Paul Tillich e Alguns Conteúdos de Sonhos de Pacientes Epiléticos

Lucy Campos Piccinin

Introdução

Este texto é a tentativa de uma amostragem sucinta sobre as relações da psicologia e filosofia existencial segundo o pensamento de Paul Tillich. Além disso, buscamos ilustrar o existencialismo abordando alguns aspectos e síntese do pensamento da corrente filosófica de Kierkergaard relatando como efeito de ilustração alguns conteúdos dos sonhos de pacientes com epilepsia. Preocupa-se com o sentido e o objetivo das vidas humanas. São estudos científicos ou metafísicos sobre o universo onírico do paciente que traz nos sonhos as suas experiências interiores ou subjetivas pelas quais identifica a influência de suas experiências na sua existência e na fenomenologia. O homem não é planejado como objeto, ele se faz em sua própria existência [1] . É muito difícil compreender o mundo que vive, e não há nenhuma explicação final que pode ser dada para o fato de ele ser da maneira como é. A ameaça permanente de sofrimento dá origem à angustia e à descrença. Em meio do desespero e do desalento busca a liberdade. Kierkegaard contribui com a idéia do existencialismo de que não existe qualquer predeterminação com respeito ao homem, e que a indeterminação e a liberdade levam o homem à permanente angústia. O homem tem diante de si várias opções possíveis: é internamente livre posto que não se conforma ao pré-determinismo lógico. Examinemos este relato nd sonho de um paciente:

O paciente com 28 anos de idade, masculino, sofrendo crises desde a idade de 13 anos, descreve assim um de seus sonhos: "Sonhei que tinha asas e estava voando bem longe. Parecia um passarinho, queria ir embora e não voltar mais para casa". Comentário do paciente: "quando tenho crises eu vôo, também, como ocorreu em uma crise que tive durante a noite dormindo". O seu sonho é igual à crise que descreve durante o dia e dormindo. O paciente sente-se em movimento, com perda de consciência, com automatismos de membros superiores e inferiores, versão de olhos e liberação de esfíncteres. O exame clínico e neurológico apresentou-se normal. O exame psicológico mostrou distúrbios emocionais, fragilidade de lidar com situações novas e dificuldade de contato social justificando como desencadeantes das crises epilépticas.

Neste exemplo do conteúdo do sonho percebe-se que o paciente vive situações constrangedoras que o levam a sair da realidade, gerando sofrimento e desequilíbrio emocional. Examinemos agora o pensamento de Tillich. [2] Para ele, o existencialismo e a teologia contemporânea deveriam se aliar na redescoberta dos elementos da natureza do homem que foram suprimidos pela psicologia do consciente, e deveriam também analisar o caráter da existência em todas as suas manifestações tanto inconscientes quanto conscientes. O autor mostra em seu texto a importância do ser enquanto pessoa e a descoberta de si próprio desvendando a sua existência consciente e inconsciente. Enquanto o indivíduo sonha, por meio de processos inconscientes elabora conteúdos afetivos emocionais e cognitivos repensando a sua crença religiosa. “Toda leitura aos olhos da análise existencialista verá neles mais coisas do que era capaz de ver antes” [3] .

A psicologia analítica, bem como a sociologia analítica, mostraram como o destino e a liberdade, a tragédia e a responsabilidade estão entrelaçadas em todo ser humano desde os primórdios da infância em diante e em todos os grupos sociais e políticos na história da humanidade [4]

Para ilustrar este texto de Tillich, escolhemos o seguinte relato do sonho de uma paciente com epilepsia.

A paciente com 41 anos de idade, feminina, sofria de crises desde os 4 anos de idade. As crises noturnas, freqüentes, são seguidas de pesadelos. Relata: "Sonhei que meu pai estava chegando, e eu ia passear com ele e meus amigos todos os dias. Entrava em uma piscina e me sentia mal com fortes dores de cabeça e tinha uma crise epiléptica; fiquei nervosa e quebrei coisas na minha casa, me senti assustada e amedrontada". A paciente relata que durante a noite acorda com crises e há algum tempo têm ocorrido sonhos com a presença de figuras parentais e amigos falecidos na infância, ficando assustada e com medo. O exame neurológico não demonstrou nenhuma anormalidade. O exame psicológico apresenta medo, calafrios e pavor de água, além de ansiedade generalizada e depressão leve.

Este conteúdo do sonho mostra o envolvimento dos familiares e as lembranças de infância como cita Tillich. “O existencialismo, auxiliado pela psicologia de profundidade, descreveu a dialética dessa situação em termos de falta de paz, vazio e falta de sentido derivada dela” [5] . As pessoas precisam ter objetivo de vida para poder encontrar a presença do novo ser, acreditar que existe solução para seu problema e continuar a sua luta em busca de condições de existência como relata Tillich. “Sem dúvida tudo o que aconteceu numa pessoa acontece em e através de sua estrutura psicológica. Em todos os casos uma ocasião de encontro do Novo Ser com as forças de alienação, são alguns comportamentos psicológicos específicos que estão envolvidos” [6] . Aprende a lidar com o Novo Ser em Jesus como o Cristo. Melhora, assim, a qualidade nas modificações internas e externas. Nesse sentido, pode-se dizer que o conceito de Novo Ser restabelece o sentido de graça. Como Freud descreve a respeito dos sonhos.

No início deste século, Freud em seu livro A Interpretação dos Sonhos, sugeriu que os sonhos, como atividade mental que ocorrem durante o sono, seriam o único caminho pelo qual a motivação inconsciente poderia ser explorada. Os sonhos valer-se-iam das situações do cotidiano e, através deles, viriam à tona elementos inconscientes ou fatos reprimidos do sonhador [7] . Os conteúdos importantes relacionados à vida infantil e os desejos reprimidos costumam aparecer de maneira desorganizada ou disfarçada nos sonhos, admitindo-se que apor meio do estudo do sonho pode-se conhecer a capacidade de simbolização do homem [8] . Pode-se dizer que o sonho é também definido como atividade cognitiva, complexa e organizada apresentando imagens perceptuais e carregada de conteúdos emocionais [9] . O desenvolvimento humano não pode ser considerado só um estado de ser essencial, ele está presente em todo o momento existencial da vida do indivíduo simbolizado pelo mito, e pelo dogma projetado nos processos simbólicos inconscientes do sonhador. Tillich [10] relata que:

Sonhar é um estado da mente que é real e irreal ao mesmo tempo. O sonho antecipa o que é atual, de certa forma está presente no que é potencial. No momento de despertar, as imagens do sonho desaparecem como imagens e retornam como realidades encontradas. Por esses motivos a metáfora “sonhar” é adequada para descrever o estado de ser essencial.

Comenta, ainda, sobre a transição da essência à existência gerada pelas forças que conduzem à angústia. Kierkegaard usou este termo para descrever e não para explicar esta transição do “ser e do não ser” e de ser ameaçado pelo não ser. O autor explica ainda que tudo que ocorre com o ser e o sonho depende da experiência diária do indivíduo. Tillich recorre também aos primeiros estágios do desenvolvimento da criança em que aparece a experiência, responsabilidade e culpa.

Em termos psicológicos pode-se interpretar este estado de natureza essencial do homem como de “inocência sonhadora”. Este termo pode ser considerado pela falta de experiência atual, falta de responsabilidade pessoal, e ausência de culpa moral. [11]

Quando o indivíduo sonha uma determinada situação ele a interpreta pressupondo o pecado que ainda não é pecado nem mais inocência. É o desejo de pecar. Tillich chama este episódio “desejo” de “liberdade desperta”. Classifica-o como o indivíduo que se auto pune e se reprime em face do direito de sonhar. Osonhar sem culpa independe do tipo do sonho. Quando o sonhador decide assumir como descreve Tillich [12] o desejo de atualizar sua liberdade de sonhar equilibra o seu consciente e diminui a sua angústia. Tillich valoriza os primeiros estágios de desenvolvimento da criança quando a mesma toma consciência do crescimento da sexualidade, neste processo acontece um despertar que é a descoberta biológica. Experiência, responsabilidade e culpa são adquiridas e a criança perde o estado de inocência. A Bíblia mostra que a consciência sexual é a primeira conseqüência da perda da inocência. Tillich cita que não se deveria confundir esse uso metafórico do termo inocência com a falsa afirmação de que o ser humano recém-nascido está em estado de ausência do pecado. Ele considera que cada estágio da vida está sob as condições da existência. Para Tillich a palavra inocência sonhadora, é usada não só em seu sentido próprio, mas sim em sentido analógico. Quando utilizamos estes termos pode-se chegar ao estado de ser essencial ou potencial.

Tillich relata que o estado de inocência sonhadora [13] conduz para além de si mesmo e é experimentado como tentação e acontece com determinada indecisão e não é perfeição. Os teólogos ortodoxos amontoaram perfeição sobre perfeição no Adão anterior à Queda, tornando-o igual à figura de Cristo. Esta afirmação não só é absurda; torna completamente incompreensível a idéia de queda. Deus para Tillich é perfeito porque transcende a essência e a existência. O símbolo “Adão antes da Queda” deve ser entendido como a inocência sonhadora e a potencialidade indecisa.

O sonho ajusta-se ao relacionamento com os objetos do mundo real e a se viver no mundo real por meio de formas bastantes familiares, especialmente no modelo psicanalítico. Em contraste, porém, o fantasiar continua sendo fenômeno isolado, a absorver energia, mas sem contribuir quer para o sonhar quer para o viver [14] . Freud observou que o paciente inicia o processo da cura quando percebe a dissociação do que está acontecendo e toma consciência da importância de tornar-se uma pessoa total. Ao mesmo tempo, o fantasiar começa a transformar-se numa imaginação relacionada com o sonho e com a realidade. Pode-se dizer que os sonhos possibilitam acesso às áreas inconscientes da vida, para receber mensagens específicas pela energia que flui nas imagens oníricas com significados específicos [15] .

A associação livre foi o método utilizado por Freud no estudo dos sonhos, permitindo que o paciente falasse tudo o que lhe viesse à mente, sem nada omitir do seu conteúdo. Jung 1992, valorizava na interpretação dos sonhos as experiências do dia a dia do paciente. Tem- se admitido os sonhos como expressões importantes da dialética entre consciente e inconsciente, o que caracterizaria a dinâmica da vida psíquica, segundo a concepção desse autor [16] . A relação entre sonhos e crises epilépticas foi sugerida no início do século XIX, quando se descreveu o caso de um paciente portador de crises parciais psíquicas (déjà vu) durante o sono. [17] Nesses casos tem-se observado a associação entre descargas epilépticas do lobo temporal e as imagens produzidas no sonho [18] . A partir de 1950, foram iniciados estudos referentes aos conteúdos recorrentes da natureza aflitiva do sonho e a presença de descargas epilépticas concomitantes, [19] considerando a raridade na literatura abordando essa interessante associação de sonhos de pacientes com crises epilépticas.

A respeito da descoberta do inconsciente por Freud, Tillich percebe outras mudanças na autoconsciência humana com implicações para a moralidade, dada a influência dos instintos sexuais humanos. Isso provocou, aliado com a anti-religiosidade de Freud, forte antipatia em face das sociedades moralistas. Tillich afirma que este pensamento foi um dos responsáveis pelo surgimento das correntes existencialistas [20] . Tillich afirma ainda que o existencialismo, na arte, na literatura e na filosofia, foi uma das conseqüências da visão dominante do homem no presente período e é caracterizado pela interior contradição de um fim que é afinal produção do significado sem determinado fim. “O propósito interior do ser, que dirige o mesmo de acordo com sua natureza dada” [21] , como pode ser visto no exemplo do ser humano desde a concepção até o desenvolvimento natural biológico.

Tillich [22] distingue objetos lógicos e objetos existenciais. Todas as coisas podem se tornar objeto para alguém. Podemos fazer alguns comentários, “eu sou um objeto para você, e você é um objeto para mim (quando nós podemos olhar um para o outro). Mas este fato não significa que alguém possa transformar o outro em “mero objeto”. O ditador em um governo totalitário ou o experimentador em um laboratório de condicionados reflexos poderia desejar isso, mas não poderia realizar tal desejo. Isto leva à distinção entre objetos lógicos e objetos existenciais. Todas as coisas, inclusive Deus, podem se tornar em objeto lógico. Isso acontece ao falarmos sobre qualquer coisa. Mas o pensamento central de Tillich é que embora todas as coisas no mundo possam se tornar objetos lógicos, nada, entretanto, pode ser considerado mero objeto existencial. No entanto, o homem tem este poder de transformar, mesmo a si mesmo, em objeto que é somente objeto existencial. Tillich, relata que mesmo a natureza não pode ser considerada mero objeto, coisa. Por isso, o ser humano não pode ser contrastado com a natureza, como se apenas ele fosse mais que objeto existencial. Mesmo a natureza possui estruturas atômicas, moleculares e outras , ainda que o ser humano queira reduzi-la a meras coisas.

A idéia central do pensamento existencialista é que a existência precede a essência. Não existe nenhum Deus que tenha planejado o homem e, portanto não existe nenhuma natureza fixa a que o homem deva respeitar. O homem está totalmente livre de si mesmo e para ele, assim como havia pensado Kierkegaard. A liberdade e a responsabilidade são a fonte da angústia. Kierkegaard ao definir as causas de estados mentais como angústia e desespero relaciona-se com a psicologia antecipando asas posições de Sartre e sua crítica à psicanálise [23] .

Na angústia como relata Kierkegaard o homem experimenta a finitude da sua existência. Considera ainda que afastando-se das coisas supérfluas em que estava mergulhado fica nu, com liberdade para encontrar a sua própria morte preparando-se para ela. Essa visão existencial do homem, em que ele se conscientiza das estruturas existenciais a que está condicionado e que o tira da superficialidade em que desenvolve os seus conflitos tornou-se sedutora neste momento para a intervenção da psiquiatria.

Nos sonhos aparece a perda do eu que é a primeira marca considerada importante no processo de destruição e isto geralmente acontece com a perda do centro pessoal como relata Tillich: “O ser auto centrado é desintegrado” [24] . Com a perda do eu centrado, a pessoa perde seu mundo e sua unidade pessoal como um todo. Tillich confirma, tanto a pessoa como o mundo da pessoa experimenta a experiência de “cair em pedaços”, o eu- que é eu- vazio. Em meio aos sonhos segundo Freud a pessoa busca a reintegração e a recuperação deste “eu”. Observemos este outro conteúdo do sonho de um paciente com epilepsia.

O paciente com 35 anos de idade, masculino, apresenta crises desde os 12 anos de idade. Tem crises epilépticas dormindo e durante o dia. Diz que antes da crise epiléptica fica parado, encosta-se em algum lugar e depois continua em atividades normais. No momento está tendo sonhos constantes que se parecem com imagens e situações do dia a dia. Exemplo: tem muito medo de ter filhos com epilepsia e relata o seguinte sonho. "Sonhei que a minha esposa estava grávida e o meu filho nascia. Era um menino muito pequeno e tinha crise epiléptica e neste momento acordei percebendo que meu filho estava tendo uma crise”. Comenta o paciente: “percebia a criança, meu filho tendo crise nos meus braços movimentando-se realmente". A crise ocorreu conforme o comentário do paciente de acordo com sua preocupação de vir a ser pai e seu filho ter crise como ele. O exame neurológico foi normal. O exame psicológico mostrou que o paciente apresenta facilidade aos mínimos estímulos para enfrentar a realidade.

Este paciente no relato de seu sonho recupera o seu eu que na verdade é o seu vir a ser. Gostaria de ser pai só que vive a insegurança de ter um filho com epilepsia como ele. Tillich relata ainda que o que se considera liberdade na verdade é um amontoado de compulsões internas que externamente aparece simulado. A teologia clássica nomeia este processo de “escravidão da vontade” descrita por Tillich de “tentativa de usar a liberdade para desgastar a liberdade” [25] . Desse modo, o ser essencial humano é evitado. Resiste a unir a dinâmica com a forma, ou seja, “tanto na vida individual como social, religiosa ou cultural, existe uma fuga contínua da lei ao caos e do caos à lei” [26] . O sonho aparece na vida de cada ser humano essencial e existencial e é muito importante no desenvolvimento mental filosófico do indivíduo. Observemos este conteúdo de outro sonho de uma paciente com epilepsia.

A paciente com 24 anos, feminina, apresenta crises desde os 10 anos de idade. "Sonhei com os médicos que me atendem pedindo para eu vir na consulta". "Eu sonhei que vim à consulta e cheguei atrasada". "Sonhei com defunto, era de verdade; ele estava todo enfaixado e amarrado com fitas. Quando eu acordei achava que era verdade e que estava morto mesmo". Na noite seguinte "Sonhei que tinha uma máquina que adivinhava tudo o que eu queria e resolvia o meu problema de saúde, e eu tomava um remédio. Eu via um monte de coisas diferentes. Tinha vários riscos de todas as cores pareciam um arco iris". O paciente sonha a cores. O exame neurológico foi normal. O exame psicológico mostrou insegurança e dificuldade de lidar com conteúdos diários.

Tillich relata que o “ser só na finitude essencial” [27] expressa a completa centralidade do homem. É condição para a relação com outro e com o mundo. Kierkegaard mostra que a necessidade de privacidade e de intimidade própria do indivíduo é muito mais decisiva do que se pensa. É somente ali que o ser humano é encontrado. Kierkegaard chamou de nivelamento o processo pelo qual a pessoa individual se perde na enorme vacuidade da mente pública. Ao vivenciar esta realidade objetiva ou a “verdade, o indivíduo abandona a sua própria experiência intuitiva e a consciência se perde.” Se estudarmos a mente pública percebe-se pura abstração, porque o público é constituído de indivíduos em ocasiões em que nada são. O que Kierkegaard chamou de nivelamento, Tillich chamou de situação de heteronomia (condição de pessoa ou grupo que recebe de outrem a lei a que se deve submeter). Quando as pessoas ao abdicam de sua decisão pessoal, de sua escolha e responsabilidade, agarram-se ao prazer de fazerem partes do grupo. Já no existencialismo o ser humano autêntico é aquele que reconhece o dual entre o humano e o não humano, o mundo das coisas. Por existir o ser livre, o homem tem a possibilidade de ser ou não ser o que é. E o que faz o homem deixar de ser o que ele é, não é estar em desarmonia com afirmações ou opiniões sobre o que quer que seja. É inautêntico quando se transforma em coisa ou coisas, pela fuga ao impessoal e coletivo, ou mesmo pela fuga à indiferença. Tillich relata que “a pessoa destrói sua humanidade genuína e se torna um parafuso dentro da grande máquina de trabalho e prazer” [28] . Foi contra isso que Tillich sempre investiu: “Transformamos a realidade de acordo com a forma como nós a vemos. E nós vemos a realidade de acordo com a forma com que a transformamos” [29] . Tillich relata nesta fala que não podemos só considerar o que vem do novo, mas a capacidade de utilizar os órgãos sensoriais (sentimentos, emoções) para praticar o amor com a visão do novo ser transformado por ela. Trata-se da realidade que não é acrescida ao corpo, mas concebida a partir do corpo. Devemos agir para “chamar à existência as coisas que não existem”. Kierkegaard complementa este discurso enfatizando que: “Existe a melancolia e deve ser assim, porque, sem um traço de melancolia, todo o discurso sobre a vida do homem é rouco e destoado” [30] . Tillich em seus estudos relata que chegou à mesma visão. A coragem de ser é elemento da fé por ser a afirmação da confiança, condicionada mas. “A fé que torna a coragem do desespero possível é a aceitação da potência de ser, mesmo nas garras do não ser. O ato de aceitar a insignificação é em si; um ato significativo” [31] . O ato de fé, como explica Tillich, acontece de forma mais radical na coragem de ser. O indivíduo com sua vitalidade poderá suportar as dificuldades apresentadas como a determinada consciência de uma significação interna que destrói a significação. Por outro lado, nesta experiência insignificação e significação são interdependentes. Ela só é possível em contraste com a transparência do ser consigo mesmo. Esta é a razão de se buscar os conteúdos dos sonhos de pacientes com epilepsia. Em meio aos sonhos eles buscam resolver alguns conflitos significantes a respeito da existência de sua vida.


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A autora é doutora em Ciências da Religião pela UMESP.


[1]Cobra, Rubens – O existencialismo. Site cobra.pages.com.br. Internet, brasiliam, 2001
[2]Tillich, Paul, Teologia Sistemática, p. 265.
[3]Idem, p. 265.
[4]idem, p. 274.
[5]Idem, p.292
[6]Op. Cit. p.340
[7]Epstein, A W &Hill, W, Ictal Phenomena during Sleep of a Temporal Lobe Epileptic. p. 1185-1187
[8]Jackson, J. H., On Particular Variety of Epilepsy, p. 385-405.
[9]Carwright, RD, Dreams and their meaning, p. 184-190.
[10]Tillich, Paul. Teologia Sistemática. p. 269-272
[11]Op. Cit. p. 269-270
[12]Op. Cit. p. 269
[13]Tillich, Paul, Teologia sistemática, p. 269-272
[14]Freud, Sigmud, Sobre os sonhos p. 569-610
[15]Jackson, J. H., On a Particular Variety of Epilepsy, p. 385-405.
[16]Silveira, Nilse, O sonho In Jung: Vida e Obra. p. 103-117.
[17]Jaclson, JH, On a particular variety of epilepsy. p. 385-405.
[18]Epstein, Aw. Effect of certain cerebral hemispheric disease on dreaming. 603-605.
[19]Penfild, W & Jarper, H. epilepsy and functional anatomy of the Human Brain
[20]Tillich, Paul, The Spiritual situation in Our technical Society Georgia: Mercer University Press, p. 81, 1988
[21]Op. Cit. p. 78
[22]Op. Cit. p. 113
[23]Cobra, Rubens. O existencialismo. SITE Cobra.pages.com.Br. Internet, Brasília 2001
[24]Tillich, Paul. Teologia sistemática. p. 291
[25]Tillich, Paul, Teologia sistemática p. 293
[26]Op. Cit. 294
[27]Op. Cit. p. 299
[28]Op. Cit. p. 301
[29]Tillich Paul, Teoria sistemática, p. 71
[30]Kirkeaard, Soren, Das profu;ndezas –Preces, SP. Ed. Oalykinas, 1990, p. 43.
[31]Tillich, Paul, A coragem de ser . P. 36