Espiritualidade, processos e práticas sociais - um estudo sobre luteranismo confessional no Brasil
Abstract
This paper deals with spirituality as a human phenomenon linked to historical and social conditions. The attempt is made to analyze changes in the model of spirituality of the Evangelical Lutheran Church of Brazil during the twentieth century. To attain this goal, we investigate how the relations between church, society and state caused re-elaborations in the political views and social practices sustained by the confessional Lutheran model of spirituality of the above mentioned group.
Key-words: spirituality; Confessional Lutheranism; social practices; social changes.
Resumo
Este artigo trata da espiritualidade como um fenômeno humano ligado a condições históricas e sociais. Busca-se analisar as transformações no modelo de espiritualidade da Igreja Evangélica Luterana do Brasil durante o século vinte. Para isto, trata-se de investigar como as relações entre igreja, sociedade e estado causaram re-elaborações nas concepções políticas e práticas sociais sustentadas pelo modelo de espiritualidade luterano confessional do grupo referido.
Palvras-chave: espiritualidade; luteranismo confessional; práticas sociais; mudanças sociais.
Na introdução de sua História do Pensamento Cristão, Paul Tillich aponta para o processo pelo qual o conceito de dogma (do grego doken - pensar, imaginar, ter opinião) vai se estruturando em uma crescente rigidez desde a filosofia clássica até a teologia medieval. Segundo Tillich, cada escola filosófica grega tinha sua dogmata, doutrinas específicas que davam a marca das diferentes correntes de pensamento. Em função disso, quando de seu surgimento, as doutrinas cristãs foram entendidas também como dogmata, a fim de distinguir-se a expressão da fé dos cristãos ao ingressarem na igreja das demais escolas filosóficas. Com o passar do tempo, porém, as dogmata dos cristãos foram ganhando uma formulação negativa. A intenção era de combater as interpretações errôneas dentro da própria igreja e assim proteger a substância da mensagem cristã. Como conseqüência disso, as dogmata acabaram recebendo essa forma de lei canônica que conhecemos, estruturas rígidas e fechadas duramente criticadas a partir do período iluminista.
Originalmente, portanto, os dogmas eram simplesmente a carta de apresentação de diferentes grupos filosóficos e religiosos. Foram processos sociais diversos que fizeram dos dogmas esses corpos doutrinários que parecem imutáveis, inegociáveis e fora do tempo.
Falar de religião é, portanto, falar de sociedades, de culturas, de histórias, de processos simbólicos, políticos, econômicos, etc. Mesmo os modelos de religião mais ortodoxos - aqueles que em seus discursos e formas parecem absolutos, bem acabados, sem mácula, puros - mesmo estes são frutos de dinâmicas sociais e culturais.
Nossa intenção aqui é apontar para a possibilidade da abordagem do tema da espiritualidade enquanto processo inacabado de construção grupal, sujeito não somente às regras eclesiásticas, mas constituindo uma realidade que "situa-se na fronteira entre a igreja e o mundo secular", como dizia Tillich sobre o dogma.
No senso comum do brasileiro, ao que parece, falar de espiritualidade remete a idéias como as de espiritualismo, espiritismo, religiões mediúnicas, etc. De outra forma, no campo da discussão acadêmica prevalecem principalmente as abordagens teológicas (mais as católicas, menos as protestantes), sendo um assunto ainda desinteressante tanto para as ciências históricas, quanto para as sociais e humanas de um modo geral. Parece, portanto, tratar-se de algo que tem pouca concretude, que parece estar oculto, algo como o mysterium tremendum de Otto .
O objeto é de fato fugidio. Mas qual não é? Em termos de estudo de história, ficamos com K. Jenkins, quando afirma que o passado, literalmente, não tem voz ativa. História e passado são instâncias distintas - a primeira um discurso sobre a segunda. É o historiador quem faz o transporte (do grego metaphora - eu transporto), na forma de um discurso sistematizado, daqueles vestígios do passado para o presente sob severas contingências epistemológicas, metodológicas e ideológicas. Daí a sugestão de que nos aproximemos de qualquer tema com um certo ceticismo teórico-metodológico.
Nesse "espírito", cremos ser possível observar a espiritualidade enquanto um fenômeno humano, percebendo-a também em sua dimensão social. Trata-se de algo que em alguma medida é uma produção sóciocultural, não redutível àquela concepção que a identifica com uma espécie de fuga solitária do mundo material na direção do sagrado/mistério.
Entendemos que a espiritualidade age como "unidade dinâmica do conteúdo de uma fé e da maneira pela qual esta é vivida por homens historicamente determinados", compreendendo "a vivência de um relacionamento inspirado pela religião" e guardando, assim, profundas implicações e comprometimentos sociais. É algo semelhante à fé como uma "preocupação última" ou como aquilo "que nos preocupa incondicionalmente", como sugere Tillich , e confere, portanto, um conteúdo religioso às práticas sociais de indivíduos e instituições.
Enquanto fenômenos sócioculturais, portanto, as estruturas espirituais das tradições religiosas são regularmente expostas a processos históricos em conjunturas sociais determinadas. Nesses processos as tradições e memórias espirituais herdadas pelo "Eu" são re-construídas, re-organizadas, re-significadas no contato com o "Outro" social, preservando-se, é verdade, como que um núcleo mítico ou arquetípico, para lembrar Eliade, que dá o fundamento maior do grupo espiritual.
Nesses processos, também as identidades são construídas e reconstruídas. A própria memória é já em si "um elemento constituinte do sentimento de identidade". Isso porque as memórias dos grupos, dando o suporte das identidades individuais e coletivas, articulam-se dinamicamente na construção e reconstrução das lembranças nas condições do tempo presente, fundamentando as identidades dos indivíduos em suas interações sociais e históricas.
Os sujeitos religiosos, lembrando o que querem ou podem numa construção seletiva da memória, vão constituindo suas identidades sempre em referência aos outros, a critérios de aceitabilidade e de credibilidade. Nesse contexto, memórias e identidades são disputadas em conflitos sociais entre grupos políticos diversos, numa dialética que é também material, como queriam Marx e Engels. Assim, as estruturas que conformam as espiritualidades são renegociadas em diferentes eventos, nos quais se vão conformando as concepções identitárias de grupos e indivíduos religiosos em suas práticas sociais.
Como pontua Marshall Sahlins,
(...) o uso de conceitos convencionais em contextos empíricos sujeita os significados culturais a reavaliações práticas. As categorias tradicionais, quando levadas a agir sobre um mundo com razões próprias, um mundo que é por si mesmo potencialmente refratário são transformadas. (...) nada pode garantir que sujeitos inteligentes e motivados, com interesses e biografias sociais diversas, utilizarão as categorias existentes das maneiras prescritas. Chamo essa contingência dupla de o risco das categorias na ação.
Essa construção social da espiritualidade, ou sua sociogênese como diria Elias, é o que procuraremos compreender nesse estudo a partir da análise do caso da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Buscaremos, primeiramente, acercar um modelo típico ideal de espiritualidade confessional luterana, a fim de construir teoricamente a estrutura simbólico-religiosa que conforma a espiritualidade do grupo e embasa suas práticas sociais em sua chegada ao Brasil, no ano de 1900. Feito isto, analisaremos alguns momentos, ao longo do século XX, nos quais esta estrutura foi posta em risco em conjunturas diferentes: a Primeira Guerra Mundial, a abertura pós-ditatorial e a crise social em que o país mergulha no contexto do neoliberalismo.
Focalizaremos nossa atenção naquelas questões de fundo, de ordem cultural, que configuram as práticas e representações do grupo. Procuraremos identificar como a liderança da IELB pensa e constrói a realidade social em que está inserida, a fim de perceber qual é a ossatura intelectual de seu sistema religioso em meio ao contexto social. Acreditamos que os momentos escolhidos possam ressaltar o ethos que a estrutura espiritual do grupo embasa, bem como suas mudanças no encontro com os Outros sociais no contexto brasileiro. Buscaremos, então, compreender nestes eventos as mudanças comportamentais, através da comparação das estruturas atuais com as estruturas de uma fase anterior. Para isso, vamos nos servir, principalmente, dos escritos dos líderes do grupo registrados no periódico chamado inicialmente de Mensageiro Christão e posteriormente de Mensageiro Lut(h)erano, até os dias de hoje o órgão oficial de comunicação da IELB. Outras declarações das lideranças serão também utilizadas. Tratar-se-á, portanto, de um estudo realizado a partir do discurso oficial de pastores e professores ligados ao grupo.
A estrutura espiritual dos missourianos e da IELB
A Igreja Evangélica Luterana do Brasil deve sua existência à presença de pastores que, em 1900, vieram dos Estados Unidos para atender espiritualmente imigrantes alemães que haviam se estabelecido no sul do Brasil, mais especificamente no estado do Rio Grande do Sul. Os pastores pertenciam ao Deutschen Evangelisch-Lutherischen Synode von Missouri, Ohio und andern Staaten (Sínodo Evangélico-Luterano Alemão de Missouri, Ohio e outros Estados), organização de comunidades luteranas mantida por alemães que haviam migrado para os Estados Unidos em meados do século XIX.
Para entendermos a estrutura espiritual que embasa as práticas do Sínodo de Missouri, bem como de seus missionários, será necessário alinhá-la no contexto das forças que colaboraram para o nascimento da modernidade, entendida como um processo de mudança social e de mentalidade que se inicia na Europa do século XVI e representa o rompimento com um mundo medieval, teocêntrico, agrário, feudal, na direção de uma outra cosmovisão mais antropocênctrica, racionalista, urbana e industrializada. Dessas visões de mundo geraram-se movimentos, uns mais conservantistas, outros mais liberalizantes, os quais estiveram concorrendo desde o século XVI até o tempo presente e produzem a organização do mundo como o conhecemos.
Não obstante, se é bem verdade que o nascimento da modernidade e da racionalização transformou o ocidente e o mundo nos últimos séculos, é também preciso perceber que não se trata de uma evolução linear e válida para interpretar o todo da história humana, conforme o querem, por exemplo, algumas das leituras de Max Weber feitas no Brasil. Uma abordagem desse tipo pode transformar o diagnóstico histórico weberiano acerca do racionalismo ocidental "em um sistema categorial válido para quaisquer relações entre tradição e modernidade", por vezes forçando interpretações na busca de um sentido para a história e reiterando a exemplaridade das nações ditas desenvolvidas. Como veremos, os processos relativos à IELB, além de não serem lineares, não podem ser entendidos nos moldes de uma abordagem simplista das idéias weberianas sobre burocratização e internalização.
A atuação dos missourianos apresenta no Brasil traços de dois movimentos: o confessionalismo e o pietismo. Infelizmente não há espaço aqui nem para tratarmos da formação social e histórica de tais correntes teológicas, nem da emigração das terras alemãs para os Estados Unidos, por onde se originou o Sínodo de Missouri e se assentaram as bases de seu tipo de espiritualidade. Poderemos apenas delinear os principais traços das correntes teológicas e religiosas em questão, numa espécie de reconhecimento histórico de suas idéias centrais.
O confessionalismo foi o resgate das principais idéias de um outro movimento mais antigo, a ortodoxia luterana, dos séculos XVI e XVII. Diante da liberalização teológica que o clima racionalista que dominava o cenário Europeu trouxera para dentro dos ambientes eclesiásticos nos séculos XVIII e XIX, o confessionalismo constituiu uma vertente de pensamento preocupada com a preservação de uma identidade doutrinária de cunho conservantista. No contexto da ascensão da burguesia industrial, do desenvolvimento científico, do surgimento dos estados modernos e do processo de descristianização instaurado pela modernidade, vários setores conservadores passaram a atacar o modo de religião de inspiração iluminista. Seu paradigma teológico era, nesse sentido, visivelmente restaurador. Afirmando as objetividades da fé cristã numa espécie de dogmática positivista, os confessionalistas do século XIX reforçavam a autoridade da Bíblia, compreendendo-a como a Palavra inspirada por Deus, e nela buscavam a revelação da doutrina pura. A pauta principal era dada pela Confissão de Augsburgo de 1530, na qual Felipe Melanchton, companheiro de Lutero na Universidade de Wittenberg, por solicitação do Imperador Carlos V, retomando doutrinas apostólicas, apresentou os principais ensinamentos do movimento reformatório - uma espécie de carta magna do luteranismo, reunida com outros documentos no Livro de Concórdia de 1580. A IELB, por sua vez, atesta sua confessionalidade no artigo 3o dos seus Estatutos:
A IELB aceita todos os livros canônicos das Escrituras Sagradas, do Antigo e do Novo Testamento, como palavra infalível, revelada por Deus. Como única exposição correta da Escritura Sagrada, ela aceita os livros simbólicos da Igreja Evangélica Luterana, reunidos no Livro de Concórdia do ano mil quinhentos e oitenta (1580), e não admitirá alteração alguma desta norma.
O confessionalismo que embasa as práticas sociais dos missourianos e da IELB pode ser, em sua origem, situado em meio a uma série de forças restauradoras que se moveram ao redor da Europa durante o XIX, como a Erweckung (despertamento), a teologia de Erlangen e o neoluteranismo. Nos Estados Unidos, o grupo encontrava par, por exemplo, entre os confessionalistas reformados da escola de Princeton. Muitos dos teólogos que sustentaram esse afã restaurador tinham seu background em um outro movimento que varrera as terras alemãs desde o século XVII, o pietismo, no qual também os primeiros líderes dos missourianos haviam sido educados.
O pietismo surgira, no século XVII, como oposição à negligência da ortodoxia luterana para com a dimensão pessoal da religião. O tema central era a experiência do crente com Deus, sua condição de pecador e o caminho para sua salvação. Sublinhava-se a necessidade de conversão individual e do nascer de uma nova conduta do crente, desapegada do mundo material e firmada no apoio mútuo da comunidade reunida em culto ao redor do estudo da Bíblia. Ao enfatizar a dimensão experiencial e a prática de fé, os pietistas, por um lado, desenvolveram uma moralidade ascética por vezes áspera, especialmente no que tange à alimentação, vestimenta e lazer, por outro, enfatizaram um sentimento de responsabilidade para com o mundo, do qual desdobraram-se atividades de missão e caridade. Além disso, dada a ênfase no contato direto da pessoa com Deus, as diferenciações entre clero e laicato foram amainadas e o sentimento de pertença eclesiástica arrefecido nas experiências de pequenos grupos (ecclesiola in ecclesiae).
Acreditamos que, no caso do Sínodo de Missouri, a influência do pietismo deu-se pela absorção de algumas de suas características, gerando-se no grupo algo que podemos compreender como sendo um "estilo" pietista de prática religiosa e social. Não se trata, portanto, de definir o Sínodo como um grupo pietista, mas de perceber certos traços de pietismo presentes na conformação do modelo de espiritualidade do grupo de inspiração confessional-ortodoxa.
Nos Estados Unidos, durante a segunda metade do século XIX, confessionalismo e ortodoxia iriam co-operar na formação da estrutura espiritual dos luteranos missourianos. O modo como o grupo experimentou o retorno às confissões de fé da Reforma, sua leitura da Bíblia, entendida como a palavra inspirada por Deus, a ênfase na vida devocional, o apreço pelo cantar, o fervor evangélico manifesto na visão da igreja confessional como a guardiã da pura doutrina, o ímpeto missionário, a concepção de que a congregação era a autoridade máxima e não o pastor somente, alguma moralidade para com as "coisas do mundo" como bebidas e dança, todos estes constituiam fatores que delinearam o que entendemos como sendo a ossatura da espiritualidade missouriana confessional. Considerando que o pensamento teológico dos missourianos foi sempre muito uniforme, visto que seu treinamento nos seminários de Saint Louis, Springfield e Porto Alegre era muito similar, podemos crer que a coesão ao redor dessa estrutura espiritual era realidade constante nas práticas oficiais do Sínodo.
Em relação à dimensão das práticas políticas, o grupo de um modo geral apresentou posturas conservantistas em reação aos processos políticos da modernidade. Suas concepções eram pautadas principalmente por uma apropriação da idéia de Lutero sobre os dois reinos (para o reformador, um espiritual, outro temporal, ambos sob o governo de Deus). A partir do texto de Romanos 13.1-7, advogava-se que a ordem temporal existente procede sempre de Deus. Nesse entendimento, a "necessidade de controle autoritário se baseia na pecaminosidade humana. Para combatê-la, Deus é obrigado a agir com a ajuda de leis e mandamentos rigorosos". Trata-se de um tipo de cultura política que deita raízes em alguns escritos da Reforma, como no caso da Apologia da Confissão de Augsburgo. Como bem aponta Duchrow, contudo, a perspectiva de obediência às autoridades não estaria ligada unicamente à tentativa de interpretação correta da Escritura, mas relaciona-se também ao processo de integração das igrejas sob o domínio dos príncipes territoriais após a Reforma. Assim, com a igreja sob o poder dos príncipes, dependente deles financeira e administrativamente, nada mais normal do que um esforço pela manutenção da ordem. Aqui, a dimensão da participação política torna-se responsabilidade do indivíduo, como algo que compete não à igreja (identificada com o reino espiritual), mas às autoridades (identificadas com o reino temporal).
Para os missourianos e a IELB, como veremos, a memória da doutrina dos dois reinos, ainda que trilhada pela interpretação supracitada, parece ter tido ênfases diferentes nos momentos que serão analisados.
Da Europa para os Estados Unidos e o Brasil
A inserção do protestantismo no Brasil e nas Américas deu-se no interior das conseqüências da expansão global da modernidade e do capitalismo. Foi em função de suas conseqüências que os europeus emigraram para o novo mundo, e foi também nesse contexto social e econômico que luteranos germânicos nos Estados Unidos enviaram pastores para atender espiritualmente outros luteranos germânicos no sul do Brasil. Contudo, no caso da formação do Sínodo de Missouri, somam-se aos motivos sociais e econômicos, questões de ordem teológico-religiosa e política.
Em relação às questões de ordem econômica, consta que, de um modo geral, o estopim da emigração alemã foi a miséria material das classes subalternas e o problema da superpopulação. Houvera, por exemplo, no sudoeste alemão grande fome durante o inverno de 1816/1817. E tal situação ainda se agravaria: o mais alto crescimento médio anual da população alemã no século XIX deu-se entre 1816 e 1825, a saber, 1,42%. Na falta de terra e de alimento, numa região de ainda incipiente industrialização, a possibilidade de possuir um território próprio tornava-se deveras atrativa. Cerca de 10 milhões de pessoas emigraram das terras alemãs durante o século XIX. Da Europa como um todo, dirigiram-se para os Estados Unidos cerca de 35 milhões de pessoas entre 1860 e 1930.
Um pouco antes disso, no ano de 1838, desembarcaram nos Estados Unidos da América mais de seiscentas pessoas vindas da Saxônia. Os imigrantes haviam se deslocado sob a liderança do carismático Rev. Martin Stephan, que até então desenvolvera seu pastorado na Igreja de São João, em Dresden, a partir de uma inspiração confessional e pietista.
Dois fatores devem ser apontados como determinantes para a imigração dos saxões: a União Prussiana e o crescente racionalismo na Europa. Entre os anos de 1817 e 1830, o rei da Prússia, Friedrich Willhelm III (1797-1840), passou a desenvolver uma série de políticas com vistas a unir em uma só igreja estatal as igrejas luterana e reformada (zwingliana e calvinista). As ações do governante faziam parte de um conjunto de políticas desenvolvidas com a intenção de restaurar o Antigo Regime em seu território após a derrocada de Napoleão e as resoluções do Congresso de Viena, em 1815. Com tais políticas, o rei prussiano visava obter o controle estatal de uma única igreja que corroborasse sua liderança diante do recém nascido sentimento de pertença nacional germânica, o qual teria desdobramentos diversos, como por exemplo, a unificação alemã em 1871.
O confessionalismo, como o delineamos anteriormente, representou em algumas de suas manifestações uma forma de resistência à política unionista de Friedrich Wilhelm III. Alguns daqueles fervorosos luteranos ortodoxos não puderam aceitar tais imposições reais, as quais menosprezavam o que para eles se tornara a respiração fina de seu ethos, a saber, sua confessionalidade e as conseqüentes diferenças entre as confissões luterana e reformada. O grupo liderado pelo Rev. Stephan fez parte dessa resistência.
O outro fator arrolado refere-se ao fato de que os stephanitas, como foram alcunhados, passaram a sofrer perseguição por parte dos governantes e dos pastores racionalistas vinculados à igreja luterana estatal da Saxônia. A comunidade da Igreja de São João já há duzentos anos vinha realizando reuniões religiosas em pequenos grupos conforme a tradição pietista dos collegia pietatis, prática que Stephan manteve e valorizou. Tais reuniões, contudo, estavam proibidas e recebiam severas críticas por parte do clero racionalista.
Após uma série de acusações e conflitos que se estenderam por anos, Stephan iniciou a organização da empresa migratória, com o objetivo de encontrar nos Estados Unidos um lugar onde pudessem salvaguardar o que entendiam como a pura e sã doutrina e onde o estado não interferisse em questões religiosas.
Uma vez sediados na região de Missouri, após se envolverem em alguns contratempos (como o afastamento de Stephan sob acusação de adultério), os imigrantes saxões, agora sob a liderança do pastor C. F. W. Walther, uniram esforços a missionários enviados da Bavária pelo pastor Wilhelm Loehe, também confessionalistas, e fundaram, em 1847, o Sínodo Evangélico-Luterano Alemão de Missouri, Ohio e outros Estados. A partir de 1900, o Sínodo passou a enviar pastores ao Brasil, fundando aqui o que seria o seu 15° Distrito.
O confessionalismo posto em questão nas conjunturas brasileiras.
Cerca de 3,8 milhões de estrangeiros ingressaram no Brasil entre os anos de 1887 e 1930, 72% destes entre 1887 e 1914, ano em que houve uma redução das entradas em função da I Guerra. Numericamente, na soma total da imigração - contabilizando a retomada do fluxo com o fim da I Guerra -, os alemães foram o quarto grupo. Muito aquém, portanto, dos italianos (1.513.151), portugueses (1.462.117) e espanhóis (598.802), os teuto-brasileiros somaram cerca de 250 mil indivíduos. Dentre estes, o número dos imigrantes e seus descendentes que se filiaram ao Distrito Brasileiro do Sínodo de Missouri foi estimado, no ano de 1924, em 21.225 pessoas, espalhadas em 116 capelas pertencentes a 35 paróquias.
Até o período inicial da Primeira Guerra, a vida dos sínodos luterano-alemães no Brasil não fora alterada substancialmente. Também porque o Brasil na época desenvolvia políticas de neutralidade em relação ao conflito internacional. Não obstante, os recorrentes posicionamentos das comunidades alemãs em favor da terra mãe em situações belicosas, o envio de verbas e auxílio à Alemanha, as intenções imperialistas do Kaiser, bem como o uso contínuo e generalizado do idioma alemão (em igrejas e escolas) e o cultivo das tradições alemãs, iam criando um certo espírito de animosidade na opinião pública contra os teuto-imigrantes.
Como era de se esperar diante de tal quadro, aquela situação de relativa estabilidade viria a se alterar a partir de 1917, com a ruptura das relações diplomáticas com o Reich e a entrada brasileira na Guerra junto aos aliados. No final do mesmo ano as represálias à comunidade teuto-brasileira vieram à tona: as escolas alemãs foram fechadas progressivamente e foi proibida a utilização do idioma alemão.
Em meio a tais represálias, o Mensageiro Christão de 15 de abril de 1918 trouxe, sob o título "Paz seja convosco", as palavras do pastor Louis Rehfeldt, afirmando que ainda que o mundo espere o restabelecimento da paz, essa "utopia dos visionários", a paz universal, nunca acontecerá. O pastor Rehfeldt, então professor do Seminário Concórdia e redator do periódico, conclui asseverando que a paz de Cristo, que excede todo o humano entendimento, essa paz o mundo não conhece (Mensageiro Cristão, nº 6: 21). A idéia subjacente de "paz" religiosa, ao mesmo tempo oposta e alternativa ao "mundo", traz consigo a semente da espiritualidade confessional luterano-missouriana. Em sua concepção, a paz completa e verdadeira somente poderia ser alcançada através da fé em Cristo, pelo qual se tem a salvação. Essa paz o "mundo" não pode trazer. Somente o pode a Escritura corretamente interpretada, palavra inspirada por Deus. O argumento revela um entendimento dualista que compreende o mundo como algo oposto à igreja, ao reino de Deus.
À mesma época, o pastor e professor Johannes Kunstmann (1872-1942) se destacava como um dos principais líderes no Distrito Brasileiro. J.K. (como assinava no Mensageiro), intelectual eloqüente e conhecedor das línguas semíticas, exerceu os cargos de professor do Seminário Concórdia, 1o vice-presidente (1916-1921), presidente (1921-1922) e tesoureiro do Distrito (1916-1922), e pastor da importante congregação "Cristo" de Porto Alegre.
Quando caíram as sombras da desconfiança por sobre o "perigoso" germanismo brasileiro, com a sanção governamental da proibição do idioma alemão, o Sínodo de Missouri se viu nivelado em meio aos demais grupos de imigrantes e, nesse contexto, J.K. achou necessário reafirmar, em 31 de outubro (data da comemoração da Reforma Luterana), o que era em sua concepção confessional o verdadeiro luteranismo:
Nesses tempos, quando o luteranismo, em países de fala inglesa, é confundido com germanismo, e em nosso país, ao menos por parte da Igreja Evangélica alemã unionista, com americanismo, vale a pena lembrar o que realmente significa luteranismo. (…) Luteranismo, como tal, de nenhum modo significa germanismo ou americanismo. (...) Luteranismo não tem, em absoluto, nada a ver com política ou "Kultur", ou com zonas de interesse, ou com qualquer outro assunto deste mundo (...) O luteranismo sustenta o princípio 'Sola Scriptura'. Ele reivindica que a Bíblia, por ser a palavra inspirada de Deus, é a única fonte e norma de todas as doutrinas de fé e moral. (...) afirma o 'Sola Gratia'. Professa Cristo, e ele crucificado, ensinando que não há outro nome pelo qual o homem possa ser salvo (...) e que, portanto, o homem não é justificado por suas obras, mas pela graça, por causa de Cristo (...) Luteranismo é (…) o verdadeiro campeão da liberdade diante do papa e do clero, da liberdade religiosa da consciência, da liberdade da igreja e dos indivíduos, somente ordenando os luteranos a Cristo Jesus, seu único mestre (...) (Suplemento para leitores em inglês, Mensageiro Luterano, nº 19, 31/10/1918).
As palavras de Kunstmann são reveladoras no sentido de situar a mentalidade missouriana confessional no contexto das forças constitutivas do social, em relação, ao mesmo tempo, ao outro grupo protestante de vertente luterana, o Sínodo Riograndense ("a igreja Evangélica Alemã unionista"), e à sociedade como um todo. A igreja, conforme essa concepção, nada teria a ver com política, cultura , ou qualquer assunto desse mundo (em uma espécie de despatriamento terreno), mas somente com a Bíblia e com a graça de Deus, usufruindo o autor aqui de princípios caros à Reforma: Sola Gratia e Sola Scriptura.
No tangente às posições políticas, encontramos na fala de JK uma interpretação da doutrina dos dois reinos que podemos classificar, a partir de Duchrow, como sendo de tipo dualista-diferenciado passivo. Tratar-se-ia de uma concepção a partir da qual a vida religiosa deveria se restringir a sua própria esfera autônoma, que compreende a vida pessoal, interior. Com relação à esfera temporal, a postura corrobora a sanção aos processos em vigor no estado. Uma vez delimitados os atributos do reino temporal (no caso, o estado) e do espiritual (no caso, a igreja), um não deveria interferir no espaço do outro. O espaço da vida política, por sua vez, deve ser deixado para o indivíduo, enquanto parte do reino secular. A igreja não deve intervir em questões "deste mundo", a não ser, obviamente, que estas desafiem a esfera reivindicada pela igreja. Isso é o que Kunstmann queria que a sociedade e as autoridades brasileiras compreendessem, a fim de que o 15° distrito pudesse manter sua identidade e prosseguir com sua obra.
Sob esse mesmo pano de fundo, o Sínodo Riograndense seria também criticado pelos missourianos, uma vez que estava ligado à Igreja Estatal Prussiana e recebia, por isso, verbas do governo prussiano para sua manutenção. O trabalho dos misourianos, propalava JK, não queria ter nada a ver com as intenções políticas nem dos Estados Unidos e nem da Alemanha. Ademais, a perseguição sofrida sob a instauração da União Prussiana, estava ainda viva na memória dos missourianos, o que viria a fortalecer sua diferenciação em relação à sociedade e ao estado no Brasil.
Para lá do que já foi colocado, torna-se ainda interessante notar no discurso de Kunstmann que, enquanto a liberdade em relação ao Papa e ao clero (não mais tão valiosa no século XX, quanto no XVI) e a liberdade de consciência eram anunciadas, outras fortes amarras iam sendo construídas sob a concepção de verdadeiro luteranismo, em relação ao qual deveria ser medida a fieldade dos crentes e da Igreja.
Poucos meses antes da declaração de J.K., a partir de julho de 1918, o Mensageiro passaria a trazer no cabeçalho uma ilustração de Lutero entre duas paisagens, a qual nos é interessante analisar. No que se entende, uma paisagem é européia, sombria, com casas de telhados grandes e torres. A outra é brasileira, espaço ensolarado, amplo e sem construções humanas: somente a natureza. Ou seja, um lugar para onde deveria ser levada a mensagem luterana. A explicação da ilustração anunciava Lutero em sua mocidade: "a fisionomia de um reformador". E, enquanto à direita aparecia o castelo de Wartburg, onde Lutero traduziu a Bíblia,
à esquerda, que bellissima paisagem! Até aqui veiu o evangelho! Trazido pelos apóstolos, pelos ministros. O caminho está aberto! Atraz dos coqueiros, onde os montes se extendem, nasce o sol. Nos pés dos montes correm as águas cristalizadas e nos mattos os passaros cantam, Eis o solo bemdito do Brasil! Nesta terra, os ministros de Deus, tem um vasto território para trabalhar, para predicar o evangelho (sic).
O autor do texto, finalizando, cita a passagem bíblica de Apocalipse 14.6: "Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo" (Mensageiro Luterano, nº 10, 15/06 e nº 11 e 1/07/1918). A mensagem do 15o Distrito era a luz para os gentios, única possibilidade de salvação aos perdidos desta vasta e bela terra, caminho amplo e aberto para o luteranismo confessional, que, paradoxalmente, não desejava ligação alguma com qualquer assunto "deste mundo", desta terra tropicana. A Primeira Guerra viria somente reforçar a identidade e o modelo de espiritualidade que se articulam com esse imaginário, no qual percebemos um fervor avivado e um ímpeto missionário de tipo pietista.
Também ilustrativa é a controvérsia em função da proibição do idioma alemão, já nos primeiros momentos da entrada do Brasil na guerra. Sabe-se que um idioma, mais que um instrumento, permite um espaço de interação e comunicação e é, como componente articulador da cultura, fator de construção dos limites e das possibilidades da existência comunitária. Assim, quando um determinado grupo é impedido de falar sua língua, está posta em questão sua própria identidade. No caso do Distrito missouriano, agravava-se a situação em função de que grande parte dos filiados ao grupo não falava português, o que prejudicava seu trabalho pastoral e de cura d'almas. A conseqüência foi de um acirramento da identidade sustentada pelo modelo de espiritualidade confessional.
Dessa forma, quando sentiu a invasão do governo temporal em assuntos que prejudicavam as atividades do reino espiritual, a liderança se manifestou. O Rev. Emil Muller, então presidente do Distrito, dirigiu-se pessoalmente ao General Carlos Frederico de Mesquita, Comandante da 7a Região Militar, apresentando-lhe uma carta que pretendia cambiar a situação:
Tanto mais lastimamos o impedimento e prejuízo causado pelo decreto estabelecido ao nosso trabalho missionário, visto que a nossa sociedade americana não tem nem quer ter absolutamente nada em comum com o império allemão, os seus fins e intentos ou os seus interesses neste grande paíz. Desejamos, pois, que a ordem tomada pela autoridade militar para guardar os próprios interesses nacionaes contra o governo allemão e seus interesses nacionaes não prejudique ou impeça o nosso trabalho missionário.
Peço muito respeitosamente a V. Exa. que se digne considerar o meu pedido de exempção (...) chamo a atenção de V. Exa. ao facto que a nossa sociedade não tem nada em commum com a corporação religiosa e missionária, que se chama "Synodo Evangelico-Allemão do Rio Grande do Sul", a qual tem relações com as autoridades da Egreja Prussiana, mesmo tem estacionada uma autoridade em Porto Alegre para guardar os interesses da mesma. Chamo ainda a atenção de V. Exa. ao facto que a nossa corporação religiosa desde o principio encarregou-se com o ensino da língua vernacula. (...) (Mensageiro Christão, n° 1, 25/12/1917: 1-2)
Como se vê, Müller afirma uma independência em relação ao germanismo, o que não significa, por outro lado, um compromisso com o Brasil. O objetivo do Sínodo era a continuação da pregação do evangelho. Daí que algumas estratégias foram articuladas. Uma delas, a de desqualificar o adversário, a saber, o Sínodo Riograndense, com o qual os missourianos estavam concorrendo, no sentido de Bourdieu. Outra, a de transparecer alguma pertença nacional, como quando salientavam seu empenho no uso e estudo da língua vernácula.
De qualquer forma, o conflito acerca do idioma coloca o grupo em choque com os Outros sociais e denota um acirramento da tônica confessional. O que transparece é a preeminência do espiritual-religioso por sobre o material-político, com o qual os missurianos lidavam de modo instrumental, a fim de que sua ação missionária não fosse obstruída.
Esse mesmo ethos levaria o grupo a posicionar-se de modo parecido em outros momentos da história recente do Brasil. Agenor Berger chega a conclusões semelhantes analisando as posturas dos herdeiros de Missouri frente ao regime militar brasileiro. Foram esses mesmos princípios que lhes levaram a apoiar os militares, entendidos a partir do texto bíblico de Romanos 13 como autoridades instituídas por Deus, a favor da ordem e contra o "perigo comunista".
É o que vemos, por exemplo, na declaração do pastor Leopoldo Heimann, redator, no editorial do Mensageiro de setembro de 1972, por ocasião do sesquicentenário da independência nacional, dirigindo-se ao presidente Médici:
A Igreja Luterana, Senhor Presidente, sabe compreender e viver as palavras do Salvador da humanidade: 'Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus; a autoridade é ministro de Deus para o teu bem; faze o bem, e terás o louvor dela; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra'. (Mensageiro Luterano, setembro de 1972, n° 9, p. 1)
Parece-nos, contudo, que desde o fim da primeira metade do século XX, e principalmente desde a abertura democrática de 1985, aconteceram transformações concernentes tanto ao modelo de espiritualidade, quanto à identidade do grupo, o qual a partir de 1920 passou a denominar-se Sínodo Evangélico Luterano do Brasil e posteriormente, em 1954, Igreja Evangélica Luterana do Brasil.
Durante os anos 80, pelo que fomos percebendo, ainda que a IELB não deixasse de manter posições dualista-diferenciadas em relação às esferas do estado e da igreja, permitir-se-ia maior distanciamento crítico e participação política.
Nas eleições de 1986 para governador e senador, por exemplo, foi instaurada uma Comissão da IELB para a Constituinte, a qual emitiu um perfil do que entendia como um candidato adequado: uma pessoa cristã, com passado honesto e comprometida com a justiça aos menos favorecidos (Mensageiro Luterano, novembro de 1986, n° 11, p. 9). Johannes H. Gedrat, então presidente da IELB, na mesma edição admoestou o ielbianos da seguinte forma: "É importante que votemos e que o façamos muito conscientemente, lembrando que o nosso voto pode ser decisivo. Cada voto é importante e cada eleitor é insubstituível (...) Não devemos ignorar que a nova Constituição brasileira será votada e aprovada pelos que vamos eleger em 15 de novembro" (Idem, p. 2).
Alguns meses depois, o pastor Astomiro Romais, redator-chefe do mensageiro, escreveria em editorial: "Nosso País aloja um festival de corrupções (...) Parece que hoje, mais do que nunca, as autoridades esquecem, segundo as palavras de Lutero, que 'têm obrigação de promover o bem de seus súditos, proteger os inocentes e coibir a injustiça' (Carta a Carlos V e à Nobreza Alemã)" (Mensageiro Luterano, agosto de 1985, n° 9, p. 3 [grifo no original]).
As palavras de Romais, diferentemente das de seus antecessores na redação do Mensageiro, revelam uma apropriação diferenciada do texto de Lutero - endereçado a ninguém menos que o Imperador do Sacro Império Romano Germânico. Romais constrói a memória de um Lutero crítico das autoridades, ao passo que o que se vira até então era o uso da memória do reformador para suscitar obediência às autoridades. Tanto em Romais, quanto em Gedrat, percebemos uma mudança na apropriação de conceitos fundantes das práticas sociais do grupo. Ainda que sutilmente e de modo um tanto dualista, a liderança da IELB, formada na Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, passava a manifestar-se também sobre "coisas deste mundo".
É o que atesta Nilo Figur, também redator do mensageiro: "Como portadores desta vida [de Deus, eterna], não podemos calar ou nos omitir diante dos projetos de morte que estão aí. Temos dupla responsabilidade como cidadãos do mundo e do Reino de Deus" (Mensageiro Luterano, novembro de 1986, n° 11, p. 3). Aqui, vemos já bastante amainada aquela separação dualista-diferenciada entre estado e igreja que os missourianos no primeiro quartel do século XX sustentavam.
Paralelamente ao apego à pureza doutrinaria e ao fervor evangélico em mantê-la e propagá-la que se manifesta na espiritualidade e no habitus ielbiano, vai se gerando nas cabeças pensantes que transitam pelo Mensageiro Luterano uma preocupação com o mundo do social, no contexto dos processos inerentes à modernidade e às conseqüências da inserção do Brasil no sistema capitalista ao longo do século XX. Tal entendimento acrescentaria novas nuances àquela primeira preocupação com a salvação das perdidas almas tupiniquins.
À medida que o grupo foi se "abrasileirando", treinando, por exemplo, um clero autóctone e de fala portuguesa, foi também deixando de ser uma igreja de imigrantes, rural e de classe média. Considere-se a independência financeira adquirida, mesmo que forçosamente, em relação à sua "igreja irmã", o Sínodo de Missouri, durante os anos 80-90. Constate-se a situação econômica e política vivida pela sociedade brasileira durante o regime ditatorial, que não deixaria a IELB incólume. Junte-se estes fatores e teremos uma série de forças que iriam ressignificar nos processos sociais aquele modelo espiritual inicial trazidos pelos missourianos na primeira metade do século XX. Os líderes dos anos 80 e 90 catalisaram naquela conjuntura diversos fatores religiosos, políticos e econômicos, os quais ocasionaram transformações no que diz respeito à apropriação das memórias e tradições espirituais que perfazem sua identidade.
O mesmo aconteceria durante os anos 90: a situação de pobreza e exclusão nos grandes centros urbanos traria novas questões e desdobramentos para a espiritualidade dos herdeiros de Missouri. Num recorte mais recente, o presidente da IELB, pastor Carlos Winterle, em entrevista concedida a Augusto Kirchhein, em 27 de outubro de 2000, respondendo à pergunta "o que se poderia esperar da IELB diante de um governo tirano?", declarou:
A IELB tem se omitido, realmente. Precisamos reconhecer isto com arrependimento, que ela não tem se manifestado em situações em que o Estado desrespeita a própria lei, a questão da tirania do governo. Eu creio que a igreja deveria agir como uma voz de consciência também diante do Estado, procurando alertar para abusos e erros e mostrar o caminho correto para diversas situações que se apresentam. Não podemos conviver com a tirania, mas ao mesmo tempo quando olhamos para os textos bíblicos do apóstolo Paulo principalmente, que vivia sob uma tirania e foi morto por um governo tirano, mesmo assim ele ainda exigiu obediência à autoridade e respeitava a autoridade. Esse limite de atuação ou de interferência é muito difícil realmente de colocar (apud Augusto KIRCHHEIN, Aspectos da relação entre política e teologia no luteranismo brasileiro, p. 70).
Sobre a declaração, comenta o entrevistador: "Em sua fala fica claro o reconhecimento de uma responsabilidade pública e da falha no caso de permanecer calada diante das injustiças. No entanto, ao mesmo tempo, transparece uma forte cautela e receio no agir crítico, o que poderia ser explicado pela concepção teológica e seu modo de expor o princípio da 'autoridade' e 'obediência'".
Contudo, se por um lado está clara a cautela do presidente, por outro, na comparação com as declarações feitas no final da I Guerra, ficam também claras as transformações ocorridas em termos de mentalidade. Como continua o Presidente: "A igreja como promotora da paz, não apenas da paz do ser humano com Deus mas também da paz entre os seres humanos, ela com certeza tem muita contribuição a dar dentro dos conflitos sociais ou situações a sua volta." (apud Augusto KIRCHHEIN, op. cit., p. 71). Os códigos de significado daquela primeira espiritualidade missouriana foram postos em risco e ressignificados nas estruturas conjunturais experimentadas no Brasil, apresentando alterações e trazendo novas memórias, como respostas a situações históricas específicas - o que não deixaria de trazer conseqüências para as práticas sociais da IELB.
Um outro tema que passaria a ocupar com mais intensidade os discursos da oficialidade ielbiana diz respeito às práticas de assistência social. Exemplo disso presenciamos na 57a Convenção Nacional da IELB, reunida em Foz do Iguaçu de 29 de abril a 03 de maio de 2002, quando, pela primeira vez na história das convenções do grupo, um dia inteiro foi dedicado ao tema "A missão de Deus e o desafio do Serviço Social", gerando boa repercussão entre os convencionais. O espaço foi conquistado pela AESI, Associação de Entidades Sociais da IELB, e por ela organizado e coordenado, contando com o apoio do 2o Vice-Presidente da Igreja, encarregado da área social. Nesta ocasião, Vilson Scholz, professor de Teologia do Novo Testamento no Seminário Concórdia e na Universidade Luterana do Brasil, fez pronunciamento, ao que parece inédito, afirmando que "a Igreja não pode esquecer da dimensão corporal da pessoa humana. (...) A encarnação do Filho de Deus (continuada, por assim dizer, na 'enverbação' da Palavra de Deus e na presença real na Ceia) aponta para uma dimensão material que não pode ser esquecida em nome de uma espiritualidade desencarnada". Scholz lança mão aqui de conceitos não incorporados plenamente no discurso oficial da IELB, afirmando que a igreja não pode prescindir de sua responsabilidade de assistência social. Questiona ele, finalizando: "Como agiria o samaritano de Lc 10 em 2002, em tempos de polícia, ambulância, SUS, etc.? Faria tudo sozinho ou se associaria a outras entidades?" (Agenda e Caderno de Estudos da 57a Convenção Nacional da IELB, p. 129-130)
Reforçando nossa percepção das transformações, na mesma ocasião o pastor Tealmo Percheron, presidente da AESI, ele mesmo "filho" de uma das entidades sociais da IELB, na já referida convenção declarava:
Impossível fugir ou negar que a realidade brasileira é sofrida e complexa. Ela espelha a situação familiar, social, econômica, política e religiosa. Não há como mascarar as questões emergentes em nosso país.
Aí, surge a pergunta: como pode a Igreja anunciar um Evangelho Real e Concreto, em meio à fome, situações de desemprego e desesperança, situações de abandono e de sofrimento, ou de auto-suficiência imaginária ou real? (Agenda e Caderno de Estudos da 57a Convenção Nacional da IELB, p. 127)
Há uma clara distância não somente temporal, mas antes de tudo qualitativa, entre o "Luteranismo não tem, em absoluto, nada a ver com política ou 'Kultur' ou zonas de interesse ou qualquer outro assunto deste mundo", de Kunstmann durante a I Guerra, o "Dai a César o que é de César", de Heimann em 1972, e as declarações vistas em períodos recentes acerca da relevância social da atuação da IELB em terras brasileiras.
Sintomática, no mesmo sentido, foi a "Declaração das Igrejas Luteranas em favor da Paz", de 2003. Por ocasião da deflagração da guerra entre EUA/aliados e Iraque, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) - que tem em uma de suas origens o Sínodo Riograndense, antigo concorrente dos missouirianos à época da I Guerra - e a IELB divulgaram, assinado pelos presidentes das duas organizações, Walter Altmann (IECLB) e Carlos Winterle (IELB), o texto do qual reproduzimos aqui alguns trechos:
A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) expressam conjuntamente a dor que sentem com a deflagração da guerra contra o Iraque por parte dos Estados Unidos da América e nações a ele aliadas. Irmanadas expressam sua solidariedade a todas as vítimas dessa guerra arbitrária, insensata e desumana.
Como igrejas temos um compromisso permanente de fidelidade ao Evangelho e entendemos ser nosso dever, à luz da santa vontade de Deus, conclamar os povos para a paz, a justiça e o respeito à dignidade de toda vida humana, criatura amada de Deus.
(...) Igual rejeição temos para com o conceito de "guerra preventiva", conceito que deveria ser abolido definitivamente das relações internacionais. (...) vemos como necessidade urgente o reafirmar a legitimidade e a autoridade das instâncias multilaterais sob a égide da Organização das Nações Unidas (ONU).
(...) Conclamamos aos fiéis de nossas igrejas e a todas pessoas de fé em Cristo a se empenharem em iniciativas de paz e em processos de educação para uma paz duradoura. Tampouco cessem de interceder pelo término da guerra, pelo respeito ao ordenamento jurídico internacional, pelo estabelecimento da paz, pelo fortalecimento da ONU e, sobretudo, em favor de todas as vítimas, muito em especial dentre as populações civis, mulheres, pessoas idosas e crianças. "Orai sem cessar." (1 Tessalonicenses 5.17)
Porto Alegre, 24 de março de 2003.
A declaração é reveladora das transformações que viemos apontando. O lado missouriano que principalmente até então ou se omitia ou apoiava as políticas estadunidenses, agora o critica conjuntamente com seu antigo grupo rival, hoje presidido por um dos importantes pensadores protestantes da Teologia da Libertação . Manifesta, além disso, um espírito solidarista internacional, crítico para com a arbitrariedade estadunidense em relação à opinião pública mundial e à relevância da ONU e, ademais, conclamando fiéis luteranos e todos os cristãos a uma intercessão ecumênica em prol da resolução do problema.
Considerações finais
Tomados na perspectiva apresentada, os conteúdos de uma tradição espiritual, seus códigos e significados religiosos, proporcionam uma estrutura simbólica que nos auxilia na compreensão e na explicação dos fenômenos sociais atrelados à religião. Como aponta Sahlins, se, por um lado, um evento só adquire significância histórica se apreendido através de um esquema cultural, por outro, deve-se entender que diferentes conjunturas - inclusive acidentes biográficos ou geográficos - são condições necessárias aos processos culturais e implicam em ressignificações estruturais. Dessa forma, atualizações circunstanciais das estruturas simbólico-religiosas podem receber novas nuances ou interpretações nas ações de sujeitos e instituições em processos criativos. Foi o que pretendemos apontar nesse estudo de caso sobre a mentalidade e as práticas sociais dos líderes da Igreja Evangélica Luterana do Brasil.
Ao constatar que as posturas políticas oficiais da IELB recebem uma estrutura religiosa, compreendida no contexto das tradições espirituais que perfazem a identidade do grupo (sua dogmata, como falava Tillich), percebemos também que os conteúdos de fé daquele modelo de espiritualidade foram ressignificados em diferentes conjunturas e disputas históricas. Vistos dessa forma, mesmo grupos que se auto-compreendem como ortodoxos podem perceber os condicionamentos inerentes aos processos históricos que configuram e reconfiguram seus modos de crer e agir. As ortodoxias têm gênese nos processos sociais e neles se recriam.
No caso da IELB, ainda que não possamos sustentar que o grupo tenha de fato potencializado seu capital cultural político rumo a práticas qualitativamente mais conscientes, podemos, isso sim, perceber algumas transformações em termos de espiritualidade: em ações embasadas a partir de uma cosmovisão tradicionalmente conservantista, a IELB foi sendo "desafiada" nos processos históricos brasileiros e neles suas práticas foram ganhando novas formas. É preciso atentar, nesse sentido, para as conjunturas relacionadas ao estado, enquanto fatores centralmente condicionantes das estruturações e reestruturações culturais e religiosas.
Entendemos, assim, que o contexto social vivido nos últimos 30 anos gerou uma conjuntura na qual alguns dos líderes que chefiaram a IELB no período deram respostas diferentes das que dariam líderes anteriores, a partir de estruturas de significação religiosa igualmente diferentes. Seria interessante, nesse sentido, um estudo que investigasse o quanto o convívio das lideranças com outros sistemas sociais, por exemplo, o universitário, influenciou suas tomadas de posição. Sublinhe-se, portanto: são determinados líderes em determinadas situações sociais. A reação poderia ser diferente se as pessoas ou a conjuntura fossem outras. Acreditamos, por isso, não se tratar de um processo de evolução ou amadurecimento linear: há sempre a possibilidade de uma retomada restauradora. O que, aliás, tem sido comum no universo religioso atual.
Por fim, poder-se-ia colocar para as ciências da religião, bem como para as ciências humanas interessadas em religião de um modo geral, o desafio de contribuir com algum tipo de crítica cultural embasada historicamente. Evitaríamos com isso o risco de tornar nosso esforço de conhecimento e compreensão da realidade algo inócuo. Tillich apontou para um princípio protestante que está além de suas realizações e lhes serve de crítica. Talvez tenhamos nessa tentativa um caminho para encontrar as relações entre uma supra-estrutura e suas conformações sociais, algo que nos auxilie tanto a compreender nossas tradições espirituais, quanto sustentar uma inserção mais consciente e fraterna no mundo em que vivemos juntos.
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Arnaldo Érico Huff Júnio - Mestre em Teologia (EST, RS); Doutorando em Ciência da Religião (UFJF, MG); pesquisador da FAPEMIG, huffjr_@hotmail.com








