Devoção e Romaria à Santíssima Trindade - Um Olhar Simpático na Perspectiva de Paul Tillich

Etienne Higuet

Resumo

Na primeira parte, analisamos a piedade popular católica relacionada com as imagens da Santíssima Trindade, por meio de dois exemplos no Brasil central. Na segunda parte, tecemos alguns comentários teológicos sobre as implicações da experiência descrita acima, em torno dos modos de percepção de Deus: monoteísmo, politeísmo ou trindade? Enfim, procuramos pontos de contato no pensamento sistemático de Paul Tillich, para valorar positivamente o potencial simbólico da devoção às Personae da Trindade – incluindo a virgem Maria – entendidas como santos ou mediadoras do divino.


Abstract

The first part of this essay deals with catholic popular piety in relation to the Most Holy Trinity images, using two examples collected in the central region of Brazil. The author offers some theological commentaries , in the second part, on the implication of what he described before, considering some modes of perceiving God: motheism, poitheism or Trinity? After that, he seeks points of contact with Paul Tillich thought in order to evaluate positively the symbolic potential of devotion to the Trinitarian Personae, including the Virgin Mary, understood as saints or mediators of the divine.


1. Política, devoção e romaria no Brasil central


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Destacamos, para os fins desse estudo, dois santuários importantes, um em Minas, o outro em Goiás, com suas respectivas imagens da Trindade e expressões do catolicismo popular.

A capela da Santíssima Trindade foi construída em 1810, em substituição à primitiva capela de 1776, na Fazenda de Pombal (hoje Cidade de Tiradentes), em São João Del Rei, no Estado de Minas Gerais. Recebeu, mais tarde, o título de Santuário da Santíssima Trindade. O altar-mor possui belíssima imagem do Pai Eterno em tamanho natural, única no Brasil, vestida a maneira do papa da idade média, venerada em procissão na festa que se realiza anualmente entre maio e junho.

O alferes Tiradentes, herói fracassado da independência brasileira, que era devoto da Santíssima Trindade e rezou certamente por várias vezes em frente a esta imagem, exigiu que na bandeira da Nova República, idealizada pelos Inconfidentes, tivesse o triângulo da Trindade. O símbolo acabou sendo usado posteriormente na bandeira do Estado de Minas Gerais. [1]

Um dos primeiros momentos da devoção - e talvez o principal, é depositar, respeitosamente, um beijo na santa imagem do Pai Eterno, assentado, de tiara papal, com paramentos de romano pontífice. No peito, a pomba, figuração do Espírito Santo. As mãos da imagem do Pai apontam para a imagem do Cristo crucificado que fica em cima do altar-mor, na altura das mãos do Pai Eterno. O povo vem agradecer benefícios, pedir favores ou simplesmente demonstrar sua fé, ou se apresenta diante daquele cuja imagem “encarna” o Pai Eterno, certamente capaz de aliviar suas dores ou minorar suas misérias. Além da imagem, os romeiros beijam as fitas coloridas que descem das mãos do Pai e levam talvez algum pedaço de fita para com ele “fazer chá milagroso”. Deixam bilhetes pedindo favores: cura, proteção, tirar a bebida, casamento, emprego... e também algum dinheiro. A fila dura horas... Sobre o beijo, seu Raimundo diz: “O beijo é em agradecimento. Eu não tenho condições de beijar meu Pai do céu, então beijo esta imagem. Poderia também beijar uma árvore ou uma pedra”. Um outro romeiro acrescenta: “O principal aqui é a veneração da imagem. Nós sabemos que a imagem é de madeira, é fabricada. Mas nós a veneramos porque representa a Deus Pai. É meio para nos lembrar de Deus. Nós viemos aqui venerar a Trindade”. Na procissão, a imagem do Pai Eterno é acompanhada pelo crucifixo com a imagem do Filho e pela imagem de Nossa Senhora. Para os romeiros, a imagem é o centro da peregrinação. Muitos reconhecem não entender nem conseguir explicar a Santíssima Trindade, mas sabem o que significa o beijo e a procissão. A maioria vem porque fez um voto, uma promessa e vem “pagar” a graça conseguida. O beijo não é dado às três pessoas da Santíssima Trindade, mas à imagem do velho Deus Pai sentado, geralmente confundido com uma santa apesar das longas barbas. “Vou beijar a Santa”, dizem os romeiros. Os bilhetes são dirigidos “à minha mãe Santíssima Trindade” ou ainda a “Nossa mãe de braços abertos”. Pensam provavelmente que se trata simplesmente de Nossa Senhora. A igreja tenta há muito tempo instruir o povo sobre o dogma do deus uno em três na pregação, mas sempre em vão.

Para agradecer pelas graças recebidas, os fiéis deixam algum “signo” na sala dos milagres, junto ao santuário: moldes de cera ou gesso de partes curadas do corpo humano, muletas de madeira e outros aparelhos para problemas de locomoção, milhares de quadrinhos e quadros, de diversos tamanhos, com fotografias dos agraciados, inúmeras peças de vestuário, sempre com uma carta contando o ocorrido. [2]

No arraial de Barro Preto, no interior do Estado de Goiás (não muito longe do local atualmente ocupado pela nova capital do país, Brasília), por volta de 1840, surgiu uma outra romaria do divino Pai Eterno. [3] Um casal de camponeses (Constantino Xavier Maria e sua mulher Ana Rosa de Oliveira), que se reunia diariamente com vizinhos para rezar o terço diante de uma medalha de barro (de oito por dez centímetros), deu início à mais importante manifestação religiosa do Brasil central. No medalhão que, segundo a lenda, teria sido descoberto de modo milagroso no chão de um pasto [4] , estava gravada a imagem da Santíssima Trindade coroando a Virgem Maria: uma “quaternidade” que não podia deixar de ser considerada como o “Santo mais poderoso”. Com os primeiros milagres foi crescendo o povo dos devotos, de modo que a casa familiar logo ficou pequena e foi preciso construir uma casa de oração, com telhado feito de folhas de buriti. No decorrer do tempo foram edificadas várias igrejas, até a imponente basílica recém-inaugurada. O pequeno povoado no meio do sertão tornou-se uma cidade, que responde agora pelo nome de Trindade. No dia da festa, ela recebe mais de oitocentas mil pessoas, vindas do Brasil inteiro ao termo de uma “caminhada para chegar mais perto de Deus”.

A idéia primeira do escultor da medalha deve ter sido de mostrar a glória de Maria, elevada aos céus, o que não passa de uma representação católica tradicional, mas o povo enxergou apenas a figura do Pai Eterno. Talvez porque, na mentalidade patriarcal, o “chefe de família” representa a casa inteira. Apesar das múltiplas tentativas dos padres, os devotos nunca aceitaram dirigir-se à Santíssima Trindade como a um todo. Aliás, muitas vezes, o Pai Eterno é distinguido do Deus Eterno, inacessível. É importante observar que a devoção se desenvolveu no interior do sertão, sem a presença de nenhuma autoridade clerical e que o movimento religioso já congregava dezenas de milhares de pessoas quando os bispos começaram a interessar-se por ele. O catolicismo popular tradicional no Brasil era essencialmente uma religião de leigos, transmitida de pai para filho, em razão da ausência secular da assistência pastoral do clero longe das cidades, a não ser de maneira esporádica para batizados, casamentos, confissão e comunhão. Quando, no fim do século XIX, Dom Eduardo Silva, um “bispo reformador” quis “cristianizar” (ou melhor, “romanizar”) a festa pela força, tentando apagar seus aspectos “pagãos”: jogos, bailes, bebidas e “moralizar” o acesso à igreja, quase provocou uma revolução dos devotos. A imagem foi retirada e o santuário chegou a sofrer a pena do Interdito. Voltando a paz, foi entregue aos cuidados dos Padres Redentoristas recém-chegados da Europa, que tomam conta dele até hoje.

O medalhão de barro desgastou-se rapidamente pelo beijar de tantos romeiros, pelo toque das mãos, de partes doentes de corpos de enfermos e de milhares de outros objetos que os devotos apresentavam, crendo serem abençoados pelo simples contato com a peça sagrada. Já por volta de 1850, foi substituído pela imagem de madeira que nos mostramos. No início do século XX, foi feita a cópia atualmente oferecida à devoção dos fiéis, menos rústica e com alguns acréscimos, como as coroas do Pai e do Filho. O medalhão de barro desapareceu sem deixar vestígios e reapareceu curiosamente em 1990, do mesmo modo misterioso, aliás sem suscitar o interesse dos devotos.

Para o devoto importa, unicamente, que a Imagem Sagrada está no altar e que, por ela, o Pai do Céu escuta suas preces, acolhe suas súplicas e conforta seu coração. A fé se traduz em visível intimidade de amor/amizade entre o devoto que reza e a Divindade que escuta, escondida pelo véu da imagem. Da parte do fiel há uma total liberdade de chegar, falar, gesticular, como se fala a uma pessoa. A devoção é única e exclusivamente direcionada ao Pai Eterno. Os devotos nem se dão conta de que, na imagem, existem outras figuras que compõem a Trindade e ainda a Virgem Maria. O Divino Pai Eterno é, para essa gente, uma “pessoa” muito íntima, com quem se pode conversar e contar os problemas, chorar as tristezas e queixar as mágoas. Já que não se pode mais beijar a imagem, os devotos – depois de ficar de cinco a seis horas na fila - beijam apenas a fita vermelha que desce do nicho, como se “selassem” sua oração, seu pedido e seu agradecimento com o beijo. Para eles, a fita é “a mão do Divino que desce pra nóis beijá”. “A noção do Deus Eterno, oculto entre as nuvens, não preenche os anseios do romeiro, o Divino Pai Eterno sim, independentemente de estar ou não diante de Sua imagem. O romeiro sabe que o invocando com essa expressão singular, invoca o Deus Eterno, o Criador, que tudo pode, longe da coisa abstrata. Com Ele pode falar, com ele pode conversar e queixar, se preciso for”. [5]

“O romeiro fazendo a caminhada por muitos e muitos quilômetros, entrando na igreja de joelhos ou soltando o foguete de sua promessa, encontra-se plenamente saciado de sua carência espiritual”. [6] Entre as múltiplas formas de cumprir promessa (pelo traje vestido, pelas ofertas mais diversas, como leitões, bezerros, alimentos, café etc) a mais comum é vir a pé a Trindade. “A caminhada, como qualquer outra promessa, é ato transcendental de penitência e humildade. Esmaga-se o corpo no cansaço, liberta-se o espírito pela satisfação da graça recebida e da promessa cumprida”. [7] Nesse sentido, a romaria aparece como um ritual de iniciação, uma passagem da morte para a vida, da distância para a proximidade e a identificação mística com a divindade.


2. Comentários teológicos.


2.1. Monoteísmo e politeísmo

A Bíblia não fala em monoteísmo. Esse conceito faz parte da linguagem abstrata dos filósofos. A gradiente monoteísmo - politeísmo é um tipo ideal, que abrange, na realidade, uma gama de situações intermediárias, concretamente presentes na diversidade religiosa. Não se pode dizer que a religiosidade popular brasileira seja politeísta. Todos os católicos acreditam num único Deus, criador do universo, mesmo quando são, ao mesmo tempo, adeptos do espiritismo, do candomblé ou da umbanda. O problema é que esse Deus é um Deus distante, um « deus ocioso ». Como entrar em contato com ele? No catolicismo popular, a devoção aos santos, em particular à Virgem Maria, a Mãe do Senhor, permite transpor a distância que nos separa de Deus. [8] Na mentalidade dos fiéis, a divinas pessoas da Santíssima Trindade, consideradas separadamente ou em bloco, podem, às vezes, ser assimiladas a santos particularmente poderosos, aos quais se recorre em casos de extrema necessidade. Assim, nos dois exemplos escolhidos, o Divino Pai Eterno é visto como um santo qualquer, talvez mais poderoso que os outros. Há festas e romarias às outras pessoas da Trindade isoladamente: ao Bom Jesus e ao Divino Espírito Santo, a Nossa Senhora, a São Francisco ou ao Padre Cícero... Na piedade popular, todos esses santos foram em algum momento “sincretizados” com um ou outro “orixá” ou entidade divinizada de origem africana.

Ao contrário da relação com Deus, cada pessoa escolhe o seu santo de devoção ou, antes, sente-se escolhida por ele e estabelece com ele um pacto de aliança ou associação, permanente ou temporário. Trata-se sempre de uma troca de favores, sancionada por uma espécie de contrato: promessas para conseguir resolver problemas de saúde, de família ou de emprego... O acesso do devoto ao santo é pessoal, imediato e exclusivo: por intermédio de uma estátua ou imagem bem definida. Os principais santos, como Nosso Senhor e a Virgem Maria possuem títulos múltiplos, geralmente vinculados a determinados santuários, que designam santos diferentes. O Bom Jesus de Pirapora não é o Bom Jesus da Lapa, menos ainda o Senhor do Bom Fim; Nossa Senhora Aparecida distingue-se da Rosa mística ou da Desatadora de nós. A relação “contratual” não deixa de lembrar os relacionamentos tumultuados entre Javé e Israel. O cristianismo trocou a proximidade com Javé pela intimidade com Jesus. Aos poucos, o próprio Jesus, o Cristo, assumiu também atributos divinos e tornou-se cada vez mais distante. Só existe acesso a ele através de um título, de uma imagem e de uma localização particular. No Brasil, desde as origens, a necessidade de contato pessoal e íntimo com a divindade manifestou-se pela devoção aos santos, institucionalizada nas Irmandades e Confrarias, que davam também uma identidade aos grupos sociais e étnicos. Assim, os escravos africanos elegeram santos com os quais podiam mais facilmente se identificar, como São Benedito, Santa Ifigênia, Santo Antonio de Catigeró, e que representavam e ocultavam, ao mesmo tempo, os orixás ou os ancestrais. Quando Deus e Cristo tornam-se princípios metafísicos, só resta, para os pobres e os oprimidos, a possibilidade de dirigir-se aos santos ou, eventualmente, de dirigir-se a Deus (Pai, Filho e Espírito) como a um santo.

O relacionamento familiar com o divino inclui a necessidade de ver, ouvir, contemplar, tocar, beijar, apalpar com as mãos (Cf. 1 Jo 1,1). A fé e a devoção expressam-se com o corpo inteiro. A religião é constituída, antes de tudo, de gestos ou ritos, isto é: de expressão corporal. O divino manifesta-se concretamente em objetos e em pessoas (como a Bíblia ou o papa) e só excepcionalmente por meio de aparições. Em vez de ver nas figuras, imagens, representações, pessoas e símbolos expressões idolátricas ou supersticiosas, não poderíamos reconhecer mediações necessárias do Deus supremo? Nenhuma imagem esgota o seu mistério insondável, porém, cada representação evoca um raio da sua luz. É por esse motivo que a teologia oriental e a mística distinguem da essência divina, as energias divinas representadas pelas figuras trinitárias. Na devoção popular, isso se manifesta ainda pelo caráter intercambiável das figuras: conforme o lugar e as circunstâncias, Jesus e o divino Espírito Santo podem também ser chamados de Pai.

Do mesmo modo, na religião afro-brasileira, a divindade suprema, Olorum, que a tudo preside, está presente em cada pessoa e nas situações que as medeiam, através dos orixás, que não são deuses, mas expressam as muitas maneiras e modos de Deus ser. [9] Os orixás são mediadores. Eles possuem, a um só tempo, uma identidade humana e divina. São entidades divinas, por um lado, e, por outro, carregam as experiências da vivência humana. São genitores divinos: assim como nossos pais nos dão a vida biológica, os orixás no-la dão simbólica e espiritualmente. Toda pessoa possui um orixá, que representa um valor e uma força universal. Enquanto mediadores, os orixás são multiplicadores das ações da divindade. Embora não haja hierarquia entre os orixás, Oxalá, identificado com Jesus (O Senhor do Bom Fim, a devoção mais importante da Bahia) é cultuado como o mais respeitado, o Pai de todos os orixás.

Tudo isso explica provavelmente a resistência popular incansável à doutrinação e ao controle da festa pelo clero católico. Está subjacente uma oposição a todas as autoridades confundidas: patronal, política, eclesiástica. Transformando as pessoas da Trindade em santos ou mediadores, o povo rejeita o monoteísmo autoritário – que assume, de fato, na catequese, os traços da trindade monárquica [10] - da igreja oficial e subverte o sistema patriarcal. O processo de romanização do catolicismo brasileiro, do século XIX até hoje, sob pretexto de purificar o politeísmo do povo, reproduz a romanização imperial, que pretendia apenas unificar a multiplicidade dos povos e das culturas sob um único poder absoluto. [11]


2.2. Uma questão de números?

Como deve ter aparecido nos exemplos acima, para os devotos da religião popular, cada pessoa ou figura trinitária, assim como a “Santa Mãe Trindade”, simboliza o sagrado ou o divino de um modo particular. Focalizamos a figura do Pai, mas poderíamos ter falado do Filho, do Espírito ou ainda da Virgem Maria, que aparece como quarto elemento tanto em Tiradentes quanto em Trindade. No primeiro caso, ela está presente junto ao altar ou na procissão. No segundo, ela é parte integrante da própria imagem, configurando a estrutura simbólica arquetípica como quaternidade. Embora os devotos concentrem a sua atenção na única figura do Pai (em outros santuários, uma das outras figuras estará, por sua vez, no primeiro plano), acreditamos que eles incluem sempre a totalidade do mundo divino, pelo menos no seu subconsciente. C.G. Jung mostrou que o três é o arquétipo da totalidade. É o símbolo que atende às exigências da vida humana em busca de integração, associação e totalidade. “O número três é indicador da pluralidade, é símbolo da riqueza inesgotável e da universalidade múltipla que caracteriza a vida”. [12] “Esta multiplicidade variada é Trindade, ou seja, é simbolizada pelo número três, por esse três que quer dizer na realidade, milhões, milhares..., que quer dizer infinito”. [13] A Trindade expressa ao mesmo tempo a nossa experiência múltipla da vida, com suas diferenças, seus conflitos e seus sofrimentos, e o nosso desejo de harmonia e comunhão com tudo o que existe. As figuras mediadoras (“pessoas”, santos ou orixás) expressam a multiplicidade e a unidade criadoras/destruidoras (“demônicas”) do cosmos, da terra, da vida humana, do triângulo Eu-Tu-Ela(e), do próprio self. Elas expressam a “una multiplicidade” de todas as coisas. E tanto a festa como a romaria são celebrações da vida na sua variedade multiforme.

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O fato que, para os devotos, as figuras trinitárias se destaquem no plano de fundo mais amplo do mundo dos santos (e talvez também dos anjos), contudo numa relação exclusiva com apenas uma delas, tende a relativizar a dimensão simplesmente numérica ou quantitativa dos símbolos. Os números três ou quatro simbolizam a unidade na pluralidade. Poderiam talvez ser substituídos pelo sete ou pelo dez, ou ainda pela multidão sem número do Apocalipse. O importante é perceber que cada um (indivíduo, grupo, cultura) é acolhido na sua individualidade e na sua diferença, sem nivelamento nem exclusão.

O quarto elemento, geralmente de natureza feminina: a criação, a Virgem Maria, a eucaristia etc, não destrói a natureza do símbolo trinitário.

Significa a abertura da totalidade mediante a inclusão de um elemento estranho que assim participa da integração. O Deus tri-uno jamais está só. Para nós, peregrinos, o mistério trinitário é um processo eterno de comunhão que desborda para fora do círculo estritamente trinitário. “Sempre, concretamente, se expressa a verdade de fé de que a Trindade é um mistério de comunhão e amor que envolve e penetra todo o universo para faze-lo participar de seu oceano de vida”. [14]

A presença de Maria como quarto elemento da imagem simboliza a dimensão feminina da divindade, incorporada às figuras do Pai, do Filho e do Espírito. É sintomático que o Divino Pai Eterno seja muitas vezes chamado também de Santíssima Mãe Trindade. É como se a imagem de Deus-Pai já conseguisse superar sua significação cultural patriarcal, apontando para a fonte originária transsexista da vida. Leonardo Boff [15] fala num Pai maternal e numa Mãe paternal. Haveria aqui um apelo para que a teologia elaborasse a dimensão feminina de todo o mistério trinitário ou “Matrindade” e de cada Pessoa divina.

O relacionamento que os devotos mantém com o Divino Pai Eterno mostra que eles sentem – sem poder expressa-lo em palavras ou conceitos – que se trata de um encontro vital – que exige uma entrega total - com a fonte criadora e restauradora da vida individual, familiar e social enquanto unidade dinâmica. O beijo e o toque das mãos e do corpo dos enfermos significa o contato mais direto e íntimo possível. Eles não procuram apenas um favor ou uma proteção individual, mas querem se sentir membros da família e da sociedade de Deus, onde tudo circula e tudo é envolto num mesmo círculo de vida, de onde não há excluídos, marginalizados ou abandonados. Para que haja integração na sociedade, os três lados do econômico (fonte de vida), do político (estrutura vital) e do simbólico (abertura à transcendência vital) devem viver em harmonia. Do mesmo modo, os três lados do triângulo da bandeira imaginada por Tiradentes glorificam uma liberdade – uma vida – possuída de modo sempre frágil e precário, sempre também desejada e esperada: Libertas quae sera tamen, Liberdade ainda que tardia.


3. A contribuição teológica de Paul Tillich.

Apesar do seu caráter filosófico abstrato, o pensamento de Paul Tillich parece confirmar a nossa consideração da devoção popular às figuras trinitárias, onde elas aparecem como mediações do mistério inesgotável do divino. Centramos a nossa leitura nas obras teológicas sistemáticas do nosso autor.


3.1. O caráter concreto do Deus vivo.

No primeiro volume da Teologia Sistemática, Tillich afirma que os seres humanos aspiram a um Deus concreto, um Deus que possa relacionar-se conosco. Eles esforçam-se, sempre mais, por apropriar-se dos favores de Deus. [16] Por isso, eles preferem encontrar um Deus pessoal individual numa relação Eu-Tu, um Deus vivo. [17] Ora, só podemos falar desse Deus por meio de conceitos simbólicos. Além disso, todo verdadeiro símbolo participa da realidade que simboliza. [18] Já que os símbolos antropomórficos são os mais adequados para falar de Deus, as figuras trinitárias aparecem como as mais convenientes para expressar o caráter concreto de Deus. Por exemplo, Tillich ressalta o caráter de Eu-Tu do símbolo de pai, que simboliza uma relação de Eu-Tu com Deus. [19] Mas os princípios trinitários, que eram os elementos concretos dentro do processo vital divino, perderam aos poucos a sua concretude. Por isso, foram substituídos por outros símbolos, e agora o simbolismo trinitário precisa de uma nova elaboração.

Na Teologia Sistemática de 1913, já podemos ler:

Os símbolos trinitários ficam esvaziados, quando são cortados das suas raízes na experiência, isto é: da experiência do Deus vivo e da experiência do Novo Ser em Cristo. [20]

E na Dogmática de Marburg (1925), encontramos as linhas seguintes:

À religião pertence o momento concreto, o Deus vivo, com o qual ela está numa relação viva; ela não pode mais desempenhar esse papel numa forma ingênua; está à procura de uma outra forma e encontra – a forma trinitária... Pela configuração abstrata da Trindade, o próprio Cristo foi, contudo, afastado para longe da consciência religiosa, tornou-se ele mesmo abstrato. Em conseqüência, a consciência religiosa reagiu em parte pelo culto mariano, em parte pela piedade concreta voltada para Jesus... [21]

Na Teologia Sistemática, Tillich afirma que, quando se tornam abstratos, os símbolos não podem mais desempenhar sua outra função, a de responder a perguntas existenciais:

Como todo símbolo teológico, o simbolismo trinitário deve também ser entendido como resposta – resposta a perguntas contidas na situação humana. A situação humana, de onde surgem a perguntas existenciais, caracteriza-se por três conceitos: finitude, alienação, ambigüidade. [22]


3.2. A incondicionalidade e o imperialismo.

Tillich reconhece um outro perigo vinculado ao caráter abstrato dos símbolos:

Enquanto enigma de um problema teológico sem solução, o dogma trinitário tornou-se uma arma poderosa nas mãos de autoridades eclesiásticas e levou ao esmagamento do espírito de busca. [23]

Contudo, o perigo não reside apenas na abstração:

Os deuses... encarnam valores concretos e, enquanto divindades, reivindicam para sim um caráter absoluto. O imperialismo dos deuses, conseqüência desta situação, é a base de todos os outros imperialismos. [24]

Por isso, precisamos de um outro critério, para avaliar o valor das imagens de Deus:

De fato, todas as coisas possuem o poder de se tornarem sagradas, num sentido que pode ser comunicado. Elas podem remeter a algo além de si mesmas... A justiça é o critério que julga o sagrado idólatra. [25]

O critério definitivo pertence ao âmbito da ética. Pelo mesmo motivo, Tillich dirige também sua crítica contra as tendências monárquicas da Igreja romana e contra o unitarismo cristocêntrico da maioria das Igrejas protestantes. Em conseqüência, o cristianismo protestante tornou-se um simples instrumento de educação moral e foi, por isso, defendido pela sociedade burguesa. [26] A opinião de Tillich corresponde à nossa crítica da romanização da piedade popular pela hierarquia católica. Justiça e ortopráxis são mais importantes que a ortodoxia, que costuma colocar-se a serviço dos interesses dos grupos dominantes.


3.3. Politeísmo, Monoteísmo, Trindade.

Ao ler a Teologia Sistemática, percebe-se facilmente que Tillich não quer defender incondicionalmente qualquer tipo de monoteísmo. Na base de uma análise cuidadosa, ele mostra as passagens sutis e dificilmente perceptíveis entre as três formas religiosas que surgiram na História das Religiões: monoteísmo, politeísmo e trindade.

O esquema geral da análise tipológica da História das religiões acompanha a tensão que existe entre os elementos da idéia de Deus. O caráter concreto da preocupação incondicional do ser humano o leva a figuras politeístas; a reação do elemento absoluto contra elas leva o ser humano até figuras monoteístas, e a necessidade de um equilíbrio entre o concreto e o absoluto o conduz a figuras trinitárias. [27]

O teólogo sistemático precisa admitir que não pode apontar, na história da cultura, nenhuma direção clara de progresso religioso. [28] Tillich está ciente também de que tipos puros não pertencem à realidade. Lemos, por exemplo:

Do mesmo modo que não há um politeísmo absoluto, não existe um monoteísmo absoluto. (...) O monoteísmo monárquico está de tal modo intricado no politeísmo, que não pode livrar-se completamente dele. [29]

É particularmente importante para o nosso tema, o fato que a presença do elemento concreto na idéia de Deus não possa ser eliminada:

Como o Deus do monoteísmo místico, o Deus do monoteísmo exclusivo corre o perigo de perder o elemento concreto da idéia de Deus. A sua incondicionalidade e a sua universalidade tendem a “engolir” o seu caráter de Deus vivo. [30]

O monoteísmo exclusivo precisa de uma expressão para o elemento concreto do que concerne o ser humano incondicionalmente. É assim que se coloca o problema trinitário. [31]

No monoteísmo exclusivo, desenvolve-se uma transcendência abstrata do divino... É a transcendência do absolutamente sagrado, que esvazia todas as manifestações concretas do divino. Mas, como o elemento concreto reclama os seus direitos, surgem forças mediadoras de caráter trino, que colocam o problema trinitário. [32]

Tillich apresenta então três grupos de mediadores: propriedades divinas hipostasiadas; os anjos, que cumprem determinadas funções divinas; o Messias enquanto figura divino-humana. Como protestante, ele não fala nos santos, mas eles poderíam seguramente ser incluídos. Na minha opinião, a veneração das Personae da trindade como se fossem santos faz parte também do mesmo processo de mediação. Através de todos os mediadores, Deus, que se tornou absolutamente transcendente e inacessível, irrompe como presença concreta no tempo e no espaço. O significado dos mediadores cresce, à medida que aumenta a distância entre Deus e o ser humano.


3.4. A quaternidade e o feminino.

Para Tillich, o número dos mediadores ou Personae também não é decisivo. É uma questão de concretude e incondicionalidade:

O politeísmo é um conceito qualitativo, não quantitativo. Não é a fé numa pluralidade de deuses, mas a falta de um incondicionado que possa transcende-los e os unir. Cada um dos deuses politeístas apresenta, na situação concreta onde se manifesta, uma pretensão à incondicionalidade. [33]

No monoteísmo trinitário, não se trata do número três. É uma simbolização qualitativa e não quantitativa de Deus. É uma tentativa de falar do Deus vivo, do Deus no qual se unem o incondicional e o concreto. O número três... chega mais perto de uma descrição adequada dos processos vitais. O número “três” corresponde à dialética interna da vida e, por isso, é o mais apropriado para simbolizar a vida divina. [34]

A doutrina da trindade não é, de modo algum, a confirmação do absurdo lógico, de que 3=1 e 1=3; na verdade, ela esclarece, por meio de conceitos dialéticos, o movimento interno à vida divina como eterna separação de si mesmo e volta para si mesmo. [35]

Tillich reconhece, de bom grado, as oscilações que se produziram na história da doutrina cristã da trindade, entre uma tendência trinitária e uma tendência binária... e entre trindade e quaternidade. Pretendia-se, com esse último conceito, responder à pergunta da relação entre o Pai e a substância divina comum às três Personae. Na Teologia Sistemática, ele resume o problema do modo seguinte:

Pode-se distinguir a “natureza divina” comum às três Personae, das três Personae na sua individualidade, à medida que se vê uma “divindade” (ou “deidade”) acima delas, ou à medida que se concebe o “Pai”, de um lado como uma das três Personae, do outro lado como a origem comum da sua divindade.

Um outro motivo para a ampliação da trindade foi a elevação da Virgem Maria a uma posição onde ela quase alcançava uma dignidade divina. Para a piedade popular de muitos católicos atuais, Maria possui um significado bem maior que o “Espírito santo” e, muitas vezes, maior que as duas outras personae da trindade. Se a doutrina da virgem Maria como co-redentora (...) tivesse que tornar-se um dogma, a virgem Maria seria assim elevada à incondicionalidade e, em conseqüência, alcançaria a posição de uma das personae no seio da vida divina. [36]

Vimos, no catolicismo popular, que as orações são dirigidas ao mesmo tempo ao Pai enquanto Deus e como sendo uma das três figuras trinitárias, isto é, como sendo um santo. Por outro lado, Maria pertence certamente ao mundo divino, como grande mediadora – não como co-redentora – entre Deus e o ser humano, mas fica sempre subordinada ao mistério divino, assim como o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

No final da sua análise dos símbolos divinos, Tillich afirma:

Durante a luta da Reforma contra todos os mediadores humanos entre Deus e o ser humano, o símbolo da virgem santa foi liquidado, e, com esse processo purificador, o elemento feminino na expressão simbólica do que nos preocupa incondicionalmente ficou, em grande parte, apagado. [37]

Já que a imagem feminizada de Jesus, no pietismo, o deixou insatisfeito, Tillich procurou, no simbolismo protestante genuíno, elementos que possam transcender a alternativa “masculino-feminino”. Encontrou tais símbolos na expressão “Fundamento do ser” (que representa o Pai trinitário): à medida que é simbólica, refere-se ao “materno”, ao poder de dar a vida, proteger e abraça-la; no logos: o autosacrifício suprime a contradição dos gêneros; e o caráter extático da presença do Espírito divino transcende a alternativa do masculino e do feminino. [38] Todo isso, a piedade popular já o descobriu faz tempo.


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O autor é professor titular da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da UMESP e presidente da Sociedade Paul Tillich do Brasil.


[1]Ver: Santuário da Santíssima Trindade, em http://www.tiradentes-mg.com.br/monumentos/trin.html.
[2]Ver: MAIA, P.A. Peregrinos da Santíssima Trindade. Vol. 1, 1986.
[3]Para essa parte, ver: JACOB, A. S. A Santíssima Trindade do Barro Preto.2000.
[4]Muitas imagens de santos foram achadas da mesma maneira, como a imagem do Bom Jesus de Pirapora –SP, mas a preferência é, em geral, pelo fundo de um rio, como no caso de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, encontrada no rio Paraíba do Sul.
[5]Id., 317.
[6]Id., 320.
[7]Id., 323.
[8]Joseph Comblin: Monothéisme et religion populaire, in: Concilium 197, 1985.
[9]Antonio da Silva : cristologia africana, 52.
[10]Sería injusto com os padres redentoristas ver neles simples instrumentos de « romanização”. Longe de seguir a risco as diretrizes dos bispos reformadores, elaboraram uma catequese seguramente integradora, contudo profundamente respeitosa das expressões religiosas populares.
[11]Segundo G. Ruggieri: “Não é o monoteísmo como tal, mas o uso determinado que foi feito dele, que o torna funcional em relação a uma visão da sociedade, onde a ordem e o bem comum são garantidos pela unicidade de uma vontade soberana, seja ela de um monarca, de um grupo ou de uma classe » In: Concilium 197, 35. C. Duquoc escreve na mesma linha: « a maneira própria da Igreja de fazer Deus agir historicamente leva o monoteísmo (trinitário) a desempenhar o papel ideológico de fundamento de uma prática unitária » Ibid., 81. J. Moltmann lembra que o conceito europeu moderno de monoteísmo não expressa a verdade da religião bíblica, mas antes a fé no progresso e uma pretensão de superioridade que significa, de fato, um exclusivismo e um imperialismo religiosos. (66ss) Sobretudo no ocidente, « o cristianismo sublinhou unilateralmente a unidade do Deus trinitário : na polêmica contra o politeísmo de muitas nações, o cristianismo apresentava-se como a religião universal e superior do Deus único » Ibid., 70. Tornando-se religião imperial, colocou no primeiro plano a monarquia mundial do Deus único. Em conseqüência, a doutrina ocidental da Trindade foi reduzida a um « monoteísmo cristão”. Ao contrário, o ponto de partida de todas as confissões de fé neo-testamentários é a diferença trinitária entre Deus o Pai de Jesus e Jesus o Senhor. Sem essa diferença trinitária, a história da salvação não pode ser entendida como acolhimento de todas as criaturas na comunidade redentora de Deus. Com a “romanização » da imagem de Deus, a patria potestas foi também transposta em Deus. Com tal imagem de Deus, ficou legitimado o domínio masculino na família, no Estado e na Igreja, o que abriu a porta para as formas monárquicas de poder. Ibid.,70-73.
[12]GEBARA, I. Trindade, palavra sobre coisas velhas e novas, 21.
[13]Id., 25.
[14]BOFF, L. Trindade, sociedade e libertação, 134.
[15]Id., 153-155.
[16]Estamos usando a edição alemã da Teologia Sistemática, abreviação ST. Aqui, ST I, 249.
[17]Id., 254.
[18]Id., 266.
[19]Id., 323.
[20]Frühe Werke, 355-356.
[21]Dogmatik, 330.
[22]ST III, 327.
[23]ST III, 333.
[24]ST I, 250.
[25]ST I, 252.
[26]Cf. ST III, 332-334.
[27]ST I, 257.
[28]ST I, 255.
[29]ST I, 262.
[30]ST I, 264.
[31]ST I, 265.
[32]ST I, 266.
[33]ST I, 258.
[34]ST I, 265.
[35]ST I, 69.
[36]ST III, 335.
[37]ST III, 336.
[38]ST III, 336-337.