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A Teologia dos Filósofos Gregos e a Teologia Cristã

Jaci Maraschin
  1. A palavra “teologia” significa pensamento a respeito de Deus. Em grego, logos de theos. O termo carrega em si a contradição fundamental de tratar logicamente o deus que, em princípio, não cabe na lógica. Por outro lado, nem sempre se pensou em deus ou nos deuses de maneira lógica. Os responsáveis pelo encerramento do pensamento a respeito da divindade em termos lógicos foram os filósofos gregos. E, em última análise, foi a metafísica que se fez teológica fazendo ao mesmo tempo que a teologia, conseqüentemente, se fizesse metafísica. Assim, metafísica e teologia fazem parte da mesma loucura da razão.
  2. Desde que se tem notícia da existência humana, sabe-se também que há pensamento. Mas nem sempre houve filosofia ou metafísica. O pensamento humano parte, obviamente, do humano. É o homem que se pensa a si mesmo antes de qualquer outra coisa. E começa a pensar como se fosse criança, inventando histórias, dançando e cantando enquanto se refletia e se interpretava na poesia. Como criança, também se maravilhava ao se dar conta de que existia sem saber porquê. E, mais ainda, não conseguia dar as razões do brilho das estrelas, do movimento das coisas nem das genealogias. E assim nasceu o mito. Aristóteles dizia que “o mito se compõe de maravilhas” (Metafísica, I, 2, 982 b).
  3. Dizem os historiadores que os gregos conheciam as civilizações orientais por meio do intercâmbio comercial. Teriam aprendido com os caldeus, egípcios e fenícios ciências como a geometria, a aritmética e a astronomia. Também se deixaram influenciar por seus mitos e poemas. Heródoto conta que os gregos aprenderam com os babilônios o uso do quadrante solar. A contribuição dos gregos ao pensamento antigo foi a lógica, em sua forma científica. Não quero dizer com isso que os pensadores mais antigos não tivessem percebido a necessidade de certas generalizações e da formulação de conceitos. Mas seu pensamento preferia as formas míticas às científicas ( no sentido atual do conceito). Segundo Rodolfo Mondolfo, os orientais estabeleceram certo programa para o futuro desenvolvimento do pensamento grego. Vieram deles as seguintes idéias: (1) unidade universal, baseada na idéia de unidade divina; (2) cosmogonia, representando a passagem do uno universal para a distinção dos seres; (3) o processo cosmogônico destinado a explicar a origem e desenvolvimento dos seres; (4) sentido de harmonia na natureza responsável pela união de todos os seres; (5) necessidade da lei capaz de governar todas as coisas e, (6) dualismo entre corpo e alma. (cf. O pensamento antigo, v. 1, p. 11).
  4. O pensamento humano começou a se estruturar por meio do mito. O mito narrava as experiências humanas a partir do relacionamento do corpo com a natureza. Oscilava entre o que se passava dentro do corpo e fora dele. Nossos primeiros ancestrais expressavam-se por meio da arte. A arte, pois, antecede o mito. É provável que as primeiras manifestações culturais tenham sido o canto e a dança. Canto e dança são fundamentalmente expressões do corpo. Daí, passa-se ao desenho e às pinturas. O corpo que dança no espaço livre também desenha e pinta. E o faz utilizando referenciais humanos.
  5. Segundo Carlos Alberto Nunes, tradutor da edição de Ilíada, de 2001 ( Rio, Ediouro) “tanto a Ilíada como a Odisséia representam a fase última do movimento épico da Grécia, firmando-se ambos os poemas em copioso material pré-existente, isto é, em poemas de proporções menores, em sagas, lendas, mitos de origem variada, que iam sendo incorporados a conjuntos cada vez mais complexos”( p. 10). Nesses dois poemas os deuses têm características humanas e intervêm nos negócios mundanos. Na Ilíada, o pai de todos os deuses eternos é o Oceano (XIV, 201). Tales de Mileto apenas transferiu o mito do Oceano para a linguagem lógica do elemento fundamental e primordial da realidade, a água. Homero viveu por volta do século VIII antes de Cristo. Já Hesíodo, no século VII da mesma era, introduz o conceito de caos na origem das coisas e os órficos, na mesma época, falam de noite e de cronos. As origens do mundo são contadas em obras poéticas como, por exemplo, a Teogonia de Hesíodo.
  6. A escola jônica, nos séculos VI e V, também se preocupou com a origem das coisas procurando-a no próprio mundo. Talvez tenha sido a menos teológica de todas, uma vez que se voltou para a matéria considerada viva. Tales, achava que essa fonte era a água; Anaximandro, o infinito; Anaxímenes, o ar e Heráclito, o fogo. No pensamento de Heráclito aninha-se certo princípio teológico uma vez que considera divino esse fogo e acredita na lei divina ou razão universal das coisas. A escola pitagórica, ( Pitágoras de Samos), nos séculos V e IV, já se mostra mística e religiosa, considerando a vida humana material expiação do pecado original e acreditando na transmigração das almas. A escola eleática é representada por Parmênides que desenvolve o pensamento teológico de Xenofonte segundo o qual a multiplicidade dos deuses desemboca na afirmação do único deus universal. Empédocles de Agrigento, no século V, estabelece a teoria dos quatro elementos, acrescentando a isso o miticismo órfico-pitagórico e a crença na transmigração das almas.
  7. Vou deixar de lado os sofistas porque não oferecem contribuição de valor ao tema que estamos estudando. Foram comunicadores e retóricos. Continuemos, pois com o pensamento de Sócrates. Muito embora nada tenha escrito, sabe-se dele pelo que os outros relataram a seu respeito. Assim, Platão, no diálogo Apologia, mostra o caráter sagrado da filosofia socrática, atribuindo ao mestre estas palavras: “Meus queridos atenienses, saúdo-vos, porém obedecerei antes a Deus do que a vós enquanto eu tiver alento...Pois sabei-o, isto me ordena Deus; creio que a cidade não tem maior bem do que este serviço que presto a Deus” (VVII, 29-30). Ao se referir à parturição das idéias, diz: “Deus me obriga a agir como obstetra, porém, veda-me de dar à luz.” ( em Teetetos, de Platão, 148-151). Xenofonte cita Sócrates sobre a libertação das necessidades. “Baseias a felicidade nas delícias e no luxo; em compensação, penso que o não ter nenhuma necessidade é coisa divina, e ter o menos possível é o que mais me aproxima do divino: pois bem, o divino é o ótimo; e o que mais se avizinha do divino é o que mais se acerca do ótimo”( Memoráveis, I, 6). Nessa mesma obra Xenofonte atribui a Sócrates esta frase: “Os deuses sabem tudo, seja o que se diz seja o que se faz ou que se delibera ocultamente, pois se acham presentes em todas as partes e dão aos homens indicações sobre todas as coisas humanas”( I, 1). Mais adiante, diria: “Deus é tão grande e poderoso que pode ao mesmo tempo, ver e ouvir tudo, estar presente em todas as partes e velar também por tudo” (I.4). E mais: “Esse Deus que dirige e ordena o mundo... só é visível para nós nas obras imensas que realiza; porém permanece invisível em tudo o que estabelece em seu concerto interior” ( IV, 3).
  8. Talvez o mais permanentemente influente pensador grego da antiguidade seja Platão, nascido em 427 e morto em 347. Achava que o corpo atrapalhava o conhecimento. Escreveu : “E quanto à procura da sabedoria, que dizes? O corpo não é impedimento?... [ a alma] dirige-se com todo o seu poder ao que é. - Justamente. - E por tal razão a alma do filósofo não é dificultada nem tem fastio do corpo? E não foge dele desejando isolar-se para permanecer só? “ (Fedon, X, 65). “E esta fuga é um assemelhar-se a Deus em tudo o que é possível; e este assemelhar-se é converter-se em justo e santo por meio da sabedoria”(Teetetos, XXV, 176). Assim se expressa no Timeu: “Tudo o que se gera é necessário que seja gerado por alguma coisa sem a qual não é possível que alguma coisa seja gerada... é evidente a todo homem que contemplou o eterno”(V, 28). Mais adiante: “Quanto à alma... Deus formou-a ... da maneira seguinte: da essência indivisível que está sempre do mesmo modo invariável, e da que é gerada para os corpos e divisível, destas duas, misturando-as entre si, fez uma terceira espécie intermediária....” (34c). O diálogo, Leis trata mais diretamente da existência divina. “Não te parece, hóspede, que é fácil provar que é verdade que os deuses existem? – E de que maneira? - ... a alma é anterior, nascida antes de todos os corpos... é necessário que, nesta alma, todo homem reconheça a Deus”(886-899). “Não estimemos a Deus nunca menos que aos artífices mortais”(902) “Deus e as coisas divinas são o sumo da perfeição”(República, II, XIX-XX, 380-381).
  9. Vamos examinar a seguir o mito da criação do mundo em Platão. Encontra-se, principalmente, no Timeu. “Explicávamos a causa pela qual o Criador criou a geração e este universo... E, colocando a alma no meio, estendeu-a por todas as partes do mesmo, e com ela envolveu-o completamente... E, assim criado, o corpo do Céu é visível e a alma, invisível, porém sendo partícipe de razão e harmonia, ela é, entre todas as coisas geradas, a melhor obra do melhor dos seres inteligíveis eternos”( VIII-IX, 34 e 37). “... dispondo-se Deus a formar o universo, fê-lo de terra e de fogo... arrredondou o mundo em forma de esfera... e foi gerado com muita arte... pois o Criador pensou que o mundo seria melhor bastando-se a si mesmo do que se tivesse necessidade de outras coisas...”( VII, 33 e 34).
  10. Platão acreditava na imortalidade da alma. Escreveu em Fedon: “Também de acordo com essa razão de que o nosso aprender não é senão recordar, é preciso ter aprendido antes o que se recorda no presente. E isto não poderia ser, se a nossa alma não tivesse vivido em outro lugar, antes de haver entrado nesta forma de homem; pelo que, ainda por esta razão, se torna evidente que a alma é algo imortal”(XVIII, 72 e 73). Achava que as almas puras voltam para o lugar de onde vieram, o lugar divino. ( Fedro, XXVIII-IX, 248). A alma boa “irá para o que lhe assemelha, para o que é invisível, para o que é eterno, divino, intelectual e imortal, aonde, chegando, será bem-aventurada, livre dos erros, da insensatez, dos temores dos selvagens amores e das outras desgraças humanas, passando todo o seu tempo com os deuses”( Fedon, XXIX, 81). As outras sofrerão o juízo. (Fedro, XXIX, 249). No Teetetos, Platão diz que é necessário procurar fugir quanto antes daqui para lá acima, onde estão os deuses. (XXV, 176).
  11. Aristóteles ( 384 a 322 antes de Cristo) começa sua reflexão filosófica com a crença na imortalidade da alma, na sua preexistência e substancialidade. Em sua obra, Sobre a filosofia, empenha-se em provar a existência do Deus supremo. Afirma que “o ser primeiro e sumo deve ser Deus, absolutamente imutável e, se imutável, também eterno”. Assim, “os primeiros que viram o céu e contemplaram o sol percorrendo o seu caminho, desde a aurora até o ocaso, e as danças ordenadas dos astros, procuraram um artífice dessa formosa ordenação, não pensando que pudesse formar-se ao acaso, mas por obra de uma natureza superior e incorruptível, que é Deus”( 12). Lemos na Metafísica: “Se existe algo eterno, imóvel e separado (da matéria), é evidente que compete a uma ciência teórica conhece-lo. Não é a Física, certamente , ( pois esta se ocupa de seres em movimento) nem a Matemática: mas a uma outra superior a ambas. A ciência primeira ocupa-se dos seres separados e imóveis ao mesmo tempo. É necessário que todas as causas sejam eternas, mas estas sobretudo, porque são as causas do que aparece nas coisas divinas. De maneira que haverá três filosofias especulativas: a matemática, a física e a teologia, pois não é difícil chegar a ter consciência de que, se o divino existe em alguma parte, existe em uma natureza de gênero semelhante, a ciência mais augusta deve ocupar-se do objeto mais augusto. Por isso, as ciências especulativas são superiores às outras , e esta, a todas as outras especulativas... ( VI, 1. 1026). No capítulo XII da Metafísica, afirma que “Deus é vivente eterno, ótimo... Pois isto é Deus... Mas é evidente, também, que é impassível e inalterável”(7, 1072 e 1073). No parágrafo 9 argumenta: “é claro que ele ( Deus) pensa o que há de mais divino e augusto e nunca muda, pois a mudança seria para pior, e já seria um movimento... Pensa, pois, por si mesmo, uma vez que é o ótimo, e o seu pensamento é pensamento do pensamento... E assim está ele sendo ação de pensamento que se pensa a si mesmo durante toda a eternidade”.
  12. A primeira grande escola pós-socrática chama-se epicurismo. Fundada por Epicuro (341-270 antes de Cristo, buscava o prazer puro sem dor. Seu fundador acreditava que os deuses existiam. Os seguidores dessa escola achavam que os deuses não traziam benefícios mas deveriam ser honrados “por causa de sua majestade extraordinária e por sua singular natureza”. Os estóicos ( Zenão de Citio, Cleanto de Assos, Crísipo de Soles e Diógenes, entre outros) também acreditavam em Deus. Diógenes achava que Deus era a razão seminal do mundo ( logos espermático). Achava, também, que Deus era “um animal imortal, racional, perfeito e inteligente em sua bem-aventurança, inacessível a todo mal, providência que governa o universo e tudo o que nele existe”. Cícero (106-43 antes de Cristo) representou o movimento eclético de maneira exemplar. Na obra, Tusculan, escreveu: “E, em verdade, nem o próprio Deus, que é por nós concebido pode conceber-se de outra maneira senão como inteligência ágil e livre, separada de toda composição mortal, que tudo sente e move, sendo ela mesma dotada de movimento eterno” (I, 30-31). Sêneca foi um dos principais representantes do estoicismo romano ( 3 antes de Cristo a 65 depois de Cristo). Dizia na Epístola a Lucílio: “É natural desdobrar o próprio pensamento até o infinito. A alma humana é coisa grande e generosa: não quer estabelecer limites para si se não forem comuns com Deus... Quando chegar o dia em que se desagregue esta mescla de divino e humano, deixarei o corpo aqui onde o encontrei, e me reunirei com Deus. Mesmo agora, não estou sem ele; mas sou prisioneiro do peso terreno” (102). Foi também importante, Epíteto que viveu até 125 de nossa era. Na obra, Diatribai, exclama: “Grande é Deus... Porque a maioria é cega, não deve haver alguém que encha esta terra e cante o hino a Deus, por todos? Que mais posso eu fazer, velho e coxo, se não elevar hinos a Deus? Se eu fosse um rouxinol cantaria como rouxinol, se fosse um cisne, como cisne; ora, sou um ser racional, por isso devo cantar hinos a Deus” (I, 16 e 17).
  13. A filosofia torna-se abertamente religiosa e teológica com Filo de Alexandria, com os neopitagóricos (Apolônio de Tiana e Filostrato) e com diversos tipos de neoplatônicos ( representados principalmente por Plotino).
  14. Há estreita relação entre o pensamento desses filósofos e a teologia cristã desde seu nascimento. Segundo Tillich, foi o helenismo o movimento que mais influenciou os novos teólogos. Entre esses destacam-se os estóicos, os epicuristas, os neopitagóricos, os céticos e os neoplatônicos. (1) Mas foram principalmente os pensamentos de Platão os formadores das bases da teologia cristã patrística. Tillich examina cinco elementos fundamentais nessa linha: o primeiro é o conceito de transcendência. As idéias eram para Platão as essências das coisas. Salta-se daí para o mundo idealizado tão apreciado pela religião protestante, por exemplo. Se as idéias e, com elas, a abstração, representam o real, as coisas terrenas perdem seu valor. O segundo elemento destacado por Tillich é, pois, “a desvalorização da existência”. Até hoje a igreja cristã enfrenta problemas relacionados com a compreensão do corpo humano e de seus desejos. O terceiro elemento é a doutrina da “queda da alma da eterna participação no mundo essencial ou espiritual, sua degradação terrena num corpo físico, que procura se livrar da escravidão desse corpo, para finalmente se elevar acima do mundo material”. O quarto elemento é a idéia da providência divina. Tillich nos alerta de que essa idéia recebida ainda hoje pelos cristãos como se tivesse nascida com sua religião, pertencia, na verdade, ao mundo grego antigo e se expressara com clareza nos últimos escritos de Platão. O quinto elemento presente na teologia cristã vem de Aristóteles: “ o divino é forma sem matéria, perfeito em si mesmo”. Segundo Tillich, Aristóteles “ entendia que Deus, a forma suprema ou ato puro ( actus Purus) , como o chamava, move todas as coisas ao ser amado por todas as coisas” e que “a realidade toda deseja se unir à forma suprema, para se livrar das formas inferiores em que vive, na escravidão da matéria”. Esse Deus aristotélico entrou na igreja cristã e exerceu enorme influência principalmente na formulação da teologia medieval. (2)
  15. A aliança entre a filosofia e a teologia foi motivada por razões apologéticas e, até mesmo agora, ainda depende disso. Assim, um dos movimentos mais importantes na história do pensamento cristão chama-se “apologético”. Os movimentos apologéticos funcionam como ratoeiras. Dá-se ao adversário certo crédito baseado no pressuposto de que suas idéias e crenças são, em última análise as mesmas do inimigo. Acreditam na existência de verdades comuns. Entretanto, tal boa vontade funciona como isca. É nessa possibilidade que se fundamentou o movimento missionário do século dezenove e que, anacronicamente, ainda funciona hoje em certos setores da igreja cristã. O apologeta diria ao pagão que, na verdade, sua negação de deus é da mesma natureza da negação cristã da idolatria. Por que, então, não se renderia o pagão ao compromisso cristão? A argumentação opera apenas de um lado. O apologeta diz ao adversário que ele está no caminho certo e que bem poderia dar um passo a mais, pois o cristianismo seria o “cumprimento das expectativas e desejos do paganismo” . Nesta perspectiva, a teologia da libertação, do século vinte, fazia a mesma coisa. Achava que, em última análise, o marxismo só se consumaria no ideal do reino de Deus. Um dos mais notáveis apologetas da igreja primitiva foi Justino Mártir. Chegou ao paroxismo de afirmar que “tudo o que já foi dito sobre a verdade pertence a nós, cristãos.” Estava aí o germe do totalitarismo e da supremacia de uma religião sobre todas as demais, coisas que o catolicismo romano, no Ocidente, e a ortodoxia, no Oriente, assumiriam sem restrições.
  16. Mas mesmo no protestantismo a teologia tendeu ao totalitarismo, não apenas entre os grupos mais conservadores mas também entre os assim chamados progressistas. Esse totalitarismo esconde certo desejo triunfalista que se vê, por exemplo, na tentativa de dar nomes ao que já possui nomes. Trata-se, na verdade, de rebatizar as atividades culturais. É o que faz Tillich quando afirma que a famosa pintura de Picasso, a Guernica, é a mais protestante das obras de arte. Ou quando, à maneira de Justino Mártir, se diz que todos os comportamentos humanos conscientes da angústia e, portanto, expressivos do tédio, representam as intuições teológicas do pecado e do abandono de Deus ( do deus cristão, no caso!).
  17. Os apologetas cristãos estão por toda a parte. Se por um lado estendem a mão com simpatia para os não-cristãos, o fazem para puxá-los para seu rebanho. O mundo pagão sempre esteve povoado por deuses que tomam formas humanas e agem no meio dos seres humanos para depois retornar ao Olimpo. O imaginário da encarnação não foi, portanto, criação dos primeiros teólogos cristãos. O que trouxeram de original, nesse contexto cultural, foi a idéia de que a verdadeira encarnação de Deus se dera no homem Jesus, e que nele Deus se encarnara de maneira absoluta e final. Essa crença fez com que os cristãos se imaginassem acima dos outros religiosos de sua época e de todas as épocas.
  18. O confronto dos pensadores cristãos com a filosofia grega originou a teologia cristã. Mas os teólogos não se deram conta de que essa nova disciplina trazia no seu interior as sementes destruidoras da metafísica que lhe servia de base. Entende-se a partir daí que na história do pensamento ocidental os filósofos sempre se sentiram atraídos pela teologia e os teólogos pela filosofia. Talvez não se possa falar em sentido estrito, no casamento dessas disciplinas. Mas não se pode conceber uma coisa sem a outra. É por isso que Heidegger, ao considerar a superação da metafísica no século vinte precisou insistir, ao mesmo tempo, na superação da teologia. Isso significa que o pensamento filosófico terá de carregar consigo, positiva ou negativamente, a questão de Deus e que, por outro lado, os teólogos terão de retornar, mais cedo ou mais tarde, ao conceito de ser mesmo quando, como no caso de Jean-Luc Marion se propõe um “Deus sem ser”, (3) ou, como no caso dos filósofos ateus como Marx ou Nietzsche se proclame a rejeição ou a morte de Deus.
  19. Quero indicar, agora, a principal diferença entre a teologia dos filósofos gregos e a teologia da igreja cristã. Os filósofos gregos argumentaram a partir da intuição da razão e da experiência de deslumbramento ou encantamento em face da realidade. Suas conclusões nunca se submeteram ao julgamento de assembléias de classe ou de poderes heterônomos. É certo que no período pós-socrático organizaram-se em comunidades mais ou menos coesas e fechadas mas sempre evitaram o proselitismo. Não tinham poder de excomunhão dos que se opunham a seus pensamentos. Não criaram dogmas nem catecismos. Os teólogos cristãos submeteram seus pensamentos ao julgamento heterônomo das autoridades elcesiásticas e suas reflexões sempre foram policiadas por concílios, sínodos, bispo, autoridades eclesiásticas e pelo Papa. É por isso que o conceito de heresia assume enorme importância na igreja cristã e vem até nossos dias servindo de parâmetro para o julgamento do que identifica e do que não identifica o pensamento cristão correto. Não é necessário relembrar aqui a história das perseguições dos dissidentes nem das fogueiras armadas para queimar bruxas e contestadores.
  20. Com a morte da filosofia e, conseqüentemente, da metafísica, morre também a teologia. Mas não morem os filósofos nem os teólogos. Não morrem porque se transformam em comentadores do tempo passado. Mais ou menos como aconteceu no período que vai da destruição de Roma até o século nono de nossa era ou, ainda, como se deu no final da filosofia grega quando o pensamento se tornou eclético. É por isso que hoje os teólogos que ainda resistem em face dessa morte tendem ao sincretismo ou camuflam a esterilidade do pensamento teológico tentando mantê-lo vivo por meio de outras disciplinas ou atividades como, por exemplo, a ciência, a arte, a sociologia, a economia, a literatura e a psicologia.
  21. A relação arqueológica entre a teologia dos filósofos gregos e a teologia moribunda de nossos dias dá-se no plano da saudade. Mas nem todas as pessoas se alimentam disso. Os saudosistas continuarão a se lembrar do passado com o desejo de trazê-lo de volta ao tempo presente. Não é isso que faz, por exemplo, Pannenberg? Não é assim que funcionam as encíclicas papais? Não é dessa maneira que se expressa o pensamento de Habermas? Não é dessa “substância” que se alimentam nossas faculdades de teologia e de filosofia?
  22. Não tenho nenhuma dúvida de que continuaremos a perguntar pelo sentido da vida porque estamos viciados a buscar sentidos. Continuaremos também a buscar certezas como sempre fez a filosofia moderna e a teologia tradicional. Continuaremos a estabelecer tribunais para decidir a respeito do que pode ser considerado verdadeiro ou falso. Mas quem julga tais tribunais? A que poder superior eles respondem? E se não houver nenhum poder superior? Além disso, os tribunais de julgamento também se julgam a si mesmos e, conseqüentemente, se excluem mutuamente. Como as igrejas. Como os que interpretam a bíblia e outros documentos conciliares. Se tudo é interpretação, qual seria a diferença entre a minha interpretação e a interpretação dos outros? Não seria o grau de poder de cada um?
  23. É por isso que em lugar de perdermos tempo com teologia e metafísica seria melhor se nos voltássemos para a vivência de nossas experiências religiosas e estéticas para perceber no seu mistério e beleza a presença do sagrado a iluminar a nossa vida com sua graça. Nesse sentido, a religião e a arte se confundem. Serão expressões da cultura? Por certo. Embora não sejam as únicas expressões da cultura, são elas, no entanto, encarregadas “pelos deuses”, como diria Heidegger, para nos levar aos lugares e às situações onde a vida se torna alegre, bela e agraciada pelo poder de Eros. Essas experiências não precisam de dogmas nem de catecismos. Pertencem ao reino da fruição e da imaginação mais do que da razão.Não estou descartando, dessa maneira, as atividades litúrgicas das igrejas. Mas estou propondo que elas se transformem em momentos de beleza e abandonem a tendência racionalista da pedagogia e da apologética em favor da estética e da contemplação. Tais experiências não têm limites. Incluem todas as religiões e todos os espaços culturais. E, finalmente, pertencem ao corpo.

Notas

História do pensamento cristão, trad. de Jaci Maraschin, São Paulo, ASTE, 2a. edição, 2000, p. 25 e 26.

Idem, p. 28 e 29.

God Witholut Being, Chicago and London, The University of Chicago Press, 1995.


O autor é professor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da UMESP e vice-presidente da Sociedade Paul Tillich do Brasil. É também sacerdote da Igreja Anglicana.