Conversa com o editor
Em vez de "apresentação" estou, testando neste número 5 de Correlatio, algo menos burocrático e formal. A tarefa do editor de qualquer revista acadêmica envolve inúmeras facetas que vão desde a busca de colaboradores de qualidade até a revisão dos textos e, no caso desta revista eletrônica, o trabalho em parceria com o que se chama em inglês web master ( por que não se cunhar um termo equivalente em nossa língua?). A "conversa do editor" é, naturalmente, com os leitores. Sei muito bem que precisa ser mais do que mera "apresentação" do conteúdo da revista. Nesta semana em que estávamos preparando esta edição, alguns estudantes de pós-graduação me perguntaram por que tanta ênfase em Paul Tillich. Afinal, trata-se, em primeiro lugar de um alemão que passou boa parte de sua vida nos Estados Unidos. Em segundo lugar, dialogava com o pensamento filosófico europeu e com teólogos do Primeiro Mundo como, por exemplo, Barth e Bultmann. Finalmente, porque escreveu sua obra em alemão e inglês, tornando-a inalcançável para a maioria dos mortais que vivem em outras culturas e falam outras línguas. Poder-se-ia acrescentar outras objeções. Cada leitor terá, certamente, as suas. Não me sinto representante de seu pensamento nem tenho interesse e propagá-lo. Mas, por outro lado, não me vejo traindo minha cultura e meus compromissos com o tempo presente, ao estudar sua obra. Temos a nossa "Sociedade Paul Tillich do Brasil" como tantos outros pesquisadores têm seus grupos sobre Platão, Wittgenstein, Husserl, Barth, Boécio, para citar apenas alguns. Estudar o pensamento dessa gente não significa segui-los como se fossem fundadores de religiões.
Mas por que estudá-los? Em primeiro lugar, porque os encontramos no meio de nosso caminho. Em segundo lugar, porque nos chamaram a dialogar com eles. Não que seus fantasmas nos tivessem aparecido. Mas porque suas propostas nos intrigaram ou nos provocaram. Em terceiro lugar, porque nos ajudaram a perceber seus enganos, suas limitações e suas incoerências, mostrando-nos que qualquer tipo de pensamento é sempre datado, localizado, ideologicamente comprometido e transitório.
No caso de Paul Tillich, dois de nossos professores aqui da Pós-Graduação em Ciências da Religião relacionaram-se com ele de maneiras diferentes mas marcantes. Um deles foi seu aluno em Nova York. O outro escreveu sua tese de doutorado sobre seu pensamento. Esses dois professores encontraram-se aqui em Rudge Ramos e se surpreenderam mutuamente de ter andado no mesmo caminho. Em seguida, perceberam que muitos outros também percorriam a mesma via. Fomos tocados por suas propostas. E elas nos pareceram provocativas. Descobrimos que em outras universidades havia também estudantes escrevendo dissertações e teses relacionadas com seu pensamento.
Tillich teve seu tempo como qualquer outro pensador. A gente sabe que ainda há gente que quer pensar como Platão, ou como Calvino, ou como Hegel. Nós, neste revista e na Sociedade Paul Tillich não queremos pensar como Tillich. Queremos apenas pensar. E, se nossos artigos se referem a ele, é porque ao partir de suas propostas nos animamos a criar as nossas propostas. É por isso que nossas páginas não se limitam apenas a essa "correlação". Queremos que a correlatio vá mais adiante.








