Viver a graça de Deus na perspectiva tillichiana
Afrânio Gonçalves Castro
Resumo
Estudo sobre a vida da graça a partir do pensamento de Paul Tillich. Segundo a Reforma, a graça deve ser entendida como aceitação de Deus e a fé como aceitação dessa graça. O ser humano só vive a graça depois de ser tomado por ela. Por meio da graça o ser humano participa na vida divina. A aceitação e afirmação do ser humano implicam na afirmação da vida, apesar das ambigüidades.
Palavras-chave: graça, justificação, amor, justiça, vida, Tillich
Abstract
Essay on the life of grace in Paul Tillich´s thought. According to the Reformation, grace is understood an God´s acceptance of men and faith, as the acceptance of that grace. Human beings only live the divine grace after being taken by it. Through grace human beings share in the divine grace. Human beings acceptance and affirmation imply also the affirmation of life in spite of its ambiguities.
Key words: grace, justification, love, justice, life, Tillich
Falar da graça divina deveria ser algo natural e recorrente no meio evangélico na medida em que o ensino dessa doutrina demonstra a nossa íntima relação com a tradição protestante. Contudo, ainda carecemos de uma proposta de vida e missão baseada nesse tema. Por isso mesmo, esse artigo pretende delinear algumas idéias sobre a vida na graça a partir do pensamento de Paul Tillich. Eis ai um tema que, se aprofundado, pode suscitar provocações (e vocações!) para a nossa reflexão. Para entender melhor o que queremos dizer seria bom trazer à memória alguns elementos.
No período da Reforma (séc. XVI), a teologia nascente trouxe à tona novas afirmações sobre Deus que mudaram a compreensão do sagrado e das relações que se podia ter com ele. O importante a salientar da teologia protestante, sem entrar em detalhes de todo o emaranhado histórico que a gerou, é que ela foi capaz de fazer frente às exigências de padrões religiosos e sociais mais adequados para um novo mundo que estava nascendo com o final da Idade Média e o advento do Renascença. Em certa medida, “o protestantismo foi a resposta às necessidades humanas do indivíduo assustado, desarraigado e isolado que tinha de orientar-se e relacionar-se com o novo mundo.” [1] Naquele período, a teologia protestante ofereceu como resposta religiosa para o momento a doutrina da justificação pela graça mediante a fé. Segundo essa doutrina, o indivíduo, numa relação pessoal, é aceito livremente por Deus, sem a concorrência de nenhuma mediação externa como acontecia no sistema sacramental da Igreja Romana.
Voltando para o presente, diríamos que sobre as bases da teologia da Reforma, a graça deve ser entendida como a aceitação do ser humano por Deus e a fé como a aceitação dessa graça [2] . Com essa proposição, a teologia da Reforma abriu caminho para a compreensão do indivíduo perante Deus em termos de estados pessoais. Sendo assim, ou o ser humano está num estado de condenação diante de Deus pela falta de fé, ou se encontra num estado de graça, justificado pela fé, que aceita a (aceitação) de Deus. Em ambos os casos, é a fé que coloca como o divisor de águas entre esses dois estados. Sua falta expressa a separação do ser humano de Deus. Onde não há fé, há uma pessoa sozinha consigo mesma. Por outro lado, a presença da fé indica que o ser humano está participando, num encontro pessoal, de Deus, sentindo em si mesmo a Vida da qual todos os seres finitos tiram sua vida.
A nova vida do ser humano, decorrente da graça mediante a fé, não mais se caracteriza pelas tentativas de autosalvação, fuga ou falta de aceitação da existência, mas como um modo de ser perante o mundo, diante de Deus, e perante si mesmo. Trata-se de uma nova postura pessoal perante as situações que atualiza o conceito paulino-luterano que diz que “somos justificados apenas pela graça, uma vez que, na relação com Deus, somos sempre dependentes dele, e jamais de nós mesmos, somos tomados pela graça”. [3]
A nova realidade de vida nos desafia, ao mesmo tempo em que nos capacita, para fazer aquilo que, na teologia dos reformadores, era entendido como viver a graça divina, apesar das disposições em contrário. Nesse estado, o ser humano vive após ser tomado pela presença da graça. A graça divina permite ao ser humano afirmar-se a despeito das negatividades da existência. Ela não é uma produção humana, não podendo ser obtida através de tentativas de auto-salvação que intentam afastar o medo, a ansiedade, a culpa, a falta de sentido, ou a morte. Nenhuns desses itens, que são em si sinais do pecado dentro da existência, podem ser vencidos de modo absoluto por um ser finito. Somente na unidade da finitude com Deus é que o ser humano pode permanecer na existência sem ser destruído por ela. Isso ocorre porque só Deus afirma seu ser sobre a finitude da existência e a conquista permanentemente. As limitações da existência não são ameaças para Deus. A graça divina, por sua vez, permite ao ser humano fazer parte da vida eterna ou vida divina. Essa unidade com Deus não deve ser confundida com fusão ou dissolução da pessoa dentro do ser divino. O ser humano tem comunhão com Deus, contudo mantém sua individualidade (sem a qual não seria possível haver essa relação). O importante é que, em contato com Deus, o ser humano pode expressar de forma saudável seu modo de ser.
A consciência de se saber aceito por Deus, faz com que a pessoa não se sinta abandonada às condições existenciais porque, apesar de todas as ambigüidades que caracterizam a vida, há algo que transcende, e ao mesmo tempo autoriza, o indivíduo a interagir de forma saudável com seu mundo. Tentaremos, agora, traçar um pequeno esboço, ainda que teórico, sobre como a vida na graça pode ser vislumbrada a partir de um ponto de vista teológico.
Enquanto que o poder do pecado esfacela o ser da pessoa e, através dele, a finitude se torna algo trágico para a vida, na graça ocorre a resignificação dos conteúdos da vida. Sendo assim, viver a graça de Deus é, em si, um estado no qual a pessoa também é salva das contradições da vida e dela mesma, ao mesmo tempo em que sua teia de relações é restaurada de forma a lhe permitir se afirmar na existência de maneira sadia.
Viver a graça de Deus implica em afirmar a positividade da vida com todas as suas ambigüidades, contradições, e limitações. Em sua existência, o que tem de ser afirmado pelo ser humano, em primeiro lugar, é o próprio Deus. A pessoa deve afirmar também a si mesma e ao mundo com o qual interage. A afirmação de Deus, de certa forma, é caracterizada pela aceitação humana da aceitação divina. A graça divina, por seu turno, produz toda uma série de coisas que permitem entender essa transformação como restauração da pessoa. Explorando os efeitos da graça divina, podemos ver que ela traz resultados terapêuticos para o ser humano.
A fé é vista na reaproximação do ser humano com Deus. Viver a graça é o indício dessa nova comunhão entre o divino e o humano. De maneira inspiradora, Leonardo Boff diz que “a graça fala da reconciliação do céu e da terra, de Deus e do Homem, do tempo com a eternidade”. [4] A aceitação incondicional de Deus produz, no ser humano, a coragem para aceitar sua humanidade. Isso, em si, já é uma cura das feridas causadas pelo pecado. Há um cessar da guerra que o ser humano move contra si baseado no confronto entre seu ser essencial e o existencial.
Lembremos, porém, que a vida na graça, não pode ser confundida com aquilo que Paul Tillich chamou de “justificação da própria individualidade acidental” o que resultaria na conformidade com o estado de pecado. A justificação pela graça deve ser vista como a afirmação de que o ser que é aceito incondicionalmente por Deus é, na verdade, inaceitável. Nessa declaração se encontra a grandeza do ser humano e sua dependência do divino.
A superação do pecado, verificada no interior da personalidade como resultado da graça divina, tende por sua vez a se objetivar na realidade. A graça que transforma a pessoa também a leva a querer transformar tudo o que está a sua volta. Esse é o ponto em que o ser humano pode ter uma nova visão de seu mundo. Dito de outra maneira, a reconciliação do ser humano com seu mundo se dá pelas obras da graça, ou, em linguagem wesleyana, temos a graça que nos assiste em nossa caminhada de santificação. Deus aceita não somente o ser humano mas toda a criação finita. Isso quer dizer que todos os seres também são objetos do divino amor reconciliador. Deus, o criador e sustentador, é o vinculo de todas as coisas que estão por si separadas Dele e umas das outras.
Em decorrência, amar a Deus implica em amar toda a sua criação. O amor que nasce da fé não deve ser visto como mero sentimento, mas como uma atitude [5] que o ser humano reconciliado tem perante a vida. A atitude é direcionada para mudar a realidade que o ser humano tem à sua volta.
A realidade é transformada pelo ser humano através do amor que ele passa a ter a cada elemento da existência. Amor aos outros seres humanos e amor à vida que nos é dada. O amor aos demais seres humanos é uma conseqüência direta da justificação pela graça mediante a fé. “Assim como nós nos sentimos aceitos apesar de nossas culpas e de nossa alienação existencial, assim também o Espírito exige que aceitemos aos demais, já que neles se dá também a razão para serem aceitos: Deus neles”. [6] O amor às demais pessoas tem um caráter inclusivo, pessoal, e promotor do indivíduo. É inclusivo porque a graça divina é inclusiva. Não admite discriminações ou depreciações de qualquer tipo. Ontologicamente, todos são iguais tanto em sua tragédia existencial, como em seu estado de reconciliação com Deus, o que acarreta numa solidariedade humana tanto na dor da alienação como na alegria da fé. Cabe a cada pessoa amar a outra como pessoa, procurar vencer todas as formas de separação que se constroem no mundo, e lutar pelo seu desenvolvimento.
Nessa atitude amorosa para com os demais desabrocha a justiça que iguala todos os seres perante Deus e que, ao mesmo tempo, proclama sua dignidade. Por isso, o amor à outra pessoa adquire uma dimensão de serviço ao próximo. A justiça do amor consiste na valorização da humanidade da cada pessoa, na busca da plenificação dessa humanidade, e que por isso mesmo torna inadmissível a transformação da pessoa em mero objeto de exploração O amor não coisifica o outro, mas batalha pela sua dignidade humana. O amor não permite a transformação do outro em instrumento para servir a interesses egoístas. O inverso, sim, é exigido, a saber, a promoção das pessoas, que devido às estruturas sociais pecaminosas, tornaram-se ou foram transformadas em meros objetos.
Uma última pista que gostaríamos de compartilhar, refere-se ao nosso modo de olhar para a vida sob a ótica da graça. Também a vida é boa visto que, mesmo em meio às suas contradições, ela é penetrada pela divina presença que une e vivifica todos os seres. Da aceitação do ser humano por Deus surge uma nova forma de relação do ser humano com a vida. O cristianismo, muitas vezes, prestou um desserviço à Missão ao cobrar das pessoas uma opção por Deus que se traduzia em rejeição ao mundo, à cultura, e à vida. Quando se faz isso, se esquece que a vida e os reinos culturais também recebem seu ser de Deus. A não aceitação da vida implica em rejeição de grande parcela da existência já que tudo que existe, existe graças a Deus. Rejeição apriorística da vida implica em determinar como sendo mal aquilo que, em si, foi reconciliado com Deus e que, por isso mesmo, está livre das estruturas do mal.
Isso, de forma alguma, significa a suspensão das características da existência, numa espécie de elevação da vida presente a um patamar paradisíaco. A vida continua com suas ambigüidades. Elementos como finitude, limitações do espaço e tempo, morte e erro continuam fazendo parte da existência humana, só que agora eles ganham novos sentidos pela graça. A pessoa que vive a graça de Deus experimenta as condições da existência sob uma nova ótica que brota de sua reconciliação com Deus. A vida não é tragada pela eternidade, mas a eternidade é antecipada em cada minuto da vida. Graças a Deus!
| [1] | FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986, p. 88-89. |
| [2] | Cf. TIILICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: Aste, s/d, p. 216. |
| [3] | TILLICH, Paul. A era protestante. São Bernardo do Campo: IEPG–UMESP, 1992, p. 22. |
| [4] | BOFF, Leonardo. A graça libertadora no mundo. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 15. |
| [5] | Cf. FROMM, Erich. A arte de amar. Belo Horizonte: Itatiaia, 1995, pp. 32-33. |
| [6] | SANZ, Alfonso Garrido. La iglesia en el pensamiento de Paul Tillich. Salamanca, Sigueme, 1979, p. 207. |