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Paul Tillich e o corpo

Frederick J. Parrella Tradução de Jaci Maraschin


Introdução

A relação entre o pensamento teológico e filosófico de Paul Tillich e seu conceito de corpo é ao mesmo tempo fascinante e desafiadora. Que queremos dizer com essa palavra, “corpo”? Seria a materialidade em contraste com o espírito? Será o corpo sexuado como em geral se pensa hoje ou o corpo espiritual descrito por São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 15? Este tema me fascina porque não se tem dado atenção ao corpo enquanto tal na história do pensamento teológico ocidental e, demasiadamente, a ênfase tem recaído no espiritual em detrimento do corpóreo. Acrescento mais uma razão. A maneira ambígua como Tillich se refere ao corpo. Ele foi um pensador profundamente teológico e espiritual ao mesmo tempo em que sua vida pessoal, pontilhada de casos extra-matrimoniais, sugeria conceitos completamente diferentes a respeito do corpo. Vou considerar, a seguir, três tópicos: algumas idéias sobre espiritualidade cristã e corpo; a teologia de Tillich do corpo e da criação com sua compreensão de epithymia, ou desejo sexual, e Eros, ou poder do amor; finalmente, o corpo em sua vida pessoal.


O corpo na espiritualidade cristã

Comecemos nossa discussão a respeito do corpo agora e neste belo país. Jaci Maraschin escreveu eloqüentemente sobre a maneira como os brasileiros se relacionam arte e corpo. Escreveu: “A cultura brasileira é fortemente marcada pela tendência dionisíaca visível na experiência de nossas praias e na maneira como movemos o nosso corpo no dia a dia. Nossa vida é dirigida por ritmo e alegria. É verdade que temos arte acadêmica e galerias e museus de arte tradicionais. Contudo, a arte experimentada e vivida pelo povo situa-se mais na perspectiva da presença. Presença, neste caso, é presença revelada.” (1) Ele continua analisando quatro aspectos da cultura brasileira e sua relação com o corpo: carnaval, futebol, procissões religiosas católicas e pentecostalismo. Em cada caso, ele revela a importância de elementos superficiais, nas expressões corpóreas da cultura. Ao assim fazer, ele nos lembra – talvez sem intenção – as raízes judaicas cristãs no corpo, e o profundo significado do papel do corpo na salvação cristã. De qualquer modo, São Paulo, com sua beleza sensual e quente, está muito distante do mundo escuro e glacial da Alemanha onde Tillich nasceu e cresceu.

Desde as origens o cristianismo foi religião do corpo, fundamentado na realidade concreta da carne e do sangue humanos. O alvo da vida cristã, no dizer de São Paulo, consiste na transformação da pessoa em “espiritual” (pmneumatikos), capaz de receber a revelação do Espírito e de possuir a mente de Cristo. Paulo contrasta a pessoa espiritual com a “natural” (psychikos), a que não tem lugar para os dons do espírito de Deus (1 Co 2.1-6), considerados loucura para o mundo. O termo “espiritual” no pensamento Paulino, não significa a alma distinta do corpo, mas o interior da pessoa, corpo e alma, viva e cheia do Espírito de Cristo. (2) Quando a Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós , tomou a forma corpórea de Jesus de Nazaré, que nasceu como qualquer um de nós e viveu também como os demais seres humanos. No Calvário o corpo e a alma de Cristo morreram, ou seja, seu ser inteiro. Foi esse mesmo ser inteiro que ressuscitou dentre os mortos. Da mesma forma é o corpo e o sangue de Cristo que são celebrados e relembrados na Eucaristia, testemunho sacramental da completa auto-doação de Deus em corpo e alma em Jesus de Nazaré. O corpo ressurgido de Cristo sugere que a totalidade da vida humana terrena está incluída no poder de Deus e em sua vontade redentora. (3)

Essa espiritualidade corpórea não sobreviveu por causa de duas forças históricas: em primeiro lugar, a conversão de Constantino ao cristianismo e sua transformação em religião do Império Romano; em segundo lugar, e mais importante, a interpretação do cristianismo por meio de categorias filosóficas gregas. Nos primeiros três séculos, os cristãos representavam a contra-cultura com a aceitação do martírio por causa da fé nos períodos de perseguição. Com a conversão de Constantino e com o estabelecimento do cristianismo como religião do Império em 312, os cristãos devotos não mais tiveram a oportunidade de demonstrar a profundidade de seu amor e compromisso com Cristo por meio do martírio. Além disso, muitos se convertiam ao cristianismo sem grande convicção; se o imperador era cristão, parecia-lhes boa idéia seguí-lo. Os cristãos mais consagrados tornavam-se agora “mártires” em outro sentido, entregando suas vidas a Cristo ingressando em ordens religiosas monásticas. Assim, rejeitavam a vida corpórea do casamento, do sexo e da procriação.

Essa mudança de sentido do testemunho cristão, fez com que a virgindade ou a vida fora da sexualidade no mundo, acabasse sendo considerada a mais alta forma de vida cristã. A filosofia grega, especialmente o neoplatonismo, ressaltava o valor do espírito em oposição à matéria, acentuando a condição de segunda classe da sexualidade e do casamento na vida cristã. Santo Agostinho, o maior teólogo do Ocidente no primeiro milênio da história da igreja, considerava a atividade sexual, infelizmente, e o casamento, coisas vergonhosas. Essa atitude era comum entre os Pais da Igreja, especialmente no Oriente. Infelizmente, Agostinho, pai da teologia medieval, foi seguido pela maioria dos teólogos dessa época e de épocas posteriores até nossos dias. Além disso, as perversões sexuais dominantes nos mundo antigo e no paganismo levaram ao exagero a importância do celibato e da virgindade na igreja dos cinco primeiros séculos.

A partir do século quarto já existiam duas classes de cristãos, os que praticavam a virgindade e os que se casavam. O casamento e a sexualidade eram considerados inferiores. A aliança matrimonial era vista como o caminho dos fracos porque servia de remédio à concupiscência, tida como impulso sexual isolado da totalidade da pessoa. Essa atitude resultava muito mais do pensamento grego do que do hebraico. O pensamento grego era inevitavelmente dualista. Nele o mundo material era menos importante do que o mundo vindouro do espírito. No pensamento hebraico, por sua vez, a vida corpórea no mundo tinha importância suprema, e subentendiam o casamento e a sexualidade. É por isso que as escrituras falam da ressurreição do corpo ( querendo significar a totalidade da pessoa) e não da imortalidade da alma, idéia grega estranha aos escritores do Novo Testamento. Tillich rejeitou o conceito teológico de “imortalidade” da alma embora reconhecesse nele certo valor simbólico. Segundo Tillich, embora a idéia de imortalidade da alma tivesse sido usada muito cedo na teologia cristã, somente a ressurreição do corpo era o símbolo bíblico da vida eterna. A ressurreição do corpo significava a transformação do corpo pelo Espírito em “corpo espiritual”. Assim, define o “corpo espiritual”, de Paulo, como “corpo que expressa a plena personalidade humana espiritualmente transformada”. (4)

O dualismo entre corpo e alma expresso no conceito de imortalidade da alma tem persistido no pensamento cristão até hoje com conseqüências negativas tanto para a teologia como para a piedade. A teologia e a piedade sobre a morte foi, pois, individualista, estática e nada bíblica. Em face disso a vida no mundo parecia menos importante do que a vida na eternidade. A busca terrena de justiça e paz dava lugar aos esforços para a salvação da alma, sem grandes preocupações com a existência física ou com o corpo como participantes na vontade criadora de Deus. O pecado, tanto na tradição católica como na protestante, associava-se intimamente com o corpo em sentido fisicalista e não com a atitude de auto suficiência, perda de confiança e afastamento da presença e da graça divinas. Depois do Concílio Vaticano II no catolicismo surgiu nova compreensão da vida cristã, mais bíblica e histórica. Na Constituição sobre a Igreja, Lumen Gentium, o capítulo quinto declara que “todos são chamados à santidade”. Abre-se aí o caminho para a autêntica espiritualidade da vida matrimonial e familiar, considerando-se santo o estado da plenitude da vida sexual no mundo, não como acréscimo ou apêndice, mas como participação na vida e no amor, incluindo os corpos nesse compromisso de união.

A unidade de corpo e alma tem raízes na teologia tradicional de Santo Tomás. Para ele, a alma é a forma do corpo, responsável pela sua existência. O corpo e a alma não são duas substâncias mas uma só com dois componentes. Rejeita qualquer teoria que nos leve a pensar na alma como o piloto num navio, ou que seria melhor não ter corpo. Assim, as pessoas são o que são porque seus corpos e almas são inseparáveis formando uma só personalidade e entidade. (5) Karl Rahner, entre os maiores teólogos do século vinte, ressaltou a importância teológica do corpo na sua interpretação da morte: afirmou que a pessoa inteira morre e não apenas o corpo, não havendo, portando, pessoas sem corpo ou “acósmica”. Elaborou a hipótese da “pancosmicidade” da alma e da matéria na morte. Se quem morre é a pessoa inteira e é ressuscitada para a vida em Cristo, então, a essa pessoa, de certo modo, permanece “material” posto que essa é uma condição de sua existência. Não há descontinuidade na plenitude da pessoa na vida, na morte e na ressurreição. (6) Este breve resumo da tradição teológica cristã sugere um pensamento bem mais positivo a respeito do papel do corpo do que o dualismo de influência grega. Este contexto é um fator importante para a compreensão teológica e pessoal do corpo no pensamento de Tillich.


A Compreensão Intelectual do Corpo

Há dois aspectos importantes para a compreensão teológica do corpo no pensamento de Tillich: primeiramente, o corpo como criação divina e, em seguida, o papel de Eros, de epithymia ou libido.

O ser para Tillich reliza-se como espírito pleno onde todos os elementos ontológicos se unem ao telos da vida. “O espírito é a unidade de poder por meio do qual vive o sentido, e é o sentido que dá direção ao poder”. Em relação com o poder o espírito inclui “personalidade ao redor de um centro e auto transcendente e liberdade de auto determinação”. Em relação com o sentido, inclui “participação universal, formas e estruturas da realidade e destino limitador e orientador”. Como afirma Tillich, “o espírito não contrasta com o corpo. A vida espiritual transcende o dualismo de corpo e mente”. Para ele, o espírito de deus é o símbolo inclusivo da vida divina. Portanto, o espírito nada exclui e, necessariamente, inclui o corpo. (7) Tillich gostava de citar o místico suábio, F. C. Ötinger quando dizia que “o corpo é o alvo dos caminhos de Deus.”(8) Afirma que o corpo é “conseqüência necessária da doutrina cristã da criação, rejeitando a doutrina grega da matéria como princípio antiespiritual.”(9) Ao considerar a onipresença de Deus, entende que ele é espacial. Se por um lado não se pode considerar Deus mero corpo, a afirmação de seu espírito, de outro, não o exclui do corpo. No espírito, segundo Tillich, “os elementos ontológicos da vitalidade e da personalidade estão presentes e, com eles, a participação da existência física na vida divina”. (10) Tillich, então, rejeita qualquer dualismo entre corpo e espírito, entre o físico e o espiritual e entre o secular e o sagrado. Diz: “na certeza do Deus onipresente, estamos sempre em seu santuário”. (11)

Em segundo lugar, vamos considerar a compreensão que teve Tillich do amor para entendermos sua doutrina do corpo. Em, Amor, poder e justiça, Tillich propõe quatro tipos de amor. Esses tipos interrelacionam-se e se caracterizam pelo mesmo movimento do ser na busca da “reunião com o separado”. Os tipos clássicos do amor ( o uso dos termos gregos nos ajudam a entendê-los) são: epithymia (libido em latim), Eros, philia e agape. (12)

Epithymia ou libido é o impulso sexual e procriador que busca união com o outro. A libido, segundo Tillich, é mais do que a mera busca do prazer sexual; esse desejo não é amor enquanto epithymia mas, como ensinava o ex-aluno de Tillich e piscólogo, Rollo May, apenas a liberação de tensões físicas. (13) A intenção de epithymia é a reunião física com o outro e não o prazer que acompanha essa reunião. Tillich dizia que “não se desejava o prazer, mas a união que satisfaz o desejo”. (14) A epithymia é boa em si mesma, segundo Tillich, e somente os puritanos antigos e modernos ( entre os quais Freud se situa parcialmente) não conseguem perceber que se trata “da pulsão normal para a auto-realização”. Da mesma forma, achava que essa qualidade se fazia presente em todas as relações amorosas, desde que não se limitasse à mera busca do prazer por causa do prazer. (15) Como diz Theodore Mackin, escrevendo sobre o sacramento católico do matrimônio, “Somos atraídos por Deus por meio da mesma atração de uns para com os outros.”(16) Certamente, parte dessa atração é sexual, e ela é ma maneira escolhida por Deus para que a raça humana sobreviva e frutifique.

A idéia de eros é, naturalmente, mais importante para se compreender o corpo no pensamento de Tillich. Infelizmente, a palavra “erótico” em nossas línguas perdeu a profundidade e o alcance original e em nossa cultura se reduz a mero sinônimo de pornográfico. Esse uso da palavra está longe do sentido que lhe dava Platão: era o nome do deus ou demiurgo que constituía o espírito criador humano. Eros é a força que não só “nos impele à união com o outro de forma sexual ou de outras formas, mas também incita o ser humano ao conhecimento e o leva a buscar apaixonadamente a união com a verdade.”(17) No Banquete, Platão chama Eros de “grande espírito (daimon), intermediário, como todos os espíritos, entre o divino e o mortal...”(18) Eros é o impulso na direção do absoluto e pleno, força pessoal dentro de cada um de nós, dirigida para o horizonte infinito da verdade, da beleza e do sentido. No âmbito biológico, é “o impulso para a união e para a reprodução”. Eros não se confina a formas finitas particulares muito embora só possa ser experimentado por meio de formas particulares. Os gregos antigos sabiam que Eros era um deus ou daimon, não “no sentido de estar acima dos homens, mas como poder que os reúne e que informa todas as coisas”, no dizer de Rollo May. Eros é “a força criadora original”. Ele reúne a diversidade. Eros é “o poder em nós em busca da plenitude, a pulsão que quer dar sentido e forma à nossa alienação, dar forma à nossa empobrecedora falta de forma, integração para contrabalançar nossas tendências desintegrantes.”(19) Para Santo Agostinho Eros era “o poder que leva as pessoas a Deus... o desejo da união mística expresso na experiência religiosa de união com Deus”. (20)

Eros, naturalmente, pode ser reduzido ao simples desejo sexual, mas Tillich, na tradição dos antigos gregos, insiste dizendo que o biológico não é negado mas incorporado em Eros e nele transcendido. (21) Segundo Tillich, “Em todos os momentos de Eros também está presente epithymia, muito embora Eros a transcenda”. Diz ainda que sem o Eros pela verdade, “a teologia não existiria; sem o Eros pela beleza não haveria nenhuma expressão ritual”. (22) Mas insistia que tanto Eros como epithymia deveriam se submeter ao amor ágape. Pare ele, ágape era amor incondicional e absoluto, o amor de Deus. Não se trata de outro tipo de amor ao lado de epithymia, Eros e philia, mas a qualidade do incondicionado in todos os tipos e expressões do amor. Ágape, dizia ele, “é o amor no meio do amor”... “a profundidade do amor ou o amor em relação com o fundamento da vida...”(23) É o amor de Deus, a perfeição do amor em todas as suas formas. Julga a inadequação do amor humano e o cura e transforma em sua fragilidade e falha. Nos evangelhos, Jesus prega o ágape sem excluir epithymia, Eros e philia. Por isso, Jesus compareceu à festa de Caná da Galiléia para celebrar – com muito vinho, observemos – o casamento de duas pessoas, participar com seus amigos íntimos Pedro, Tiago e João, e pregar apaixonadamente o amor de Deus por todos.

Segundo Alexander Irwin em seu livro Eros towards the World: Paul Tillich and the Theology of the Erotic, (24) Tillich atribuía a eros “tremendo poder”.(25) Em seu artigo de 1926, “O demônico: contribuição à interpretação da história”, Tillich identifica “o impulso para o poder como o impulso na direção de Eros”, foras polares fundamentais relacionadas com as forças do subconsciente. (26) No livro, Socialist Decision, liga Eros com o que chama de “poder da origem”. Escreve: “Eros... quer se unir ao poder primitivo da existência antes de qualquer análise, posto em oposição, especialmente pelos jovens, com as maneiras racionais como organizamos o mundo”. (27) Além disso, relaciona a dimensão não-racional e fundamental de Eros com o feminino, sugerindo que “as mulheres refletem o eros ou se mostram abertas a ele, de maneira profunda e decisiva”. (28) Para ele, Eros é o poder daiamônico e a fora motora de todas as esferas da vida e da cultura humanas – no conhecimento, na moral, na estética, na religião e naquilo que denomina “Eros dirigido para o mundo”. (29) Eros ou amor exemplifica o poder ontológico de qualquer tipo de amor; a reunião dos separados. No domínio do conhecimento, sem Eros, só teríamos o intelectualismo formal. Com Eros, por outro lado, somos “levados para aquilo a que pertencemos e que nos pertence”. Segundo Tillich, “em todos os atos de conhecimento o desejo e a alienação são superados”. (30) Eros leva a mente à verdade. (31) As relações humanas, sem Eros perdem o poder e o mistério privilegiando a sensação e seu lado sexual ou permanecendo apenas no nível da amizade. Assim, Eros funciona como importante lente tanto para se apreciar o pensamento de Tillich como sua vida.


Tillich e o Corpo na sua Vida Pessoal

Nas reflexões autobiográficas, Tillich caracteriza sua vida “na fronteira”. (32) Mas nunca falou sobre a fronteira relacionada com o próprio corpo e sobre o papel vital que o eros representou em sua vida. Trata-se da fronteira entre sua vida pública e acadêmica e sua vida privada de marido, pai e amigo. Rollo May dizia que ele “precisava viver dionisiacamente e pensar apolineamente... coisa que sempre lhe manteve dinâmico e psicologicamente aberto”. (33) Segundo o mesmo autor, Paulus poderia ter dito como Fausto: “Duas almas vivem dentro de mim”. (34)

Vamos examinar, em primeiro lugar, a relação que tinha com o próprio corpo. Como quase todos os europeus, levava a sério sua saúde. Construía castelos na areia, fazia longas caminhadas aos domingos e, como bom alemão, procurava manter-se em boa forma. (35) Observava certos hábitos de alimentação ao mesmo tempo que apreciava a boa mesa, o vinho delicioso e a cozinha francesa. (36) Também gostava de seus cocktails. Quando entrevistei sua esposa, Hannah Tillich em 1985, ela estava com 88 anos. Nessa ocasião me contou que ele tomava seu scotch todos os dias ao meio-dia e por volta das 5 da tarde. (37) Só veio a adquirir alguns quilos a mais depois dos 70 anos quando lecionava em Harvard e gozava de considerável fama. (38)

A primeira fonte de informação sobre Tillich e seu corpo – como viveu o Eros em sua vida pessoal – encontra-se nas narrativas de suas atividades extra-matrimoniais. Tillich nunca permaneceu fiel à sua esposa, Hanna, durante os 41 anos em que durou seu casamento. Ela, por sua vez, também admite sua infidelidade talvez em resposta aos relacionamentos do marido com outras mulheres. Uma década depois da morte de Tillich, sua esposa publicou dois livros de memórias de sua vida com ele trazendo para o público o que os amigos e colegas sempre souberam. (39) Os livros, From Time to Time (1973) e From Place to Place: Travels with Paul Tillich, Travels without Paul Tillich (1976), causaram furor na comunidade acadêmica. Na mesma época, seu estudante e amigo, Rollo May, em Paulus, Remniniscences of a Friendship (40) contava histórias bem diferentes das de Hanna a respeito das relações do amigo com outras mulheres. Devo confessar agora que durante minha entrevista em 1985 com Hannah Tillich, ela me pareceu um pouco embaraçada quando lhe pedi para autografar um de seus livros e me disse que tinha se arrependido de escrevê-los. Contou-me, então, que estava muito amargurada na época e que precisa do dinheiro que os livros lhe poderiam render. Poucas pessoas duvidariam dos fatos que ela descreve acerca de seu casamento, mas a maioria dos leitores discordava da interpretação que ela dava ao modelo do estilo de vida que levava com o marido.

Essas coisas aconteceram. Tillich manteve inúmeros casos com mulheres depois da Primeira Guerra Mundial. Depois de seu desastroso casamento com Grethi, por quem sentia profunda atração sexual, retornou à vida dionisíaca. Grethi lhe havia traído com um de seus amigos e tivera um filho com ele. Encontrou Hannah num baile e se casou com ela em 1924. Essa casamento durou até a morte dele em 1965. ( Hannah morreu com a idade de 92 anos em 1988). Quando Hannah se apaixonou por Tillich estava já comprometida com outro homem com quem se casara e de quem tivera um filho. Em 1923 ela se divorciou dele e se casou com Paul Tillich.(41) Nasceram dois filhos, Mutie (Erdmuthe) e René, em 1925 e em 1935 respectivamente. Depois da viagem para a América em 1933, Paulus e Hannah começaram a dormir em quartos separados e seu casamento, para dizer o mínimo, tornou-se tempestuso até o final. Haviam concordado em manter um casamento aberto desde o começo, mas como em geral acontece nesses acordos, um dos envolvidos acaba sofrendo e se sente abandonado.

O poder demônico de Eros – usado tanto para a criação como para a destruição – estava no centro do relacionamento de Tillich com Hannah e com outras mulheres. Ele veio de uma juventude sexualmente reprimida. Rollo May achava que ele havia sido um adolescente ingênuo a respeito do sexo. (42) Da mesma maneira, sua formação muito tradicionalista ( seu pai era superintendente da Igreja na Alemanha) impedia que ele saísse do “estado de inocência sonhadora”. (43) Perdera a mão quando tinha apenas 17 anos de idade e ficou inconsolável. Tudo indica que esse evento marcou seus futuros relacionamentos com mulheres: sua mão morreu antes que a pudesse ter conquistado. Somente enquanto criança tinha tido a chance de tê-la para si. Esse modelo de relacionamento infantil repetia-se com outras mulheres. (45) Para Tillich, a sedução envolvia outras dimensões além da sexual; seus relacionamentos com as mulheres eram mais sensuais e eróticos do que sexuais, embora esse elemento também estivesse presente. Ele conseguia enredar com extraordinário poder emocional qualquer mulher com sua capacidade de olhar “não para elas mas dentro delas”. (46) Rollo May relembra que Tillich não gostava de piadas sujas ou sexuais muito embora apreciasse a boa pornografia. “Sinto que ele sempre teve atitude reverente para com o corpo da mulher e tanto em face da vagina como do falo”. (47)

A paixão de Tillich pela plenitude e pela realização fundamentava-se não na libido mas no Eros. May sugere que “suas necessidades ontológicas eram grandes” e que exigia das mulheres a satisfação de seus desejos. (48) O mesmo May cita uma carta de Tillich enviada antes da Páscoa a uma mulher que amava na época de seu casamento: “Minha vitalidade toda ressurge quando penso em você. Pense em mim na manhã da Páscoa. Será que a pedra será afinal removida? Amor infinito, P.”(49)

O dom de Eros também se manifestava em seu ensino. Seus biógrafos, Marion e Wilhelm Pauck são claros neste ponto: “Como professor, fazia o mesmo que em suas amizades com homens e mulheres: procurava desenvolver suas riquezas espirituais ao máximo”. Tinha o dom de “ouvir os outros e de lhes levar a sério”. Assim, “provocava os ouvintes a dizer coisas, a expressar idéias que nem imaginavam ter – mantidas em silêncio até esses momentos”. (50) May revela que “ele se mostrava constantemente deprimido” , coisa que o impelia a estar sempre fugindo ... äs vezes impressionava as pessoas parecendo ser alguém perseguido pela vida”. (51) Seu filho, René Tillich, terapeuta no Havaí, escreveu: “Meu pai mostrava-se quase sempre angustiado em casa, suspirando e esfregando as mãos. Mas na frente das pessoas se transformava, como o cirurgião que treme até o momento de entrar na sala de operação. Estava sempre angustiado a não ser quando trabalhava ou se apresentava em público.”(52) Só conseguia superar a angústia no ensino, em seu trabalho de teólogo e nos relacionamentos com mulheres. Lembremos esta frase de sua Teologia sistemática: “Em todos os atos de conhecimento a falta e a alienação são superadas”. (53)

A paixão de Tillich e seu “Eros voltado para o mundo” não foram coisas fáceis de aceitar por sua mulher e filhos. Mas Hannah também tinha seus contratempos. Seu filho, René, descreve sua voz em casa como “aguda, áspera, tirânica, exigente e crítica”. Além disso ela tinha seus próprios problemas com o sexo. “Parecia que estava sempre falando a respeito de sexo”, escreve ele. Encontrava motivos sexuais em todas as coisas... escrevia romances com temas sexuais e me mandava, às vezes, livros pornográficos como A história de O ... “ Seu diagnóstico era de que ela havia sido quando criança molestada pelo próprio pai, um alcoólatra. (54) Hannah tornou-se mais revoltada contra os casos sexuais de Tillich à medida que envelhecia. Ele mesmo, preocupava-se com acusações públicas sobre seu comportamento, com medo de que pudessem atrapalhar sua carreira. Quando adolescente, seu filho lhe perguntou “como reconciliava o fato de ser ministro evangélico e adúltero ao mesmo tempo”. Tillich lhe respondeu que nunca havia se manifestado contra o adultério, terminando assim a conversa. (55)


CONCLUSÃO

A maneira teológica como Tillich entendeu o corpo situa-se muito mais nba tradição teológica “católica” do que “protestante”. Tanto na tradição católica como na luterana, finitum capax ifniniti ( o finito é capaz de abranger o infinito), tem sido um princípio permanente; em outras palavras, a graça se realiza nas coisas da terra. Tillich como pessoa e como pensador acreditava na inclusividade; era católico no sentido original do termo. (56) Assim, para ele, o sexo fazia parte do Eros, o corpo, do espírito e o não-ser, do ser.

Em sua vida pessoal entendia muito bem o verso de Rilke ( de quem muito gostava): “Se os meus demônios me abandonarem, os meus anjos também irão embora”. (57) Sabia que quanto maior e mais abrangente fosse o seu ser, tanto maior seria o risco do não-ser. Tinha, assim, consciência de que a tragédia só desaba sobre os grandes. (58) Não sendo moralista nem libertino, sabia que o eros era um daimon, um grande espírito empenhado em unir o divino com o humano; sabia também que a bondade do daimon podia se tornar negativa e, portanto, “demônica”. Admitia ter sido perseguido por seus demônios durante toda a vida. Por outro lado, segundo Marion Pauck, não se deve pensar que ele estivesse todo o tempo tentando seduzir mulheres jovens de maneira grosseira e meramente física. Não era hipócrita; (59) viveu o que ensinou e ensinou o que viveu. Não obstante, sempre exerceu enorme poder sobre as mulheres e manteve com muitas delas relacionamento profundo e duradouro. “Possuía suficiente Eros para todas”, no dizer de uma delas. (60) Conseguia ver as coisas divinas em vasos terrenos; percebia a graça nos relacionamentos com as pessoas; deixava-se levar apaixonadamente pela vida, pela sexualidade, pela arte, pela beleza, pela comida e pela bebida, e pela vida da mente, para chegar “a situações humanas de fronteira”. Talvez, seu filho, René, tenha captado esse aspecto da vida apaixonada de Tillich e da sua busca de plenitude, melhor do que qualquer outro:

“Tillich aplicava para si a cura que os terapeutas prescrevem, que era a auto-exploração. Certamente, Deus o sabe, Paul praticou a mais honesta auto-exploração. Foi o que fez em sua teologia – vê-se isso claramente em seu trabalho - na qual explicava-se a si mesmo com fascinante coragem e rigor, recusando-se a mascarar o que não devia ser mascarado na alma humana e, por extensão, em si mesmo. Reconhecia a realidade do demônico nos humanos e achava que devia ser abraçado e considerado. Recusava-se a separar o desejo sensual do amor, e não queria resolver o problema dos excessos sexuais relegando-os simplesmente aos cinzeiros da moralidade. E, acredito, percebia essas coisas nele mesmo quando as discutia em termos teológicos. Acredito que meu pai passou a vida praticando a cura pela fala, assim como Freud se analisava ao desenvolver suas teorias. Os dois foram homens notáveis, acima e além do legado que deixaram para o mundo.” (61)

A vida e a obra de Tillich manifestam o triunfo da inclusividade – da união de corpo e alma, de Eros, libido e ágape; do pessoal e do teológico; da paixão e do espírito. Ao mesmo tempo, sua vida também revelou a natureza precária de suas conquistas.

As notas de rodapé são as mesmas que se encontram no final da versão original em inglês deste artigo.

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