Espiritualidade, termo de uso praticamente apenas no âmbito do catolicismo até há algumas décadas, hoje é empregado também em outras igrejas cristãs. A espiritualidade cristã comporta diversas dimensões, como experiencial, trinitária, eclesial, cultural, histórico-salvífica e outras . O presente trabalho refere-se tanto à dimensão eclesial quanto cultural sobretudo a partir das seguintes obras de Paul Tillich: Perspectivas da teologia protestante nos séculos XIX e XX, A Coragem de ser (o capítulo “A coragem de ser como uma parte do conformismo democrático” ) e A era protestante.
Essa apresentação relaciona-se com o Capítulo 3 de minha pesquisa, doutorado em Ciências da Religião, em andamento na Universidade Metodista de São Paulo, sobre a presença da teologia sacramental zuingliana no presbiterianismo brasileiro, em cujo capítulo é tratada a mediação norte-americana da teologia dos sacramentos e liturgia.
Enquanto a América do Sul e a Central, no período colonial, implantou-se apenas o catolicismo romano, na América do Norte, para cuja colonização vários povos contribuíram, o resultado, com assinalou W. Walker, foi uma enorme variedade de denominações cristãs e “uma necessária tolerância mútua”.
Houve, no século XVI, duas tentativas malogradas de estabelecimento de calvinistas franceses nos territórios que atualmente compreendem os Estados Unidos, uma em 1562, na Carolina do Sul, projeto esse abandonado, e a segunda, em 1564-65, nas proximidades de Santo Agostinho, na Flórida, fracassada face à derrota imposta pelos espanhóis.
Os primeiros colonos da Virgínia, no sul dos Estados Unidos bem como em outras colônias, eram anglicanos, mas ligados ao movimento puritano. Um dos primeiros clérigos foi Robert Hunt, que ministrou até sua morte. Em 1620 cerca de cem puritanos (os “pais peregrinos”) desembarcaram do “Mayflower”, fundando a Colônia de Plymouth. Outros grupos de puritanos, descontentes com a situação religiosa da Inglaterra, na Escócia e Irlanda, emigraram para a América, estabelecendo outros núcleos, como em Connecticut e New Haven.
A maioria dos puritanos era procedente da Igreja da Inglaterra, mas nos Estados Unidos muitos se tornaram congregacionais calvinistas e outros presbiterianos. Hahn observa que, de fato, “era difícil distinguir congregacionalismo e presbiterianismo nesta situação fronteiriça em que amiúde igrejas congregacionais, por razões sociais e de amizade, tornavam-se presbiterianas, enquanto que igrejas presbiterianas eram dirigidas segundo as linhas congregacionais”. Quanto à organização político-religiosa, Rémond observa que a religião rege tanto a vida privada quanto a pública, “o Estado está intimamente ligado à Igreja e qualquer um que se afaste da Igreja se isola ipso facto da sociedade civil. A intolerância se estende das crenças aos costumes, a comunidade atribuindo-se o direito de velar pela estrita observância das leis de Deus”.
A Igreja Reformada Holandesa foi organizada, em 1628, em Nova Amsterdã, Ilha de Manhattan, cuja colônia passou para o inglês, em 1664, com o nome de Nova York. No período de domínio holandês, a região recebeu imigrantes luteranos, menonitas, católicos e puritanos ingleses.
- Em 1636 dois pastores presbiterianos escoceses, Robert Blair e John Livinstone, que tinham participado de um empreendimento colonial bem sucedido no Ulster, dirigiram-se à Nova Inglaterra acompanhados de 140 paroquianos. As razões desse êxodo para o Novo Mundo residiam em restrições econômicas impostas pelo governo britânico, inclusive o pagamento compulsório do dízimo à Igreja Episcopal da Irlanda. Mas foi no início do século XVIII que uma onda de imigrantes escoceses e irlandeses chegou não apenas às colônias centrais dos Estados Unidos, mas a todas. Principalmente a partir de 1720, grandes ondas de presbiterianos escoceses-irlandeses chegavam à América. Segundo Carl Hahn,
- calcula-se que, cerca de 1750, cem mil deles haviam entrado na América, sendo sua influência sentida nas 13 colônias... eles trouxeram consigo uma antipatia contra o governo inglês, assim como um antagonismo à Igreja oficial. Além de outras injustiças eles foram obrigados a pagar o dízimo para sustentar a Igreja Episcopal da Irlanda, o que provocou ressentimento.
A inserção de batistas e quacres nos Estados Unidos deu-se no século XVII. É interessante observar que os puritanos vieram à América em busca de liberdade religiosa, mas esta valia somente para os que eles consideravam pertencer a uma forma verdadeira de ser igreja. Outros grupos, como batistas e quacres, foram perseguidos. Assim, Roger Williams foi expulso de Massachussets em 1635 por declarações de caráter religioso e, acompanhado de aliados, organizou, em Providence, em 1639, a primeira Igreja Batista das Américas. Guilherme Penn, um líder entre os quacres ingleses (que eram perseguidos), recebeu do rei Carlos II, por uma dívida que a Coroa havia contraído com seu pai, uma possessão territorial na América em 1681, onde fundou uma colônia, que veio a se chamar Pensilvânia, e se tornou um núcleo quacre. Filadélfia, a capital, foi fundada em 1682 e em 1700 sua população era de vinte mil. Penn deu liberdade religiosa em sua colônia, considerada “o berço da liberdade na América”. Muitos outros grupos religiosos, especialmente menonitas, estabeleceram-se na Pensilvânia. A denominação dos quacres teve início na Inglaterra com George Fox, em 1647 e caracteriza-se pela recusa às armas e ao serviço do Exército, proibição de juramentos, sobriedade, ausência de sacerdotes ou pastores e de liturgia. O nome provém de “to quake”, tremer, que talvez expresse um estado de êxtase nos cultos, onde se espera pela manifestação de Deus. Esta não ocorrendo, o culto transcorre em total silêncio!
Em fins do século XVIII a Igreja Congregacional era a maior denominação nos Estados Unidos, vindo logo depois o Presbiterianismo. A Igreja Anglicana tornara-se pouco popular, por ocasião da Guerra da Independência, devido ao seu estreito relacionamento com a realeza britânica. No caso do Metodismo, Wesley também não apoiara a Revolução Americana. O historiador da igreja Sydney E. Ahlstrom observa que, na época da Revolução Americana, três quartos da população norte-americana eram herdeiros da tradição reformada.
O movimento puritano, de inspiração doutrinária calvinista, desenvolve-se na Inglaterra a partir do reinado de Elisabeth, adquirindo especial relevância no século XVII. Leland Ryken cita algumas ênfases doutrinais do puritanismo, a saber: a) A doutrina da graça, “desde a salvação até a prosperidade material”; b) a conversão ou regeneração pessoal, que incluía redenção e santificação pessoal; c) o conceito de pacto, que explicava o tratamento de Deus para com a pessoa individualmente e era a base filosófica, no puritanismo, para instituições como família, igreja e Estado; d) a Bíblia como autoridade única de fé e prática; e) uma doutrina da criação bem desenvolvida que “levou logicamente ao repúdio da velha dicotomia entre sagrado e profano”; a doutrina da providência de Deus em tudo e a conseqüente doutrina da vocação ou chamado de Deus e f) a visão puritana tríplice da “pessoa”, : boa, porque criada por Deus, pecaminosa, “em virtude do pecado original de Adão imputado a ela... e capaz de redenção e glorificação pela renovadora graça de Deus”.
- Na fase de implantação do protestantismo puritano nos Estados Unidos, sobretudo representado por presbiterianos e congregacionais, o culto encontrava-se numa fase de crise nos países de origem: infreqüência da celebração da Ceia do Senhor, abandono do Credo, do Pai Nosso, da leitura pública das Escrituras e do “Ano Cristão”. No decorrer do século XVIII a situação não melhorou, conforme observação do Dr. James Moffat:
- O progresso não se logra regulando tudo o mais possível nem descartando uma prática incontinenti apenas porque está sendo abusado por alguns contemporâneos. Desditosamente os presbiterianos se apartaram por um tempo de alguns elementos preciosos de sua herança cultural... e um deles foi a oração litúrgica ordenada, a qual ganhou o ódio de muitos, como a boa música, por suas vinculações com o episcopado... Nem sequer o Pai-Nosso se livrou do desterro!
Os puritanos da Nova Inglaterra, presbiterianos ou congregacionais, consideravam-se o “povo escolhido por Deus”, na construção de um Estado verdadeiramente cristão, mesmo que organizado em diferentes denominações. Peter Bulkeley referindo-se ao povo da Nova Inglaterra, escreveu: “são como uma cidade estabelecida sobre um monte, à vista aberta de toda a terra,... porque professamos ser um povo em aliança com Deus”. John Cotton escreveu que “na Nova Inglaterra, a ordem da igreja e da comunidade foi estabelecida de tal forma... que trouxe à mente o Novo Céu e a Nova Terra, em que habita a justiça”.
- A espiritualidade puritana foi aos poucos perdendo sua vitalidade. Carl Hahn observa que foi “numa hora de trevas para o cristianismo americano, quando os conceitos e práticas do culto reformado haviam desaparecido na sua maior extensão, que se iniciou uma série de ‘reavivamentos’... para transformar a fisionomia da religião e do culto na América”. Em 1734 teve início na Nova Inglaterra o chamado “Grande Despertamento”, atingindo o ápice nos anos 1739-1745. A principal figura foi Jonathan Edwards (1703-1758), pastor presbiteriano por algum tempo em Nova York, depois pastor congregacional em Northampton, Massachussets, cuja atuação no “Despertamento” influenciou grandemente o protestantismo norte-americano. A vida religiosa ganhou vitalidade em todas as camadas da população, e “novos conceitos e padrões de culto emergem destes convulsos e transformadores movimentos”. O Grande Despertamento estendeu-se pelas 13 colônias americanas e estima-se que em conseqüência cerca de 50.000 pessoas uniram-se a igrejas. Cumpre observar que a teologia dos avivamentos não dispensa a “Ilustração”: Edwards era um estudioso de John Locke e de Isaac Newton. Quanto à teologia dos sacramentos, para Edwards,
- Por natureza, as coisas físicas nos influenciam muito. Assim, Deus não somente ordenou que ouvíssemos o Evangelho contido em sua Palavra, mas também que víssemos o evangelho exposto diante de nossos olhos em símbolos visíveis, de modo a nos influenciar ainda mais. Essas demonstrações visíveis do Evangelho são o batismo e a Ceia do Senhor.
Hahn descreve que “os antigos colonos se reuniam para o culto em casas particulares ou, quando o tempo o permitia, à sombra de grandes carvalhos ou, eventualmente, em cabanas cobertas com tabuínhas ou ramos. As primeiras ‘salas de reunião eram construídas do mesmo modo que as dos primeiros colonos, isto é, com toros não lavrados. Os bancos eram de toros rachados com quatro pernas”.
O presbiterianismo escocês passara por uma experiência a que se convencionou chamar “temporadas sacramentais” , e esta prática foi transplantada para os Estados Unidos, na “fronteira”. Na Escócia, a insuficiência de pastores e outros fatores, “faziam das temporadas sacramentais uma assembléia anual, mas de tal modo que muitas pessoas participavam delas diversas vezes por ano. Toda essa tradição foi trazida para a América”. Leigh Eric Schmidt relata que quando o evangelista William Tennent Jr. visitou uma congregação em Towns of Maidenyhead, Nova Jersey, um dos primeiros pedidos foi para celebrar a Ceia do Senhor, que passa a descrever: “A congregação, sem ter pastor local, felizmente aproveitou esta oportunidade. Tennent regozijou-se, ‘a temporada sacramental (Sacramental Season) foi abençoada pelo querido povo do Senhor, tão bem como pelos outros que vieram de outros lugares”. Essas “temporadas sacramentais” aconteceram principalmente a partir de 1730 nos Estados Unidos.
O historiador E. T. Thompson relaciona a origem dos cultos em acampamentos nos Estados Unidos com as “temporadas sacramentais” da Escócia e da Irlanda. Os cultos em acampamentos (Great American Campmeeting) tornaram-se uma importante instituição religiosa: “Começados pelos presbiterianos no Kentucky, nos primórdios do Reavivamento do Oeste, foram desenvolvidos principalmente pelos metodistas... Outras igrejas continuaram a prática de cultos ao ar livre, como as presbiterianas de Cumberland e as batistas”.
A despeito das “temporadas sacramentais”, a espiritualidade puritana, no tocante à dimensão eclesial, primava pela simplicidade do culto, centrado nas leituras bíblicas e em extensos sermões, geralmente de caráter moralista e/ou didático. É curioso que puritanismo deriva da teologia calvinista, que na ênfase da soberania de Deus, na “dependência incondicional do homem em relação à Deus, que reduz a nada a participação humana. Paradoxalmente, “os puritanos acabaram criando o tipo mais ativista de gente que se conhece na história”. O puritanismo norte-americano, embora não tenha conservado a riqueza da tradição litúrgica cristã, desenvolveu outros padrões de espiritualidade, dando mesmo novas contribuições, a exemplo “Dia de Ação de Graças”, instituído pelos “Pais peregrinos” do Mayflower.
Nos séculos XVI, XVII e XVIII houve um grande desenvolvimento nas ciências, podendo ser lembrados os nomes de Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Johann Kepler e Isaac Newton. Na filosofia, pontificam na Europa continental René Descartes e Wilhelm Leibniz, ligados ao racionalismo e, na Grã-Bretanha, Francis Bacon, Thomas Hobbes, John Locke, George Berkeley e David Hume desenvolvem a corrente empirista. As ciências e as novas correntes filosóficas lançaram as bases do chamado “Iluminismo”, no século XVIII, no qual, além dos chamados “enciclopedistas franceses”, pontificam os nomes de Jean-Jacques Rousseau e Immanuel Kant.
Na Alemanha, Immanuel Kant publicou, em 1793, A religião dentro dos limites da simples razão na qual afirma que “Todo o empreendimento em matérias de religião, se não se tomar de modo simplesmente moral e, todavia, se se apreender como um meio que suscita a complacência de Deus... é uma fé fetichista”. Para Kant, o batismo e a Ceia do Senhor não são meios de graça.
Com Friedrich Schleiermacher (1768-1834), e a chamada “teologia liberal” a religião não se fundamenta na razão ou na moral, mas no “sentimento absoluto de dependência” ou na “consciência imediata da existência universal de todas as coisas finitas dentro do infinito e através do infinito, de todas as coisas temporais dentro do eterno e através do eterno”.
Paul Tillich lembra que assistiu, aos 16 anos de idade, uma conferência de Julius Kaftan, da teologia liberal, na qual afirmava ser Platão o filósofo dos ortodoxos, Aristóteles, dos católicos, e Kant dos protestantes, pois Kant “conseguiu ver de maneira clara e precisa a finidade do homem e sua incapacidade que transcende os limites para alcançar o infinito”. Conclui Tillich que para Kant “a igreja é o corpo invisível dos que são determinados pela razão essencial... as igrejas empíricas são vistas como um grupo governado por superstições, sujeitos a autoridades eclesiásticas... A luta entre o bem e o mal era a luta moral. Graça e oração não tinham lugar neste esquema”. As idéias de Kant influenciaram a escola liberal e alcançaram os Estados Unidos, sobretudo com o movimento do “Social Gospel” de Walter Rauschenbusch (1861-1918).
O Iluminismo e a Teologia liberal tendiam a tornar a teologia dependente da filosofia (racionalista), a um reducionismo ético do cristianismo, à concepção individualista ou subjetiva de religião, que passa a basear-se, sobretudo, na experiência pessoal. O protestantismo norte-americano, mesmo o não liberal, incorpora aspectos dessa espiritualidade, como uma ênfase na subjetividade e na experiência religiosa.
Paralelamente ao Iluminismo, o século XVIII assinala também o fortalecimento, nos Estados Unidos, do movimento pietista originário da Alemanha que recebe um grande impulso com a implantação do metodismo, graças, principalmente, às atividades missionárias de John Wesley.
O pietismo e o metodismo enfatizavam a experiência religiosa (ou mística) de conversão, acima da ortodoxia. Tillich observa que o pietismo era mais moderno que a ortodoxia por causa da subjetividade. “O misticismo era o denominador comum presente no pietismo, no avivalismo, como também é chamado, e no racionalismo... O racionalismo e o misticismo não se contradizem como, em geral, se pensa. Tanto na cultura grega como na moderna, o racionalismo nasce do misticismo. O racionalismo vem da experiência mística da ‘luz interior’ou da ‘verdade interior’dos seres humanos”. Tillich exemplifica com o quaquerismo, George Fox era místico, com experiência de êxtase, “já, na segunda geração do quaquerismo surgiu um racionalismo moral responsável pelos grandes princípios morais das atividades quacres modernas. O estudo do desenvolvimento do quaquerismo nos ajuda a perceber a relação entre a interioridade mística e a racional. Ambas convivem em nossa subjetividade”. Em geral, contudo, o avivalismo e pietismo americanos afastam-se de uma mística que reconhece em Cristo a realização do infinito no finito, em outros termos, que “Jesus expressou o universal e o potencialmente e essencialmente verdadeiro para todos os seres humanos”, pois “a teologia pietista e avivalista posterior iria se rebelar contra essa idéia porque colocava no centro o relacionamento humano com a pessoa única e individual de Jesus”.
As características do puritanismo praticamente permanecem no movimento pietista-metodista o qual, todavia, passa a enfatizar mais o aspecto subjetivo das experiências da conversão e da santificação. Esse segundo período é marcado, também, por uma cultura que surgiu no médio-oeste “fundada sobre o valor do homem e sua capacidade de realizar coisas, em suma, o individualismo e o desempenho”.
O Segundo Grande Despertamento.
O Segundo Grande Despertamento começou por volta de 1800 entre presbiterianos em Kentucky, mas difundiu-se rapidamente entre outros grupos protestantes, principalmente entre metodistas e batistas, atingindo o auge em 1858, chamado Annus Mirabilis, quando ocorreram grandes reuniões de oração e pregações bíblicas. Mendonça observa que a ênfase não é mais de cunho calvinista (soberania de Deus): “As cruzadas evangélicas refletem o novo espírito da democracia, na sua ênfase sobre as obras humanas, na capacidade de o homem tomar decisões”. Enquanto o “Primeiro Despertamento” ocorreu entre presbiterianos e congregacionais, o Segundo atingiu sobretudo metodistas (arminianos) que se tornaram a mais numerosa denominação protestante nos Estados Unidos no século XIX, seguidos dos batistas, posição essa que se inverteu no século XX.
Quanto ao presbiterianismo dos Estados Unidos no século XIX, um livro publicado em Nova York, em 1855, por Charles W. Baird, ministro presbiteriano, denominado Eutaxia, ou as liturgias presbiterianas: ensaios históricos , traz importantes informações e reflexões. Baird faz breve descrição de como fórmulas de culto estabelecidas inicialmente na Escócia foram, a partir do século XVII, abandonadas. .O autor sugere algumas medidas que o presbiterianismo norte-americano faria bem recuperar em seus cultos, primeiro, reassumir o uso daqueles elementos primitivos do culto... Falamos da Oração do Pai Nosso, os Dez Mandamentos, e do Credo Apostólico. Conclui expressando sua esperança do dia em que as congregações participarão do culto através da Oração do Pai Nosso e do Credo.
Carl J. Hahn relata que, em 1864, Charles W. Shields, então professor na Faculdade de Princeton, publicou “um eloqüente e veemente apelo à Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos que reconsiderasse sua situação litúrgica e reestudasse suas raízes no culto reformado”. Shields descreve a indigência do culto público no presbiterianismo norte-americano: “a matéria, a forma e o arranjo são deixados por conta do improviso. Os sermões ocupam o centro do culto... O púlpito transformou-se em mero entretenimento intelectual e rival da devota comunhão com Deus”.
- Tillich faz algumas observações ao protestantismo em geral, mas que se aplica de modo especial ao norte-americano:
- O ministro é apenas pregador, jamais sacerdote. O sermões dirigem-se ao intelecto em primeiro lugar. Por outro lado, as massas desintegradas precisam de símbolos capazes de compreensão imediata sem a ajuda do intelecto. Precisam de objetividades sagradas além das qualidades subjetivas dos pregadores. Quase todos elementos objetivos desapareceram das igrejas protestantes... A atitude moralista e racional da educação protestante obteve bons resultados entre certos indivíduos selecionados, mas jamais conseguiu alcançar as massas. Os indivíduos, porém, foram percebendo, cada vez mais, a incapacidade em assuntos morais e intelectuais. Esta responsabilidade tornou-se pesada e insuportável. Surgiram, então, nos Estados Unidos e na Europa doenças mentais epidêmicas. Nessa situação, as pessoas educadas preferiram recorrer à psicanálise em detrimento da religião, principalmente da religião protestante.
- Nos inícios do século XX desenvolveu-se, nos Estados Unidos, o fundamentalismo protestante. “Referimo-nos aqui especialmente a uma corrente religiosa muito difundida no final do século XIX, como reação contra as tendências supostamente heréticas da teologia moderna”. A denominação provém do título “The Fundamentals”, duns folhetos que apareceram nos Estados Unidos entre 1910 e 1915. O fundamentalismo postulava a doutrina da inspiração verbal e a inerrância das Escrituras, elegendo determinadas doutrinas como fundamentais no cristianismo. Na realidade, essas doutrinas eram comuns a todas as tradições cristãs, mas os fundamentalistas procuravam adjetivá-las, restringindo-as a interpretações de cunho literal. Paul Tillich contrasta as características desse fundamentalismo com a chamada “ortodoxia protestante” do século XVII:
- A ortodoxia protestante era construtiva. Não havia nada semelhante às bases pietistas ou avivalistas do fundamentalismo americano. Os teólogos ortodoxos trabalharam objetiva e construtivamente, procurando apresentar a doutrina pura e completa de Deus, do homem e do mundo. Não foram determinados pelo biblicismo laico dos fundamentalistas deste país – biblicismo este que rejeita qualquer tipo de penetração teológica nos textos bíblicos para se tornar dependente de interpretações tradicionais da Palavra de Deus.
- Uma espiritualidade cúltica em que se destaca a “Liturgia da Palavra” em detrimento dos sacramentos prevalece tanto no protestantismo calvinista-puritano quanto no arminiano-pietista nos Estados Unidos. Para Tillich, uma das contribuições do movimento romântico (Schelling) à teologia foi a redescoberta da graça em oposição ao moralismo do iluminismo. E observa que:
- O protestantismo americano nunca teve um período romântico , com exceção de poucos indivíduos, e que por isso tem preservado até agora esse tipo de religião completamente voltada para atitudes moralistas herdadas do iluminismo, longe de qualquer conceito da graça... Quase não se menciona, nos Estados Unidos, a presença do divino precedendo o que fazemos. Uma outra conseqüência dessa atitude é o desaparecimento do sentimento sacramental. O pensamento sacramental só tem sentido quando o infinito se faz presente no finito, quando o finito não apenas se submete às exigências do infinito, mas conserva em si poderes salvadores, poderes da presença do divino.
Nos primeiros tempos do protestantismo norte-americano predominou o puritanismo, com teologia calvinista. A partir de fins do século XVIII passou a predominar o pietismo e o metodismo, de teologia arminiana, com forte tendência na experiência individual de conversão. Alguns aspectos da espiritualidade protestante nos Estados Unidos são a seguir destacados.
1. Individualismo e participação. No capítulo “A Coragem de Ser como uma parte no conformismo democrático”, Tillich observa que “Sua realização (o conformismo democrático) mais característica deu-se na América atual, porém suas raízes aprofundam-se no passado europeu”. E observa que os neo-estóicos da Renascença,
pela transformação da coragem em aceitar passivamente o destino (tal os velhos estóicos) em uma ativa contenda com o destino, realmente prepararam o caminho para a coragem de ser, no conformismo democrático da América... homens como Pico della Mirandola, Leonardo da Vinci, Giordano Bruno, Shafsbury, Goethe, Shelling foram inspirados por esta idéia de uma participação no poder criador do universo... Sua coragem era, ao mesmo tempo, a coragem de ser como si próprio e a coragem de ser como uma parte.
2. Pragmatismo e filosofia do progresso. “Os meios são mais que meios: são sentidos como criações, como símbolos das possibilidades infinitas implicadas na produtividade do homem. O ser-em-si é essencialmente produtivo. A maneira pela qual a palavra originalmente religiosa “criador” é aplicada, sem hesitação, por cristãos e não cristãos, igualmente, às atividades produtivas indica que o processo criador da história é considerado divino”. Notemos que Tillich disse que fala em processo produtivo, em vez de criador, em virtude de a ênfase recair na produção técnica.“A coragem de ser como uma parte no progresso do grupo ao qual se pertence, desta nação, de toda a humanidade, está expressa em todas as filosofias especificamente americanas: pragmatismo, filosofia do processo, a ética do crescimento, educação progressiva, democracia de cruzada”. “Para a coragem de ser como uma parte do processo produtivo, a imortalidade é decisiva e não Deus, exceto no caso de Deus ser entendido como o próprio processo produtivo, tal como acontece em alguns teólogos”. Tillich argumenta também que,
quando o estóico romano sofria catástrofes ele as suportava com a coragem da resignação. O americano típico, após haver perdido os alicerces de sua existência, trabalha por novos alicerces. Isto é verdade em relação ao indivíduo e é verdade em relação à nação, como um todo. Podem fazer experiências porque um fracasso experimental não significa desencorajamento. O processo produtivo, do qual é participante, naturalmente inclui riscos, fracassos, catástrofes. Porém eles não minam a coragem.
É pertinente, também, a observação de Clifton Olmstead: “Na fronteira o broto do individualismo e do progresso esculpiu uma nova civilização, selvagem e rude, fundada na dignidade do homem e em sua infinita perfectibilidade”.
3. Espiritualidade pietista. Nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que o Racionalismo exerce sua influência, desenvolve-se também uma espiritualidade de cunho pietista. Tillich mostra pontos de contato entre o racionalismo e o pietismo que valoriza a experiência mística: “o estudo do desenvolvimento do quaquerismo nos ajuda a perceber a relação entre a interioridade mística e racional. Ambas convivem em nossa subjetividade. O oposto de uma teologia da interioridade seria a teologia clássica dos reformadores, a teologia da Palavra de Deus que vem a nós de fora... de tal modo que a aceitamos sob a autoridade das experiências reveladoras dos profetas e apóstolos”.
4. Religião Civil e nacionalismo. Uma das características da espiritualidade protestante norte-americana pode ser denominada “Religião Civil” (capelania nas Forças Armadas, inscrição In God we trust na moeda, etc). James White escreve que “Raramente nos Estados Unidos o Dia das Mães, Dia da Independência, Dia do Trabalho e Dia da Ação de Graças passa despercebido”. O nacionalismo aumenta após a Independência. É interessante notar, também, o papel do sentimento religioso, principalmente dos congregacionais e presbiterianos, na Independência Americana.
5. Espiritualidade e fundamentalismo. No Capítulo 1 de “A teologia protestante nos séculos XIX e XX, Tillich comenta que é preciso fazer distinção entre o fundamentalismo norte-americano e a ortodoxia da época da “escolástica protestante” do século XVII. Enquanto o fundamentalismo é marcado por um “biblicismo laico”, a ortodoxia protestante era construtiva, e marcou “um dos grandes eventos da história do pensamento cristão”.
6. Predomínio de uma espiritualidade centrada no discurso de caráter moral (sermão) em detrimento dos sacramentos. Esta característica é comum tanto à tradição calvinista-puritana, quanto à arminiana-pietista. Tillich observa que a ausência (ou presença reduzida) do movimento romântico nos Estados Unidos explica o predomínio de uma espiritualidade voltada para atitudes moralistas. “Foi o romantismo que descobriu essas coisas (presença do infinito no finito). Naturalmente, essa atitude estava presente na igreja primitiva, mas foi até certo ponto perdida na crítica da Reforma, e finalmente desapareceu complemente no iluminismo, que se baseava apenas no imperativo”.
7. Valorização do novo e desapego do passado. Finalmente, ilustrando com um texto não pertencente a Tillich, encontramos a tendência de valorizar o “novo” em detrimento da tradição.Thomas J. J. Altizer, no artigo Os Estados Unidos e o futuro da teologia, in “A morte de Deus” observou: “Sob o ângulo histórico, os Estados Unidos da América são uma nação, na realidade, semibárbara. Compreende-se, então, porque o utopismo anárquico tem sido sempre inveterado componente da maneira de ser norte-americana. É precisamente o desapego do passado que tornará possível o aparecer de uma nova teologia”.
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O autor é doutorando em Ciências da Religião na UMESP.