Se o socialismo ainda estiver em pauta... é fundamental ouvir o que Paul Tillich tem a nos dizer
Cláudio de Oliveira Ribeiro
Resumo
O autor analisa o princípio socialista formulado por Tillich com críticas ao marxismo, ao capitalismo e ao socialismo, levando em consideração o contexto dessa formulação, o romantismo político, o princípio burguês e, finalmente, o socialismo propriamente dito. Observa, ao final, que o princípio socialista combinam-se os poderes da origem e a expectativa profética.
Palavras-chave: socialismo, marxismo, capitalismo, política, profecia, Tillich
Abstract
The author of this essay analyses Tillich´s formulation of the socialist principle, taking into consideration his criticism of Marxism, capitalism and even socialism, in the context of the formulation, i.e., political romanticism, bourgeois principle and, finally, socialism itself. He observes, in the end of his study, that the socialist principle is closely related to the powers of origin and to the prophetic expectation.
Key-words: Socialism, Marxism, Capitalism, politics, prophecy, Tillich
Introdução
Paul Tillich (1886-1965) dispensa apresentações. No Brasil, muitos têm se dedicado aos estudos em torno do pensamento desse autor. De minha parte, tenho igualmente apresentado algumas reflexões em temas teológicos e pastorais diversos. [1]
No tocante à discussão mais especificamente política em Tillich não são numerosos os estudos no Brasil [2] . Como a relação entre fé e política sempre foi central na teologia latino-americana e as temáticas referentes ao socialismo ou mesmo a crítica ao capitalismo, da mesma forma, marcaram o cenário teológico nas últimas décadas do Século XX, refletir sobre tais temas me parece mais uma vez oportuno.
A atuação política de Tillich e as reflexões que efetuou sobre o socialismo religioso encontraram um ponto de culminância na obra The Socialist Decision (1932/1933). [3] Nesse sentido, a análise dessa obra parece ser exemplar na medida em que ela, de certa forma, sintetiza ou reflete as pesquisas e as produções de Tillich nas duas primeiras décadas do século XX. [4]
O ponto central dessa reflexão será o princípio socialista, formulado por Tillich, que oferece bases teóricas para avaliações da prática política, em especial as críticas ao nazismo, ao capitalismo e ao socialismo.
O primeiro momento, baseado na avaliação que John R. Stumme fez do pensamento de Tillich, em especial os aspectos políticos, apresentará o contexto da formulação do princípio socialista. O conteúdo desse item se fundamenta em três questões básicas: qual o significado de uma decisão socialista, quais as bases para formulação de um princípio socialista e quais as influências e as implicações de uma decisão socialista.
O segundo e o terceiro momentos apresentam as duas raízes do pensamento político: o romantismo político (de ênfases conservadoras) e a visão burguesa (de ênfases liberais). Quanto ao primeiro, será destacada a primazia do passado (“de onde vim?”) em relação ao futuro (“para onde vou?”) e, de forma similar, a primazia dos mitos de origem – como o solo, o sangue e o grupo social – em relação à demanda incondicional que pode mover a humanidade e a história. Também caracteriza o pensamento político conservador a noção de que o tempo está subordinado ao espaço. As reações do profetismo judaico, do Cristianismo e do iluminismo a essas perspectivas também serão apresentadas em síntese.
O princípio burguês, que fundamenta a sociedade ocidental moderna, possibilita a crítica aos mitos de origem e é também uma das bases do surgimento do socialismo. Todavia, além de sua conceituação, é necessário que sejam apresentados também os seus limites, uma vez que a proposta socialista requer um poder de origem baseado na busca de autodeterminação humana. Nesse sentido, o socialismo necessita ao mesmo tempo afirmar e negar o princípio burguês.
O quarto momento trata da relação que Tillich estabelece entre o princípio socialista e o próprio socialismo. Em primeiro lugar estará indicado o conceito de “expectativa” e a importância dela como demanda incondicional que leva ao cumprimento dos poderes de origem da história e da humanidade; ou seja, o passado e o presente estão em função do futuro – essa é a garantia que o princípio socialista oferece ao socialismo. Também serão vistas as reflexões em torno da relação entre princípio socialista e os problemas do marxismo. Por fim, ainda nessa quarta etapa, será discutida a contribuição do princípio socialista para a superação dos conflitos internos do socialismo nas diferentes áreas do conhecimento e da ação onde esses conflitos mais se evidenciam.
1. O contexto de formulação do princípio socialista
O título do livro The Socialist Decision (A Decisão Socialista) expressa uma série de questionamentos que estão desenvolvidos no conteúdo da obra. Em primeiro lugar, não se trata de uma possível decisão pelo socialismo tomada por Tillich, uma vez que essa já era uma afirmação pessoal comprovada anteriormente em sua biografia. Ele ressaltará, sobretudo, a necessidade de os grupos socialistas, de fato, tomarem uma decisão socialista.
No entanto, a abrangência das reflexões da obra, associada aos enfrentamentos políticos concretos de Tillich e das demais pessoas e grupos ligados à proposta do socialismo religioso (ou a perspectivas similares) com o nazismo, imputou ao trabalho um destaque político considerável. Nas primeiras palavras da obra, já se encontra uma explicitação contundente dessa crítica ao nazismo, cujo nome completo do partido era National-Sozialistische Deustsche Arbeiterpartei (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães). Tillich afirma:
Mas uma decisão socialista é requerida também pelos inimigos do socialismo. Acima de tudo esses grupos que hoje carregam a palavra Socialismo em seus nomes devem ser levados a uma real decisão socialista. Nós devemos mostrar por que por meio de sua presente atitude eles não somente negam o socialismo, mas também ameaçam o futuro da nação e da civilização ocidental. [5]
O contexto histórico-eclesial que gerou tais reflexões possui algumas raízes. A primeira delas é o conservadorismo das igrejas no século XIX, no que diz respeito à participação política do emergente proletariado industrial. Elas tornaram-se aliadas do conservadorismo prussiano, apoiando instituições monárquicas e autoritárias e opondo-se às políticas sociais e democráticas. Relacionada a esse aspecto, há uma segunda raiz, caracterizada pela ortodoxia anticlerical da visão marxista, sobretudo de Engels e Kautsky, que rejeitava a religião como um todo. O abismo entre Cristianismo e socialismo, portanto, tornava-se considerável.
A sensibilidade de Tillich para a aguçada divisão de classes sociais, a atenção dele aos limites sociológicos da igreja e aos poderes do militarismo, do nacionalismo e do capitalismo, recorrentemente chamados por ele de demoníacos, redundaram na visão de que o socialismo era a melhor fonte para enfrentar os desafios advindos da realidade social alemã e dos imperativos de construção de uma nova ordem social.
Inspirado pela consciência de um Kairos, um momento rico em significado, Tillich intuiu o início de uma nova era na qual a oposição estática entre religião e socialismo daria lugar a uma nova síntese caracterizada pela justiça econômica e por uma percepção da presença do divino em todas as coisas. Sua visão era de que as raízes tanto do socialismo como do Cristianismo presentes na sociedade poderiam, uma vez articuladas, oferecer elementos de crítica e de transformação de ambos.
Nesse sentido, Tillich não apoiou o bolchevismo e as influências do comunismo russo na Alemanha, ao mesmo tempo que criticou a Social Democracia alemã. Em conjunto com os grupos políticos que participava, buscava uma terceira via entre o marxismo-leninismo e o mero reformismo. Tillich partilhava a convicção de que era necessário repensar os fundamentos do socialismo. [6]
Tillich compreende o socialismo como expressão dos próprios trabalhadores, que oferece a eles mesmos o significado num mundo sem significado. Tal dimensão significativa é ultimamente religiosa, na medida em que transcende a realidade empírica e indica para o Incondicional. O teólogo estava convencido de que ninguém poderia realmente compreender o socialismo se a dimensão religiosa da realidade fosse omitida.
A meta de Tillich é relacionar a dimensão da fé (em sentido amplo) e o socialismo e com isso criar condições de transformá-lo. Em outras obras, ele fez o mesmo, mas expressou essa fé a partir do símbolo profético-escatológico do Reino de Deus.
Como critério teológico para tais reflexões, formulou o “princípio socialista”. Este possui sua base na ação político-religiosa dos profetas judeus, nas raízes antropológicas da própria existência humana e no significado político dos movimentos socialistas. A partir dele torna-se possível articular as ações políticas (portanto, o presente) com as questões fundamentais do passado indicadas nos mitos de origem (“de onde viemos?”) e do futuro (“para onde iremos?”). Isso significa que os valores conectados com o passado, como heranças regionais, culturais e étnicas, precisam ser considerados, ainda que a demanda pelo futuro tenha prioridade nas ações políticas. Aqui já residiria a crítica de Tillich aos modelos do “socialismo real”.
Por outro lado, ao apresentar as raízes da existência humana e a necessidade de consideração da importância de ambas, Tillich também oferece os elementos teóricos para a crítica ao nazismo, uma vez que este assumiu acriticamente determinados mitos de origem, ao evocar um passado “puro” e assim rejeitar as demandas pela justiça.
Tillich, a partir da análise dessas mesmas raízes da existência humana, criticará o capitalismo, uma vez que tal perspectiva compreende a realidade como um conjunto de objetos a serem racionalmente controlados. Dessa forma, para ele, o capitalismo reduz as pessoas a coisas e as priva das origens criativas da vida. Também as priva de futuro na medida em que a sociedade burguesa omite, a partir da noção de harmonia, a dinamicidade do presente representada na luta de classes sociais.
Portanto, em The Socialist Decision, Tillich oferece bases conceituais para avaliação de uma ampla variedade das experiências humanas. No caso das ações e formulações políticas, a relação entre passado, presente e futuro será fundamental para equacionar as questões enfrentadas. A ênfase estanque em um desses três pólos redundará em conseqüências idolátricas, como identificou no nazismo, no capitalismo e no socialismo respectivamente. [7]
Tillich avalia que The Socialist Decision foi escrito a partir da influência de alguns eventos políticos significativos, como o declínio da política da Social Democracia, a aparente destruição da classe trabalhadora, o avanço do Nacional Socialismo, a consolidação do poder do capitalismo sobre bases militares e a instabilidade das relações internacionais.
Também como elementos de influência na formulação das idéias do livro, Tillich identifica, ao menos, três gerações de socialistas. A primeira é marcada pelas perspectivas do socialismo científico, abrigada no partido da Social Democracia, que possui uma perspectiva positivista, e uma compreensão do socialismo como um processo calculável. Trata-se da “velha geração” que entende que a luta socialista não cria o processo sociopolítico, mas é criada por ele. A segunda geração, de jovens socialistas, experimentou a Revolução Russa de 1917 e incorporou a visão mais imediatista e voluntarista, firmada na força do trabalho e da ação política como elementos geradores de novas realidades, no caso, a sociedade socialista. Tillich e demais pessoas ligadas ao socialismo religioso se posicionarão entre essas gerações, criando uma terceira que se atém ao marxismo, mas o defende do ativismo da geração mais jovem, por um lado, e do cientificismo e do calculismo da geração mais velha. O teólogo propõe a recriação do marxismo e a retomada do conceito de dialética no qual necessidade e liberdade são reunidas.
Tillich, no contexto da produção de The Socialist Decision, estava consciente de algumas implicações. A discussão de seu círculo político com o comunismo soviético estava inviabilizada na medida em que a rigidez dogmática deste não permitia a inserção de novas idéias e ações políticas. Por outro lado, o socialismo alemão deveria buscar soluções próprias. Não se podia esperar por uma revolução proletária mundial.
Outro aspecto refere-se à realidade de vida das pessoas e grupos, que precisa ser considerada. Tillich afirma que “o socialismo não tem o direito de intoxicar as pessoas com visões do futuro e depois destruir suas esperanças. Ele precisa ser sóbrio em suas análises e sóbrio na atitude de expectativa que assume. Ele deve desmascarar todas as ideologias, inclusive as suas próprias”. [8]
O socialismo, para Tillich, requer uma atitude a mais realista possível, mas totalmente envolvida em uma expectativa. Tal atitude, definida pelo autor como “realismo crente” (believing realism), marca toda a sua teoria social e, portanto, as discussões político-teológicas presentes em The Socialist Decision. [9]
2. O romantismo político
Tillich indica que as raízes do pensamento político precisam ser encontradas no próprio ser humano. É impossível afirmar algo sobre os fundamentos do pensamento político sem referir-se à noção de natureza humana, com os seus poderes e tensões. Sem a doutrina da natureza humana não pode haver uma teoria das tendências políticas. Se assim for efetuado, será apenas uma descrição de suas formas externas sem apresentar o âmago das questões que distinguem as diferentes concepções políticas.
O ser humano é a reunião de natureza e humanidade. Na primeira, o ser existe para ele mesmo e, na segunda, há um elemento de crítica e de avaliação sobre si mesmo. Nesse sentido, o ser humano existe simultaneamente para si e para além de si mesmo. Essa concepção antropológica determina as visões políticas.
Portanto, o pensamento político procede da natureza humana como um todo. Ele é enraizado simultaneamente no ser, na consciência e na unidade indissolúvel dessas duas dimensões. Nesse sentido, torna-se impossível compreender um sistema político sem que a realidade humana e social na qual ele está baseado seja revelada. Essa realidade inclui a interação de todos os interesses, aspirações e pressões que formam a realidade social.
Cada elemento do ser humano e social, em sua dimensão emocional mais primitiva, é formado pela consciência. Se alguma iniciativa política (ou religiosa) não considerar essa conexão fundamental, resultará em distorções. Uma consciência verdadeira surge do próprio ser e ao mesmo tempo o determina. A natureza humana é, portanto, uma unidade dessa dualidade.
Os seres humanos encontram-se a si mesmos na existência. Isso significa afirmar a dimensão da origem (natureza) e do futuro (destino) do ser humano. Todavia, a origem é criativa. Trata-se de algo singular mas ao mesmo tempo novo, um salto qualitativo para o ser, um processo dinâmico de recriação. O ser humano veio desse processo, que está firmado em uma tensão permanente entre a dependência e a independência da origem. A origem leva o ser humano adiante, assim como o traz de volta novamente.
Nas perspectivas mitológicas, a consideração de uma origem (“de onde vim?”), em função da dependência ao poder que ela possui, resulta invariavelmente em uma lei cíclica de nascimento e morte. Dessa forma, a consciência orientada pelo mito de origem é a raiz de todo pensamento político conservador e romântico. A ênfase é no passado e, portanto, não se vislumbram-se possibilidades de futuro.
Em uma outra perspectiva, ao contrário, a consideração de que os seres humanos não somente encontram a si mesmos na existência, mas podem encontrar-se no “para além” dela, na demanda por sua plenitude, ou seja, na pergunta “para onde vou”, leva-os a quebrar o ciclo nascimento & morte. Dessa forma, a existência e as ações dos seres humanos não ficam confinadas a um mero desenvolvimento de suas origens. A pergunta “para onde vou” é algo incondicionalmente novo que transcende a realidade original. A quebra do mito de origem por essa demanda incondicional é a raiz do pensamento político liberal, democrático e socialista. [10]
As duas demandas que o presente requer – as perguntas “de onde vim” e “para onde vou” – fazem parte de um mesmo universo. Primeiramente porque ainda que o ser humano experimente algo de incondicional, tal demanda não é algo alheio à natureza humana, mas um desdobramento de sua própria origem, pois esta possui, como já referido, uma dimensão criativa. As demandas também se encontram relacionadas pelo fato de a pergunta pelo futuro fazer com que o ser humano tenha o seu passado conhecido. O “de onde vim” da humanidade encontra a sua plenitude no “para onde vou”. Somente na medida em que o ser humano pergunta por seu futuro é que ele pode ter a compreensão plena de seu passado.
A demanda incondicional que o ser humano possui, uma vez assumida, o levaria à plenitude de sua própria origem. Essa demanda torna-se concreta no encontro “Eu-Tu”, na concepção de que ambos possuem a mesma dignidade, são livres e são portadores da plenitude da origem. Portanto, será a noção de justiça que revelará a ambigüidade da origem humana. Ela é o verdadeiro poder do ser humano e nela a intenção da origem é realizada.
O pensamento político, como realidade do presente, requer igualmente as interpelações do passado (origem) e do futuro (destino). Isso faz com que se possa distinguir substancialmente os diferentes projetos. Caso contrário, eles estarão encobertos ideologicamente na medida em que não se revelarem as raízes das diferentes propostas políticas. [11]
A abordagem e o ponto de vista de Tillich pressupõem que não se pode ser um espectador do espírito. Ele interpela a humanidade para tomada de decisões. Ninguém pode compreender o socialismo se não experimentar a auto-exigência incondicional pela justiça.
As raízes do pensamento político não encontram as bases nas idéias, mas no ser humano. O pensamento político, portanto, é a expressão de uma situação social e de um ser político. O próprio pensamento não pode ser entendido sem levar em consideração a realidade social. Nesse sentido, o socialismo é a expressão direta da situação proletária.
Para a compreensão desse e dos demais fenômenos e projetos políticos, Tillich formulou o princípio socialista. Em vez do conceito de essência, que é derivado do conhecimento da natureza, o autor introduz um conceito dinâmico, de acordo com o próprio caráter da história. A dinamicidade do conceito se dá na medida em que ele contém as possibilidades de tornar compreensíveis novas e inesperadas realizações de determinadas origens históricas.
O conceito de princípio socialista não contém a universalidade abstrata de uma gama de experiências socialistas; mas a real possibilidade, a dinâmica e o poder da socialismo como realidade histórica. O princípio socialista também não é uma abstração a partir da multiplicidade das realizações históricas do socialismo, mas ele sempre situa-se em uma perspectiva de crítica e de julgamento a essas realizações.
Considerando a distinção entre essência e princípio pode-se afirmar que não é possível haver contradição entre essência e aparência, mas pode haver – e historicamente, isto é recorrente – contradição entre princípio e realização. O princípio socialista não é uma idéia socialista; é a situação proletária interpretada pela sua própria dinâmica; é o poder de uma realidade histórica determinada.
O socialismo, portanto, é compreendido somente nos termos de um princípio socialista. Este, por seu turno, é obtido somente por uma decisão socialista e torna-se o ponto de vista por excelência para a interpretação e julgamento da realidade socialista. [12]
Para apresentar as pressuposições do romantismo político, base dos projetos conservadores, Tillich retorna aos “mitos de origem”, com o recurso especialmente da psicologia do profundo, da sociologia, da antropologia e da ontologia. Ele destaca os poderes específicos de origem estabelecidos a partir das ênfases no solo, no sangue e no agrupamento social. Tais perspectivas “escravizam” o ser humano, confinando-o a um ciclo de existência vegetativa (solo), resignação ante a uma suposta nobreza ou superioridade (sangue) e dependência de uma personalidade ou lei patriarcal (grupo social). Enquanto a origem de solo e de sangue é mais comumente expressa pelo símbolo materno, na esfera social prevalece o símbolo paterno.
A libertação do mito de origem torna-se real somente quando há também uma demanda pela ruptura com o grupo social, como o profetismo desenvolveu. Ou seja, a perspectiva profética quebra o mito de origem, ao não permitir que a questão “de onde eu vim” seja o elemento de controle da vida. Se o controle da vida se dá pela origem, nada de novo pode ocorrer. Se o “de onde eu vim” predominar, torna-se inviável pensar na questão “para onde vou”.
Nesse sentido, uma nova relação entre tempo e espaço é requerida. A lei do movimento cíclico que está incorporada pelos mitos de origem impõe sempre o tempo sob o domínio do espaço. O tempo, nessa perspectiva, não realiza a sua verdadeira natureza e seu real poder. Para que isso ocorra é necessário que o tempo “corra” em direção ao novo, ao “para onde vou”, estabelecendo, portanto, um movimento irreversível. [13]
Os mitos de origem tendem a gerar formas politeístas, uma vez que as estruturas de espaço (o solo, a linhagem, o grupo social, a nação, etc.) coexistem com outras da mesma natureza e forma, existentes em espaços diferentes. Historicamente, não foi possível uma mera coexistência. A demanda pela universalidade, com a busca por uma meta última que incorpore todos os espaços, gera no ser humano a possibilidade concreta de ir além dos domínios limitados. Essa possibilidade é a tentação de querer alargar o seu espaço particular ao abraçar todo o espaço ilimitado e está representada pelo sacerdócio, como base transcendental para o poder de origem. Surge, portanto, uma contradição entre os limites da finitude e o Incondicional.
A consciência mítica cria uma unidade integrativa que tenta superar o politeísmo pela visão imperialista de um deus único, revelado em determinado espaço. Os resultados são a unificação de muitas terras em um só culto e a emergência de linhagens, tribos e nações sob uma lei soberana. Essa perspectiva, em especial as noções de ser humano tenaz e de espaço sagrado, não possibilita um movimento em direção a uma demanda especial, a um imperativo incondicional.
Como reação a essa visão, encontra-se o significado do profetismo judaico, que lutou explicitamente contra o mito de origem e a anexação que este faz do espaço. O profetismo judaico radicalizou o imperativo social para, assim, indicar a liberdade do povo de sua escravidão da origem. Deus é livre do solo, da terra sagrada, não porque ele conquistou terras estrangeiras, mas porque levou conquistadores estrangeiros à sua própria terra para punir o “povo herdeiro” e submetê-los a uma demanda incondicional.
O clamor de pertença a um povo é relativizado por uma demanda incondicional. Nesta, o “diferente” pode ser considerado como igual. A tradição sacerdotal não é abolida, mas julgada pela demanda da justiça, e os seus aspectos cúlticos são vistos como dependentes do cumprimento do direito. A quebra do mito de origem torna-se evidente na oposição profética aos sacerdotes.
Isso significa, entre outros aspectos, que o caráter independente do tempo é reconhecido. Ou seja, o tempo está acima do espaço; ele adquire uma direção, move-se no sentido de algo que não existe, mas que existirá no futuro. A expectativa por “um novo céu e uma nova terra” significa a espera de uma realidade que não é sujeita a estruturas do ser e que não pode ser alcançada ontologicamente. O novo ser não pode ser originado de um estado original. Ele vai além da origem e introduz o novo na história. Isso está nas raízes da tensão entre profetismo e sacerdócio.
O Cristianismo, a partir de fortes tensões, fez do espírito do Judaísmo a sua própria fundação. Ele assumiu o Antigo Testamento, a idéia de Criação, os conceitos históricos e os defendeu contra a tentativa de interpretação do evento cristão de acordo com o mito de origem. Nessas bases, se construiu a caracterização do Cristianismo.
Todavia, o mito de origem deixou também as suas marcas sobre o Cristianismo em, ao menos, dois aspectos: o desenvolvimento de uma forma de sacerdócio cristão no qual o sagrado “já está dado”; e uma forma de expansão relacionada a poderes como solo, sangue, grupo, estrutura social, status ou outras formas de dominação. Tal descaracterização do Cristianismo fez reaparecer o profetismo.
O espírito do profetismo, presente no Judaísmo e no Cristianismo, é, portanto, um inimigo permanente do romantismo político. É fato, no entanto, que esse espírito, ao mesmo tempo está ausente dessas duas realidades religiosas. A tensão entre essa simultânea presença e ausência possibilita a irrupção do novo na história. [14]
Historicamente, ao lado do profetismo, será o iluminismo o movimento que também romperá com os mitos de origem. Ele, ao estabelecer a consciência autônoma, destruirá todos os tipos de laços com o Pai, entendido como origem. A consciência autônoma tende a suprimir a dimensão profunda da existência, na medida em que transforma as formas finitas em objetos de conhecimento e de manipulação.
Nesse processo, a potência animal da existência desaparece ante o poder da eficiência racional. A visão iluminista de levar a educação a todas as pessoas penetra na estrutura social e faz com que a razão tome o lugar da eleição divina da nobreza e da aristocracia. A revelação passa a ser compreendida como um processo histórico de educação para todos, redundando em um esvaziamento do poder sacerdotal em função da crítica racional aos milagres e mistérios religiosos. O êxtase é substituído pelas ações pragmáticas e pela pesquisa.
Os poderes, símbolos e formas de expressão do mito de origem têm sido destruídos pelo iluminismo, mas não totalmente erradicados. Vistos na perspectiva da psicologia, ao menos três poderes resistem à racionalidade iluminista: o eros, o destino e a morte. Na perspectiva social, também são mantidos poderes ancestrais como os dos grandes proprietários de terra, os dos sacerdotes e outros.
Na tentativa de restaurar o mito de origem surge o romantismo político. Ele é uma reação ao profetismo e ao iluminismo. [15]
O romantismo político pode assumir duas formas: “conservadora” ou “revolucionária”. A primeira é baseada na defesa dos resíduos sociais e espirituais vinculados à origem contra o sistema autônomo e a favor de restaurar formas do passado. A forma revolucionária, por sua vez, tenta obter novos laços com a origem atacando o sistema racional. As duas formas de romantismo político, não obstante suas diferenças, são unidas no desejo de retornar à origem.
O retorno da ênfase no solo reforça o poder dos grandes proprietários de terra e dos vários símbolos a eles relacionados. O retorno à esfera animal possui um papel de destaque na perspectiva do romantismo político revolucionário, em especial pelas palavras-chave do sangue e da raça, base de teorias de superioridade racial e étnica. O retorno ao grupo social reforça formas de supremacia e de autoritarismo, como está simbolizado nas figuras do rei, no romantismo político conservador, e na do líder (Führer) na visão do romantismo revolucionário. A idéia de um estado fundado no mito de origem se dá a partir de uma santificação do espaço e do solo nacional, do poder animal de uma raça e de uma disponibilidade para o sacrifício vinda da classe nobre. Isso encontra o ápice no mito de um estado nacional autoritário dirigido por um monarca ou um Führer.
Diante desse quadro, o romantismo político possui duas possibilidades de efetivação: manter os grupos que defendem a tradição, ainda que por serem reduzidos sejam sem grande significado social; e/ou tentar reviver velhas e perdidas tradições.
Tillich adverte que os esforços para se criar uma tradição religiosa nacional são expressão do romantismo político e representam uma luta contra o Cristianismo na medida em que constróem um paganismo alemão. Mais efetivo ainda que a expulsão do elemento profético e cristão da consciência das massas é a substituição dele pela crença de que a nação é o mais alto valor humano.
A força do romantismo político não se encontra nas bases científicas do pensar, mas na visão mítica. As expressões dele encontram sua melhor forma quanto mais longe estiverem da ciência e mais perto da visão mítica. Por essa razão, em contraste com o liberalismo burguês e com o socialismo proletário, ambos firmados em bases racionais, o romantismo político não tem produzido grandes teóricos. [16]
3. O princípio burguês e o socialismo
A sociedade ocidental burguesa é fruto de um duplo rompimento com o mito de origem, marcado, por um lado, pelo profetismo, próprio da Reforma Protestante, e, por outro, pelo humanismo, que inclui o iluminismo, o positivismo e o liberalismo. Isso se deu a partir do princípio burguês que, para Tillich, é a dissolução radical de todas as condições, laços e formas relacionadas à origem, a fim de se criar uma situação formada por elementos racionalmente controlados e submetidos a uma estrutura que possua metas de pensamento e de ação bem definidas. O espírito da sociedade burguesa é o espírito dos agrupamentos humanos que, após cortarem os vínculos com a origem, submetem-se a um mundo de objetividade e de propósitos próprios.
Esse processo de “objetivização” envolve a natureza e a sociedade humana. Nele, todas as dimensões reduzem-se a um sistema prático de funções matemáticas, com a utilização de elementos calculáveis a serviço de metas econômicas e técnicas. A natureza e a sociedade são submetidas à razão humana. A liberdade dos indivíduos, nesse sentido, contraditoriamente, precisa estar circunscrita a um processo calculável.
Esse processo pressupõe uma perspectiva de harmonia, na medida em que todos os aspectos da vida humana são controlados e seguem um jogo livre das suas forças produtivas. Na crença em uma harmonia natural está firmado o liberalismo. A democracia também possui a crença na harmonia, mas não acredita nela como algo natural; pressupõe que a natureza deve ser subjugada pela razão, o que gera uma forma de harmonia metafísica. Ambas as perspectivas oferecem bases para a formação da sociedade ocidental e estão intimamente conectadas com o iluminismo e com as suas raízes filosóficas. Se a crença na harmonia é abalada, o princípio burguês se encontrará também abalado. [17]
Quando os interesses comerciais são atrelados aos grupos de poder, a idéia de harmonia, própria da sociedade liberal burguesa, transforma-se meramente em uma ideologia. Nesse sentido, para Tillich, vêm à tona os limites do princípio burguês. Se as massas de trabalhadores tornam-se meros objetos do processo social, as concepções de harmonia (do liberalismo) e de igualdade (da democracia) não subsistem. Essa realidade representa, portanto, uma forma de preservação de velhas ordens e valores e, nesse sentido, podem ser lembrados o classicismo, o idealismo, o historicismo e o nacionalismo. Tais formas, especialmente por representarem tentativas de adequar mitos de origem a formas autônomas e modernas, seriam como sinais “antiliberais” em meio à sociedade burguesa.
Na medida em que o princípio burguês se alia aos poderes do mito de origem e, portanto, corre o risco de ser suprimido ou mesmo eliminado pelo romantismo reacionário, surgem grupos com a intenção de radicalizar as tendências liberais e democráticas que estão implícitas nesse princípio. O radicalismo burguês busca abolir todas as regras que sustentam formas semifeudais que a burguesia conservadora aceita, e o socialismo, em suas origens, terá uma aproximação com essa visão.
A crença burguesa na harmonia está em total contradição com a situação proletária. O princípio burguês, da forma como foi aplicado pelo liberalismo, não levou a uma sociedade harmônica, caracterizada por um contínuo progresso e satisfação social. Ao contrário, foi gerada uma crise, uma divisão e uma luta de classes sociais. O proletariado experimentou desarmonia e não a harmonia pressuposta pela perspectiva burguesa. Portanto, o socialismo é a perspectiva que surge a partir da radicalização e da reinterpretação dos elementos liberais e democráticos do princípio burguês.
Diante da divisão de classes sociais, não é possível manter a crença democrática na harmonia sustentada pela burguesia. Por outro lado, a perspectiva democrática sustentada pelo socialismo também não se mantém face ao regime burguês. Diante disso, resta ao socialismo afirmar o princípio burguês e assim, de alguma forma, participar do jogo de forças a partir dos poderes de origem. Essa alternativa se realiza no conceito da ditadura do proletariado. Tillich adverte que a renúncia do princípio democrático na luta de classes introduz um sério conflito para o socialismo, em especial a relação entre o seu presente e o seu futuro. O autor pergunta pelas possibilidades do socialismo ao indagar se ele pode ser a realização do princípio burguês quando ao mesmo tempo ele é a expressão da destruição desse mesmo princípio. Do aprofundamento dessas questões depende o futuro do socialismo. [18]
O socialismo possui tanto um aspecto particular, firmado na existência do proletariado, como universal, baseado nas necessidades da sociedade como um todo. Esses aspectos não podem ser separados, mas devem estar interagindo para oferecer a melhor compreensão da proposta socialista.
Se for considerado somente o aspecto universal, o socialismo redundará em uma idéia ética e política por demais genérica, sem a base social necessária para o seu desenvolvimento. Se for considerada somente a sua particularidade, o socialismo negaria a própria capacidade de superar a situação de classe. Isso reduziria o socialismo a um ressentimento de classe social explorada.
Ao contrário, socialismo e proletariado estão intrinsecamente relacionados. A universalidade do socialismo, em suas idéias, perspectivas e propostas, cria o proletariado, da mesma forma que o socialismo é a criação do proletariado, pois se constitui em expressão particular da situação proletária. A articulação da universalidade e da particularidade do socialismo o previne de várias deformações políticas, em especial a de intelectualismos, vanguardismos e sectarismos. [19]
As análises do princípio burguês têm mostrado um conflito interno do socialismo que somente pode ser resolvido se este alcançar uma nova forma de si mesmo. O proletariado precisa negar o poder (de origem) pelo qual luta contra o princípio burguês e ao mesmo tempo precisa afirmar o princípio burguês para negar esse poder de origem. Sob esse conflito vive o proletariado.
A situação proletária seria transparente e sem ambigüidade se fosse somente uma realização radical do princípio burguês, ou seja, a racionalização completa do processo social em termos de uma harmonia. No entanto, isso não é possível uma vez que a luta de classes significa precisamente a refutação da crença na harmonia social.
O socialismo partilha da idéia da possibilidade de um controle racional do mundo e da criação, por intermédio da capacidade humana em conhecer e modelar a realidade, de uma ordem social e econômica que seja adequada para os propósitos naturais de todos os povos. Portanto, o socialismo reconstrói a crença na harmonia em termos escatológicos. O socialismo espera por um fim. Esse não pode ser progressivo (porque seria harmonioso e burguês) e nem transcendente (por que seria anti-revolucionário ou pré-burguês). A constante alternância, presente na história do socialismo, de esperança e de desapontamento, e de utopismos e de compromissos concretos inevitáveis é conseqüência de seu conflito interno.
Nesse sentido, é compreensível que muitos líderes e teóricos do socialismo evitem enfrentar essas questões. Todavia, ao fazerem isso, caem na proposta do mero reformismo, que abandona a pressuposição socialista de desarmonia social e tentam fazer do movimento socialista uma simples questão intra-burguesa. O movimento do socialismo religioso, ao contrário, procurava desvelar o conflito interno do socialismo e, a partir de Marx e da tradição profética cristã, explicitar o elemento de fé contido na perspectiva socialista e relacioná-lo como elemento simbólico fundamental para a superação das injunções históricas que permanentemente sobrevêem ao socialismo.
Para Tillich, o conflito interno do socialismo pode ser identificado em vários aspectos se uma visão burguesa da natureza humana for mantida. Isso se dará, conflitantemente, na prática socialista quando existir, ao menos, quatro aspectos: supremacia da transformação social ante a pessoal; desvalorização dos carismas pessoais; ausência de símbolos; e refutação de valores e sentimentos humanos como nostalgia e apreços por segurança pessoal, familiar e comunitária. Se o socialismo se constituir de tal quadro estará dando demonstração de que compreende o ser humano como coisa, da mesma forma que a sociedade burguesa entende.
No conceito socialista de sociedade e também nas idéias relativas à cultura, à comunidade e à economia surgem outras expressões do conflito interno do socialismo. Alguns exemplos são: as limitações de um Estado constituído pelo proletariado na realização das tarefas de eliminação de visões políticas ideológicas e de representação do conjunto da sociedade; a compreensão da religião como problema privado e desconectado das lutas políticas e sociais (visão burguesa) e não, em sentido mais amplo, como sendo as bases profundas da existência humana; a fé incondicional na ciência sem utilizá-la para identificar os próprios limites dela; a desvalorização dos aspectos culturais universais pela ênfase nas situações particulares vividas no processo educacional; os esforços de se conseguir a unidade por intermédio da idéia de nação ou de outras formas relacionadas ao mito de origem e não a partir de uma cidadania internacional; e a liderança nas iniciativas de industrialização e comércio, em especial a racionalização e planificação econômica, diante da necessidade de negação do livre comércio.
As reflexões sobre o conflito interno do socialismo não foram elaboradas por Tillich de forma abstrata e dedutiva. Elas foram pensadas a partir das tensões presentes no pensamento e na prática socialista de sua época. Nesse sentido, suas análises críticas não são dirigidas expressamente para o marxismo, embora possam ser válidas para ele, uma vez que é co-extensivo à compreensão socialista da realidade. Todavia, o autor tinha consciência de que o marxismo difere-se da visão típica do socialismo e requer um tratamento especial.
Outra pressuposição de Tillich é que tanto o socialismo como o comunismo, não obstante diferenciações, possuem a mesma problemática no que diz respeito aos conflitos internos. Para ambos, encontra-se como desafio para superação de tais conflitos uma nova compreensão e aplicação do princípio socialista. [20]
4. O princípio socialista e o socialismo
O conflito da situação proletária reside no fato de o proletariado ser fruto e expressão do princípio burguês e ter que, ao mesmo tempo, se opor a esse princípio. Essa oposição é necessária uma vez que o movimento proletário precisa retomar os poderes de origem que se dão especialmente pela disposição humana de não se deixar privar absolutamente do poder de autodeterminação. Nesse sentido, enquanto o romantismo político procura rejeitar o princípio burguês, o socialismo tenta incorporá-lo.
Todavia, tal incorporação se dá, não a partir de perspectivas racionais e analíticas, mas por pressão da própria situação proletária. O proletariado transcende a sua situação de “objetificação” e coisificação e reage contra a sua situação econômica e torna-se portador de uma nova ordem social. Por isso Tillich critica as teorias socialistas de caráter economicista e afirma que “a situação econômica não é uma base suficiente para interpretar a situação humana”. [21] Nessa mesma direção, para o teólogo, o movimento proletário significa muito mais do que uma simples luta política pelo socialismo. Relacionados a essa luta estão interesses similares de outros grupos como cooperativas, associações religiosas, educativas e de defesa de interesses étnicos e sociais. Trata-se, portanto, de um horizonte de referência mais amplo, que não está restrito a uma classe social específica, mas pertencem à história da humanidade como tal.
O proletariado e o seu movimento social e político, portanto, estão baseados nos poderes de origem e não se encontram em contradição com eles, ainda que necessitem do princípio burguês para questioná-los. Nessa perspectiva, Tillich afirma que o socialismo é fundado na interação entre o poder de origem da humanidade, tal como formulado como sendo a busca antropológica de autodeterminação, a destruição da crença na harmonia social e a ênfase sobre a demanda incondicional que está sobre o ser humano. Esses três elementos revelam que o princípio socialista contém um movimento de “sim” e “não”. O “sim” representa uma afirmação em duas direções: a primeira, da pressuposição do romantismo político – que é o poder de origem –, a segunda afirma a pressuposição do princípio burguês – que é a quebra do vínculo com a origem a partir de uma demanda incondicional para o ser humano. Todavia, nessas duas direções segue-se um “não” ao núcleo metafísico do princípio burguês que é a crença na harmonia.
Os três elementos estão combinados no conceito de expectativa, que é fundamental para o socialismo. Expectativa é a tensão com a meta que está adiante, é algo que se dirige ao novo, ao inesperado. Não se trata de atitude subjetivista, mas de algo firmado no movimento dos próprios eventos históricos. O socialismo posiciona-se decisivamente por uma atitude de expectativa. Ele conhece as frustrações da história e não espera que a existência humana e a realidade histórica sejam transformadas miraculosamente. Todavia, o movimento socialista evidencia uma atitude profética básica, ao mesmo tempo que refuta as tendências de resignação ou de utopismo.
Nesse contexto, há dois fatores aparentemente contraditórios que uma vez em tensão possibilitam a profundidade do princípio socialista. Trata-se do caráter de a expectativa ser ao mesmo tempo algo que não depende da atividade humana, mas que somente é realizada por intermédio dela. A expectativa inclui ação, pois algo de incondicional está sendo demandado.
Por essa razão os profetas lutaram contra a opressão do pobre pelos poderosos, e ameaçaram todo o povo com destruição por conta de tal injustiça. Por essa razão Marx lutou contra a objetificação e por um genuíno humanismo. Por essa razão o socialismo vê a situação proletária como a crise na sociedade burguesa e como a refutação do romantismo político. [22]
O conceito de expectativa une a origem e a meta em um duplo sentido. A meta é o cumprimento daquilo que está na intencionalidade da origem, e a origem engendra o poder pelo qual a meta é realizada. Nesses termos, o conteúdo da expectativa socialista é derivado da própria meta, assim como o caminho para atingi-la vem de sua origem, a saber, a constante busca de autodeterminação humana.
Dessa forma, fica estabelecida a tensão entre o que “é” e o que “deve ser”. A tradição judaico-cristã afirmou essa distinção e somente sob o símbolo da providência divina concebeu a integração desses dois pólos. Marx experimentou e proclamou o caráter da incompletude humana, mas analisou a possibilidade de uma sociedade sem classes. O que é decisivo para o princípio socialista, portanto, é a integração entre meta e origem.
Outro aspecto a ser destacado é o caráter tanto racional como profético da expectativa socialista. O socialismo é um movimento profético constituído em bases racionais e autônomas. A substância é profética e se expressa em termos racionais, tanto no conhecimento como na ação. A substância profética do socialismo é combinada com a sua forma racional, na medida em que a expectativa profética é transcendente, a expectativa racional é imanente e o ser humano possui ambas.
Dessa forma, o conteúdo da expectativa socialista – igualdade, liberdade, satisfação das necessidades humanas, etc. – aparenta ser totalmente imanente. Todavia, quando ele é examinado mais detidamente, em especial a expectativa final do socialismo, percebe-se que, ao pressupor uma radical transformação da natureza humana, possui em última instância um caráter transcendente. Nesse sentido, a sociedade sem classes constitui para a interpelação básica que o socialismo faz para a vida muito mais um símbolo transcendente do que um objeto imanente.
A tensão entre os elementos proféticos e racionais no socialismo, portanto, não é uma contradição, mas expressão autêntica de uma expectativa viva e dinâmica em relação ao futuro. Essa tensão constitui a essência do socialismo e está expressa em termos conceituais no princípio socialista como poder interno do movimento socialista. [23]
A partir da formulação do princípio socialista, Tillich faz uma avaliação crítica do marxismo tanto no que diz respeito ao materialismo histórico, como ao materialismo dialético (dialética histórica) e também ao que ele chamou de marxismo dogmático.
Quanto ao primeiro, Tillich questionava (já na década de 1930, portanto) a base economicista da interpretação materialista da história. O autor afirmava ser equivocado interpretar que, na relação infra-estrutura–superestrutura, o fator do “espírito” [Geist] fosse dependente do econômico. Isso porque Tillich advogava uma visão mais ampla do fator econômico:
A economia não é uma coisa. Ela não pode ser concebida como algo a parte do sentido e da qualidade das necessidades, das técnicas de produção e das relações sociais envolvidas, bem como em relação ao sentido e ao nível do empreendimento produtivo. A economia é uma infinitamente complexa e multifacetária realidade. Todos os aspectos do ser humano devem ser considerados quando a economia é considerada. [24]
Ao lado disso, Tillich observa o conceito marxista de ideologia. Nesse sentido, ele afirma que o socialismo possui uma causa e um instrumental permanentes para suspeitar de si próprio no que diz respeito a ser, ele mesmo, uma ideologia. Isso se dá quando o socialismo, em contradição com a sua própria natureza, adota uma crença na harmonia ou mesmo quando tenta ocultar as próprias tensões internas. Diante dessas condições, o socialismo necessita de uma reflexão teórica sobre ideologia direcionada contra ele mesmo.
O princípio socialista, na medida em que possui o poder de resolver o conflito do socialismo, tem também a capacidade de lidar com os problemas do materialismo histórico e prover uma nova base para o conceito de ideologia. Essas possibilidades dependem, sobretudo, de uma nova compreensão da natureza humana por parte do socialismo.
Sobre o método dialético, Tillich, entre outros pontos, indaga sobre a relação entre necessidade e liberdade. Quando a realidade é vista como coisa, afirma o autor, a liberdade é excluída, pois uma coisa é algo totalmente condicionado. Por outro lado, a liberdade tem sido afirmada por causa da demanda que se dá na situação concreta da luta política. Essa contradição somente pode ser resolvida e a dialética somente pode ser entendida quando o modelo (de uma coisa) é abandonado em função de sua realidade concreta. O ser e a história humana devem ser compreendidos, não como coisas abstratas, mas como eles realmente se apresentam.
A história, portanto, não pode ser calculada, uma vez que ela contém, em seu dinamismo interno, a possibilidade do novo. Não se trata de uma dependência da ação livre do ser humano, embora a história se mova por intermédio dessa ação. O fato é que a história possui, entre si mesma, uma direcionalidade, um ímpeto, que sempre a leva para cumprir o movimento que vai do vínculo que ela possui com a origem à sua meta final. Nesse sentido, a carga ideológica da burguesia e dos grupos orientados pelo romantismo político camufla a potencialidade da história – origem e meta –, enquanto a situação proletária evidencia a injustiça da estrutura social. E não somente evidencia como reage a ela, o que gera uma tensão em direção a uma nova ordem. O conhecimento e a ação do proletariado, como realidade histórica, representam a demanda socialista. Tal demanda une, mais uma vez, o que “é” e o que “deve ser” em uma situação humana concreta.
Mas será, sobretudo, sobre as formas mais dogmáticas de marxismo que Tillich concentrará os seus questionamentos. Essas formas, segundo o autor, não consideram as discussões sobre os problemas da natureza humana e da sociedade, da cultura e da educação, da expectativa e da demanda. Tillich considera que a relação entre teoria e prática ou, mais precisamente, entre a necessidade e a urgência de se concretizarem os projetos socialistas, como no caso da União Soviética, dificulta o caráter reflexivo e crítico e gera uma atitude de indisposição com as perspectivas teóricas mais abrangentes. Todavia, a supressão das questões teóricas mais prementes ao lado de uma estreiteza dogmática também ocorre, na avaliação do teólogo, no caso alemão, o que para ele seria injustificável. Essa postura – uma apropriação caricatural do pensamento de Marx –, ainda que possa reforçar os grupos e fortalecer a sua relação externa, acaba por redundar em enfraquecimento e falsificação da vida interna deles. O marxismo dogmático, ao negar-se a discutir a pressuposição de seus dogmas – atribuindo qualquer argumentação como sendo ideologia burguesa –, perde a oportunidade de auto-revisão a partir da suspeição, mínima que seja, de que ele mesmo poder ser cativo de uma ideologia. [25]
Tillich apresenta o princípio socialista como formulação teórica capaz de equacionar os conflitos internos do socialismo. O autor aplica tal princípio em diferentes campos do conhecimento, em especial naqueles em que os conflitos tornam-se mais evidentes. Ele destaca seis grupos de questões: pontos de natureza filosófica, ao discutir a relação entre origem e meta na expectativa do futuro; pontos de natureza antropológica na relação entre ser e consciência presente na concepção da natureza humana; de natureza política, a partir da relação entre poder e justiça na estruturação da sociedade; de natureza cultural, ao discutir o significado de símbolo e de conceito nas esferas da religião, da ciência e da educação; pontos relacionados à psicologia social, em especial a tensão entre eros e propósito na vida da comunidade; e a tensão entre natureza e planejamento na ordem econômica.
Como já referido, a fonte do conflito que o socialismo possui internamente encontra-se na relação dupla que o proletariado mantém com a sociedade burguesa; ou seja, a necessidade de, ao mesmo tempo, cumprir e se opor ao princípio burguês.
Ao lado disso está o fato de que o poder de origem que faz com que o proletariado se rebele, psicologicamente, contra a objetificação do ser humano precisa ao mesmo tempo encontrar, sociologicamente, expressão nos grupos que também são relacionados aos mitos de origem, como camponeses, artesãos e setores do serviço público, que também lutam contra a dominação burguesa. O princípio socialista, ao referenciar-se no poder de origem, abre a possibilidade dessa aliança. [26]
A expectativa socialista recebe do princípio socialista um conteúdo para que possa dirimir os conflitos. O que é esperado não está em contradição absoluta com a realidade presente, mas é o significado pleno de sua origem que há de ser cumprida no futuro. O que é demandado não são normas abstratas de justiça sem relação com a origem, mas o cumprimento da própria origem. Assim, passado (origem), presente (realidade) e futuro (expectativa) mantêm-se intimamente correlacionados.
A expectativa socialista, portanto, está no presente, mas com as tarefas de unir passado e futuro, de olhar para dentro do próprio socialismo e de sua realização a partir de uma nova ordem social e compreender, dessa forma, que o socialismo não é o fim da luta socialista. Essa seria a contribuição do socialismo religioso, em especial pelo conceito de Kairos que procura explicitar os limites assim como a validade e o significado da expectativa concreta. A expectativa é sempre relacionada ao concreto, mas ao mesmo tempo transcende cada instância dele. [27]
Em relação à natureza humana, Tillich critica uma certa vulgarização do marxismo que vê a pessoa como um mecanismo determinado simplesmente pelo prazer e pela dor. Trata-se, para ele, do produto da objetificação burguesa, tanto no nível conceitual como no prático. O socialismo, ao contrário, é uma contraposição ao processo de desumanização efetuado pelo capitalismo ao tornar as pessoas como coisas e ao reduzir as possibilidades humanas a meras e calculáveis reações de dor e de prazer. O socialismo, para isso, deve compreender o ser humano nos termos de seu centro vital e espiritual e na supremacia que o futuro dele deve ter em relação à sua origem. Dessa reflexão resulta a ênfase, dada por Tillich, à necessidade de articulação entre marxismo e psicanálise.
Os poderes e símbolos de origem foram confrontados devido aos abusos a que foram submetidos para garantir os interesses presentes no processo de dominação social. Todavia, os socialistas tornam-se negligentes ao não indicar o uso original e autêntico desses poderes e símbolos e o significado básico deles para o ser humano e para a construção da futura sociedade. [28]
No que diz respeito à estruturação da sociedade, o socialismo encontra a tensão entre o sentimento de rejeição do poder e do estado em função da radicalidade de seu próprio princípio racional e, por outro lado, a atitude de afirmar o poder e o estado a fim de alcançar a sua realização. Nesse sentido, o socialismo requer uma compreensão positiva do poder e, a partir dela, uma nova formulação teórica do estado.
É essencial para cada forma de poder estabelecido que haja consentimento daqueles que estão sujeitos a ele. Sem tal consentimento, cessa o poder e esse cede espaço para a força. Nesse quadro, se dá a luta para se estabelecer o poder em novas bases. É fato que um poder pode manter-se pela força enquanto o consentimento social vai-se reduzindo. Todavia, o poder jamais é baseado na força, mas, sim, no consentimento explícito ou implícito que ele possa alcançar. Tal consentimento virá da realização da justiça, ainda que possa ser uma compreensão bastante particular do que seja ou não justo.
A formação desse consentimento relaciona-se diretamente à noção de democracia. Tillich destaca que o conceito de maioria contém um elemento dialético que vai além da democracia. Trata-se da forma como a maioria é constituída. Embora presente formalmente, a democracia pode-se tornar inoperante pelos setores dominantes da sociedade, a partir de seus interesses e mecanismos de classe. Nesse sentido, a ditadura do proletariado pode ser entendida como uma forma de abolição de uma pseudodemocracia que oculta a dominação burguesa.
Portanto, a construção do estado socialista deve-se dar na tensão entre os poderes de origem que fundamentam a sociedade almejada (e, dessa forma, se opor à democracia liberal) e a correção democrática que submete a sociedade à demanda da justiça. Essa perspetiva, para Tillich, oferece bases para uma crítica às formas de “democratismo” e de “basismo”. [29]
Em relação à religião, Tillich indica que o socialismo fortalece o elemento profético em oposição ao sacerdotal, ambos presentes nas igrejas. Nesse sentido
- O socialismo não deveria abandonar as igrejas, mas engajá-las – não para usá-las como instrumentos em uma luta puramente política, como o Nacional Socialismo tem feito, mas para levá-las a resgatar o próprio princípio. Nesse sentido, ele pode libertar os poderes de origem que estão aprisionados nas igrejas devido à inércia eclesiástica e, assim, deixar fluir esses poderes na sociedade socialista. [30]
Ainda na esfera da cultura, Tillich faz a crítica ao dogmatismo científico, abundantemente encontrado nas experiências socialistas, que transforma perspectivas científicas em “artigos de fé”. A perspectiva dogmática da visão científica baseia-se apenas em conceitos, resultados progressivos e despreza a dimensão simbólica que permeia a vida científica. Dessa forma, entre outras conseqüências, ocultam-se os limites da ciência.
Quanto à pedagogia da educação socialista, as indicações giram em torno de pelo menos três necessidades: uma reconstrução da linguagem simbólica do passado, especialmente a religiosa, para a consciência secularizada do presente; a consideração da realidade de vida dos participantes do processo educativo articulada com os aspectos de uma cultura universal, e não uma mera comunicação de informações; e a ruptura com as bases burguesas pseudo-humanistas da educação.
Portanto, todas as formas culturais, incluindo a religião, a ciência e a educação, referem-se aos poderes de origem, mesmo que elas queiram quebrar os mitos de origem em função de uma demanda incondicional. Os símbolos não substituem os conceitos, embora isso tenha ocorrido historicamente. O fato é que o simbólico pode incorporar e expressar um certo conceito da realidade. Isso não se dá em forma de heteronomia, mas de revelação, pela própria razão, da infinidade interior do ser e da possibilidade de ele encontrar suporte e estrutura. [31]
No que diz respeito à vida em comunidade, o socialismo deve destruir a noção de nacionalismo quando esta revelar que a idéia de patriotismo está sendo usada para justificar a dominação de classe dentro de determinado país e o imperialismo econômico no exterior. A idéia de nação contém elementos de unidade, com origem e metas próprias que, uma vez cumpridas, superam as tensões entre as nações, destruindo as perspectivas de absolutização de qualquer nação, tendo em vista o conceito de humanidade como meta.
Da mesma forma, outras formas de agrupamentos humanos – mulheres, jovens, camponeses, etc. – devem considerar, em suas lutas por emancipação e/ou fortalecimento político, a dimensão da origem e meta da comunidade humana em sua totalidade. [32]
Por último, Tillich analisa o conflito na idéia socialista de economia entre combater a racionalidade econômica de mercado e ao mesmo tempo afirmar a necessidade de um planejamento central que não está isento dos moldes capitalistas. Nesse sentido, o nível de interdependência econômica necessário ou tolerável não se pode garantir por uma razão econômica pura, mas a partir de uma reflexão que valorize a existência humana concreta e os poderes de origem e as metas do grupo em questão.
O liberalismo econômico não leva isso em consideração; ele subordina o próprio processo da vida à racionalização econômica. O desafio do socialismo, portanto, é conhecer e afirmar a real dinâmica da economia socialista e os propósitos econômicos nela contidos. Na concepção socialista, a possibilidade ilimitada de estímulo de novas necessidades é questionada em função de três aspectos: o planejamento econômico central de acordo com as reais necessidades da população; a meta de padronização de renda e de consumo; e o surgimento de uma concepção e de novos valores que visem adequar a possibilidade e a realização da produção.
Ao lado da relação entre produção e consumo estão o propósito e a forma do trabalho. Na visão socialista, o trabalho visa a realização das necessidades que podem ser satisfeitas por intermédio de uma economia bem estruturada e controlada centralmente. A forma dele deve ser reestruturada de tal forma a permitir ao trabalhador uma compreensão da totalidade do processo de produção no qual ele está envolvido. Ambos estão fundamentados na perspectiva da justiça. [33]
Conclusão
O objetivo desta análise foi apresentar os pontos mais destacados da teoria social de Tillich, como pressuposição da discussão geral em torno dos temas que relacionam a fé e política. Para isso, foram enfatizados os escritos referentes à primeira fase docente e de pesquisador do autor, pois esta foi mais ocupada pelo desenvolvimento de sua teoria social e política.
Como referido, a atuação política de Tillich e as reflexões que efetuou sobre o socialismo religioso encontraram um ponto de culminância na obra The Socialist Decision (1932/1933), cujos pontos centrais foram aqui apresentados. A análise dessa obra foi efetuada na medida em que ela, de uma certa forma, sintetiza ou reflete as pesquisas e as produções de Tillich nas duas primeiras décadas do século XX e possui pontos relevantes de continuidade até o fim de sua produção teológica.
O aspecto fundamental foi a reflexão sobre o princípio socialista. Tillich formulou-o com vistas a oferecer bases para avaliações da prática política, em especial as críticas ao nazismo, ao capitalismo e ao socialismo, em suas diferentes expressões.
No primeiro momento foi apresentado o contexto da formulação do princípio socialista. Tal reflexão foi baseada na avaliação que John R. Stumme fez do pensamento de Tillich, em especial os aspectos políticos, fundamentada em três questões básicas: o significado de uma decisão socialista; as bases para formulação de um princípio socialista; e as influências e as implicações de uma decisão socialista.
Tillich analisa que o processo sociopolítico em que vivia possuía duas raízes histórico-teóricas: o pensamento político romântico e o burguês. Nesse sentido, no segundo momento deste capítulo foi apresentada a primeira dessas raízes – o romantismo político – cujas ênfases são conservadoras. Nele é destacada a primazia do passado (“de onde vim?”) em relação ao futuro (“para onde vou?”) e, de forma similar, a primazia dos mitos de origem – como solo, sangue e grupo social – em relação à demanda incondicional que pode mover a humanidade e a história. Também caracteriza o pensamento político conservador a noção de que o tempo está subordinado ao espaço. Além disso, foram apresentadas em síntese as reações do profetismo judaico, do Cristianismo e do iluminismo às perspectivas do romantismo político.
No terceiro momento foi apresentada a visão burguesa, com as suas ênfases liberais. O princípio burguês, que fundamenta a sociedade ocidental moderna, possibilita a crítica aos mitos de origem e é também uma das bases do surgimento do socialismo. O princípio burguês é a dissolução radical de todas as condições, laços e formas relacionadas à origem, a fim de se criar uma situação formada por elementos racionalmente controlados e submetidos a uma estrutura que possua metas de pensamento e de ação bem definidas. O espírito da sociedade burguesa é o espírito dos agrupamentos humanos que, após cortarem os vínculos com a origem, submetem-se a um mundo de objetividade e de propósitos próprios. Além de sua conceituação, foram apresentados também os limites do princípio burguês, uma vez que a proposta socialista requer um poder de origem baseado na busca de autodeterminação humana. Dessa forma, o socialismo necessita ao mesmo tempo afirmar e negar o princípio burguês.
O quarto momento abordou a relação que Tillich estabelece entre o princípio socialista e o próprio socialismo. Para isso, foi indicado o conceito de “expectativa”, como demanda incondicional. Ela leva ao cumprimento dos poderes de origem da história e da humanidade, ao articular o passado e o presente em função do futuro. Essa é a garantia que o princípio socialista oferece ao socialismo.
Também foram vistas as reflexões em torno da relação entre princípio socialista e os problemas do marxismo. Tillich questionava a base economicista da interpretação materialista da história. Ele compreendia a economia como uma realidade complexa e multifacetária. Para ele, todos os aspectos do ser humano devem ser considerados quando a economia é considerada.
O autor também chamava a atenção para os momentos em que o socialismo adotava uma crença na harmonia, ocultando os seus conflitos internos. Tillich afirma que o socialismo possui uma causa e um instrumental permanentes para suspeitar de si próprio no que diz respeito a ser, ele mesmo, uma ideologia. Diante dessas condições, o socialismo necessita de uma reflexão teórica sobre ideologia direcionada contra ele mesmo.
Todavia, foi sobretudo sobre as formas dogmáticas de marxismo que Tillich dirigiu as maiores críticas. A supressão das questões teóricas mais prementes, ao lado de uma estreiteza dogmática – uma apropriação caricatural do pensamento de Marx –, por vezes até mesmo reforça os grupos e os fortalece nas relações externas. No entanto, tal postura redunda em enfraquecimento e falsificação da vida interna deles. O marxismo dogmático, ao negar-se a discutir a pressuposição de seus dogmas – atribuindo qualquer argumentação como sendo ideologia burguesa –, perde a oportunidade de auto-revisão e de reconstrução rumo ao futuro.
Por fim, foi discutida a contribuição do princípio socialista para a superação dos conflitos internos do socialismo, nas diferentes áreas do conhecimento e da ação onde esses conflitos mais se evidenciam. Tillich apresenta pontos de natureza filosófica, ao discutir a relação entre origem e meta na expectativa do futuro; pontos de natureza antropológica na relação entre ser e consciência presente na concepção da natureza humana; de natureza política, a partir da relação entre poder e justiça na estruturação da sociedade; de natureza cultural, ao discutir o significado de símbolo e de conceito nas esferas da religião, da ciência e da educação; pontos relacionados à psicologia social, em especial a tensão entre eros e propósito na vida da comunidade; e a tensão entre natureza e planejamento na ordem econômica.
Em todos esses pontos foi visto que o socialismo, para se fortalecer, requer a aplicação do princípio socialista para, dessa forma, superar os próprios conflitos internos. Na medida em que isso é efetuado nas diferentes áreas onde os conflitos se evidenciam, ficam garantidas e exigidas avaliações mais abrangentes e interdisciplinares. Tal exigência e garantia é uma das melhores contribuições de Tillich para a reflexão política, assim como sobre a religião e a cultura.
Como visto, no princípio socialista os poderes de origem e a expectativa profética estão combinados. Nesse sentido, ele precisa ser aplicado ao próprio socialismo, para não permitir uma hegemonia do mito de origem, cujo resultado é destruição e morte, e para realçar a expectativa que, ao contrário, faz emergir a verdadeira humanidade na existência humana. A expectativa, como símbolo do socialismo, deve ter papel protagonista no projeto socialista.
Bibliografia
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HIGUET, Etienne & MARASCHIN, Jaci (orgs.). A Forma da Religião: leituras de Paul Tillich no Brasil São Bernardo do Campo-SP, Umesp, 2005.
RIBEIRO, Claudio de Oliveira Ribeiro. Quando a Fé se Torna Idolatria: a atualidade da relação entre Reino de Deus e História em Paul Tillich. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro-RJ, PUC, 2000.
TILLICH, Paul. The Socialist Decision. Harper & Row Publishers, Inc. New York, Hagerstown, San Francisco, London, 1977 [1932].
____ . The Interpretation of History. New York-USA, Charles Scribners´s Sons, 1936.
O autor é professor de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
| [1] | Sobre as conexões entre as teologias de Tillich e a Latino-americana veja meus escritos anteriores: "Paul Tillich e a Teologia Latino-americana". Revista Eclesiástica Brasileira (REB), 54(216), dez 1994. Vozes; “A teologia diante das ciências: uma aproximação entre a produção teológica latino-americana e a de Paul Tillich”. Impulso, 8(17), 1995, pp. 35-49. UNIMEP // também publicado em BITTENCOURT FILHO, J. & RIBEIRO, C. Por uma nova teologia latino-americana: a teologia da proscrição. São Paulo-SP, Paulinas, 1996, pp. 203-224; "A Crise das Igrejas e o Princípio Protestante". Contexto Pastoral, 4(19), mar/abr 1994. CEDI/CEBEP; “O conceito de ‘comunidade espiritual’ de Paul Tillich e a renovação eclesial latino-americana”. Revista de Cultura Teológica, 4(15), abr./jun. 1996, pp. 121-128; “Para repensar a prática das igrejas: uma contribuição sistemática de Paul Tillich”. Fragmentos de Cultura, 6(17), mai. 1996, pp. 39-48; “Quando a fé se torna idolatria: a relação entre Reino de Deus e história em teologias contemporâneas”. Atualidade Teológica, 1(1), ago/dez 1997, pp. 43-57. PUC-RJ; “Crítica e diálogo: aspectos da teologia de Paul Tillich e a relação com a teologia latino-americana”. Perspectiva Teológica, 22(79), set/dez 1997, pp. 353-382. Cia. de Jesus; “História e libertação: contribuição de Paul Tillich para o contexto latino-americano”. Revista de Cultura Teológica, 5(21), out/dez 1997, pp. 81-114. Faculdade de Teologia N.S. Assunção. “Religiões e salvação: indicações para o diálogo inter-religioso na teologia de Paul Tillich”. Numen – Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, Vol. 3, n. 2, jul/dez 2000, pp. 31-46; e mais recentemente: “Perspectivas Teológicas para o Combate à Idolatria”. Revista Eclesiástica Brasileira (REB), 65(258), abril de 2005, pp. 259-292; e “A espiritualidade entre a gratuidade e a libertação: Paul Tillich e o contexto latino-americano” (pp. 171-185). In: HIGUET, Etienne & MARASCHIN, Jaci (orgs.). A Forma da Religião: leituras de Paul Tillich no Brasil São Bernardo do Campo-SP, Umesp, 2005. Também apresentei alguns traços biográficos do autor em “Teologia no Plural: fragmentos biográficos de Paul Tillich”. Correlatio (3), abr 2003. www.metodista.br/cientificas/correlatio |
| [2] | Veja, entre outros, os textos: “Tillich, leitor de Marx” (pp. 55-73), de Eduardo Gross, e “Socialismo e religião no processo de fundação do Partido dos Trabalhadores” (pp. 97-118), de Jorge Pinheiro, In: HIGUET, Etienne & MARASCHIN, Jaci (orgs.). A Forma da Religião: leituras de Paul Tillich no Brasil São Bernardo do Campo-SP, Umesp, 2005. |
| [3] | Harper & Row Publishers, Inc. New York, Hagerstown, San Francisco, London, 1977 (tradução de Franklin Shermann) (=SD). A utilização dessa tradução se deu pela facilidade com a língua inglesa, ao lado do fato de essa obra, por ser publicada décadas depois, apresentar notas do tradutor e textos do editor que cooperam significativamente para melhor compreensão do texto. O original (Die sozialistische Entscheidung) se encontra em MainWorks/Hauptwerke. Berlin/New York, De Gruyter – Evangelisches Veragswerk GmbH – Writings in Social Philosophy and Ethics (ed.: Erdmann Sturn), 1998, pp. 273-419. |
| [4] | Outra obra de destaque nesse sentido é The Interpretation of History. New York-USA, Charles Scribners´s Sons, 1936. Essa obra é uma coletânea de escritos de Tillich, em especial sobre a sua filosofia social e política. Para uma visão panorâmica dessa temática em Tillich veja o artigo de Eduardo Gross, “Religião, Ontologia e política na Obra Inicial de Paul Tillich”. Numen – Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, 1(1), jul./dez. 1998, pp. 165-187. |
| [5] | Paul Tillich. SD, p. xxxi. [Tradução livre, aqui e nas notas seguintes referentes à mesma obra]. |
| [6] | Cf. John R. Stumme. “Introduction”. In: SD, pp. ix-xv. |
| [7] | Cf. Id. ibid., pp. xvi-xxii. |
| [8] | Id. ibid., p. xxxvi. |
| [9] | Cf. Paul Tillich. SD, p. xxxi-xxxvii. |
| [10] | Cf. Id. ibid., pp. 1-5. |
| [11] | Cf. Id. ibid., p. 6. |
| [12] | Cf. Id. ibid., pp. 7-10. |
| [13] | Cf. Id. ibid., pp. 10-17. |
| [14] | Cf. Id. ibid., pp. 18-22. |
| [15] | Cf. Id. ibid., pp. 23-26. |
| [16] | Cf. Id. ibid., pp. 27-44. |
| [17] | Cf. Id. ibid., pp. 47-52. |
| [18] | Cf. Id. ibid., pp. 52-61. |
| [19] | Cf. Id. ibid., pp. 61-65. |
| [20] | Cf. Id. ibid., pp. 66-93. |
| [21] | Id. ibid., p. 98. |
| [22] | Id. ibid., p. 106. |
| [23] | Cf. Id. ibid., pp. 97-112. |
| [24] | Id. ibid. p. 116. |
| [25] | Cf. Id. ibid., pp. 113-126. |
| [26] | Cf. Id. ibid., pp. 127-130. |
| [27] | Cf. Id. ibid., pp. 130-132. |
| [28] | Cf. Id. ibid., pp. 132-137. |
| [29] | Cf. Id. ibid., pp. 137-144. |
| [30] | Id.ibid., p. 176. (nota 22). |
| [31] | Cf. Id. ibid., pp. 144-150. |
| [32] | Cf. Id. ibid., pp. 150-153. |
| [33] | Cf. Id. ibid., pp. 153-160. |








