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A teologia de Tillich e a psicanálise

Karin Hellen Kepler Wondracek

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Resumo

Esta comunicação discorre sobre a relação entre psicanálise e teologia na vida e obra de Paul Tillich. Num primeiro momento, aborda-se a contribuição da psicanálise para a teologia, destacando que ela torna mais compreensível a profundidade da alienação na dimensão da existência, e com isto fecunda a teologia na compreensão do conceito de pecado e da miséria humana. Num segundo momento, reflete-se sobre a contribuição do pensamento de Tillich para a psicanálise, e o desafio que significa para a clínica o considerar a dimensão essencial do ser humano.


Como psicanalista, conheci a obra de Freud há algumas décadas. Já de Paul Tillich não posso dizer o mesmo, infelizmente. Mas nos poucos anos de contato, meu desejo de conhecer este teólogo tem aumentado. Ele muito cedo viu caminhos e diálogos entre a teologia e outras áreas, e, especificamente, com a psicanálise.

Na convivência de um grupo de pesquisas interdisciplinar Tillich foi-me sendo apresentado aos poucos, a partir das pesquisas dos colegas. Agora chega minha vez de mergulhar em sua obra e conhecê-lo a partir das interfaces que me tocam. O pouco tempo de contato faz-me querer ser prudente, mas ao mesmo tempo o hábito da escuta analítica traz o desejo de transformar a leitura da obra de Tillich num diálogo que permita minhas associações e transferências. À semelhança de uma história que me é contada e na qual intervenho com minhas associações, exporei alguns eixos da minha leitura de Tillich. [2]


Do lugar da psicologia e da psicanálise

Como ponto de partida, tomo o lugar de inserção da psicologia no Sistema das Ciências de Paul Tillich. [3] A psicologia é classificada, juntamente com a biologia e a sociologia, como “realidade orgânico-técnica”. Como característica principal deste grupo, está o vínculo fechado que precisa ser reconhecido. Este é o desafio: descobrir o vínculo particular com o todo.

Tillich inicia com a abordagem da biologia, e quando chega à psicologia comenta que ela é o campo mais controverso da sistemática. Isto, se a oposição entre psíquico e físico é tomada como excludente, pois desta forma uma fenda é aberta na esfera da matéria, que não se fundamenta metodologicamente.

Denunciando esta falha, Tillich se desvia da encruzilhada, ou talvez até da emboscada de ou privilegiar a oposição concreta entre ciências da natureza e ciências do espírito, ou priorizar o pertencimento metodológico da psicologia às cíências generalizantes. A interioridade encontrada na psicologia já se achava na biologia, pois nela a autoapreensão do que é vivo era pré-condição do entendimento. Biologia é classificada como história da natureza [Natur-Geschichte] [4] e a psicologia como história da alma [Geschichte der Seele]. Mesmo sem falar em psicanálise, Tillich já sinaliza um dos lugares que ela ocupará:

Se a capacidade formadora individual coincidir com a vida anímica inconsciente, está decifrado o enigma, ao menos o enigma originário que está posto na própria relação entre pensar e existir. [5]

Deste modo, Tillich mostra que não é adepto do dualismo – biologia e psicologia são dois lados da mesma realidade formal. Não se trata de fornecer uma metafísica do inconsciente, mas de compreender o criativo interno [innerlich-Schöpferischen] do humano. A partir desta abordagem Tillich traça uma conclusão que toca todo pensamento ocidental:

… deste modo as mais profundas intenções do pensamento ocidental chegam à sua realização, pois desde sempre este considerou a produtividade interna como originada na criatividade.(…) Do que foi dito depreende-se para o método que temos de tratar o psíquico como o interno do biológico que foi tornado consciente. [6]

A afirmação de Tillich remete à localização que Freud faz da origem da pulsão, situando-a na fronteira entre o somático e o psíquico, considerando-a “o representante psíquico de uma excitação originada no somático”. [7] O psicanalista Joel Birman comenta que Freud também fugiu da armadilha de segregar as ciências da natureza das ciências do espírito, na medida em que descreveu o funcionamento do “aparelho da alma” usando a linguagem das ciências naturais. [8]

O emprego do termo consciente, por Tillich, mais do que se referir à tópica freudiana, neste momento pretende ressaltar a capacidade de autoconhecimento como chave para o mundo psíquico, a qual embasa toda noção de sujeito do pensamento ocidental. Deste modo, a capacidade de autoconhecimento, âmbito da psicologia, se torna central para se aproximar do que Tillich compreende por ser.

Na Autobiografia, Tillich relata sobre os primeiros contatos com a psicologia e a psicanálise:

Como professor de teologia na Universidade de Berlim (de 1919 a 1924) eu ministrei conferências que tratavam da relação da religião com a política, filosofia, psicologia profunda e sociologia. (…) Idéias psicanalíticas se avolumavam e traziam à consciência realidades que foram cuidadosamente sufocadas pelas gerações anteriores. A participação neste desenvolvimento criou diversos problemas, conflitos, temores, expectativas, êxtases e dúvidas, tanto na esfera prática quanto na teórica. [9]

A última frase lembra o comentário de Freud, ao desembarcar nos Estados Unidos para realizar conferências sobre psicanálise, expressando que aqueles que o convidaram não sabiam que ele estava lhes trazendo “a peste” [10] . Ser “infectado” pelo germe da psicanálise produz efeitos diretos e colaterais, como também o experimentou Tillich. As conseqüências se farão sentir, como o teólogo o expressa própria biografia:

Mas estive em contato constante com a psicologia profunda e muitos dos seus representantes, principalmente nos últimos dez anos. O problema da relação entre as compreensões teológica e psicológica da pessoa passou a ocupar cada vez mais o lugar principal do meu interesse, em parte por causa de um seminário universitário sobre religião e saúde na Universidade de Colúmbia, em parte pelo grande interesse teórico e prático que a psicologia profunda encontrou no Union Seminary, em parte por amizades pessoais com jovens e velhos analistas e conselheiros. Penso que hoje não é possível desenvolver uma doutrina cristã da pessoa sem utilizar o imenso material que a psicologia profunda trouxe à luz. [11]

Volto ao Sistema das Ciências: neste, Tillich inicia com a pergunta pela base; sistema, para ele, é alvo e ponto de partida. Passa a discorrer sobre os vários saberes, em todos vendo manifestações do Incondicionado. Distingue uma dupla relação entre os métodos e seus materiais: a aplicação autógena e a heterógena:

Os métodos são autógenos no seu próprio domínio [a palavra alemã Heimatgebiet, evoca o termo lar]; aqui eles são adequados aos objetos; eles são heterógenos tão logo se lançam em territórios estrangeiros e se tornam adequados a apenas um elemento dos objetos, mas inadequados ao objeto como todo. [12]

Dupla relação que estabelece um importante parâmetro para ter presente na inter e transdisciplinaridade. Meu pensar se antecipa e remete ao diálogo de Tillich com a psicanálise, e de como esta classificação lhe forneceu bases para tecer as aproximações e também as críticas às incursões psicanalíticas de cores heterogênicas em territórios estrangeiros. Tillich escreve em tempos de elaborações de traumas de guerra, de invasões de territórios, tristes metáforas do praticado pelas ciências em âmbitos alheios.

Nas suas obras, o pensamento fluirá em diálogo com a psicanálise e a filosofia existencial. Da sua produção fecunda, quero destacar, coerente com o Sistema das Ciências, o duplo movimento de levar para a teologia as contribuições psicanalíticas, mas também de trazer à psicanálise as reflexões teológicas. O limite de espaço produzirá condensações e omissões, com a esperança de que isto não leve a demasiadas deformações:


A exploração prática da alienação

No segundo volume da Teologia Sistemática, publicado em 1957, Tillich mostra a aplicação prática do seu diálogo com a psicanálise. O teólogo deve contar com a ajuda dos “exploradores práticos da alienação” [13] , e entre eles, os psicanalistas.

O teólogo deve reinterpretar os símbolos religiosos tradicionais, bem como os conceitos teológicos, à luz do material que recebe dessas pessoas. Ele deve estar consciente do fato de que termos como “pecado” e “juízo” perderam, não sua verdade, mas sim um poder de expressão que pode ser reconquistado somente se eles forem revestidos com as percepções da natureza humana que o existencialismo (incluindo a psicologia profunda) nos tem fornecido. [14]

Neste momento, Tillich mostra o modo como manterá seu diálogo com a psicanálise: ela lhe fornece a compreensão da situação humana no nível existencial. No segundo volume da Teologia Sistemática, ao escrever sobre a alienação humana, Tillich toma o conceito de libido de Freud para entender a concupiscência, e recomenda aos teólogos que estudem os achados psicanalíticos para compreender a natureza e a profundidade desta alienação [15] .

Já em 1955, no artigo Psychanalysm, Existencialism and Theology, Tillich construíra, numa síntese admirável, a relação entre teologia, existencialismo e psicanálise, reportando-se às três teses fundamentais da sua teologia [16] :

A primeira tese, considerada como dogma central do cristianismo, diz que “o Ser como Ser é bom“, isto é, a essência do que Deus criou é boa. Tillich reporta-se ao “e viu Deus que isso era bom”, repetido diversas vezes no relato da criação. [17]

A segunda tese enuncia que o homem caiu desta bondade essencial à alienação existencial, queda essa que "se manifesta em cada ser vivente e em cada época". [18]

A terceira tese anuncia que há possibilidade de salvação pela reconciliação entre essência e existência, e Tillich marca o significado de cura presente na palavra latina salvus/salus, em contraste com a cisão ou separação da existência alienada.

Deste modo integram-se no seu pensamento teológico a bondade essencial, a alienação existencial e a possibilidade de um além da ambigüidade entre essência e existência, que vence a cisão e produz a cura. As dimensões da essência e da existência estão debaixo da lei do telos, portanto têm um alvo ao qual o desenvolvimento humano aspira.

Estas três teses fornecem a Tillich o critério para criticar Freud, mais propriamente o conceito de pessoa como expresso no O mal-estar da civilização [19] :

“O mal-estar da cultura em Freud mostra que ele é coerente com seu julgamento negativo da pessoa na sua alienação existencial. Mas, se avaliamos a pessoa apenas pelo ponto de vista da sua existência e não consideramos sua natureza essencial, quando tratamos sua alienação de modo excludente e perdemos de vista sua bondade essencial, não podemos, na prática, chegar à outra avaliação. [20]

Deste modo, ao Freud não levar em conta a natureza essencial, limitando a pessoa ao ponto de vista existencial, não pode traçar outra conclusão e torna-se preso desta. Esta é, para Tillich, a crítica mais decisiva que a teologia pode fazer a Freud.

Na Teologia Sistemática, Tillich até mostra certo humor interpretativo ao descrever Freud como puritano que, por isso, não compreendeu a libido na dimensão do amor e não concebe a presença de um eros criativo que não necessite ser sublimado ou reprimido. E volta-se a Lutero para ampliar a noção de libido:

Em comparação com Lutero, Freud é um asceta em sua pressuposição básica a respeito da natureza do homem. O protestantismo clássico nega esses pressupostos na medida em que se refere à natureza criada ou essencial, pois na natureza essencial do homem o desejo de se unir com o objeto do amor é efetivo por si mesmo. E esse desejo não é infinito mas definido. É amor e não concupiscência. [21]

No artigo de 1955, porém, ele abranda sua crítica com um “mas” [Doch] –“Mas quando se tratava de curar, ele [Freud] sabia algo da pessoa restaurada, aquela que no “terceiro estado” se encontra debaixo do telos”. [22] Esta ressalva mostra o acolhimento favorável que faz da incoerência de Freud, incoerência que considera comum nos grandes homens. Tillich, tal como Pfister [23] , consegue ver em Freud mais esperança em relação à cura do que o próprio criador da psicanálise...

A seguir, Tillich censura os descendentes de Freud que se tornaram excessivamente otimistas, como Jung e Fromm, ao excluírem a pulsão de morte da cena. Com isto retiraram da psicanálise sua profundidade de análise da condição existencial, desfazendo o achado de Freud, que teologicamente é o mais acurado. Perdendo a profundidade de Freud, falta-lhes o lugar e a força do irracional.


As contribuições da psicanálise para teólogos

Em 1955, Tillich faz a pergunta: “De que modo a teologia pode ser beneficiada com a psicanálise?” E responde através de cinco pontos:

  1. A psicanálise e o existencialismo recordam à teologia o que esta deveria ter mantido presente, mas que esqueceu ou reprimiu: as compreensões psicológicas presentes na literatura dos últimos séculos. Tillich refere que “quase todos os achados sobre a vida da alma encontram-se nesta literatura” [24] , e exemplifica com A Divina Comédia de Dante, de como esta descreve a autodestruição humana e sua alienação da essência. Esta vertente leva ao movimento atual de interpretação de textos bíblicos [25] com ajuda da psicanálise, apropriada para restabelecer a ambigüidade e a conflitiva dos seus personagens; leva também à interpretação em profundidade das produções da cultura atual [26] .
  2. A psicanálise e o existencialismo ajudam a teologia a se recordar das estruturas demônicas que determinam o consciente e o agir. Com isto se conecta o conhecimento de que é ilusório pensar em liberdade absoluta; principalmente a filosofia e a psicanálise auxiliam a redescobrir a totalidade da pessoa, na qual os elementos conscientes não são parâmetros absolutos.
  3. A psicanálise e o existencialismo resgatam para a teologia o significado autêntico da palavra pecado. Esta palavra havia passado para o plural, e com isto seu significado fora reduzido à esfera da moral ou do comportamento. Mas pecado é algo bem diferente, diz Tillich, “é separação e alienação do ser essencial, e se a psicologia profunda e o existencialismo ensinam a usar esta palavra neste sentido, prestaram na prática um grande serviço à teologia.” [27]
  4. Em linguagem existencial Tillich indica que a psicanálise ajuda a teologia a superar a redução moralista, resultado da autoalienação de sua totalidade. E segue: Não deve ser perdido de vista, na prática, que a teologia atual primeiramente teve de reaprender com a psicoterapia analítica que graça e perdão significavam a aceitação daqueles que no fundo são inaceitáveis…a palavra graça, que se tornara completamente sem sentido, ganhou um novo significado pelo modo como o psicoterapeuta lida com seu paciente. [28] A seguir, ele aborda a redescoberta da confissão e da cura de almas, cujo sentido o protestantismo por longo tempo menosprezou. O religioso que conhece a situação humana pode ser um mediador da graça para aquele que se dirige a ele, “pode fortalecer a consciência de que se pode transpor o abismo entre a essência e a existência.” [29]
  5. Por último, Tillich se reporta à influência da psicanálise e do existencialismo sobre a teologia sistemática. O teólogo alemão Joachim Scharfenberg [30] comenta que este ponto desperta mais resistências, pois seus colegas prefeririam limitar a psicanálise à esfera da teologia prática. Novamente, algo a ser interpretado psicanaliticamente, pois com esta limitação a teologia “reprime” a psicanálise, impedindo que exerça a hermenêutica da suspeita sobre suas produções na esfera da doutrina e da sistematização. Mas, ao recordar o modo como Tillich percebe a manifestação do Incondicionado em todos os âmbitos da cultura, pode-se entender que integre outros campos para dentro do fazer teológico. Sua obra teológica é para ser executada “a seis mãos”, integrando a interpretação psicanalítica e a interpretação filosófica da condição humana. Ambas conduzem à pergunta pelas condições existenciais da alienação humana. E qual a partitura da teologia na execução da resposta?

A teologia sistemática precisa mostrar quais símbolos religiosos respondem a esta pergunta. Quem vê a relação entre teologia e psicanálise deste modo capta como todas estas conexões são fundamentais e decisivas para a teologia.” [31]

Tillich encerra o artigo de 1955 sinalizando a riqueza destes achados que agora se encontram disponíveis para os teólogos, mas também mostrando os limites da psicanálise e do existencialismo – quando estes tentam responder às questões últimas, precisam se reportar a outra esfera, a da teologia. Novamente, o perigo de invadir campos com armas autogênicas, apenas apropriadas para o solo pátrio… compulsão à repetição que a interdisciplinaridade de um livro como este pode ajudar a tratar.

1957 é o ano da edição do precioso livro Dinâmica da Fé. Neste, o próprio título remete à psicanálise, pois traduz “o pensamento em polaridades e a observação de tensões e conflitos daí resultantes”. [32] Tillich continua a trazer a psicanálise para o coração da teologia:

Fé como manifestação da pessoa integral não pode ser imaginada sem a atuação concomitante dos elementos inconscientes na estrutura da pessoa. Eles sempre estão presentes e determinam em alto grau o conteúdo da fé. [33]

Neste momento Tillich vale-se do seu conhecimento de psicopatologia para distinguir saúde e doença na fé: se os elementos inconscientes predominarem na constituição interior da pessoa, o que se desenvolve não é fé, mas “atos obsessivos de diversos tipos”. [34]

A associação mais imediata é com o artigo de Freud Atos obsessivos e práticas religiosas [35] , no qual toda manifestação religiosa é interpretada como vinculada ao patológico. Tillich, fazendo valer o critério de distinguir a dimensão existencial da essencial, toma a contribuição de Freud para entender a patologia da fé. O mesmo parâmetro é usado para analisar a fé que se embasa em projeções de figuras da infância. O conteúdo concreto da fé será experimentado como ilusão, palavra usada por Freud para interpretar a religião em O futuro de uma ilusão. [36] Mas Tillich, considerando o telos a que toda experiência humana está submetida, acrescenta:

…se bem que a experiência do incondicional, a qual também está presente nesse tipo de fé, nada tem ilusória. Um deus pode se evidenciar como nulo, mas o divino permanece (…) O risco do ato de crer não pode ser eliminado. [37]

As duas dimensões – existencial e essencial - permanecem lado a lado. Mesmo que a dimensão da existência esteja “contaminada” por fantasias infantis, isto não dá o direito de deduzir que a origem infantil abarque o todo. Este o reducionismo que Tillich e muitos outros criticaram em Freud. [38]


Recomendações tillichianas aos psicanalistas que lidam com a dinâmica da fé

O título é paráfrase dos conselhos de Freud para os médicos que exercem a psicanálise. [39] Aqui, a partir das idéias de Tillich no livro Dinâmica da fé, quero destacar as recomendações do teólogo aos psicanalistas. O tema é atualíssimo, pois o retorno do religioso reprimido, ao contrário da extinção prevista por Freud, convida a refletir sobre a fé e suas vicissitudes:

1. Quando se compreende que a verdade da ciência e a verdade da fé fazem parte de dimensões diferentes, há outro enfoque nos chamados conflitos entre ciência e fé. Para Tillich, já não se trata de conflito entre ambas no sentido genérico, mas entre uma fé e uma ciência “que esqueceram ambas a que dimensão elas pertencem” [40]

Quando a psicanálise nega a realidade própria da dimensão essencial e restringe a dinâmica da vida a seu escopo particular, está praticando um ato de fé: “Subjetivamente, a ciência é então, para eles [os cientistas] aquilo que os toca incondicionalmente, pelo qual eles estão dispostos a sacrificar tudo, inclusive a vida.” [41] Deste modo, compreende-se a posição de psicanalistas que abraçam a psicanálise como um credo, e a defendem com um vigor que ultrapassa o âmbito da pesquisa científica. [42]

Em decorrência, há confusão entre dados científicos que embasam a teoria e as concepções do próprio pesquisador. A psicanálise precisa distinguir “entre aquilo que é observação cientificamente fundamentada ou hipótese científica, e aquilo que são manifestações de fé do psicólogo, por exemplo, sua visão do homem, de sua natureza e destinação.” [43] Como manifestações de fé psicanalíticas Tillich assinala “os elementos naturalistas trazidos por Freud do século XIX para o século XX, seu puritanismo convicto no campo do amor, seu pessimismo quanto à cultura e sua atribuição da religião a desejos racionalizados ideologicamente”. [44]

2. Sem negar aos psicanalistas o direito de professar uma fé, Tillich ressalva que não podem usar esta fé travestida de ciência para atacar a fé de outros. Um exemplo que continua atual: quando a psicanálise diz que o ser humano deve ser confrontado com seu desamparo e aprender a viver unicamente nessa condição, ela está invadindo o campo essencial, pois expressa uma palavra última a respeito da vida humana. Para Tillich, o desamparo radical tem de ser relativizado à dimensão da existência – isto é, ao destroçar dos ídolos construídos com as jóias da infância. [45] Quando se faz crer que o desamparo deve ser referido à dimensão essencial, isto é, se a análise toma como alvo que o sujeito aceite que não há figuras protetoras em nenhuma dimensão, acontece a invasão heterógena [46] de outros campos do ser, invasão que corre o perigo de dominar heteronomicamente o campo do outro saber. [47]

3. Caberia à psicanálise manter-se longe dos domínios da fé? Segundo Tillich, não. O papel da psicanálise é justamente trabalhar sobre os “símbolos religiosos caóticos” resultantes da repressão e das ambigüidades da vida. Por essas vicissitudes, os símbolos assumem, freqüentemente, a posição de ídolos. O trabalho analítico é iconoclasta, e isto abre caminho para a criação de símbolos que remetam além de si, e assim expressem adequadamente uma preocupação incondicional. [48]

4. Se a análise leva à cura por suspender as repressões e por favorecer formações substitutivas mais sadias, também é necessário que ela reconheça a capacidade curativa da dimensão da essência. Nesta acontecem curas que resultam da integração da pessoa como um todo: “Isso só a fé consegue fazer. As tensões entre as duas formas de terapia desapareceriam se elas reconhecessem suas tarefas específicas e seus limites determinados.” [49]

O único âmbito que pode conter em si todos os demais é o da fé, pois o “estar possuído pelo que toca incondicionalmente” é a base e origem de todo ser, e por isso, se torna o centro unificador da vida:

O centro da pessoa une todos os elementos da vida da personalidade: as forças corporais, inconscientes, conscientes e intelectuais. Do ato de fé participa todo nervo do corpo humano, toda aspiração da alma, todo impulso do espírito humano.” [50]

A fé que está no corporal, no inconsciente e no consciente é capaz de produzir símbolos religiosos que unem as dimensões mais profundas com a vida consciente, abrindo espaço para que o ser seja restaurado no contato com o Novo Ser, e alcance salvação e saúde.

Em 1960, Tillich escreve The impact of Psychotherapy on Theological Thought. [51] O diálogo com a psicanálise se revela muito fecundo, trazendo mais elementos para o diálogo com a teologia, que resumo aqui:

  • A representação de Deus é influenciada pelo trabalho terapêutico sobre as imagens paternas e maternas. A psicanálise, com a ênfase na primeira infância e nas primeiras relações objetais, contribui para reintegrar o elemento feminino na concepção de Deus do protestantismo, antecipando uma discussão atual da teologia feminista.
  • O reconhecimento do mundo simbólico como portador das dimensões inconscientes produz o (re)ssurgimento do símbolo ao lado da palavra e conectado a ela. O símbolo torna-se cada vez mais um meio de assegurar a presença divina também nas camadas inconscientes. Isto não significa que o consciente deva ser descartado, mas que haja empenho para que todos os âmbitos da vida pessoal e coletiva sejam alcançados pela mensagem.
  • O psicoterapeuta interpela o teólogo quando pergunta pelo alcance da “Boa Nova”. Isto exige do teólogo que reexamine suas doutrinas sobre salvação e recupere o sentido original de saúde presente nesta [52] . Com isto, alerta para as fugas neuróticas que se encontram também na religião, e muitas vezes provocadas por ela.
  • A psicoterapia alerta sobre dois desvios correntes na compreensão cristã: o neo-ortodoxo e o humanista. O primeiro é criticado porque retira a força curativa e redentora; o segundo, porque reduz a religião à esfera humana, e com isto a salvação divina se torna auto-ajuda. A psicanálise mostra a necessidade de hetero-ajuda; questiona o teólogo sobre o alcance da mensagem salvadora e o obriga a repensar a teologia de modo que esta inclua as dimensões psíquicas, corporais, sociais e históricas: “O conceito genérico e um pouco vago de Espírito de Deus precisa ser preenchido com material concreto que corresponda às muitas dimensões da existência humana e dos variados âmbitos da vida.” [53]

Como psicanalista, quero, ao concluir, expressar a esperança de que as contribuições de Tillich não apenas enriqueçam o labor teológico, mas que também fecundem o fazer analítico - que na escuta terapêutica haja ouvidos reverentes para a dimensão da essência, para a irrupção do sagrado na terapia. [54]

Peço uma breve licença clínica, e termino com um fragmento de sessão de uma paciente, órfã de pai e mãe, que viveu muitas privações físicas, emocionais e culturais; escondia-se nos cantos da casa, portadora de uma angústia que a impedia de realizar as atividades mais simples, por vezes. Quando adulta, viveu uma experiência de conversão religiosa, e, recomendada pelo pastor, veio buscar psicoterapia. Depois de trabalhar sua angústia profunda, que a arrastava a idéias suicidas, conta durante a sessão:

Acho que chegamos às raízes da minha dor. Eu sentia uma separação dentro do meu eu, partes que não se juntavam. Em oração, já clamei sobre isso, e me senti ouvida...mas não estava sarada. Quando conseguimos falar dessa dor na semana passada, quando consegui colocar em palavras aquilo que sentia, algo aconteceu dentro de mim. Nesta semana passei bem. Sinto que agora a imagem de Deus, aquilo para o que fui criada, pode começar a acontecer até nas profundezas da minha alma. Ele quer que eu ame a Ele, aos outros e a mim mesma. Isso era o mais difícil, mas está começando a acontecer. Também aqui, a verdade liberta.”

Saúde e salvação: a dinâmica da fé perpassando a dinâmica do inconsciente; a coragem de ser suscitando individualização e participação...Sinto-me desafiada a seguir incorporando as contribuições de Tillich para compreender o ser humano, suas dores e sua fé. Em tempos de inter- e transdisciplinaridade, Paul Tillich convida teólogos e psicanalistas a não temerem o encontro entre as diferentes dimensões do conhecimento e do ser, e a ver brotar, nas interfaces, a vida fecunda.


[1]Psicóloga e psicanalista, mestra em Teologia, professora da Escola Superior de Teologia; vice-coordenadora do Grupo de Pesquisas Teologia e Inter/transdisciplinariedade do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, São Leopoldo; vice-presidente Sul do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos; vice-coordenadora do Grupo Independente de Pesquisas em Psicanálise e Religião. Esta comunicação, apresentada na Jornada da Sociedade Paul Tillich, é um resumo do capítulo de livro em preparação sobre o pensamento de Paul Tillich do Grupo de Pesquisas Teologia e Inter/transdisicplinaridade, organizado por Enio R. Mueller. Endereço para contato: wondracek@brturbo.com
[2]A relação entre o pensamento de Paul Tillich e a psicologia e psicanálise foi amplamente trabalhadas no V Seminário em Diálogo com pensamento de Paul Tillich, cujas contribuições estão na Revista Estudos da Religião Ano XIII, n. 16, de junho de 1999.
[3]TILLICH, Das System der Wissenschaften nach Gegenständen und Methoden,[O Sistema das ciências de acordo com os materiais e métodos] (1923). Gesammelte Werke ,v.I. Stuttgart : Evangelisches Verlagswerk, 1959-1975. A data entre parênteses indica o ano da primeira publicação de cada texto.
[4]TILLICH, Das System der Wissenschaften, p.165.
[5]TILLICH, Das System der Wissenschaften, p. 165.
[6]TILLICH, Das System der Wissenschaften, p. 165.
[7]S. FREUD.(1915) Os instintos e suas vicissitudes. Obras Completas, v. XIV, p. 137-168.
[8]Joel BIRMAN, Psicanálise, ciência e cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
[9]TILLICH, Autobiographische Betrachtungen , (1952), GW XII, p. 68-9.
[10]Cf. E. JONES. Vida e Obra de Sigmund Freud, Rio de Janeiro : Imago, 1992, p. 55ss
[11]TILLICH, Autobiographische Betrachtungen, p. 74. O grifo é meu.
[12]TILLICH, Das System der Wissenschaften, p. 141.
[13]TILLICH (1957), Teologia Sistemática, 1987, p.265.
[14]TILLICH (1957), Teologia Sistemática, p. 265.
[15]TILLICH (1957), Teologia Sistemática, p. 285
[16]TILLICH, em alemão: Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus, p. 308.
[17]Gênesis 1, v.10,12,18,21,24,31.
[18]TILLICH Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus , p. 308.
[19]S. FREUD, (1930), Mal-estar na civilização. OC, v. XXI, p. 81-178.
[20]TILLICH, Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus , p.310. O grifo é meu.
[21]TILLICH, (1957), Teologia Sistemática, p.286.
[22]TILLICH, Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus , p. 311.
[23]E. FREUD & H. MENG. Cartas entre Freud & Pfister: um diálogo entre psicanálise e fé cristã. Viçosa: Ultimato, 1998. Cf. cartas de Freud, especialmente as de n.6, 9, 10, 11, e a de Pfister em 16.5.1931.
[24]TILLICH, Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus, p. 311.
[25]A este respeito, ver F. DOLTO e G. SEVERIN, O evangelho segundo a psicanálise. (1979) RAGUSE, Hartmut. Der Raum des Textes. (1998) BALMARY, Marie. O sacrifício proibido. (1997)
[26]No nosso grupo de pesquisa, cf J. M. SANTOS, Central do Brasil: busca, fuga, inclusão e encontro. Dissertação de mestrado. São Leopoldo: IEPG, 2001.
[27]TILLICH, Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus , p. 313.
[28]TILLICH, Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus, p. 314. O grifo é meu. Esta citação toca profundamente as gerações de psicólogos e psiquiatras que, como eu, foram influenciados pelo Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, e aclara a razão pela qual o conceito de graça divina ter ficado mais compreensível e palpável neste círculo do que nas comunidades religiosas de origem. Cf. Psicoteologia – Boletim do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, São Paulo – 1976 em diante www.cppc.org.br/psicoteologia e H. ELLENS Graça de Deus e saúde humana. São Leopoldo : Sinodal/CPPC, 1984.
[29]TILLICH, Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus, p.315.
[30]SCHARFENBERG, Joachim. Paul Tillich und der geistige Horizont des gegenwärtigen Verhältnis von Psychoanalyse und Religion. Wege zum Menschen 24 (1972) Göttingen :121-25.
[31]TILLICH, Die theologische Bedeutung von Psychoanalyse und Existentialismus, p. 315.
[32]TILLICH, (1957), Dinâmica da Fé, São Leopoldo: Sinodal, 1996, p. 8.
[33]TILLICH, Dinâmica da Fé , p. 8.
[34]TILLICH, Dinâmica da Fé, p. 8.
[35]S. FREUD, Atos obsessivos e práticas religiosas.(1908) OC IX, p. 121-136.
[36]S. FREUD, S. O futuro de uma ilusão (1927), OC XXI, p.15-80.
[37]TILLICH, Dinâmica da Fé, p. 16.
[38]A este respeito, ver Juan DROGUETT, O desejo de Deus, Petrópolis: Vozes, 2001, Carlos Dominguez MORANO, Crer depois de Freud, São Paulo: Loyola, 2003, e O futuro e a ilusão, Petrópolis: Vozes, 2003, organizado pela autora.
[39]S. Freud, Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. (1912). OC XII, p. 149-163.
[40]TILLICH Teologia Sistemática , p. 54.
[41]TILLICH Teologia Sistemática, p. 55.
[42]Cf. com a resposta de Pfister a Freud, no texto A ilusão de um futuro: “O senhor combate a religião...por religião”. In: O futuro e a ilusão, 2003, p. 3.
[43]TILLICH, A dinâmica da fé, p. 56. Esta crítica à não-discriminação entre filosofia materialista e pesquisa científica é retomada, na atualidade, por Phillip E. JOHNSON. Ciência, intolerância e fé. Viçosa : Ultimato, 2004.
[44]TILLICH, A dinâmica da fé, p. 56.
[45]Freud, no O futuro e a ilusão até usa a expressão “construído um tesouro de representações” para designar as projeções feitas a partir das fantasias infantis. (1927), 1976, v XIX, p. 30.
[46]. TILLICH, Das System der Wissenschaften, 1923, GW I, p. 141.
[47]A este respeito, ver o artigo de James FARRIS, Paul Tillich e a psicologia, especialmente a partir da página 33. In: Psicologia, Saúde e Religião; Revista Estudos da Religião, UMESP, VII, n.16, junho 1999.
[48]TILLICH, A dinâmica da fé , p. 32.
[49]TILLICH, A dinâmica da fé , p. 72.
[50]TILLICH, A dinâmica da fé , p. 69.
[51]TILLICH (1960) Em alemão, Der Einfluss der Psychotherapie auf die Theologie. G.W.VIII, p. 325-335.
[52]Tillich trabalha com o etimologia comum do latim salvus - salus e do alemão Heil e Heilung.
[53]P. TILLICH. Der Einfluss der Psychotherapie auf die Theologie, p.334.
[54]Este o tema do livro do psiquiatra Carlos Jose Hernández: O sagrado na terapia. São Paulo : CPPC, 1986.