Cultura) (1959). Também desse período é a reedição, agora com maior divulgação, de The Religious Situation (A Situação Religiosa) (1956).
Após o período em Harvard, Tillich recebeu o convite para trabalhar na Universidade de Chicago (1962-1965), já no final de sua vida. Publicou obras de destaque como Morality and Beyond (Moralidade e "algo mais") (1963) e The Christianity and the Encounter of the World Religions (O Cristianismo e o Encontro das Religiões do Mundo) (1963). Ao lado desse último, houve uma conferência ministrada nos últimos dias da vida de Tillich que tem sido objeto de atenção por tratar, ainda que de forma indicativa, do diálogo inter-religioso: The Significance of the History of Religions for the Systematic Theologian (O Significado da História das Religiões para o Teólogo Sistemático), publicada postumamente em The Future of Religions (O Futuro das Religiões) (1966).
As experiências no continente americano marcaram a teologia de Tillich em diferentes formas. A primeira delas constitui-se na necessária adaptação cultural que incluiu o recurso de outra língua para expressão, o inglês, e a perspectiva mais pragmática, democrática e cosmopolita da cultura norte-americana em relação à formação alemã de Tillich.
Em viagens à Europa e a outros continentes, em artigos e em fóruns acadêmicos nos EUA e fora dele, Paul Tillich dialogou com figuras expoentes de diferentes áreas do conhecimento, como Karl Barth (teologia), Erich Fromm (psicologia), Adorno e Horkheimer (filosofia) e Mircea Eliade (história da religiões). A obra de Tillich não pode ser compreendida sem as perspectivas dialógicas que permeiam os conceitos teológicos por ele formulados a partir desse amplo espectro de reflexões e debates. Aprofundou também as bases filosóficas do existencialismo de Heidegger e de Kierkegaard. Ao lado desse eixo de interpretação, ele estabeleceu o caráter profético, humanista e realista proveniente do marxismo como contraponto. A articulação criativa dessas duas perspectivas levou-o a estabelecer permanentemente, como já referido, uma atitude de "sim" e "não" ante todos os movimentos da história, assim como a entender o processo histórico na dinâmica e na contradição, frutos da dicotomia entre a pessoa humana e o fundamento último dela [33] .
Tillich fez uma interpretação da tradição cristã e do pensamento teológico. Em relação ao racionalismo, ele afirmou que este foi, de certa forma, produzido pelo misticismo, uma vez que ambos possuíam uma perspectiva subjetivista. Ou seja, a "luz interior", própria do misticismo, transforma-se fácil e sutilmente na "razão autônoma". Quanto ao liberalismo, o teólogo questionou a doutrina do progresso humano, os esquemas ilusórios de auto-salvação, a redução do Cristianismo à ética de Jesus e a rejeição da dimensão mística. Tillich criticou Bulltmann, por exemplo, por entender que o programa de desmitização do Novo Testamento oferecia como alternativa para os fiéis apenas o simbolismo ético e com ele o apelo à decisão. Tillich entendia ser fundamental para fé cristã o simbolismo cósmico, ou seja, a dimensão de participação integral do indivíduo, até mesmo o seu inconsciente, no ato religioso.
Todavia, foi o rompimento com a visão teológica ortodoxa e eclesiástica, por um lado, e com a secularizada e a-religiosa, por outro, que se constituiu na grande contribuição de Paul Tillich. Em conjunto com Mircea Eliade, elaborou uma perspectiva teológica fundamentada na revelação universal de Deus na história das religiões e referenciada fundamentalmente pelo evento concreto do Cristianismo como religião particular [34] .
Palavras finais
Paul Tillich, portanto, preocupou-se com a compreensão e com a crítica da realidade nos aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos. Em função disso, como visto, estabeleceu amplo debate entre a teologia e diferentes campos do conhecimento, o que possibilitou refutar formas de reducionismo e de absolutismo religioso ou teológico. Nesse sentido, está a referência à sua produção como teologia da mediação.
As experiências de vida que o fizeram confrontar-se com a realidade de sofrimento humano vivenciado de maneira especial com o nazismo e no período das grandes guerras mundiais destruíram a mentalidade liberal e o otimismo que possuía em relação às iniciativas humanas. Todavia, não obstante a isso, Tillich sempre insistiu na participação compromissada em projetos de transformação social.
Isso foi possível devido, entre outros fatores, à formação cultural dele, em especial as influências filosóficas do existencialismo e do marxismo, que ofereceram substancialidade ao seu pensamento teológico. A síntese criativa e crítica dessas perspectivas filosóficas possibilitou, por um lado, uma visão crítica da igreja e da sociedade e, por outro, participação ativa nos processos sociais, eclesiais e políticos de sua época.
Essa postura dialética, sintonizada com o profetismo bíblico, contribuiu para a formulação de conceitos que o autor aplicou para a compreensão da cultura e da história. Trata-se, principalmente, do princípio socialista, do princípio protestante, do Kairos, de teonomia, da situação-limite e da Comunidade Espiritual. A metodologia teológica do autor não poderia estar dissociada do conjunto de questões de sua vida, em função do peso da reflexão existencial por ele atribuída. A metodologia por ele proposta tentava oferecer respostas às indagações da situação humana, com a devida integração das dimensões existencial e social, o que garante relevância e substancialidade da produção teórica de Tillich, mesmo em outros contextos sociais e em outras épocas. O seu método da correlação procura explicar os conteúdos da fé cristã por intermédio de perguntas existenciais e de respostas teológicas em mútua interdependência.
As perguntas da existência humana e as respostas teológicas conduzem o ser humano a um ponto que não se refere a um momento no tempo, mas ao ser essencial do humano em sua unidade existencial que reúne a finitude humana e a infinitude divina. Nesse sentido, ficam destacadas as preocupações de Tillich com a cultura, com a história e com a busca do Incondicionado.
Tillich compreendia que somente as pessoas e os grupos que experimentarem o impacto da transitoriedade, a ansiedade gerada pela consciência de sua finitude, a ameaça do não-ser, as ambigüidades trágicas da existência histórica e questionarem radicalmente o sentido da existência, podem entender o que significam a Palavra e o Reino de Deus. Ainda que previamente, é possível concluir que o Reino de Deus, uma vez em correlação com o enigma da existência histórica, é o sentido, a plenitude e a unidade da história. A experiência de vida, o método teológico e a preocupação de Tillich em estabelecer uma relação da teologia com a cultura e com a história, e a busca incessante pelo Incondicionado, como Preocupação Última, são aspectos que o autorizam como interlocutor nas reflexões teológicas de hoje.
Cláudio de Oliveira Ribeiro é professor de Teologia na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista do Brasil.
NOTAS
| [1] | Para uma biografia de Paul Tillich há, em português, um excelente trabalho de Carlos Eduardo Calvani: "Paul Tillich: aspectos biográficos, referenciais teóricos e desafios teológicos" (pp. 11-35). In: VVAA. Paul Tillich: 30 anos depois. Estudos da Religião, 10(10), jul. 1995 e uma síntese razoável produzida por Batista Mondin: "Paul Tillich e a Teologia da Correlação". In: Os Grandes Teólogos do Séculos XX - Vol.2: Os teólogos protestantes e ortodoxos (pp. 65-88). São Paulo-SP, Paulinas, 1980. Veja também, entre as mais destacadas: Wilherm Pauck & Marion Pauck. Paul Tillich: his life & thought. Vol I. London-England, Collins, 1977; Hannah Tillich. From Time to Time. New York-USA, Stein & Day, 1973; From Place to Place, ibidem, 1976; William Nicholls. "Paul Tillich: theology on the boundary" (pp. 233-276). In: Systematic and Phillosofical Theology. Middlesex-England, Penguin Books, 1969; James Luther Adams & Thomas J. Mikelson (eds.). The Thought of Paul Tillich. San Francisco-USA, Harper & How Publishers, 1985; Rollo May. Paulus: Reminiscenses of a Friendship. New York-USA, Harper & Row, 1973; Félix Alejandro Pastor. "Itinerario espiritual de Paul Tillich: consideraciones ante un Centenario". Gregorianum (67), 1986, pp. 47-86. Os dados mais objetivos desse item referente à vida do autor, e que não se encontram nos escritos auto-biográficos de Tillich, foram extraídos dessas obras acima citadas. |
| [2] | Do inumerável elenco de suas obras, há em edição brasileira os seguintes livros: Teologia Sistemática: três volumes em um (São Paulo-SP, Paulinas, 1984), A Era Protestante (São Paulo-SP, Ciências da Religião/IEPG, 1992), História do Pensamento Cristão (ASTE, 1988), Perspectivas da Teologia Protestante dos Séculos XIX e XX (idem, 1986), A Coragem de Ser (Rio de Janeiro-RJ, Paz e Terra, 1976) e A Dinâmica da Fé (São Leopoldo-RS, Sinodal, 1980). |
| [3] | Exemplares são as duas obras editadas por Raymond F. Bulman & Frederick J. Parrela: Paul Tillich: a new catholic assessment. Collegeville, Minnesota-USA, The Liturgical Press, 1994; e Religion in the New Millennium: Theology in the Spirit of Paul Tillich; e outra editada por Mark Kline Taylor: Paul Tillich: theologian of the boundaries. London-England, Collins, 1987. Uma boa análise panorâmica dos estudos tillichianos considerando as principais interpretações de sua obra pode ser encontrada no artigo de Félix Alejandro Pastor. "La interpretacion de Paul Tillich". Gregorianum (66), 1985, pp. 709-739. |
| [4] | (Ed. Ruth Anshen). New York-USA, Simon and Shuster, 1967. |
| [5] | (Ed. Jerald C. Brauer). New York-USA, Harper & Row, 1970. |
| [6] | New York-USA, Charles Scribner’s Sons, 1966. |
| [7] | In: Charles W. Kegley & Robert W. Bretall (eds.). The Theology of Paul Tillich. New York-USA, The Macmillan Company, 1961 [1952]. |
| [8] | Cf. Paul Tillich. "Autobiographical Reflections", p. 3. |
| [9] | Cf. id. ibid., p. 6. |
| [10] | Cf. id. ibid., pp. 5-6. |
| [11] | Cf. Rollo May. Op. cit., pp. 37-48. |
| [12] | Cf. "Autobiographical Reflections", pp. 7-9. |
| [13] | Cf. Paul Tillich. On the Boundary: an autobiographical sketch. London-England, Collins, 1967 [1966], pp. 14-15. |
| [14] | Cf. "Autobiographical Reflections", p. 10. |
| [15] | On the Boundary, p.18. |
| [16] | Cf. id. ibid., pp. 15-19. |
| [17] | Cf. "Auto-biographical Reflections", p. 4. |
| [18] | Cf. On the Boundary, pp. 22-30. |
| [19] | Cf. "Autobiographical Reflections", pp. 10-11. |
| [20] | Cf. On the Boundary, pp. 81-90. |
| [21] | Cf. id. ibid., 46-58. |
| [22] | Cf. "Autobiographical Reflections", pp. 12-13. |
| [23] | Para uma descrição mais detalhada do movimento socialismo religioso veja a introdução à obra de Tillich The Socialist Decision (New York-USA, Harper & Row, Publishers, 1977 [1933], escrita por Franklin Sherman. Nessa introdução, o autor destaca os círculos de debates políticos (Kairos Circle, Hofgeisman Circle), em especial com Adolf Lowe, Carl Mennicke, Eduard Heimann, as publicações Blätter für Religiösen Sozialismus (1920-1927) e Neue Blätter für den Sozialismus (1930-1933), e a participação crítica de Tillich no Partido Social Democrata. A introdução destaca também os questionamentos de Tillich tanto ao marxismo-leninismo quanto ao reformismo próprio da Social Democracia, na busca de uma terceira via democrática e socialista. Veja também a análise de Eduard Heimann: "Tillich’s Doctrine of Religious Socialism". In: Charles W. Kegley & Robert W. Bretall (eds.). Op. cit., pp. 312-325. |
| [24] | Para a participação de Tillich na Escola de Frankfurt veja o texto de Roberto Palermo. "Uma organização itinerante: O Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt" (pp. 259-282). In: Domenico de Masi (org.). A Emoção e a Regra: os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950. Rio de Janeiro-RJ, Ed. UNB & José Olimpio Editora, 1999. |
| [25] | Cf. Wilhelm & Marion Pauck. Op. cit., pp. 67-75; Carlos Eduardo Calvani. Op. cit., pp. 15-16. |
| [26] | Cf. Wilhelm & Marion Pauck. Op. cit., p.p 57-65, 288; Carlos Eduardo Calvani. Op. cit., pp. 16-17; e Felix Alejandro Pastor. Op. cit., pp. 53-54. |
| [27] | Cf. Wilhelm & Marion Pauck. Op. cit., p. 288; Carlos Eduardo Calvani. Op. cit., pp. 18-19; e Felix Alejandro Pastor. Op. cit., pp. 55-56. |
| [28] | Cf. "Autobiographical Reflections", pp. 14-16. |
| [29] | Cf. Wilhelm & Marion Pauck. Op. cit., pp. 288-289; Carlos Eduardo Calvani. Op. cit., p. 19; e Felix Alejandro Pastor. Op. cit., pp. 56-57. |
| [30] | Para um aprofundamento dessa relação, a Sociedade Paul Tillich do Brasil realizou, em 1998, um seminário com o tema "Psicanálise, psicologia profunda e experiência religiosa". Os resultados estão publicados em Psicologia, Saúde e Religião em diálogo com o pensamento de Paul Tillich. Estudos de Religião, 13(16), junho 1999. Veja, especificamente, os artigos: "Paul Tillich e Psicologia", de James Farris (pp. 27-36); "Paul Tillich e Sigmund Freud: a coragem e o pânico", de José Tolentino Rosa(pp. 43-47); "A concepção de símbolo e de religião em Freud, Cassirer e Tillich", de Rui de Souza Josgrilberg (pp. 49-57); "O gnosticismo no encontro entre a psicologia junguina e o pensamento de Paul Tillich: considerações introdutórias", de Eduardo Rodrigues da Cruz (pp. 59-73); "Saúde, cura e salvação no pensamento de Paul Tillich", de Etienne Higuet (pp. 75-85); e "Cura e salvação em Tillich e Jung", de Josias Pereira (pp. 87-92). |
| [31] | Cf. Carlos Eduardo Calvani. Op. cit., p. 19. |
| [32] | Cf. Wilhelm & Marion Pauck. Op. cit., pp. 288-289; Carlos Eduardo Calvani. Op. cit., pp. 20-23; e Felix Alejandro Pastor. Op. cit., pp. 57-58. |
| [33] | Para maiores indicações veja: Paul Tillich. "Philosophical Background of my Theology" (pp. 411-420). In: MainWorks/Hauptwerke (ed.: Carl Heinz Ratschow). (= MW). Vol 1 – Philosophical Writings (ed.: Gunther wenz). Berlin/New York, De Gruyter – Evangelisches Veragswerk GmbH, 1989. |
| [34] | Cf. Carl Braaten. "Paul Tillich e a Tradição Cristã". In: Paul Tillich. Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX, pp. 22-27. |








