Diferentes formas de religião
Etienne A. Higuet
HIGUET, Etienne A. & MARASCHIN, J. (Eds.) A forma da religião. Leituras de Paul Tillich no Brasil. São Bernardo do Campo – SP, Universidade Metodista de São Paulo, 2006.
Os textos que constituem este volume são o resultado de quase doze anos de atividades do Grupo de Pesquisa Paul Tillich e da Associação Paul Tillich do Brasil, fundados respectivamente em 1993 e 1994. Representam apenas uma pequena amostra do que foi produzido e, em boa parte, publicado em diversos livros ou revistas, ao longo desses anos. A maior parte resulta de conferências ou comunicações apresentadas nos onze Seminários em Diálogo com o pensamento de Paul Tillich organizados entre 1994 e 2005. Os textos aqui reunidos refletem as diversas facetas do pensamento de Paul Tillich e do seu diálogo com os múltiplos aspectos da cultura e da religião. Vários, entre eles, não temem questionar e ampliar as reflexões do nosso autor, visando a orna-las mais atuais. O pensamento de Tillich nunca será tratado como um dogma, mas será muito mais uma fonte de inspiração para os nossos debates sobre as questões e os temas de hoje.
As três primeiras contribuições são de cunho mais metodológico, a procura de instrumentos de análise e interpretação das formas culturais – que são sempre atravessadas pela substância religiosa. Dedicam-se, em particular, à hermenêutica dos símbolos religiosos. No primeiro capítulo, Rui de Souza Josgrilberg compara as hermenêuticas do símbolo de Freud, Cassirer e Tillich: teoria pulsional do símbolo, teoria da sua função transcendental e teoria onto-religiosa. A seguir, Frederico Pieper confronta a interpretação tillichiana dos mitos e símbolos com a visão de Paul Ricoeur. Tommy Akira Goto mostra como Tillich usou a fenomenologia como recurso metodológico em suas análises filosóficas e teológicas.
Os capítulos 4, 5 e 6 tocam todos, de certo modo, no tema do socialismo religioso, que foi provavelmente a porta de entrada de Tillich na Teologia da Cultura. Eduardo Gross procura desvendar o modo como Tillich lia as obras de Marx e interpretava os seus principais conceitos, como “alienação” e “luta de classes”. Enio Muller descreve de modo muito preciso e pormenorizado as relações pessoais e intelectuais de Tillich com os principais expoentes da Escola de Frankfurt: Horkheimer e Adorno. Jorge Pinheiro dos Santos propõe uma leitura do processo de fundação do Partido dos Trabalhadores no Brasil, a partir dos principais conceitos elaborados por Tillich na edificação da teoria do Socialismo Religioso. No capítulo 7, Eduardo Rodrigues da Cruz analisa a relação de Tillich e Jung com o gnosticismo, antigo e contemporâneo. O capítulo 8, de Etienne A. Higuet, visa mostrar a complementaridade que existe entre a visão tillichiana e a concepção feminista de Eros. Usando a análise tillichiana que desenvolveu no seu livro “Teologia e MPB” (São Paulo, Loyola, 1998), Carlos Eduardo Calvani investiga a presença e as imagens do Diabo na Música Popular Brasileira. Cláudio de Oliveira Ribeiro estabelece um paralelo entre o pensamento de Paul Tillich e a Teologia da Libertação latino-americana a respeito da tensão entre racionalidade e espiritualidade, outra expressão para a relação entre a graça e a razão. Os dois últimos capítulos trazem, em releituras de Tillich, a perspectiva da pós-modernidade. Cláudio Carvalhaes apresenta Tillich como um precursor das teologias pós-modernas, especialmente nas suas concepções e definições de Deus, do ser humano e de sua preocupação suprema. Contudo, Tillich manteve-se preso à visão metafísica tradicional no uso incoerente da ontologia e no seu quadro de referência onto-teológico. Enfim, Jaci Maraschin aplica a perspectiva do pensamento pós-moderno à cristologia sistemática de Paul Tillich. Ainda haveria sentido em afirmar que Jesus, o Cristo, como gostava de dizer Paul Tillich, é o centro da história, o centro do universo e o centro das nossas vidas?