Política e espiritualidade: a espera
Etienne Higuet
A Ambigüidade da Espera
Quem não conhece as filas de espera? Há filas para tudo: para tomar o metrô ou o ônibus; para matricular os filhos na escola; para pagar a conta da luz; para ser atendido no posto de saúde ou no posto do INSS. No momento, os jornais falam diariamente da fila dos aposentados que tentam receber os reajustes aos quais têm direito há anos. Existe até uma “máfia das filas”, que vende os lugares de espera em até trinta e cinco reais. Na baixada do Glicério, estou presenciando cada dia a fila dos moradores de rua, na espera da comida preparada por algumas almas caridosas. Essas filas simbolizam a desigualdade social e política, pois os mais ricos e poderosos conseguem furar todas elas mesmo por meio do famoso “jeitinho”. Os pobres procuram também dar um jeito na vida, ao engrossar a clientela do “patrão”, como segurança ou cabo eleitoral. A cada nova eleição, pensam em eleger um messias ou salvador político. Um emprego na prefeitura já seria tão bom... Para quem não conseguir, sobrará a espera na sorte grande da loteria ou no milagre das novas igrejas. Chico Buarque expressou bem essa espera sofrida na música “Pedro pedreiro”:
- A repetição da palavra “esperando” “reforça a situação estática do personagem e introduz a idéia de monotonia, tédio e das limitações das classes trabalhadoras”. (Calvani, C. E.: 150) Além das esperas concretas do cotidiano, Pedro espera a redenção da sua vida:
- Pedro Pedreiro está esperando a morteOu esperando o dia de voltar pro nortePedro não sabe, mas talvez no fundoEspere alguma coisa mais linda que o mundoMaior do que o mar...
- Na música do Chico, essa espera maior revela-se uma ilusão:
- Mas pra que sonhar, se dáUm desespero de esperar demaisPedro Pedreiro quer voltar atrásQuer ser pedreiro, pobre e nada mais, sem ficar...Esperando, esperando, esperando...Esperando o dia, de esperar ninguémEsperando enfim, nada mais alémQue a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem(que já vem, que já vem, que já vem...)
“O efeito da repetição gradativa do último verso (...) reforça a idéia de expectativa contínua, mas nunca saciada. (...) Essa canção é, sem dúvida, denúncia do trabalho alienado, da redução do ser humano à condição de máquina mas, ao mesmo tempo, afirmação antropológica da faculdade de refletir, esperar e aguardar um futuro diferente.” (Id.: 151)
Talvez seja esse o sentido simbólico da doutrina católica do purgatório, ou da crença espírita na reencarnação: uma espera sofrida, sem perder a esperança. O filme “Deus é brasileiro” começa com uma fila de espera para entrar no purgatório ou no céu, não se sabe. O que se sabe é que o jeitinho não funciona mais. Até para receber informações há uma fila de espera no telefone (em caso de..., disque 2; em caso de..., disque 3, disque 4... ou aguarde uma das nossas atendentes, la – la – laa...). O resto do filme mostra que esperar é simplesmente viver e conviver, procurando saciar a fome, e que, na vida, não faltará felicidade, apesar das ameaças que não param de ressurgir. Quando deixa de ser passiva para tornar-se ativa, a espera torna-se política. Quero descrever a seguir duas figuras da espera: a fome e a caminhada.
Figuras da espera
A fome. Como promete o Salmo, os pobres serão saciados. A Bíblia apresenta muitas vezes a salvação como um banquete festivo, bem real nos livros proféticos, já um pouco espiritualizado no Novo Testamento e, sobretudo, na história eclesiástica da Ceia. Paulo ainda insistia na necessidade da partilha do pão para que todos possam alcançar a saciedade. Mais tarde, ninguém mais ficou satisfeito com a hóstia quase transparente da missa. “A gente não quer só comida, mas quer comida também”. Enrique Dussel mostrou bem a hipocrisia – a idolatria - daqueles que participam da Ceia e do abraço da paz, mas que, por outro lado, arrancam o pão da boca dos pobres. Os satisfeitos precisam jejuar, sentir fome na carne, para não morrer de indigestão e querer saciar a fome dos pobres. É o que mostra Lucas na parábola do rico e do pobre Lázaro. A função principal do jejum é produzir artificialmente a fome, para abrir o coração à espera: espera do encontro com os outros, na justiça do Reino, espera de Deus (Cf. S. Weil).
Por outro lado, a fome de comida simboliza outras fomes. Ela tem uma dimensão erótica que inclui todos os desejos essenciais, da sexualidade à beleza da arte, passando pelo reconhecimento e a identidade, pelo espaço e o tempo da vida.
“Felizes daqueles que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados”.
“O discurso almeja a satisfação daqueles desejos e necessidades geralmente relegados aos últimos lugares nas pautas de prioridade das lutas políticas. De fato, a arte, a diversão e a cultura sempre são as últimas exigências a terem sua satisfação garantida (quando têm). (...) O alimento de que necessita o ser humano para satisfazer suas demandas não é apenas orgânico. Se precisamos de comida para sobreviver, carecemos também de uma série de outras coisas que nos integralizam enquanto pessoas” (Calvani, C.: 261).
É a fome que faz nascer a espera. O filósofo Ernst Bloch colocou a fome como a pulsão humana essencial (antes de Eros e Thanatos), que suscita o desejo, produz as utopias – a espera da justiça e da redenção - e leva ao compromisso político. O ser humano é algo incompleto, cheio de impulsos e desejos. Os principais fatores de dinamismo são a fome, instinto fundamental e a esperança, afeto central. Para sair da carência, o ser humano orienta-se pela consciência antecipadora, que, através do sonho diurno e dos símbolos, prefigura a imagem do mundo melhor, para o qual tende a humanidade. O dinamismo humano é um êxodo – uma espera caminhante – no qual um sujeito vazio e faminto caminha em busca do seu “algo”, da sua pátria. O ser humano está cheio de impulsos e apetites. É o animal mais difícil de ser saciado. O que o coloca a caminho é a fome ontológica, que lhe faz imaginar o objeto do seu desejo. A partir dessa imagem ou representação surge a vontade ativa, preocupada com a transformação das coisas, que supera a indecisão do desejo por meio da opção. Subjacente aos impulsos, está um corpo que come, bebe e ama e desse modo conserva-se a si mesmo. O instinto de conservação que se manifesta na fome antecede a libido e a vontade de potência, pelo menos nos empobrecidos, que enfrentam a fome real e o medo de perder o seu emprego. A primeira modalidade da fome a ser satisfeita é a carência de alimento material. Mas essa “fome econômica” torna-se, em seguida, condição geral do ser humano, que se esforça para superar toda situação onde a sua essência encontra-se oprimida ou alienada. A fome expressa um “apetite transcendental”, a estrutura fundamental do ser humano, que vive na indigência permanente e na tensão para uma plenitude possível. O seu pólo intencional é a saciedade plena, a ser conseguida no fim da história (Cf. Gomes-Heras, J. M. G: 146-156). É por isso que um programa como o “Fome Zero” tem um alcance muito maior que a satisfação das necessidades alimentares de alguns milhões de brasileiros. É um símbolo utópico da satisfação da espera humana essencial.
A caminhada. A fome já nos obrigou a esperar andando, a procurar o nosso rumo com a paciência do andarilho. Chegamos assim ao compromisso político ou cidadão. Muitas ações de protesto ou reivindicação política assumem ainda a forma de marcha ou caminhada. Trata-se sempre de percorrer uma certa distância, de preferência a pé. A origem é religiosa: procissão, peregrinação ou romaria. O tempo da caminhada simboliza a espera ardente do encontro. As peregrinações religiosas representam e dão sentido à grande peregrinação que é a existência humana. Parece que lugares como Lourdes, Fátima ou Santiago de Compostela nunca foram tão populares. Temos, no Brasil, Aparecida do Norte, Canindé de São Francisco, Juazeiro do Padre Cícero, Trindade do Divino Pai Eterno e muitos outros santuários. Além da espera da estrada, o peregrino ainda precisa contar com uma fila de espera, muitas vezes de várias horas para ver e tocar a imagem do “santo”. Encontramos aventuras semelhantes em todas as grandes religiões.
O peregrino é o ser humano que anda, com o corpo solidamente apoiado nos pés, rumo a uma realidade “outra”, numa tensão de realização e de acesso à plenitude. O cristianismo, em particular, optou mais para o dinamismo do ato, do “ir a”, do corpo a corpo com o espaço, que implica esforços e provações, que para a evocação do “lugar sagrado”, realidade estática fixada num ponto do espaço. É a prova do espaço que faz o peregrino. No passado, as peregrinações já foram “penitências” impostas a pecadores, sendo a distância até o lugar sagrado, proporcional à falta cometida. Sobretudo, o percurso peregrino é busca de uma “outra” potência: saúde, procriação, longevidade, boa morte e promessa da vida eterna. Ele expressa a procura, excepcionalmente intensa, da plenitude do existir.
O caminho da romaria – que simboliza o caminho da vida – transforma-se em espera mais ou menos consciente do que deve acontecer no lugar santo: manifestação da presença ou encontro. A transmutação do espaço significa a transmutação do ser humano, novo nascimento. Pois a partida para o “lugar outro”, que torna o ser humano outro, não é de forma alguma uma partida para a errância sem rumos. Afinal, o culto que acompanha a “visita” do lugar sagrado expressa-se como oferta, espera, veneração e a mais gloriosa das celebrações, já que o esforço foi tão grande para chegar. Tudo termina na festa, prenúncio da saciedade definitiva (Cf. Dupront, A.).
O sentido da romaria religiosa mantém-se vivo nos movimentos políticos de origem religiosa, como o Movimento dos Sem Terra ou as Comunidades eclesiais de base. Na realidade, a dimensão religiosa e a dimensão política entrecruzam-se constantemente. As conotações de esforço, sofrimento, sacrifício continuam presentes. As CEBs falam da história do movimento como “história da caminhada”. Os evangélicos organizam há dez anos a “Marcha por Jesus”. A igreja “Renascer em Cristo” a descreve assim: “A Marcha para Jesus é um evento internacional e inter-denominacional que ocorre anualmente em milhares de cidades do mundo. Um ato pacífico, consciente e excitante do mover de Deus em nossos dias. (...) O quadro que você vê em uma Marcha – em qualquer parte do mundo – são centenas, milhares de cristãos marchando pelas ruas, de todas as idades, raças, nacionalidades e culturas étnicas. Roupas coloridas, bandeiras, faixas, galhardetes e outros adereços apenas complementam o principal: a radiante face dos participantes com a alegria de saber que Deus os ama e está vivo dentro deles! (...) Neste evento há uma oportunidade única de viver este momento de comunhão entre irmãos de todas as denominações. (...) Todos os anos, a “Marcha para Jesus” tem revelado – em âmbito mundial – o poder e a misericórdia de Deus aos homens. Milhares de pessoas são curadas, libertas e restauradas.”
Junto com outras organizações da sociedade civil (Central dos Movimentos populares, MST, CUT), a igreja católica tem apoiado a “Romaria da terra” e o “Grito dos excluídos”, momento culminante de uma “Marcha dos excluídos”, no dia 7 de setembro, comemoração da independência do Brasil. É visto como “instrumento de mobilização e conscientização dos mais pobres para debate e solução de seus problemas” e espaço para a “população marginalizada mostrar que tem voz também no nosso país”, conforme os organizadores.
Entre as inúmeras marchas sem conotação religiosa, precisamos lembrar a odisséia da Coluna Prestes, no Brasil dos anos vinte, e a “longa marcha” da revolução chinesa, comandada por Mao Dze Dong, nos anos trinta e quarenta do século XX.
A espera como atitude política em Tillich
Nos escritos de Tillich relacionados com o socialismo religioso, a espera (Erwartung) surge como atitude espiritual fundamental na política. Enquanto símbolo de ruptura com o mito das origens dos políticos conservadores e com a autonomia da burguesia moderna, a espera socialista orienta-se para a realização do futuro prometido, repetindo assim o profetismo bíblico. “A espera é tensão, orientação para frente. Esperar é tender para o que não é, mas deve ser, para o incondicionalmente novo, que não existia, mas advém” (Décision socialiste: 115). O objeto da espera virá independentemente da ação humana – pois o sentido da vida irrompe incondicionalmente, a partir do seu próprio fundamento -, mas, ao mesmo tempo, é o que deve vir, o que é exigido e só pode realizar-se pela ação humana. Só quando guiados pela espera, o ser humano e a sociedade podem alcançar a sua realização, quebrando o domínio do mito originário: o poder do sangue, do solo, da raça ou do sagrado, produtor de violência e morte. Na espera, manifesta-se radicalmente até que ponto o presente contradiz a sua própria destinação.
A espera humana diz respeito, ao mesmo tempo, ao além, ao transcendente, como a espera profética (o profeta exige e promete sempre ao mesmo tempo) e ao aquém, ao terrestre, como a espera racional. Enquanto atitude humana, ela sempre focaliza um conteúdo concreto, válido apenas para uma situação temporal única, mas supera também todo concreto, ao tornar-se abrangente. Ela é marcada pelo vai-e-vem, pela indecisão, pela oscilação, que caracterizam a vida real. “Tanto na espera profética quanto na espera socialista, a vida manifesta a sua abertura fundamental e protesta contra as falsas concepções do além, que suscitam necessariamente, em reação, falsas concepções do presente terrestre” (Id.:124). Tudo isso significa que Tillich transfere para a política a tensão escatológica entre o “já” e o “ainda não” da espera messiânica judeu-cristã. Essa tensão tomava, no cristianismo primitivo, a forma da polaridade entre a espera da próxima volta de Cristo em glória, trazendo o milênio, e a espera do juízo final. O fervor da espera alimentava a resistência a todo tipo de perseguições e maus tratos. No decorrer da história, a espera messiânica e milenarista foi, aos poucos, assumida pelas utopias sociais e pelos movimentos revolucionários.
Por outro lado, a espera possui um fundamento ontológico e antropológico. A espera apóia-se no poder verdadeiro do Ser, com suas tensões e suas forças de Eros. Ela é o próprio impulso do devir, quando não é coisificada na forma da utopia (ou, melhor: do utopismo) de uma era de plenitude que estaria por vir. A exigência pura está sem força. Só pode mover a vida quando essa já está caminhando na direção do que é exigido. Pelo mesmo motivo, a espera não se deixa abalar pelas decepções e pelos fracassos, nem pela possibilidade sempre presente da volta ao caos e à barbárie. A tensão entre ter e não-ter, entre presença e ausência, produz a espera. O ser humano só pode alcançar a sua realização sob o modo da espera. A espera no sentido comum da palavra torna-se assim símbolo da espera no sentido transcendente.
“A espera inclui a ação. Só a espera ativa – desejosa, apaixonada, mas não fanática nem violenta - é real. Desvinculada da ação, seria fútil teoria” (Id.: 118). Tillich refere-se aqui às atividades políticas concretas. Ele compara a espera que suscita a luta política a um caminhar na direção do futuro prometido e antecipado. A ação humana deve criar novas possibilidades de existência, isto é, provocar antecipações significativas do futuro prometido. Na ação animada pela espera, há realmente transformações e superações, contudo não se alcança uma existência humana isenta de toda ameaça. Na Escritura, o objetivo central da espera é a realização do Reino de Deus e da sua justiça. O princípio último da justiça é o reconhecimento concreto da dignidade de todo ser humano como pessoa, e, em primeiro lugar, dos injustiçados ou ameaçados pela injustiça. “A espera profética luta contra a opressão dos pobres pelos poderosos, sob pena da decadência do povo inteiro” (Id.: 119). O “espírito da utopia”, que se identifica com o espírito profético, reanima a esperança, que está no coração de toda espera responsável. Assim deve ser também a espera política.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CALVANI, C. E. B. Teologia e MPB. São Paulo, Loyola, 1998.
DUPRONT, A. Pélerinages et lieux sacrés. In Encyclopaedia Universalis, Paris, CD-Rom, 2003.
GÓMEZ-HERAS, J.M.G. Sociedad y utopia en Ernst Bloch. Salamanca, Sígueme, 1977.
TILLICH, P. La decisión socialiste. In Écrits contre les nazis (1932-1935). Paris/Genève/Québec, Le Cerf/Labor et Fides/Laval, 1994, 17-183.
O autor é presidente da Sociedade Paul Tillich do Brasil e professor titular do Programa de Pós-Grduação em Ciências da Religião da UMESP.








