Diálogo entre Tillich, Jung e Espiritismo
Cada pessoa deve ter sua própria fé,
como tem seu próprio rosto.
LAVATER.
Resumo
O artigo apresenta uma breve discussão com o espiritismo, no contexto do sincretismo brasileiro e em perspectiva ecumênica. A entrevista realizada mostra que o que une as diversas tendências religiosas é o amor entre os seres humanos, pois é a base constitutiva da vida. A fonte do amor, tanto para Alan Kardec quanto para Paul Tillich e Carl Gustav Jung é o espírito, que é vida em busca de perfeição.
Palavras-chave: espiritismo, amor, vida, espírito, Tillich, Jung
Abstract
This article shows a brief discssion with Spiritualism, in the Brazilian syncretism context and from an ecumenical perspective. The interview here reproduced shows that love is the unifying factor of all religious tendencies among human beings, for it is the constitutive foundation of life. The source of love for Alan Kardek, Paul Tillich and Carl Gustav Jung is the spirit, which is life seeking perfection.
Key-words: Spiritualism, love, life, spirit, Tillich, Jung
- Este estudo é resultado de uma comunicação realizada no lX Seminário Nacional sobre TILLICH, PAUL e dormiu na gaveta durante dois anos por motivos pessoais. Tem o objetivo de discutir alguns dados colhidos sobre o Espiritismo, com a ajuda de LIPORONI, JANDIRA ROSA [1] , médium atuante durante longo tempo na Federação Espírita de São Paulo, em mesas de cura. É um estudo sócio-antropológico, uma pesquisa de observação participante e entrevista semi-estruturada, com referencial teórico em SANCHIS , quando discute e define a questão do sincretismo.
- ...a sua abordagem se aproximaria primeiro do fenômeno como de um universal dos grupos humanos quando em contato com outros: a tendência [do homem de fazer surgir o universo através de suas classificações] a utilizar relações apreendidas no mundo do outro para ressemantizar o seu próprio universo... uma forma de constante redefinição da identidade social.
- Buscamos universais de grupos humanos no tocante ao Cristianismo, com abertura para outras religiões. Buscar universais quer dizer buscar aspectos comuns. Para aqueles que são teólogos o empreendimento desta busca denomina-se Ecumenismo, para as classes populares denomina-se Sincretismo. Temos aí uma boa discussão a ser feita. Ao adentrarmos a sala de visitas de Dª. JANDIRA encontramos a estatueta de um índio ao qual ela chama de URUBATAN . Está colocada ao fundo da sala, do lado direito e divide o espaço onde, de um lado sentam-se as visitas e de outro, a dona da casa. Participa com ela de suas conversas com as visitas. Traz, na cabeça, um cocar de cacique, o que revela sua nobreza e poder sobre os outros. É preciso lembrar que a sala é o lugar de recepção do outro , em nossa casa. É o lugar primeiro de sua acolhida. Dª. JANDIRA recebe seus convidados com a ajuda de URUBATAN, seu mais ilustre hóspede. No corredor que liga a sala aos seus aposentos (lugar de passagem), encontramos na parede, do lado direito, alguns instrumentos indígenas que são utilizados na caça, pesca e defesa pessoal e outros de utilidade musical. Alguns têm incrustações de madrepérola, denotando origem mexicana, o que se esclarece quando Dª. JANDIRA nos diz que viveu certo tempo em Los Angeles. Do lado esquerdo do mesmo corredor estão afixados na parede, elementos cerâmicos de origem marajoara (trabalhados). São instrumentos que compõem a mesa de refeições, lugar de comunhão com o outro . Em seu quarto de dormir, lugar sagrado , a sua cabeceira, do lado esquerdo, ela tem presente uma imagem de Maria que trouxe da Suíça. É de grande beleza e Dª. JANDIRA nos explica que simboliza um Espírito de Luz que vela seu sono enquanto lhe dá bons conselhos e a protege do mal bem como protege e aconselha também aos seus familiares, cuja foto conserva aos pés da imagem. È uma imagem cultuada no universo religioso católico. Maria aqui pode ser identificada com Eleda?
- Eleda, oni, ori. Eleda é o que pensa sim: vê vela, está sempre kuni, kuni.
Guia e decide nossa vida...
Temos todos um Anjo da Guarda. Eleda de cada um...
Obatalá governa todas as cabeças. Dizer Eleda quer dizer Obatalá...
- O texto guarda a confusão que se faz sobre Eleda e outras deidades. A pergunta que fica é: como é possível uma idéia daomeana perpassar o universo Ioruba, percorrer o universo católico e misturar-se com a teoria Espírita sobre Espírito de Luz? Dª. JANDIRA é Espírita e perguntando-lhe quais os fundamentos do Espiritismo, ela me disse
- A principal coisa é o amor que precisamos ter uns pelos outros. Precisamos ser solidários, ter solidariedade, depois tudo nós podemos aprender com a ajuda de espíritos elevados. Não importa a qual corrente pertençamos, pois há várias correntes: a corrente indígena, a corrente dos africanos, a corrente dos corpos celestes... Todas possuem Espíritos de Luz que vêm para nos iluminar e nos ensinar a verdade do amor de Deus por todos nós.
Pensei em CALVANI em sua comunicação, onde ele relata que em um dos sermões TILLICH dizia de seu profundo desanimo quando olhava para dentro da Igreja pecadora, mas, seu coração se enchia de alegria ao contemplar o mundo lá fora e ali descobrir beleza em pequenos gestos de amor entre as pessoas humildes do meio popular.
- O professor HIGUET explica que para TILLICH
- O amor é o poder iniciador e constitutivo da vida. O amor exprime em todas as suas qualidades, uma tendência ou um desejo ontológico à reunião dos elementos separados da vida com o fundamento ao qual pertencem, mas com o qual romperam nas condições de alienação existencial. A maior força do amor está na sua capacidade de reunir os seres mais radicalmente separados, as pessoas humanas individuais... O Eros autêntico e a alegria do amor compartilhado contagiam progressivamente, a partir da vida dos indivíduos, as comunidades os movimentos sociais e a sociedade inteira. No relacionamento saudável entre seres humanos, Eros não apaga as diferenças entre pessoas. Ao contrário, a diferença é a base dinâmica da relação justa: a partilha não hierárquica do poder entre indivíduos autênticos e autônomos, é a justiça nas relações concretas: reconhecer o (a) outro (a) como pessoa numa comunidade de pessoas e não fazer dele (a) um objeto ou um instrumento de prazer é o critério de distinção entre o Eros essencial e o Eros pervertido.
- As pessoas humildes sabem com clareza que é o amor a base constitutiva da vida, mas nem sempre sabem como vivê-lo. Em nossa sociedade o amor é confundido com posse – hibris e concupiscência – reificação do outro . Quando uma pessoa se apossa da outra, impedindo-a de crescer, desenvolvendo seus próprios bens ou talentos, temos a posse comunicada pela hibris, o desejo de ser mais e melhor do que o outro ainda que seja à custa de impedi-lo de conseguir realizar seus objetivos, o que é muito comum entre alguns casais em nossas comunidades: (impedir o outro de trabalhar, de estudar, etc.). O uso do outro ou reificação se verifica quando não nos importamos com seus sentimentos e objetivos nem nos interessamos por motivos que o tornam feliz ou infeliz, não o reconhecemos perante sua comunidade e nossa comunidade como pessoa por nós escolhida para conosco partilhar a vida. O cancioneiro popular reconhece isso ao dizer Sol que nasce atrás dos montes não clareia a minha estrada Amor não nasceu para viver escondido. Essa é a razão porque muitos casais se separam quando um dos parceiros (ou os dois) encontrou no amor que dedica a outra pessoa a sua razão de viver, é também a razão pela qual padres e freiras deixam seus votos e gays e lésbicas se assumem publicamente. Perguntei a Dª. JANDIRA [13]_sobre os espíritos e o demônio e ela me disse
- Não existe inferno, demônios são os espíritos atrasados que precisam ser iluminados.
Precisamos ajudá-los a evoluir. Demônios somos nós mesmos quando erramos.
Não há fantasmas, só enxergamos o que Deus nos permite ver.
Não é preciso temor porque Deus está nos guardando.
- TILLICH , ao falar sobre o mesmo assunto assim se expressa
- A verdade da doutrina dos poderes angélicos e demoníacos é que existem estruturas supra-individuais de bondade e estruturas supra pessoais de maldade. Anjos e demônios são nomes mitológicos para poderes construtivos e destrutivos do ser, que são ambiguamente entrelaçados e que se combatem mutuamente na mesma pessoa, no mesmo grupo social, e na mesma situação histórica. Eles não são seres, mas poderes de ser dependentes da estrutura global da existência e implicados na vida ambígua. O Homem é responsável pela transição da essência à existência porque ele tem liberdade finita e porque todas as dimensões da realidade estão unidas nele.
- Normalmente as concepções populares de poderes demoníacos e angelicais fazem referência apenas à nossa responsabilidade pessoal em relação ao mal, TILLICH vai mais além, quando questiona grupos sociais e estruturas históricas, discutindo aí, as ambigüidades da vida. Essas questões em alguns grupos sociais e dentro do momento histórico em que vivemos nos levam a considerar oportuno falar sobre as situações vivenciadas por Pentecostais e descritas por BASTIAN [15] ele diz
- os pentecostalismos são catolicismos de substituição...
rompem com a Igreja Católica, sim,
mas não rompem com as estruturas,
as pautas autoritárias de controle social...
Temos aqui uma oportunidade de recordar o conceito de sobrevivência de TYLOR e sua função. É o velho homem sempre renascendo e ao invés de buscar novos padrões de conduta que sejam justos e fraternos e que levem à transcendência como marca de conversão, busca apenas mudança de rito. Lembramos o apóstolo Paulo quando diz que o bem que quer fazer não faz, mas o mal que não quer, acaba fazendo. São nossas sobrevivências. Presumo que os Pentecostais ficarão zangados com essa observação. Sobre nossas possibilidades de mudança assim se expressam os Espíritas: As idéias se modificam pouco a pouco, segundo os indivíduos e são necessárias gerações para que se apaguem completamente os traços dos velhos hábitos ...
- KARDEC explica
- Espírito... é o principio inteligente do universo ... a inteligência é um atributo essencial do espírito; mas um e outro se confundem num principio comum ... o principio é independente da matéria... Alma é um espírito encarnado... antes de se unir ao corpo a alma é espírito ...o homem é formado de três partes essenciais: 1- corpo material; 2- a alma, espírito encarnado da qual o corpo é habitação; 3- o perispirito, principio intermediário entre a alma e o corpo... Gravitar para a unidade divina, esse é o objetivo da humanidade. Para atingi-lo, três coisas lhe são necessárias: a justiça, o amor e a ciência; três coisas lhe são opostas e contrárias: a ignorância, o ódio e a injustiça...
Para os Espíritas, alma quer dizer espírito colocado na carne (encarnado), o corpo nada mais é do que a morada do espírito, um corpo sem espírito é um corpo sem vida, portanto a manifestação da vida é o espírito, o espírito é a vida cujo objetivo maior é buscar a unidade com o divino, ou seja: a unidade com a perfeição, a auto-superação ou transcendência.
- JUNG [21] assim se expressa sobre sua vida e seu trabalho:
- Minha vida é minha ação,
meu trabalho consagrado ao espírito é minha vida
e
não se poderia separar um da outra.
O quê JUNG fazia? Qual era o seu trabalho? Ele era terapeuta e ao dizer que seu trabalho consagrado ao espírito é sua vida, dizia que sua vida é dedicada ao seu modo próprio de esternalisar-se (existir) e à ajuda que como terapeuta oferecia ao outro para que este outro pudesse esternalisar-se (existir) também, da melhor maneira possível. Sua vida era sua ação (o que ele fazia) dedicada (voltada) ao espírito (ao ser), à vida (do jeito que era vivida e buscando o melhor jeito de vivê-la). Em JUNG, vida e espírito fundem-se num movimento só, aspirando a perfeição, ou seja: a transcendência.
- Para TILLICH
- Espírito é a unidade dos elementos ontológicos e o telos da vida atualizado como vida.
O ser em si se realiza como espírito...
Telos representa um alvo interior, essencial, necessário, aquilo pelo qual o ser se aperfeiçoa sua própria natureza... é a unidade de poder e sentido.
Espírito, para TILLICH, significa vida, nosso próprio existir em busca da perfeição (telos) com nossas contradições às quais ele denomina ambigüidades, o que fazemos e sentimos nossas opções, nossas dúvidas no momento das escolhas entre nossas virtudes e nossos pecados, o que sofremos, com o que nos alegramos, o amor ou desamor que sentimos tudo isso é o que constitui o nosso espírito, a nossa vida. | KARDEC JUNG e TILLICH expressam a mesma concepção sobre vida e espírito: ambos são uma só realidade e não se pode separar uma do outro.
Qual é a importância do espírito para os espíritas?
- Segundo KARDEC
- Teu espírito é tudo; teu corpo é uma veste que apodrece; eis tudo... Temos no suco da vinha uma imagem material dos diferentes graus de depuração da alma. Ele contém o licor chamado espírito ou álcool, mas enfraquecido por grandes quantidades de matérias estranhas, que lhe alteram a essência, e não chega à pureza absoluta senão depois de muitas destilações em cada uma das quais se despoja de algumas impurezas. O alambique é o corpo no qual ele deve entrar para se depurar; as matérias estranhas são como o perispírito, que se purifica a si mesmo à medida que o espírito se aproxima da perfeição.
KARDEC identifica o espírito a um licor denominado álcool e que se depura a cada momento vivido no caminho da perfeição, onde o ser busca aproximar-se mais e mais do Criador. Neste sentido é álcool ou espírito a vida daquele ser impregnado de impurezas e ainda em processo de depuração como também é álcool ou espírito a vida do ser com menor grau de imperfeição e que por esse motivo está mais próxima da Totalidade. A citação de KARDEC, acima referida, lembra as colocações de JUNG em relação à ROWLAND HARZAD, um bebedor compulsivo de álcool. Foi ele quem levou BILLE, o BOB [24] a uma reunião com um grupo de cunho religioso que tentava, conforme o conselho de JUNG, abaixo referido, encontrar saída para seus problemas de alcoolismo. BOB veio a ser um dos fundadores de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS – AA.
- JUNG na referida citação assim se expressa
- ...o que eu realmente concluí sobre o seu caso foi o resultado das minhas inúmeras experiências com casos semelhantes. A sua fixação pelo álcool era o equivalente, em nível mais baixo, á sede espiritual do nosso ser pela Totalidade, expressa em linguagem medieval, pela união com Deus... Veja você, ”álcool” em Latim significa “espírito”, e você, no entanto usa a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para designar o mais depravador dos venenos. A receita então é “spiritus” contra ”Spiritum”.
Nas três concepções aqui analisadas, espírito é vida em busca da perfeição. Quando o ser se encontra ainda preso a vaidades e coisas de menor importância é como o veneno contido no álcool e que o torna impuro. À medida que se transcende caminha para a perfeição vai deixando de ser venenoso e se transformando em luz. Ao mesmo tempo em que queima o seu próprio veneno ilumina o caminho a ser seguido
- Dentre todas as concepções Espíritas sobre espírito a que mais se aproxima de TILLICH e JUNG, a nosso ver, é aquela onde KARDEC [26] diz
- Os espíritos do Senhor...
são as virtudes dos céus...
eles vem iluminar os caminhos e
abrir os olhos dos cegos.
Se os espíritos são vidas, são nossas vidas, então nós somos as virtudes dos céus, quando caminhando em busca da perfeição, nossa solicitude para com todos aqueles que cruzam nossos caminhos nos faz ser LUZ para eles, somos sinais da graça e bondade de Deus para nossos semelhantes. ESPÍRITOS DE LUZ... Não é isso que somos chamados a ser?
- Prefácio
- Os espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, qual imenso exército que se movimenta ao receber a ordem de comando, espalham-se por toda superfície da terra, e semelhantes às estrelas cadentes, eles vêm iluminar os caminhos e abrir os olhos dos cegos. Eu vos digo em verdade que são chegados os tempos nos quais todas as coisas devem ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos. As grandes vozes retinem com sons de trombetas e os cânticos dos anjos se lhes assobiam... nós vos convidamos, ó homens , para o divino conserto. Dedilhai a lira, unificai as vossas vozes e fazei que elas, num só hino sagrado, se estendam e repercutam de um extremo ao outro do universo. Homens, irmãos a quem amamos, aqui estamos juntos de vós. Amai-vos também uns aos outros, e dizei do fundo do vosso coração, fazendo a vontade do Pai, que está no céu: Senhor! Senhor!...e podeis entrar no reino dos céus. O Espírito da Verdade.
Resume esta mensagem mediúnica a um tempo, o verdadeiro caráter do Espiritismo e a finalidade desta obra e por isso foi colocada aqui como prefacio. ALLAN KARDEC.
Um só rebanho, um só Pastor, uma só FÉ em um Salvador,em Teu amor, unidos aqui num mesmo Espírito, vamos a Ti...
- Vanda de Deus Daniel é Pedagoga e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo.